quinta-feira, 9 de março de 2023

BRIGITTE COLLET - Empoderar a nova geração, FSP

 Brigitte Collet

Embaixadora da França no Brasil

"A revolução começa aqui, em mim."

Dia Internacional de Luta pelos Direitos das Mulheres —é assim que o 8 de março é conhecido na França— é uma oportunidade para refletirmos juntos sobre mecanismos para melhorar a situação das mulheres. E uma ocasião também para a França reafirmar os compromissos da sua diplomacia feminista, que se baseia na promoção da igualdade entre homens e mulheres e na prevenção de todas as formas de discriminação contra as mulheres.

Uma constatação tanto na França como no Brasil nos chama atenção: enquanto as meninas têm resultados escolares equivalentes —ou até superiores— aos dos meninos, a continuidade dos estudos é frequentemente menos ambiciosa, e algumas carreiras permanecem muito masculinas (no Brasil, apenas 20% dos engenheiros são mulheres; na França, 28%). É preciso combater as desigualdades pela base e acompanhar desde o início as jovens estudantes em seus projetos de orientação profissional.

A embaixadora da França no Brasil, Brigitte Collet - Clauber Cleber Caetano/PR

programa educativo ImpactMeninas nasceu dessa constatação: foi criado para destravar preconceitos de carreiras e mostrar que novos caminhos profissionais são possíveis.

A frase que abre este artigo é da Eduarda, uma das alunas do Rio de Janeiro (RJ) que participaram do projeto-piloto, em 2021. "A experiência foi inspiradora e, com certeza, aprendi muito sobre mim. Com cada ensinamento, pude expandir minha visão sobre o mundo e sobre o impacto que eu posso causar nele. Afinal, posso qualquer coisa, exceto me limitar. A revolução começa aqui, em mim, e desistir não é uma opção", disse a jovem, então com 15 anos.

Realizado pela Embaixada da França em parceria com a Câmara de Comércio Franco-Brasileira e com as três escolas francesas no Brasil ("Lyceés" de Rio, São Paulo e Brasília), o projeto envolve escolas públicas brasileiras parceiras, onde há o ensino da língua francesa.

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Durante todo o ano escolar, o programa permite às meninas ter contato intenso com mulheres de impacto, líderes incríveis, fontes de inspiração.

Estudante participam do projeto educativo ImpactMeninas, Realizado pela Embaixada da França em parceria com a Câmara de Comércio Franco-Brasileira e com as três escolas francesas no Brasil ("Lyceés" de Rio, São Paulo e Brasília)
Estudante participam do projeto educativo ImpactMeninas - Divulgação

A edição deste ano teve início nesta quarta-feira (8) com a participação de mulheres das ciências: em Brasília, Cristina Castro, professora de biologia da UNB e especialista em inteligência artificial; em São Paulo, Claudia Fonseca, antropóloga e membro da Academia Brasileira de Ciências. No Rio de Janeiro, Margareth Dalcolmo, uma das principais especialistas brasileiras em Covid-19, fala aos estudantes na semana que vem.

A apresentação das trajetórias de vida dessas "mulheres de impacto" incita todos os alunos, inclusive os meninos, a desconstruir os estereótipos de gênero e sensibiliza profundamente as meninas. Além desse contato inspirador, são organizadas também mentorias para tirar dúvidas e aumentar a autoestima e a confiança das meninas. No total, mais de 500 alunos do primeiro ano do ensino médio participarão do programa em 2023.

Trata-se antes de tudo de um projeto de orientação para meninas, mas que é igualmente um projeto de inclusão social que oferece oportunidades de estudo na França aos estudantes das escolas brasileiras parceiras. É, enfim, um projeto que visa incluir os meninos como agentes de transformação.

ImpactMeninas é um exemplo da nossa diplomacia feminista.

A muamba de Bolsonaro, Ruy Castro -FSP

 O caso das joias presenteadas a Bolsonaro pela Arábia Saudita, trazidas na moita para o Brasil, está recheado de estrelas —nas fardas que seus protagonistas usam ou usavam até havia pouco.

O regalo milionário foi entregue ao então ministro das Minas e Energia de Bolsonaro, Bento Albuquerque, ex-almirante de esquadra. Almirante de esquadra é o segundo posto mais alto da Marinha, com quatro estrelas e uma poderosa âncora na insígnia. As joias viajaram de Riad a Guarulhos na mochila do guarda-marinha Marcos André Soeiro. Guarda-marinha é um aluno da Escola Naval prestes a se tornar segundo tenente.

Apreendida a muamba pela Receita Federal, apressou-se liberá-la o contra-almirante José Roberto Bueno Junior. Um contra-almirante tem duas estrelas e, idem, uma âncora na insígnia, mas isso não comoveu a Receita. Entrou em ação o tenente-coronel Mauro Cid, ajudante de ordens de Bolsonaro. Um tenente-coronel está a dois passos do generalato, e Cid ainda tem o privilégio de usar Glostora no cabelo e farda com gravata-borboleta. Pois voltou de mãos abanando. Outro encarregado de peitar a Receita foi Jairo Moreira da Silva, primeiro-sargento da Marinha. Debalde.

Dois elementos da própria Receita instruídos por Bolsonaro para resolver o problema também se frustraram. Mas ganharam cargos fictícios nas embaixadas de Paris e Dubai, em atos assinados pelo ex-general e vice-presidente Hamilton Mourão na ausência de Bolsonaro, que fugira para a Flórida a dois dias do fim do mandato. Dia este em que um jato da FAB, com gasolina paga por você, foi de Brasília a Guarulhos com o fim exclusivo de desbloquear a batota —igualmente em vão. E Michelle Bolsonaro, cujos colo, orelhas, pescoço e braços ostentariam as joias, vem sendo municiada sobre o que dizer pelo ex-general Braga Netto.

Está certo. Pelo artigo 142, as Forças Armadas se destinam à defesa da Pátria.

Colar e brincos de diamante, no valor de R$ 16,5 milhões, doados pela Arábia - @Pimenta13Br

O QUE A FOLHA PENSA O nó dos transplantes

 Ao sobrecarregar a rede de saúde, a pandemia de Covid-19 afetou o tratamento de outras doenças e causou distorções na logística do sistema. Uma das áreas afetadas foi a de transplantes, com efeitos que ainda perduram.

Segundo o Ministério da Saúde, entre janeiro e julho de 2020 o número desses procedimentos caiu 37% se comparado ao mesmo período do ano anterior, e as mortes de pessoas que estavam na fila para receber um órgão subiram 34%.

Relatório da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) aponta que o número de doadores efetivos também foi afetado, interrompendo tendência de crescimento verificada de 2015, quando registraram-se 14,1 doadores por milhão da população (pmp), a 2019, com 18,1. Já em 2020, a taxa caiu para 15,8, e em 2021, para 15,1.

O fenômeno tem várias causas. No início da pandemia, considerava-se que o procedimento aumentaria a transmissão do vírus, mas pesquisas científicas atestam que esse risco é mínimo ou ausente.

Além disso, a demora para obter resultados dos testes causou lentidão na fila e a pressão para agilizar sepultamentos gerou aumento da recusa de familiares. A logística de transporte aéreo ficou precarizada, e doadores vivos negavam o procedimento por causa do risco de transmissão hospitalar.

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Mesmo com o arrefecimento da pandemia, os números ainda não atingiram os patamares anteriores. De 7.404 doações e 15,1 pmp em 2021, passou-se a 8.021 e 16,5 pmp em 2022. Em 2019, antes da crise sanitária, eram 9.224 e 18,1 pmp.

Especialistas apontam que, em 2022, o índice de doadores aumentou mais do que o de transplantes, o que sugere dificuldades técnicas.

As contraindicações médicas são feitas pelo centro de doação quando o doador não é adequado para o receptor ou quando o centro de transplante não tem plena capacidade para realizá-lo. No ano passado, o índice de negação foi de 17% —abaixo dos 23% de 2021, mas ainda acima dos 15% de 2019.

Disparidades regionais são complicadoras. Em 2017, por exemplo, Santa Catarina tinha 40,8 de pmp, mas Tocantins sequer teve doadores. A falta de equipes preparadas para preservar corpos e órgãos e realizar procedimentos complexos impede a cobertura do território.

Para superar o retrocesso gerado pela pandemia, é preciso que o poder público investigue os nós da cadeia de transplantes e proponha soluções adequadas a cada região.