quinta-feira, 12 de março de 2026

Choque no petróleo é positivo ou negativo para economia do Brasil?, Braulio Borges, FSP

 O agravamento das tensões no Oriente Médio gerou, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a maior disrupção da história na oferta de energia (petróleo bruto, derivados e gás natural). O fechamento do estreito de Hormuz, por onde transitam 20 milhões de barris por dia de hidrocarbonetos (20% da demanda global), é o principal responsável por isso.

Mas há fatores que preocupam ainda mais, por terem consequências mais duradouras. A guerra está destruindo várias infraestruturas de produção e transporte naquela região, que podem levar bastante tempo para serem recuperadas. E quanto mais tempo durar o conflito maiores serão os potenciais prejuízos causados a toda essa infraestrutura.

Refletindo isso, observou-se uma alta expressiva da cotação do preço do petróleo, de cerca de US$ 70 no final de fevereiro para algo em torno de US$ 100/barril nos últimos dias, considerando o tipo Brent. E a elevação percentual nos preços dos derivados, sobretudo o diesel e o gás natural liquefeito (GNL), tem sido ainda maior, justamente pelo fato de a região onde ocorre o conflito concentrar parte relevante da extração e do refino mundial.

Como isso impacta a economia brasileira? É difícil apontar se o saldo líquido é favorável ou desfavorável, em termos agregados. Por um lado, o impacto tende a ser claramente negativo: os preços dos combustíveis deverão sofrer reajuste expressivo em breve, uma vez que a defasagem ante a cotação internacional é elevada e a Petrobras, principal player nesse mercado, não tem capacidade de suportar esse descompasso por muito tempo. Como o Brasil ainda tem uma dependência muito elevada do modal rodoviário (cerca de 60%), os efeitos indiretos desse reajuste serão sentidos em praticamente todos os demais bens e serviços, o que pode levar a uma taxa Selic mais elevada.

Ademais, preços de derivados no mercado interno muito abaixo dos internacionais inviabilizam a importação —e o Brasil tem uma elevada dependência de diesel importado, comprando lá fora quase 30% do diesel consumido internamente. Portanto, caso a Petrobras não reajuste os preços, aproximando-os das referências internacionais, corre-se o risco de déficit de suprimento —o que pode ser ainda pior do que uma elevação dos preços.

Por outro lado, ao longo dos últimos dez anos ocorreu uma transformação muito expressiva: o Brasil, que historicamente foi importador líquido de energia (petróleo bruto, derivados e eletricidade de Itaipu, referente à parcela paraguaia), se tornou um grande exportador líquido, basicamente por conta do desenvolvimento da exploração de petróleo e gás natural no pré-sal. Em 2025, o Brasil produziu cerca de 4,9 milhões de barris por dia de petróleo e gás natural, ao passo que o consumo aparente doméstico foi de 2,4 milhões (49% da produção).

O saldo comercial em petróleo e derivados foi superavitário em quase US$ 30 bilhões no ano passado (em 2014 tivemos um déficit de US$ 17 bilhões). Embora tenhamos um superávit, boa parte dele está associado ao petróleo bruto, uma vez que a capacidade de refino brasileira, sobretudo para produzir diesel, é insuficiente para atender a demanda doméstica (algo que vem sendo amenizado pelo aumento da incorporação do biodiesel e pelo uso de biometano).

Assim, uma alta dos preços do petróleo pode ter impacto positivo sobre o PIB brasileiro via comércio exterior, além de gerar uma melhora dos resultados fiscais brasileiros (em 2022 houve um acréscimo de 0,6% do PIB das receitas fiscais refletindo apenas o efeito direto do repique observado naquele ano).

É nesse contexto que é difícil apontar qual o impacto líquido desse choque. Provavelmente ele tende a ser favorável em termos agregados (mais PIB, resultado fiscal melhor), mas bastante desfavorável para boa parte da população.

E o que querem os iranianos?, Rodrigo Tavares -FSP

 Dezenas, centenas, milhares de notícias sobre o Irã e pouco se sabe sobre os iranianos. Entre vivas e vaias, o debate público tende a ficar prisioneiro da geopolítica da guerra, das sanções econômicas e da natureza repressiva do regime islâmico. Sobre os iranianos, resta-nos imaginá-los por dentro, as mulheres sob o véu negro do chador e os homens como personagens de Asghar Farhadi, cativos da honra patriarcal, da estratificação social e das lealdades familiares.

É uma leitura sociologicamente incompleta. O Irã é uma sociedade cujos níveis de desenvolvimento humano e de educação contradizem a imagem de medievalismo que tantas vezes lhe é atribuída. Segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano 2025 do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o Irã integra a categoria "desenvolvimento humano elevado", com pontuação acima do Brasil, ou seja, é um país com bases sociais e educacionais relativamente sólidas. Em dezenas de outros indicadores socioeconômicos, como expectativa de vida à nascença ou anos médios de escolaridade da população adulta, o Irã está na dianteira do Brasil.

Ao contrário da imagem internacional, o regime iraniano não governa uma massa compacta de fanáticos religiosos ou uma sociedade etnicamente fragmentada ou mirrada; governa uma sociedade antiga relativamente instruída e urbanizada, com expectativas sociais suficientemente elevadas para produzir uma cidadania politicamente exigente, mesmo quando sua ordem política permanece inquisitorial. A história milenar da civilização persa pode ser testemunhada com uma visita a Persépolis ou à praça Naqsh-e Jahan, em Isfahan.

Iranianos carregam caixão de vítima dos ataques de Israel e EUA em Teerã
Iranianos carregam caixão de vítima dos ataques de Israel e EUA em Teerã - Atta Kenare - 9.mar.26/AFP

Essa dualidade entre modernização social e clausura política, entre a liberdade doméstica e a vigilância no espaço público, entre o tradicionalismo secular ("sonnati") da maioria e o islamismo ideológico de uma minoria, e entre um dinamismo econômico que coabita com um regime autoritário, é uma das chaves para compreender o país. Como um pêndulo, é o país de Maryam Mirzakhani, formada pela Universidade Tecnológica de Sharif, em Teerã, e primeira mulher a receber a Medalha Fields, muitas vezes descrita como o Nobel da Matemática, mas também o de Shirin Ebadi e Narges Mohammadi, duas laureadas com o Nobel da Paz perseguidas ou torturadas pelo regime dos aiatolás.

Em 1979, esta população instruída derrubou a monarquia repressiva do xá Mohammad Reza Pahlavi. Foi uma mobilização muito ampla, que juntou setores islâmicos, mas também liberais, nacionalistas, estudantes, sindicalistas, comerciantes dos bazares e parte da esquerda, todos unidos contra um regime visto como autoritário, corrupto e excessivamente dependente do Ocidente, em especial dos EUA. Em sua gênese, nunca foi uma revolução apenas religiosa.

Voltemos a 2026. O ataque dos EUA e de Israel ao Irã parece carecer, até agora, de uma estratégia política clara, de uma justificativa sólida à luz do direito internacional e de um objetivo final bem definido. Como escrevi aqui, na Folhao colapso da ordem internacional do pós-Guerra ainda não deu origem a uma alternativa que a substitua, abrindo assim espaço a um uso cada vez mais anárquico, difuso e desregulado da violência. Se a invasão norte-americana do Iraque, em 2003, desencadeou um clamor público global contra a sua precariedade legal, o ataque da mesma potência ao Irã, em 2026, também amplamente denunciado como ilegal, suscitou, no máximo, um resignado encolher de ombros.

Atualmente, no Irã, dois sentimentos coexistem sem contradição. A crítica ao regime não se converte, de forma automática, em apoio à ofensiva estrangeira. Pelo contrário. Em janeiro deste ano havia, pela primeira vez em muito tempo, a sensação de que poderia estar começando um verdadeiro processo de transformação democrática no interior da própria sociedade.

O ataque israelo-americano interrompeu esse movimento. Há um mês, havia gente na rua quase todos os dias, gritando palavras de ordem contra o governo, enquanto hoje, essas mesmas pessoas desapareceram do espaço público e voltaram para casa. Quando um país está sob ataque de potências estrangeiras e as pessoas sentem que suas vidas estão em perigo, o instinto de sobrevivência sobrepõe-se ao desejo de liberdade, principalmente em sociedades com um forte sentido de patriotismo, como a iraniana.

Quando forças estrangeiras destroem indiscriminadamente a infraestrutura civil de um país agravando a vida de mais de 90 milhões de pessoas que já vivem há décadas sob sanções, pobreza e enormes dificuldades econômicas, a reação natural dessa população dificilmente será apoiar os agressores. Escolas, hospitais, aeroportos, residências e monumentos históricos estão sendo destruídos no Irã. Na última semana, a inflação atingiu níveis catastróficos, paralisando a vida econômica.

Deixar um país em ruínas não é um incentivo para que ele se torne democrático. A ofensiva americana não transpira racionalidade, pelo contrário. Pode ser um mero reflexo da personalidade psicologicamente adoecida do presidente dos EUA, marcada por trauma infantil, ressentimento e narcisismo. É como se a destruição do outro e sua humilhação servissem de prótese moral a um ego ferido. Seu vazio interior se enche de pólvora.

A ofensiva militar nem sequer está ancorada no apoio aos setores iranianos mais hostis ao islamismo político ou está casada com uma estratégia crível de estabilização e transição para o pós-guerra. Por isso, é provável que a guerra provoque lutas civis de sobrevivência, o reforço do próprio regime islâmico, ou pelo menos o fortalecimento da Guarda Revolucionária iraniana.

Não há, neste momento, no Irã, nenhum movimento popular de larga escala de apoio a uma alternativa de poder. O país não tem um Władysław Sikorski, que liderou o governo polonês no exílio durante a Segunda Guerra Mundial. Não tem uma Aliança do Norte, que no Afeganistão encarnou a alternativa ao Talibã após a invasão americana de 2001. Não tem um Charles de Gaulle, o rosto da França Livre. O filho do antigo Xá, vivendo nos EUA desde os 17 anos (tem 65), dificilmente vai conseguir ser carregado nos ombros pela população.

Ou seja, para os iranianos, o pós-guerra pode ser tão castrador quanto o pré-guerra. Encurralados entre a repressão política e uma guerra, voltam a ser anulados como sujeitos históricos e políticos. Alguém lhes perguntou o que querem? No dia 20, começam as celebrações do Nowruz, o ano novo iraniano, celebrado há 3.000 anos. Em persa, "Nowruz" significa "novo dia", simbolizando o recomeço. Talvez seja esse o desejo da maioria.