quarta-feira, 1 de abril de 2026

Petrobras quer produzir toda a demanda de diesel do Brasil em 5 anos, diz Magda, FSP

 

São Paulo

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, disse nesta quarta-feira (1), que a estatal estuda produzir toda a demanda de diesel do Brasil em cinco anos. Segundo ela, a decisão deve ser tomada no próximo plano de negócio da empresa, que visa os investimentos nos cinco anos seguintes à publicação do planejamento.

O plano inicial da Petrobras era assumir 80% do mercado de diesel do país nos próximos cinco anos, segundo a executiva –hoje a estatal produz 70% de todo o combustível vendido no Brasil. O atual contexto da guerra no Irã e impactos no mercado mundial de petróleo, no entanto, abriram a possibilidade para a empresa aumentar seus planos.

Bico de bomba de combustível amarelo segurado por uma pessoa com braço visível ao fundo desfocado. O bico está em destaque com detalhes metálicos e interior quadrado.
Posto de gasolina na avenida Nove de Julho, em São Paulo. - Rafaela Araújo/Folhapress

"O nosso plano de negócios fala de um aumento de cerca de 300 mil barris por dia de diesel em 5 anos. E nós estamos revendo esse plano para ir nos perguntando se nós podemos chegar a 100% em 5 anos", afirmou Magda durante um evento organizado pela CNN Talks, em São Paulo.

"É uma questão que nós estamos nos fazendo. Somos capazes de fornecer nos próximos cinco anos todo o diesel que o Brasil precisa? E eu estou aguardando essa resposta; 80% nós já vemos que somos capazes", acrescentou. A discussão sobre o tema, segundo ela, deve começar em maio.

Hoje, o Brasil produz cerca de 80% do diesel consumido no país. Para além da Petrobras, refinarias privadas, como a de Mataripe, da Acelen, e a Ream, do grupo Atem, complementam essa produção. Por isso, para atender toda a demanda nacional, a Petrobras precisará expandir suas refinarias e comprar as plantas privadas —caso as compras não se viabilizem, a expansão precisará ser maior.

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Questionada sobre o tema, Magda não disse se a estatal estaria disposta a adquirir essas refinarias. "Mataripe é uma pergunta difícil", afirmou. "Desde que eu cheguei na Petrobras, se fala da possibilidade de comprar a refinaria de Mataripe. E o que eu digo é o seguinte: qualquer bom negócio para a Petrobras está valendo."

Como exemplos de como a expansão pode acontecer, a executiva citou a ampliação da capacidade de processamento da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e da Refinaria Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Na primeira, a estatal planeja produzir mais 130 mil barris por dia de derivados de petróleo até 2029, sendo 88 mil de diesel. Já na segunda, o plano é produzir mais 76 mil barris por dia de diesel a partir da integração da refinaria ao Complexo de Energias Boaventura, em Itaboraí (RJ).

"Para o consumidor, [chegar a 100% do mercado] dará a certeza de que as volatilidades externas não os vão assombrar e, para o nosso acionista, é a garantia de [ter] um mercado que talvez seja o maior consumidor da América Latina", disse Magda.

O jovem químico que fermentou a ciência moderna, FSP

 Pedro Pequeno

Biólogo e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Núcleo Roraima

A ciência depende de dados. Porém, coletar muitos deles pode ser caro, difícil ou mesmo impossível. Como chegar a resultados confiáveis quando os dados são limitados?

Era esse o problema com o qual se deparou William Sealy Gosset em seu primeiro emprego. Em 1899, ele começou a trabalhar na Guinness, uma tradicional cervejaria da Irlanda. Na época, várias outras já estavam passando da produção artesanal para a industrial. O químico inglês de apenas 23 anos foi contratado para otimizar esse processo.

Homem de perfil usando óculos e boina preta mede líquido com pipeta em tubo de ensaio, em bancada verde com vários frascos e copos vazios à frente. Ao fundo, prateleiras verdes exibem várias garrafas alinhadas.
Julia Jabur/Instituto Serrapilheira

Um dos problemas era determinar se um lote inteiro de cerveja seguia o padrão de concentrações dos ingredientes com base em uma amostra pequena, de poucas garrafas. Acontece que qualquer amostra oferece apenas um chute: a única forma de saber como de fato é um lote é medindo-o todo.

Além disso, uma amostra nunca é exatamente igual a outra: as plantas usadas como matéria-prima variam devido ao solo, ao clima, à genética. Isso cria uma variabilidade inevitável entre amostras do mesmo lote, ou erro amostral.

Em 1906, Gosset foi a Londres estudar com um dos fundadores da estatística moderna (e eugenista declarado, infelizmente) Karl Pearson. Ele recomendava usar amostras grandes, com centenas de unidades ou mais, pois a teoria de então garantia que o erro amostral seguiria um padrão previsível. Assim seria possível obter uma margem de erro válida para um chute baseado em uma amostra.

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Para testar se a teoria também funcionava com amostras pequenas, Gosset teve uma ideia engenhosa: usar cartões para simular sorteios repetidos de amostras pequenas de uma população, como um lote de cerveja.

Gosset descobriu que, em amostras pequenas, chutes muito errados ficavam muito mais frequentes que o previsto pela teoria existente. A partir disso, ele descreveu sua descoberta em termos matemáticos, obtendo medidas válidas de erro amostral.

Seu trabalho foi publicado em 1908 na Biometrika, uma das primeiras revistas de métodos quantitativos do mundo, criada por Pearson. Porém, como a Guinness proibia a divulgação de suas pesquisas a fim de não beneficiar as concorrentes, Gosset adotou um pseudônimo: Student (estudante).

O trabalho passou quase despercebido, exceto por um jovem prodígio da estatística, Ronald Fisher (sim, outro eugenista), que considerou revolucionária aquela descoberta. Os dois passaram a trocar cartas, e nos anos 1920 Fisher generalizou os achados do colega. Porém, ele manteve o pseudônimo do químico, batizando sua descoberta de distribuição t de Student.

Em 1935, Gosset foi promovido a "mestre cervejeiro" da Guiness, falecendo apenas dois anos depois, aos 61 anos. Seu legado, porém, é imortal: hoje, a distribuição t é um dos pilares da inferência estatística, sendo usada rotineiramente na ciência.

O químico também foi um pioneiro do uso de sorteios repetidos para resolver problemas matemáticos, ou simulação de Monte Carlo. E fez tudo isso com apenas 20 e poucos anos, mesmo não sendo estatístico nem matemático de formação. Sua humildade intelectual é ilustrada por uma carta de 1924 a Fisher: "estou enviando uma cópia das tabelas de Student, já que você provavelmente é o único homem que as usará algum dia!". Ele não poderia estar mais errado.

Economia global se mostra muito mais resiliente do que imaginávamos, Martin Wolf. FT FSP

comércio global definitivamente não morreu no ano de 2025. Mas ele mudou de formas complexas, algumas temporárias (como a antecipação das importações norte-americanas em resposta à ameaça de tarifas elevadas), algumas provavelmente permanentes (como o declínio no comércio direto entre EUA e China) e algumas intermediárias (como o boom no comércio relacionado à inteligência artificial).

Ainda assim, o comércio global de bens mostrou-se notavelmente robusto, segundo um relatório chamado "Geopolítica e a geometria do comércio global: atualização de 2026", uma avaliação preliminar de 2025 feita pelo McKinsey Global Institute.

O relatório destaca cinco aspectos notáveis do que aconteceu em 2025.

Diversas pilhas de contêineres coloridos empilhados em área externa de porto, sob céu nublado. Árvores e parte de estrada aparecem à esquerda.
Contêineres no porto de Los Angeles, na Califórnia - Caroline Brehman/REUTERS

Primeiro, as exportações dos EUA e da China atingiram novos recordes, enquanto o comércio mundial também cresceu mais rápido que a economia global. A direção do comércio mudou substancialmente, mas mais em relação aos parceiros comerciais que a McKinsey classifica como "geopoliticamente distantes" —notadamente EUA e China— do que aos "geograficamente distantes".

Da mesma forma, a União Europeia perdeu participação de mercado entre os chineses. Mas a Índia se destacou no aspecto de distância geográfica, porque os embarques de smartphones para os EUA cresceram rapidamente.

Segundo, os embarques relacionados à IA se tornaram o motor mais poderoso do comércio de bens, com um aumento de 40% entre 2024 e 2025 no valor dos embarques de semicondutores e equipamentos para data centers.

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De fato, as exportações relacionadas à IA representaram um terço do crescimento do comércio global, com os polos asiáticos —TaiwanCoreia do Sul e partes do Sudeste Asiático— abastecendo mercados ao redor do mundo, particularmente os EUA. Controles tanto sobre exportações quanto importações de alguns desses equipamentos restringiram o crescimento do comércio chinês relacionado à IA a 16%.

O relatório argumenta que o rápido crescimento da capacidade relacionada à IA continuará a impulsionar o comércio mundial em 2026.

Terceiro, nas palavras do relatório, "a China expandiu seu papel como 'fábrica para as fábricas'". Enquanto exportações diretas para os EUA foram atacadas por tarifas, a China conseguiu aumentar as exportações de maquinário e insumos para outros países, notadamente seus vizinhos.

Em muitos outros casos, observa a McKinsey, as exportações de peças e maquinário não estavam vinculadas à substituição de vendas perdidas para os EUA. Em vez disso, apoiaram a expansão da capacidade manufatureira em terceiros mercados, particularmente economias emergentes.

Isso aprofundou o papel da China como fornecedora de insumos para a produção, em vez de exportadora de bens finais. No total, as exportações chinesas de bens intermediários e de capital cresceram US$ 223 bilhões em 2025, mais do que compensando uma redução de US$ 130 bilhões nas exportações para os EUA.

Quarto, as tarifas causaram reajustes comerciais complexos. Entre outras coisas, provocaram uma antecipação temporária de importações.

No geral, o comércio direto EUA-China caiu cerca de 30% em 2025. Mas os EUA substituíram cerca de dois terços das importações perdidas com compras de outros exportadores, enquanto os exportadores chineses de bens de consumo, como carros elétricos e brinquedos, cortaram preços em média 8% para encontrar novos compradores.

As exportações dos países da Associação de Nações do Sudeste Asiático prosperaram nesse novo mundo. Enquanto isso, diz a McKinsey, as empresas da União Europeia enfrentaram um duplo aperto das exportações chinesas desviadas e das tarifas americanas mais altas contra suas exportações.

Por fim, embora a irracionalidade das tarifas arbitrárias e imprevisíveis do presidente Donald Trump tenha dificultado a vida de produtores e comerciantes em todo o mundo (inevitavelmente incluindo muitos nos próprios EUA), houve vários fatores compensatórios úteis. Um deles foi que o latido de Trump foi pior que sua mordida. No final, como observa Richard Baldwin, do IMD em Lausanne, em seu post no Substack "Por que as tarifas trumpistas não destruíram o sistema de comércio mundial", ele não fez tudo o que ameaçou.

Mais importante, suas ações não levaram a um ciclo de retaliação contra os EUA nem, crucialmente, à imitação do repúdio agressivo dos EUA aos compromissos e normas da Organização Mundial do Comércio.

O sistema comercial tem outros grandes desafios, notadamente a abordagem agressivamente mercantilista da China em relação às exportações. Mas os EUA, com apenas 14% das importações mundiais de bens, não importam tanto assim. De fato, mesmo os EUA e a China juntos, com 25% do comércio mundial entre eles, não importam tanto, como Baldwin observa em "Como os 75% salvaram o sistema?" no Substack. O resto do mundo decidiu continuar comercializando porque depende disso.

Acontece que há "muita ruína" no comércio mundial, como Adam Smith nos teria dito. Mas ainda pode haver limites.

O boom da IA vai estourar este ano? O impacto da guerra de Trump contra o Irã em 2026 pode superar os danos causados por sua guerra tarifária em 2025? Mais especificamente, o fechamento de fato do Golfo às exportações de petróleo, gás e outros produtos essenciais acabará causando mais danos do que conseguimos administrar? Suspeito que não.

Parece provável que, por mais mal concebida e mal executada que essa guerra possa ser, Trump encontrará uma maneira de reivindicar vitória e encerrá-la. É claro que pode ser óbvio para a maioria que ele perdeu. Mas isso o constrangeria? Provavelmente não: ele não admite fracasso.

O que está muito mais claro agora, porém, é que os EUA não são mais um líder mundial confiável. Se podem eleger esse homem duas vezes, perderam o rumo. Por que não elegeriam alguém ainda pior?

Um país assim é incapaz de fornecer hegemonia global confiável. O que ele fornece, em vez disso, é uma bola de demolição imprevisível. Nem há um substituto plausível.

A China é relativamente previsível. Mas sua incapacidade de décadas de eliminar a dependência de enormes superávits comerciais e de conta corrente, de equilibrar a demanda com o excesso de oferta doméstica, não é encorajadora.

O que aprendemos é que a economia é mais resiliente do que muitos temiam. Esperemos que ela continue demonstrando essa qualidade. Parece que vamos precisar dela, e muito.