segunda-feira, 1 de junho de 2026

Longevidade e queda de natalidade formam dança com tons macabros, Pondé - FSP

 Um dos grandes desafios contemporâneos é a longevidade como realidade histórica intransponível. No Brasil, o Estado empurra esse fato com a barriga, como tudo mais. O Estado brasileiro só lembra de você no circo da democracia —as eleições— ou para tirar o seu dinheiro.

Logo, alguém muito inteligente dirá que a longevidade é um problema de saúde pública ao qual se deve aplicar fórmulas epidemiológicas. Ao lado dela, e causada pelo mesmo fenômeno histórico-social conhecido como modernidade, a queda da natalidade —motivo até de um alerta atrasado e inútil da ONU— é o outro extremo da curva demográfica, descrevendo uma dança com tons macabros.

Título – A dança macabra  Ilustração de Ricardo Cammarota foi realizada em técnica de composição de recortes digitais. A imagem apresenta uma composição formada por diversas partes de esqueletos humanos recortadas e reorganizadas sobre pautas e notas musicais de uma partitura. O fundo é verde-claro e é atravessado por pautas musicais pretas com notas distribuídas por toda a superfície. Sobre elas, aparecem caixas torácicas, colunas vertebrais, pelves, braços, mãos, pernas e pés em tons de preto, branco e cinza. Os fragmentos ósseos estão dispostos em diferentes posições, orientações e escalas, ocupando quase toda a área da imagem e sobrepondo-se às linhas e símbolos musicais.
Ricardo Cammarota/Folhapress

Essa dança se refere ao encontro desses dois movimentos demográficos paralelos que, por serem consequência de processos sociais concretos, não devem desaparecer. Por um lado, há o avanço da medicina científica, gerando longevidade; do outro, o mundo da emancipação feminina gerando queda da natalidade. Em breve, as famílias serão mais atomizadas e reduzidas na rede de proteção dos seus integrantes.

Muitos idosos abandonados de um lado, jovens em extinção do outro. Daqui a pouco a população de idosos vivendo em situação de rua será gigantesca.

Recentemente, num bairro de alto padrão da cidade de São Paulo, houve uma batalha inimaginável até tempos atrás. Uma associação de moradores iniciou um movimento, com vitórias iniciais, para expulsão de casas de repouso de longa duração para idosos da região, sob vários argumentos que soam bastante desumanos. Essas casas estariam fora do espectro permitido para bairros residenciais. O assunto deve ser resolvido —se assim o for— pela prefeitura, seus alvarás de funcionamento e os advogados do segmento.

Dizer que o aumento da longevidade é uma realidade histórica intransponível é dizer que a longevidade é algo que, em termos históricos, tem a consistência da lei da gravidade. Não há como contornar esse fenômeno. Só há como cuidar dele, criando melhores condições de vida em saúde —seguros saúde para idosos são impagáveis, o destino é o SUS—, cuidado psicológico e social. Falar é fácil, realizar são outros quinhentos.

As famílias seriam a instituição na primeira linha de combate. O estatuto do idoso exige, legalmente, o investimento das famílias na solução do fenômeno, com ameaça de criminalização dos entes familiares que não empenharem esforços no cuidado, criação de condições de vida digna e garantias do cotidiano do idoso.

Mas, como sempre, a lei no Brasil funciona no sentido de pressionar o cidadão para que ele, o Estado, lave as mãos e siga seu caminho que é continuar espremendo a sociedade para que ela sustente os luxos de seus dignatários. Trocando em miúdos, a ideia é não gastar dinheiro público com os idosos e usá-lo apenas com viagens, eventos, jantares, emendas e afins.

O fato sociológico intransponível é que essa família quase não existe mais. Não há lugar nem dinheiro para as famílias atomizadas cuidarem dos seus idosos, o que não implica que eles não o mereçam. As mulheres que sempre arcaram, na maioria dos casos, com a lida cotidiana dos idosos, estão em outra. Como filhas da modernização, elas querem liberdade, carreiras, estudos, viagens, enfim, querem ser felizes. E quem em sã consciência pode lhes tirar a razão? Não há lugar para os idosos, e, cada vez menos, para crianças.

Políticas públicas quase não saem do blábláblá, perecendo mesmo, às vezes, que a única política pública de fato é esperar —já que são idosos, que morram logo.

O resultado, como sempre, é que o mercado vem acudir essas famílias com um exército de cuidadoras, que muitas vezes se transforma em contencioso trabalhista. Ou, ainda, empresas oferecem a essas famílias serviços terceirizados —muitas vezes, como forma de proteção dessas mesmas famílias dos conflitos trabalhistas—, e casas de repouso de longa duração —essas mesmas que muita gente quer expulsar do seu bairro, em nome do valor imobiliário das suas residências; do cenário de ambulâncias e carros funerários na região; e dos gemidos e choros dos idosos, buscando empurrar essas instituições para a periferia da cidade. Enfim, aos indesejáveis, a periferia.

A verdade é que esses serviços que o mercado oferece são caríssimos, normalmente acima das condições financeiras das famílias atomizadas. Portanto, a exploração se instala. Não há rota de escape nem para as famílias, nem para os idosos. Como sempre na selva disfarçada de país que é o Brasil, as hienas se instalam e gargalham, num constante salve-se quem puder.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Robotize-se e comprove que não é um robô- Mário Sergio Conti - FSP

 O celular vibra no criado-mudo às 6h50. Durante a noite, quatro corporações, dois serviços de entrega, uma rede de farmácias, seus chefes e o gerente virtual do banco queriam saber se está a postos para participar da sociedade.

Digite sua senha.

Não use sua data de nascimento, o nome de sua bisavó materna nem o CPF. Ela deve ter entre uma dúzia e 20 caracteres não repetidos, pelo menos cinco escalafobéticos, duas maiúsculas e três números primos. Eis você, cidadão exemplar: mwºers9kiTzh§7Ulj#3+

Aceite todos os cookies.

A submissão ao incompreensível é a primeira genuflexão na liturgia da conformidade. O usuário exausto tecla o que o computador manda para fazer a janela sumir da tela. A concordância cega solapa a possibilidade de ver a verdade: não fazemos, somos feitos.

Clique em continuar para prosseguir.

A tautologia é a língua franca da administração algorítmica da vida. Prosseguir para continuar, continuar para prosseguir. Anda-se muito e não se vai a lugar nenhum. A aparência de ação fundamenta a essência falsa.

De azul com estrelas brancas, uma pessoa de costas entrando dentro da tela de um celular gigante. O celular está sobre uma mesa marrom e ao fundo um grande sol amarelo.
Bruna Barros/Folhapress

Se preferir, envie uma foto do rosto para sua validação biométrica.

"A liberdade não é escolher entre preto e branco, mas abominar esse tipo de escolha". O aforisma de Theodor Adorno está em "Minima Moralia", reflexões acerca da vida lesada do capitalismo industrial. Ele prescinde da coerção ostensiva, organiza a servidão por meio de microhábitos imperceptíveis que, somados, definem uma ordem.

Diga quantos ônibus aparecem nas imagens e comprove que não é um robô.

Não se pergunte aonde vão os ônibus, quem os espera no ponto, se alguém cochila dentro deles. A realidade é um captcha sem sentido. Robotize-se e comprove que não é um robô.

Não use Caps Lock. Evite responder a todos. Seja claro.

Quem demora a responder é desorganizado, desinteressado, pouco profissional. A etiqueta, que estruturava a civilidade, foi absorvida pela lógica do desempenho eficaz. Da padronização das mercadorias passou-se à dos comportamentos, cancelando a espontaneidade. Você vale pelo que entrega, e tem de entregar rápido.

Sua opinião é importante para nós.

O excesso de comunicação impede a comunicação. A polidez da linguagem corporativa gere conflitos em potencial. O simulacro de diálogo substitui a relação humana. A branda brutalização digital fomenta vidas sem substância nem autonomia. O brasileiro é incapaz de dizer uma mentira sem acreditar nela.

Acesse nosso podcast.

Para fruir o canto mavioso e letal das sereias, Ulisses tapou os ouvidos dos marinheiros com cera, ordenou que o amarrassem ao mastro e ordenou que remassem. O proprietário do barco escutou a música magnífica à custa da mutilação da escuta dos empregados. Ao patrão, a arte; ao trabalhador, o remo.

Hoje, Ulisses não precisaria mandar nada. É por livre e espontânea vontade que você bota fones de ouvido e deleta os gritos ao redor enquanto corre por aí. A representação abstrata da injustiça universal (o sistema) oculta seu responsável concreto (o burguês).

Mulher com fantasia de sereia, incluindo cauda colorida e top branco, nada em ambiente subaquático com bolhas ao redor. Fundo azul simula cenário marinho.
A sereia do Aquário de São Paulo - Rafaela Araújo - 15.ago.25/Folhapress

Entre sem bater.

Quando Adorno escreveu seus aforismos, no mundo analógico do pós-Guerra, as portas dos carros tinham de ser batidas com força. Por isso, disse: "Nos gestos que as máquinas exigem de quem as usa já medra o violento, o brutal, o contumaz atropelo dos maus-tratos fascistas". O avanço tecnológico fez com que as portas agora se fechem com maciez. O mesmo progresso produz motores elétricos tão possantes e silenciosos que, ao sentir sua macia pulsação, o motorista do bólido blindado é tentado a passar por cima da escumalha de pedestres e ciclistas que atravanca as ruas.

Mande uma selfie.

O antigo "star system" dependia da distância entre divas e fãs. No atual, a intimidade é alardeada. Políticos transmitem seu café da manhã. Colunistas exibem ansiedades domésticas. Viajar sem postar fotos é impensável, porque a estrutura do lazer é a mesma do trabalho. O Brasil se preparou durante séculos para produzir e consumir Sabrina Sato.

Respeitamos sua privacidade.

À luz de velas, ela checa no celular memes e anúncios disfarçados de notícia —ou vice-versa— enquanto ele olha de soslaio vídeos pornográficos. Para não quebrar o clima romântico, o garçom envia o cardápio pelo WhatsApp.

Como posso ajudá-lo?

Com variantes, essa é a pergunta padrão do ChatGPT, do Gemini e do Claude. Ao se pedir à inteligência artificial uma apreciação da tecnovida à maneira de Adorno, o pastiche resultante seria esta coluna.

A autoria individual é irrelevante quando a indústria cultural vulgariza, seu método de praxe para diluir críticas.