segunda-feira, 2 de março de 2026

No Irã, celebrar é uma coisa, esperar por milagres é outra, João Pereira Coutinho _FSP

 Penso nos meus alunos iranianos, passados e presentes, quando olho para essa guerra. Que jovens admiráveis!

Deixaram o país que amavam porque a repressão era imensa. As moças, então, comeram o pão que o Diabo amassou. Se você acha que o patriarcado é um problema sério no Ocidente, experimente uma temporada no Irã, onde nem os cabelos estão a salvo.

Mas não são apenas os iranianos que sofrem nas mãos do regime. Desde 1979, Teerã se converteu em um dos principais financiadores do terrorismo internacional —Hamas, Hezbollah, houthis, milícias xiitas no Iraque; a lista é longa. E as suas vítimas se estendem pelos quatro cantos do mundo —do Líbano à Argentina, de Tel Aviv ao Mar Vermelho.

Donald Trump e Benjamin Netanyahu sentados em um sofá jogando videogame
Angelo Abu/Folhapress

Se o regime cair sob as bombas americanas e israelenses, serei o último a derramar uma lágrima pela teocracia dos aiatolás. A pergunta, porém, é outra: será que vai cair?

E será que as aventuras no Afeganistão e no Iraque não nos ensinaram nada sobre mudanças de regime no Oriente Médio?

Lembro George W. Bush exibindo a confiança própria dos simples, dando lições de história ao pessoal no início do século 21: "Houve um tempo em que muitos afirmavam que as culturas do Japão e da Alemanha eram incapazes de sustentar valores democráticos. Estavam errados. Alguns dizem o mesmo do Iraque. Estão enganados".

Hoje sabemos quem se equivocou. Japão e Alemanha só servem de exemplo se esquecermos dois ou três detalhes que não entraram na cabeça dura dos neoconservadores.

O primeiro, bastante óbvio, é que a democracia chegou à Alemanha e ao Japão depois de derrotas militares totais —no caso japonês, com duas bombas atômicas—, seguidas de uma ocupação militar prolongada, massiva, economicamente transformadora e politicamente orientada.

Socorristas e moradores trabalham para encontrar feridos em escola feminina destruída por ataques em Minab, província de Hormozgan, sul do Irã - 28.fev.26/Mehr News Agency via Xinhua

Mas não apenas isso. Japão e Alemanha eram sociedades homogêneas do ponto de vista étnico e religioso, sem as divisões profundas que empurraram o Afeganistão e o Iraque para guerras civis prolongadas.

Como bônus, vale lembrar que alemães e japoneses já tinham alguma experiência democrática e constitucional: a Alemanha do Império e da República de Weimar; o Japão modernizado da era Meiji, na segunda metade do século 19. A memória institucional é solo fértil para sementes adormecidas.

O Iraque era o reverso de tudo isso. O Afeganistão também. Ambos estão como estão —e, no caso de Cabul, com o Talibã novamente aos comandos.

No Irã, Donald Trump não pretende enviar soldados para o terreno. Qualquer ideia de ocupação está fora dos seus cálculos. A estratégia, ao que parece, é bombardear os pontos críticos da teocracia —infraestrutura nuclear e militar, centros de comando do regime— e eliminar seus líderes. Muito bem. E depois?

Confesso que não conheço nenhum caso em que uma mudança de regime tenha ocorrido apenas por ataques aéreos seletivos. O bombardeio da Otan contra as forças sérvias no Kosovo, em 1999, talvez seja o exemplo mais próximo —Slobodan Milošević acabaria se retirando da região, e sua queda veio no ano seguinte. Mas o Irã não é a Sérvia.

O historiador Niall Ferguson, cansado de comparações apressadas (como as minhas), deixa um aviso: a ideia dos neoconservadores era "mudança de regime" e democratização do Oriente Médio. Isso implicou tropas no terreno.

Trump é mais modesto, diz Ferguson: pretende apenas uma "alteração de regime" (como na Venezuela), ou seja, uma operação militar breve para colocar no poder um aiatolá "responsável", esse unicórnio que saiu da mesma fábrica dos jihadistas "moderados".

Niall Ferguson não tem razão: Trump quer uma mudança de regime, sim, e exortou os iranianos a tomarem o destino nas suas mãos. Mas qualquer pessoa que tenha lido as lições do sr. Curzio Malaparte sobre como fazer um golpe de Estado já aprendeu que as mudanças de regime nunca acontecem por explosões populares momentâneas, exceto na imaginação dos românticos.

São operações técnicas: uma minoria disciplinada precisa assumir o controle do aparelho de Estado —quartéis, comunicações, transportes, energia, polícia etc.— para que a revolução triunfe.

Haverá essa minoria no Irã, de preferência dentro da própria elite política e militar do regime?

Trump espera que sim. Eu também. Mas esperança é terreno movediço demais para começar uma guerra. O caos, o endurecimento do regime ou a guerra civil também estão no cardápio.

No Irã, celebrar é uma coisa; esperar por um milagre é outra.

Alvaro Costa e Silva - O elo da política com o crime organizado no Rio, FSP

 

O que fez e ainda faz Cláudio Castro no Palácio Guanabara? A julgar pelo relatório da Polícia Federal sobre a conduta e influência criminosas de Rodrigo Bacellar, o ex-presidente da Assembleia Legislativa que transformou o Rio de Janeiro num posto avançado do Comando Vermelho, Castro exercia uma função subalterna no esquema político-miliciano de captura das instituições. Governador de fancaria, era o serviçal da família Bolsonaro e a marionete nas mãos de Bacellar.

Indiciado pela Polícia Federal por repassar informações e oferecer proteção a integrantes do CV e tentar obstruir a Justiça, Bacellar, antes de ser preso, em dezembro (hoje está solto, com tornozeleira), era o candidato favorito de Bolsonaro ao governo do Rio de Janeiro. Para selar o acordo, ele recebeu a medalha de imbrochável. Nem precisaria do apoio de Castro para ter a máquina estadual na campanha, pois já a tinha no bolso.

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Rodrigo Bacellar e Bolsonaro em 2024 - 10.jun24/Divulgação

Com Bacellar, a Alerj passou a exigir nomeações que por lei são prerrogativas do governador, sobretudo em comandos de batalhões da PM e em delegacias. Entre os órgãos citados em uma planilha apreendida pela PF estão Detran, Fundação Leão XIII, Faetec, hospitais. O grupo controlava a operação Segurança Presente, parceria com o setor privado.

A planilha lista cargos sob influência da "tropa do Bacellar", cerca de 27 deputados que votaram pela soltura do líder. Um dos aliados é Douglas Ruas, o secretário de Cidades e pré-candidato do PL ao governo, nome escolhido por Flávio Bolsonaro só depois de o preferido cair em desgraça. Ruas fez indicações ao DER, Detran e Fundação Leão XIII (esta última é investigada por irregularidades).

O caso Marielle, que enfim teve um desfecho no julgamento do Supremo, com a condenação de um deputado federal, um conselheiro do Tribunal de Contas e um delegado de polícia, revela apenas uma das pontas da penetração do crime organizado no Rio.

O Estado paralelo —impulsionado por quem finge combater o que na realidade representa— mira as próximas eleições para continuar avançando.