quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Supremo em chamas- Luís Francisco Carvalho Filho -FSP

 Ao tornar público o relatório elaborado pela Polícia Federal sobre as relações impróprias de Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, o ministro André Mendonça lança uma granada de mão no plenário do STF.


Estamos diante de um jogo político de final imprevisível. Além de ajudar a destruir a reputação do magistrado que julgou e prendeu o golpista Jair Bolsonaro (seu chefe, de quem foi ministro da Justiça, arbitrário e submisso), os estilhaços da granada de André Mendonça também acertam o procurador-geral da República Paulo Gonet, promovendo uma espécie de desagravo silencioso à memória do sumido e melancólico Augusto Aras, que tanto envergonhou a instituição.

Não há inocentes úteis ou inúteis no enredo que se apresenta ao país.

Homem calvo veste terno preto, camisa branca e gravata rosa, sentado em cadeira de couro marrom em ambiente institucional. Outras pessoas aparecem desfocadas ao redor.
O ministro Alexandre de Moraes na sessão de reabertura dos trabalhos do judiciário no STF - Pedro Ladeira/3.ago.26/Folhapress

Paulo Gonet, que rapidamente proferiu um parecer pela nulidade da investigação contra Alexandre de Moraes, é a mesma autoridade que comemorou o convite para a viagem a Londres por conta de charutos e doses do puro malte escocês que o banqueiro gentil e corrupto patrocinava.

Detalhe importante, as investigações de André Mendonça não alcançam a figura de Dias Toffoli, o outro ministro do STF enredado nas teias ardilosas de Vorcaro: Toffoli, como se sabe, apesar de ter sido nomeado por Lula, é amigo do peito do chefe de Mendonça, o golpista Bolsonaro.

Estilhaços da explosão também atingem o presidente Edson Fachin, por enquanto incapaz de cobrar de seus colegas um mísero código de ética (até o PCC tem o seu), que vê, imobilizado, crescer a corrosão moral do Supremo.

O STF se tornou um monstrengo institucional quando perdeu o caráter de colegiado e se constituiu num organismo esdrúxulo, formado por onze gabinetes isolados, cada um com sua própria pauta de interesses políticos, negociais e administrativos.

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A granada de André Mendonça revela, por outro lado, o esfacelamento da outrora vigorosa Polícia Federal. Não apenas porque o diretor-geral também passeou às custas de Vorcaro.

A impressão que se tem é que os gabinetes de Alexandre de Moraes e de André Mendonça (os dois comandaram a PF depois do impeachment de Dilma Rousseff) adotaram a estratégia de recrutar dois bandos de policiais de estrita confiança para o exercício de uma magistratura bem pouco republicana e transparente, especializados em vazamento de informações estratégicas.

A PF, que já se notabilizou pelo profissionalismo, precisa de mais uma reforma institucional.

Não se trata de uma disputa pela moralidade ou outros princípios constitucionais. Não haverá renúncia nem impeachment. Mendonça protege Flavio e associa Moraes a Lula. Por trás do conflito está a eleição presidencial e, por tabela, a sobrevivência política dos próprios ministros.

Triste Brasil, "ó quão dessemelhante", diria o poeta barroco Gregório de Mattos: "tanto negócio e tanto negociante".

O fator Augusto Cury, elio Gaspari, FSP

A surpresa despontou durante o debate da Band, na noite de 23 de agosto: o médico e escritor Augusto Cury era o campeão de buscas na internet. Augusto de quê? Passou-se uma semana e a surpresa encorpou. As pesquisas BTG/Nexus e AtlasIntel/Bloomberg colocaram-no à frente de todos os aspirantes à terceira via. Cury saiu do nada e conseguiu 8% na do BTG e 7,8% na do AtlasIntel. É uma mixaria, já que Lula tem 37% e Flávio Bolsonaro tem 30%. Na pesquisa estimulada, quando o entrevistado recebe um cartão com os nomes dos candidatos, marcou 11%, contra 2% da pesquisa anterior. Continua sendo uma mixaria. Não é mixaria o fato de ele ter pulado de 8,3 milhões de seguidores para 10,5 milhões em menos de uma semana, um dos maiores incrementos do mundo.

Com 35 segundos no horário gratuito de TV ele seria um projeto de Enéas nas campanhas de 1989, 1994 e 1998. Ele só podia dizer que "meu nome é Enéas". Passados mais de 30 anos, as campanhas têm outra química e fica uma pergunta: para onde irão esses votos num segundo turno? O sonho de Ronaldo Caiado e Romeu Zema era chegar a setembro com dois dígitos nas pesquisas. Até agora, não deu.

Cury não se apresenta como portador de uma bala de prata. Ele é um reflexo de um eleitorado que não sabe precisamente o que quer, mas identifica o que não quer: PT e Bolsonaro.

Homem de meia-idade com óculos e blazer azul segura um pastel com guardanapo em uma mão e um pedaço do recheio na outra, sentado em mesa de lanchonete. Ao fundo, outras pessoas estão em pé e sentadas, algumas comendo, em ambiente interno iluminado.
Augusto Cury (Avante) durante encontro na sede do Sebrae em Curitiba - Equipe Campanha Augusto Cury

Restando Lula e Flávio, o candidato com maior possibilidade de mudança pode ser Lula. Não só porque ele já se definiu como uma "metamorfose ambulante" e em 2002 assinou e cumpriu a Carta aos Brasileiros. Falta-lhe a humildade de há um quarto de século, mas essa é outra história.

Lula e Flávio decidiram não ir ao debate da Band porque a sabedoria convencional ensinava que virariam vidraça para os outros candidatos. Virariam, mas o resultado foi o aparecimento de Augusto Cury, com quem deverão aprender a lidar —não para destruí-lo, mas para atrair seus eleitores. Vale lembrar que no Índice de Popularidade da Quest, no qual Cury dobrou seu capital, Lula e Flávio tiveram quedas.

Historicamente, o PT tem dificuldade para lidar com redes sociais. Até hoje essa dificuldade incomodava, e só. Cury mudou essa escrita. Em menos de uma semana ele incorporou 2,1 milhões de seguidores nas redes sociais. Há murmúrios de que esse aumento viria da entrada de robôs no jogo. A equipe de Flávio diz que localizou máquinas indianas. Prova? Nem um fiapo.

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Lula lidera em todas as pesquisas, mas não se deve perder de vista que há uma dissonância em seu favoritismo. Ele lidera as pesquisas e seu governo é mal avaliado. Pode-se desprezar essa má notícia, mas ela indica que um pedaço do fio está desencapado.

De certo modo, uma campanha que parecia tomada pela monotonia, com dois candidatos numa disputa apertada, acordou. Lula e Flávio precisam, às pressas, aprender a ouvir a turma do Cury. Até na divulgação das pesquisas eles ficavam numa espécie de vala comum dos "indecisos". Agora ficou claro o que boa parte dos indecisos quer.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Moraes tem de sair do Supremo - editorial Estadão

 Notícia de presente

Alexandre de Moraes não tem mais condições de seguir como ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e deveria pedir exoneração do cargo, para o bem da própria Corte. As revelações feitas pelo Estadão de que Moraes ajudou a elaborar o contrato milionário entre o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, desmentem categoricamente que o ministro fosse alheio ao acerto e a todas as suas implicações éticas e legais.

Para começar, participar da elaboração de um contrato é exercício de advocacia, atividade incompatível com a magistratura. Mas as mensagens do celular de Vorcaro tornadas públicas hoje pintam um quadro muito mais grave. O banqueiro, pivô do maior escândalo da história do sistema financeiro nacional, tratava Moraes como alguém a quem podia recorrer para influir no curso de investigações. “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”, perguntou, em referência ao procurador-geral Paulo Gonet e ao diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues. Em outra mensagem: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.

Não se sabe o que Moraes respondeu. Pouco importa, porque já não se pode negar o que está diante dos olhos: um investigado por fraudes bilionárias buscava num ministro informação, orientação e intervenção sobre atos da PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR), enquanto seu banco pagava somas exorbitantes ao escritório de sua família – contrato que tem as digitais do próprio Moraes.

Há perguntas que só uma investigação responderá. Moraes procurou Gonet? Falou com Andrei? Tentou retardar diligências? Transmitiu informações sigilosas? Dependendo das respostas, podem estar em jogo ilícitos de imensa gravidade, como prevaricação, advocacia administrativa, obstrução de justiça e corrupção passiva. Gonet não pode continuar tratando esse material como “insuficiente”, como já o fez no passado, sem cair ele mesmo em suspeição.

Gonet arquivou anteriormente uma representação contra o ministro. Agora surgiram evidências novas, e uma delas envolve o procurador-geral nominalmente: Vorcaro pedia a Moraes que recorresse ao próprio Gonet para conter a investigação. André Mendonça já cobrou esclarecimentos da PGR e avalia os próximos passos. Se isso ainda não basta para abrir uma investigação formal e independente, é difícil saber o que bastaria.

Investigar, porém, resolve apenas parte da crise. As suspeitas recaem justamente sobre o uso do poder que Moraes continua exercendo. O homem que lhe pedia ajuda para alcançar o chefe da PF e o procurador-geral era o dono do banco que despejava dezenas de milhões de reais no escritório de sua mulher. O ministro participou pessoalmente do contrato e agora pode ter de ser investigado pelas mesmas instituições sobre as quais Vorcaro esperava que ele exercesse influência. Essa situação é incompatível com a normalidade institucional.

Moraes tem direito à presunção de inocência, ao devido processo e a todas as garantias legais que tantas vezes negou a outros, mas essas garantias não obrigam o Supremo a carregar, por tempo indefinido, o peso de um ministro cuja permanência compromete a autoridade da própria Corte.

O STF já errou demais no caso Master. Dias Toffoli, que também mantinha negócios com Vorcaro, só deixou a relatoria do caso depois que sua posição se tornou insustentável. Agora a crise atinge Moraes em outro patamar – o mesmo ministro que tantas vezes invocou a defesa do STF e do Estado Democrático de Direito para justificar o exercício de seus poderes. Chegou a hora de demonstrar que seu compromisso com as instituições vale também quando o sacrifício é seu.

Moraes tem de deixar o Supremo. Sua responsabilidade criminal será apurada, mas a responsabilidade institucional já se impõe. Se ele se recusar a retirar esse peso da Corte, sua permanência terá de ser enfrentada por quem a Constituição encarregou de julgar crimes de responsabilidade de ministros do STF: o Senado. Defender o Supremo, agora, significa impedir que a crise de um ministro se torne a crise da instituição.