quinta-feira, 28 de maio de 2026

Após visita de Flávio Bolsonaro, EUA determinam que CV e PCC são organizações terroristas, FSP

 

Washington

Os Estados Unidos decidiram nesta quinta-feira (28) classificar o CV (Comando Vermelho) e o PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas. A medida passa a valer em 5 de junho.

A decisão acontece após a visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, ao presidente Donald Trump e outros membros do gabinete americano, como Marco Rubio, do Departamento do Estado, e JD Vance, vice-presidente dos EUA.

Pelas redes sociais, Rubio afirmou que as organizações criminosas "são as mais perigosas do Brasil". "Seu alcance se estende por toda a nossa região e ao nosso país. A administração Trump continuará usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossos interesses de segurança nacional e negar o financiamento e recursos narcoterroristas."

Em entrevista a jornalistas na quarta-feira, Flávio tinha dito que Rubio pareceu ser favorável à designação, disse o pré-candidato, que afirmou ter passado cerca de 30 minutos com o secretário. Após o anúncio por parte do governo americano, o senador comemorou a decisão pelas redes sociais e disse que se trata de um "grande dia".

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Muro de casa localizada na comunidade de Mandacaru em Jequié, no estado da Bahia, pichado com símbolo de facção criminosa - Rafaela Araújo/Folhapress

Durante a passagem pelos EUA, Flávio questionado se ao designar as facções não corria o risco dos EUA interferirem em solo brasileiro. Ele negou e disse que não via a medida como uma ameaça militar no Brasil.

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A decisão já era esperada e uma reportagem do UOL no início de março mostrou que o martelo já estava batido sobre esta definição. Segundo o The New York Times, em reportagem publicada também em março, os EUA avaliavam a designação após lobby de dois filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, entre eles Flávio e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro.

Apesar disso, o governo Lula tentava evitar que esta designação fosse imposta pelos EUA, pelo receio de influenciar nas eleições e interferência americana no Brasil. Lula afirmou que, durante a conversa de mais de três horas que teve com Trump há cerca de 20 dias, o assunto não foi tratado, mas foi entregue a proposta de uma cooperação entre os dois países.

Chefe da assessoria especial de Lula, Celso Amorim, comentou sobre a possibilidade de designação nesta quinta-feira, antes do anúncio. "O crime organizado deve ser combatido com a máxima energia e determinação. Equiparar o crime organizado ao terrorismo, contudo, não é útil. Compreender as motivações é essencial para a eficácia do combate a todas as formas de criminalidade."

Em março, em evento em Dallas (Texas), Flávio chegou a falar que, se encontrasse com o presidente Donald Trump, não pediria que o PCC e CV fossem considerados terroristas, pois ele mesmo faria isso.

"Não vou pedir para o Trump designar ninguém, eu vou designar PCC e CV como terroristas. Já que o Lula não teve coragem de fazer", disse.

Agora, durante o encontro com o republicano, a Folha apurou que Trump ouviu sobre o pedido feito por Flávio e disse a funcionários que estavam na reunião: "Temos que ajudar esses caras".

A designação acontece também em meio ao momento mais crítico da pré-candidatura de Flávio, após a descoberta, pelo site Intercept Brasil, que o senador pediu dinheiro para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme "Dark Horse", sobre seu pai. A crise foi agravada após a revelação de que ele se encontrou pessoalmente com o ex-banqueiro quando este já usava tornozeleira eletrônica.

O QUE PODE ACONTECER AGORA?

A classificação do que é terrorismo varia em cada país. A versão mais aceita é a que o classifica como uma ação violenta deliberada contra civis que tem por objetivo intimidar a população ou o governo, normalmente em associação a uma causa política e/ou religiosa.

Segundo o Departamento de Defesa, os EUA classificam grupos terroristas quando eles integram alguns critérios, como a violência e a ameaça ao território americano --as organizações, claro, tem que ser estrangeiras. Antes do anúncio, a pasta já havia manifestado que considerava ambas as organizações como um "perigo" para a região.

A partir dessa designação, é criminalizado qualquer tipo de apoio, bloqueio de recursos e isolamento destas organizações. De acordo com o departamento, integrantes destas organizações não podem entrar nos EUA e podem ser expulsos se já estiverem no país.

Além disso, bancos americanos com contas destes membros devem bloquear fundos ligados ao grupo e reportar ao governo. O Brasil, porém, discorda da denominação, uma vez que no território brasileiro a designação de terrorismo é aplicada para atos violentos motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito para provocar terror social generalizado.

As conversas sobre a possibilidade de designar facções criminosas brasileiras como terroristas acontecem desde o ano passado.

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo, que participou de um dos encontros com integrantes do governo Trump, afirmou que os americanos não deram espaço para o Brasil apresentar qual a sua interpretação em relação ao terrorismo e apenas solicitaram informações a respeito do funcionamento das facções.

Ele defende que, apesar dos perigos de crimes praticados pelas organizações, elas não são terroristas, já que o termo só seria aplicado a grupos que praticam atos de terror com objetivo político ou ideológico.

Histórico de negociações

Apesar dos esforços do governo federal, no ano passado, parlamentares e governadores da direita brasileiros solicitaram ao governo Trump a classificação do Comando Vermelho como grupo terrorista. O governo Cláudio Castro (PL) chegou a enviar um documento para Washington com o pedido. A facção tem origem no Rio de Janeiro.

Por outro lado, o governo Lula trabalhava para tentar evitar essa classificação e encaminhou, no fim do ano passado, uma proposta para que os países firmassem um acordo para combate ao crime organizado.

Porém, o governo dos EUA considerou a proposta inadequada e sugeriu, como mostrou uma reportagem da Folha, que o Brasil recebesse estrangeiros capturados nos EUA e exigiu um plano para acabar com o PCC e CV.

Na visão do governo Lula, a designação abriria brecha legal para intervenções dos EUA em território brasileiro. O governo teme ainda a exploração política do tema pelos bolsonaristas durante a campanha eleitoral.

Oura preocupação é que as leis antiterrorismo dos EUA preveem punições não apenas para as facções, mas também para pessoas e instituições financeiras que possuam ou tenham conhecimento de fundos relacionados a essas organizações.

Como a Folha mostrou em uma série de reportagens, o CV e o PCC já estão presentes em todos os estados brasileiros e exercem hegemonia em ao menos 13 deles. As facções também expandiram sua atuação para além das fronteiras: o CV mantém negócios com ao menos oito países da América Latina, enquanto o PCC tem presença em ao menos 16 nações.

Facções na mira do governo Trump

O PCC foi incluído em 2021 na lista de organizações designadas do Ofac (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos EUA), o que resulta no confisco de todas as propriedades e ativos nos EUA ligadas a seus membros e proibição de instituições e cidadãos americanos de manterem qualquer relacionamento comercial com a facção. Mas o grupo criminoso não foi classificado como organização terrorista.

Em visita a Brasília em maio do ano passado, o responsável pelo setor de sanções do Departamento de Estado, David Gamble, pediu formalmente que o Brasil adotasse a designação de organizações terroristas para o PCC e CV. Representantes do Ministério da Justiça rejeitaram o pedido.

A Lei Antiterrorismo brasileira, de 2016, define como atos terroristas aqueles motivados por "xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública".

Governadores de direita e parlamentares da oposição pressionam pela votação de um projeto de lei de autoria do deputado Danilo Forte (União Brasil-CE) que equipara facções criminosas brasileiras a organizações terroristas.

A ilusão dos famosos que só têm dinheiro, Rosana Hermann- FSP

 Foi um alívio ler a notícia de que a jovem que desapareceu no litoral de São Paulo, depois de um passeio de moto aquática, foi encontrada com vida. Bruna Damaris, auxiliar de enfermagem de 26 anos, foi localizada com ajuda de pescadores, transportada por bombeiros e atendida por médicos.

Os nomes dessas pessoas que salvaram a vida de Bruna foram divulgados, mas eles não tiveram grande exposição. Foi também um alento saber que em Minas Gerais a mulher covardemente jogada em um penhasco por seu ex-marido sobreviveu à tentativa de feminicídio.

Ana Cláudia, diarista de 41 anos, passou 24 horas agarrada a um arbusto lutando por sua vida. Os bombeiros e policiais que a salvaram usaram técnicas avançadas de resgate em uma área de acesso muito difícil.

O choro de sua filha ao saber que a mãe estava viva e o vídeo em que Ana Cláudia aparece sendo içada por um helicóptero comoveram a todos. Foram mais de 20 militares envolvidos nessa operação. Os nomes dessas pessoas que salvaram a vida de Ana Cláudia não foram divulgados.

Todos os dias, apesar de notícias horríveis, cidadãos comuns resgatam animais de enchentes e de maus-tratos, bombeiros salvam pessoas em acidentes, policiais encontram vítimas sequestradas, profissionais de saúde salvam vidas.

Ao mesmo tempo em que esses heróis são mencionados nos textos por suas profissões, de forma anônima, vemos manchetes destacando corruptos bilionários e autoridades poderosas comendo bifes empanados em ouro e famosos que vendem joguinhos viciantes ostentando itens que valem milhões de reais.

Não se trata de romantizar a miséria e a invisibilidade ou demonizar a fama e a riqueza, mas são esses os nossos valores fundamentais, fama e dinheiro? Vamos definir que uma pessoa vale pelos bens que acumula e a notoriedade que conquista? Conhecimento, experiência e humanidade não fazem mais sentido para nós?

E se forem esses os parâmetros que vamos eleger, como vai ser a vida? Quando você precisar de atendimento médico, você vai torcer para que o cirurgião seja primordialmente experiente e humano ou famoso e com muitos seguidores no Instagram?

Claro que o cirurgião pode ser ao mesmo tempo talentoso e ter uma rede social recheada, mas o critério básico vai ser formação médica ou número de likes? Não sei você, mas eu tenho pavor de tirar sangue, porque minhas veias são invisíveis e finas e, para sofrer o mínimo possível, procuro a profissional com a mão mais leve e não a que mais viralizou no TikTok. Se for famosa, ok, mas não é o critério primordial.

Sabemos que a realidade é dura, que sucesso, fortuna, luxo e poder, assim como a desigualdade, a injustiça e a ignorância, sempre existiram e não vão desaparecer magicamente. Mas também sabemos que a compaixão, a humanidade e o conhecimento são valores essenciais que nos trouxeram até aqui.

Usar apenas a fama como medida de valor moral, o dinheiro como métrica de sucesso pessoal, me parece um sintoma triste de uma visão ilusória, típica de quem é tão pobre que só tem dinheiro.

A de quem esquece que o maior valor está na empatia, na compaixão, que fazem com um pescador sem nome, um bombeiro invisível, estendam a mão para que uma mãe não caia do penhasco, para que uma filha não morra no mar.

Estudo premiado descreve estratégia usada pelo mofo azul para devastar frutas cítricas, Agência Fapesp

 Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Só de ver um pontinho branco-azulado em laranjas, limões ou tangerinas, quase todo agricultor já sabe que o resultado será uma caixa inteira de frutas mofadas. Quando o fungo Penicillium italicum, responsável pelo mofo azul, se instala na casca da fruta, a planta rapidamente ativa um verdadeiro arsenal químico de defesa para tentar impedir a invasão.

Mas o trabalho é praticamente em vão, uma vez que o P. italicum libera moléculas químicas capazes de neutralizar não só as defesas naturais da fruta como também os microrganismos benéficos (endofíticos) que vivem na superfície desses vegetais.

Esse roteiro de ataque do patógeno foi desvendado pela primeira vez por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade de São Paulo (USP) em estudos apoiados pela FAPESP (projetos 22/02992-0 e 19/17721-9). A descoberta abre caminho para o desenvolvimento de novas estratégias de combate ao fungo, que é uma das principais pragas da citricultura brasileira.

Publicado no Journal of Agricultural and Food Chemistry, o trabalho detalhando essas descobertas foi selecionado pela revista americana como o melhor artigo científico de 2025.

“O Brasil é o maior produtor de laranja e líder mundial na exportação de suco, mas enfrenta sérios prejuízos no pós-colheita causados por fungos. O mofo azul [P. italicum] é o segundo mais problemático, atrás apenas do mofo verde [P. digitatum], responsável por até 90% das perdas em regiões tropicais. Apesar disso, o mofo azul ainda recebe pouca atenção”, afirma Taícia Pacheco Fill, professora do Instituto de Química (IQ) da Unicamp e autora principal do estudo.

“Por isso, compreender melhor as estratégias e o arsenal químico desses patógenos é fundamental para desenvolver formas de controle mais eficazes sem depender de agrotóxicos”, completa a pesquisadora.

Atualmente, o controle do mofo azul depende de fungicidas sintéticos como imazalil e tiabendazol, que apresentam resistência crescente e preocupações ambientais.

Para o mapeamento das moléculas que atacam os microrganismos benéficos, os pesquisadores estudaram o conjunto de substâncias químicas produzidas pelo patógeno durante a infecção no fruto, usando técnicas de metabolômica avançada (que analisa os produtos do metabolismo do organismo). “Com isso, conseguimos identificar compostos essenciais para o desenvolvimento da infecção. Verificamos em laboratório que, sem essas substâncias químicas, o fungo P. italicum cresce só um pouquinho, o que abre espaço para novas estratégias de combate. Tanto que o nosso próximo passo é desenvolver inibidores específicos dessas vias metabólicas, capazes de desarmar o patógeno sem afetar o hospedeiro [o fruto]”, conta Fill. Essa parte do estudo foi publicada em artigo posterior, na revista Postharvest Biology and Technology.

Passo a passo

A rápida disseminação do fungo nas caixas de frutas é um processo conhecido como nesting, responsável por até 50% das perdas da cultura na China, o terceiro maior produtor de laranja do mundo e um país de clima majoritariamente temperado, onde o mofo azul se desenvolve melhor.

Ao analisar diferentes dias de infecção, os pesquisadores identificaram que o fungo se instala na casca da fruta por meio de microlesões. “Nos primeiros dias, ele desmonta a parede celular da fruta com enzimas, enquanto esta reage produzindo compostos naturais bioativos [flavonoides] antifúngicos, como a naringenina e a diosmina. No entanto, o fungo contra-ataca produzindo também compostos naturais bioativos como a brevianamida F e a desoxibrevianamida E”, detalha Evandro Silva, bolsista da FAPESP e primeiro autor do estudo.

Os pesquisadores também utilizaram técnicas de imageamento por espectrometria de massa para mapear a distribuição espacial das moléculas durante a infecção. “O patógeno não luta apenas contra as defesas da fruta, mas também contra os microrganismos ‘do bem’ [endofíticos] que vivem na casca e tentam protegê-la. Ele usa esses compostos para modular a comunidade microbiana e se instalar, enquanto enfrenta as defesas da fruta. Acaba sendo um combate múltiplo em que ele consegue se sobrepor a esses outros microrganismos e prosperar”, explica Fill.

Os cientistas destacam que identificar as moléculas produzidas pelo patógeno é o primeiro passo para desenvolver estratégias de controle específicas. “Nosso laboratório tem trabalhado com essa lógica de descrever como se dá o ataque de patógenos e reconhecer os metabólitos [produtos do metabolismo] usados por eles. Isso possibilita o desenvolvimento de inibidores mais seguros para o meio ambiente, menos nocivos à saúde humana e com menor risco à resistência fúngica ou bacteriana”, conta a pesquisadora.

O artigo Decoding the Penicillium italicum-citrus interaction: untargeted metabolomics sheds light on a neglected postharvest pathogen pode ser lido em: pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.jafc.5c07618.c