segunda-feira, 1 de junho de 2026

PCC e corrupção policial são os dois lados da mesma moeda, FSP

Gabriel Feltran

Professor titular da Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris) e diretor de pesquisa no CNRS (Centro Nacional da Pesquisa Científica da França). autor, entre outros livros, de 'Irmãos: Uma História do PCC' (Cia. das Letras, 2018)

Adilson Paes de Souza

Pós-doutorando em psicologia social (USP); autor de 'O Guardião da Cidade: Reflexões sobre Casos de Violência Praticados por Policiais Militares' (Escrituras, 2013)

Em 2015, Guilherme Derrite, então primeiro-tenente da Polícia Militar de São Paulo, hoje deputado federal (PP-SP), afirmou que "policial bom tem que ter pelo menos três homicídios no currículo". A frase, que poderia soar como bravata, revelou-se o prenúncio de uma política oficial a se consolidar no estado anos depois.

Em fevereiro de 2024, Derrite já era secretário da Segurança Pública quando promoveu uma intervenção inédita na PM: substituiu 34 dos 63 coronéis da corporação, inclusive integrantes do alto comando. A medida fortalecia uma linha de atuação mais dura —ou seja, mais letal.

Corpo de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, que era jurado de morte pelo PCC, estendido na frente da saída do terminal 2 do aeroporto de Guarulhos, na Grande SP - Miguel Schincariol - 8.nov.24/AFP

Os números confirmaram a guinada: as polícias Civil e Militar vinham reduzindo sua letalidade entre 2020 e 2023, mas no ano seguinte apenas a PM matou 775 pessoas, o dobro do ano anterior. Era o início de uma nova curva ascendente, que se mantém até hoje. As operações Escudo e Verão, na Baixada Santista, tornaram-se símbolos dessa política. Sobre elas o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) afirmou em legitimação: "Podem ir na ONU, na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí".

Pouco importa que saibamos, há 40 anos, que os mortos nas favelas são peças substituíveis de mercados ilegais globais. Que, há 30 anos, o PCC tenha sido criado justamente como efeito colateral dessa mesma política, do então governador Luiz Antônio Fleury Filho. E que saibamos, há 100 anos, que quem decide sobre a vida e a morte num território torna-se ali o soberano.

A letalidade ilegal não é a demonstração de força do Estado contra o crime. Ao contrário: o Estado deixa de ser soberano, tendo sua lei substituída pela violência do policial matador. É ele, o matador, que passa então a definir as bases da ordem. Por isso, a figura do policial matador, antes personagem menor das ruas, ascende na última década à imagem do comandante de polícia, do vice-prefeito, do deputado, do senador, do secretário da Segurança, do político poderoso.

A letalidade policial é ineficaz contra o crime, mas ótima para os que vivem a política como um jogo dos mais fortes. Nesse quadro, matadores se tornam grandes políticos. Temos visto no Brasil, por isso, o aumento da influência política de todos os grupos armados, simultaneamente: facções criminais, milícias e grupos policiais violentos. Com matadores como políticos, a lei se dissolve em ficção; os direitos humanos viram piada e a democracia se esvazia de sentido.

Ainda tem mais. Como o delegado Hélio Luz nos ensinou, a contraface da brutalidade policial é a corrupção. Liberados para matar, esses policiais estão evidentemente também liberados para ameaçar, extorquir, torturar e, sobretudo, empreender privadamente na segurança. A síntese é devastadora: a letalidade como política abre caminho para toda forma de ilegalidade, e por que não, de promiscuidade entre público e privado, mas também entre policiais e facções.

Denúncias do promotor Lincoln Gakya à corregedoria da PM paulista indicam que oficiais da Rota repassaram informações sigilosas ao PCC, inclusive durante a Operação Sharks (2020), permitindo a fuga de líderes da facção. Denuncia-se até a venda de dados estratégicos, por R$ 5 milhões, a Tuta, um dos homens fortes do Primeiro Comando da Capital.

Segundo essas informações, o coronel Ricardo Coutinho, que se torna comandante da PM em 2025, teria sido informado desses vínculos, bem como da delação premiada de Antônio Vinicius Gritzbach, confirmando que policiais da Rota, então sob a hierarquia de Coutinho, prestavam serviços, vejamos, de segurança e escolta a lideranças da facção.

O próprio Gritzbach seria assassinado em pleno aeroporto de Guarulhos pelo PCC, e com suposta participação de policiais.

Em abril de 2026, Coutinho foi substituído oficialmente alegando "questões pessoais", em meio a denúncias de omissão diante da infiltração do PCC na corporação.

A política de segurança pública tem se transformado num pacto perverso no qual a letalidade é celebrada como eficiência para abrir caminho para um ciclo de acumulação ilegal e politização que torna policiais e criminosos igualmente poderosos.

Dois lados da mesma moeda, ambos corrosivos de um Estado de Direito que, ainda em construção, já é ruína.


O Minha Casa, Minha Vida precisa mudar ,FSP

Anthony Ling

Urbanista e editor-chefe do Caos Planejado, plataforma digital sobre cidades

Roberta Inglês

Urbanista, é editora de urbanismo do Caos Planejado, plataforma digital sobre cidades

Possibilitar moradia digna à população de baixa renda é um objetivo indispensável no Brasil hoje, e o programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), iniciado em 2009, se tornou a principal política habitacional do país. No entanto, embora esse objetivo esteja presente no discurso do programa, não parece ser sua principal intenção.

Raquel Rolnik, urbanista e professora da USP, afirma que "o MCMV não é uma política habitacional/urbana, mas uma estratégia de dinamização da indústria da construção civil, concebida para promover uma reação econômica e para ampliar e solidificar uma base social e política". Ela está correta. O programa nasceu como parte do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) no contexto da crise econômica de 2009, como uma forma de reaquecer a economia via gastos públicos, e o caráter de incentivo econômico perdura até hoje.

Isso gera contradições como a criação da "Faixa 4" para rendas de até R$ 13 mil. Serão bilhões de reais gastos para atender um grupo que faz parte dos 5% mais ricos do país, o que mostra um desalinhamento com o objetivo social de redução de desigualdades. Além disso, o programa tinha como objetivo reduzir o déficit habitacional que, em 2009, era de 5,9 milhões de domicílios. Após 7,7 milhões de moradias contratadas, não houve redução no déficit. Como o déficit habitacional não significa o número de habitações faltantes, mas sim o número de domicílios que sofrem alguma dor, como a precariedade ou o ônus excessivo com aluguel, esse aparente paradoxo pode ter relação com o desenho do MCMV.

Prédio residencial branco de quatro andares com janelas retangulares. Algumas pessoas aparecem na janela do térreo. Na frente, placa azul anuncia o plano Minha Casa Minha Vida. Céu claro ao fundo.
Presidente Lula durante entrega de 1.276 unidades habitacionais do empreendimento Junção Rio Grande, no Rio Grande do Sul, do programa Minha Casa, Minha Vida - Ricardo Stuckert - 20.jan.26/PR

Ao priorizar a quantidade em detrimento da localização, se incentiva uma escolha por terrenos distantes dos centros urbanos —e das oportunidades e serviços—, que são mais baratos.

Os resultados desse modelo foram analisados no estudo Morar Longe: o Programa Minha Casa Minha Vida e a Expansão das Regiões Metropolitanas, do Instituto Escolhas e da Cepesp/FGV. Ele explica que isso tem consequências para: as famílias, que precisam gastar mais tempo e dinheiro para acessar serviços e oportunidades; a cidade, que vê um aumento dos congestionamentos e das emissões, além de uma maior ocupação do território natural; e o próprio governo, que precisa levar novas infraestruturas e serviços para localidades remotas (e nem sempre consegue).

Para mudar essa realidade, um primeiro passo é olhar para a cidade que já existe. O Brasil possui cerca de 17 milhões de pessoas morando em favelas, marcadas por infraestrutura e moradia precárias e, na maioria das vezes, informalidade fundiária. Uma política habitacional deveria priorizar esses territórios por meio de melhorias incrementais e, quando em áreas de risco, de redesenvolvimento em conjunto com a população local.

O PAC teve, entre 2007 e 2010, alguma atuação no campo de urbanização de favelas, somente recentemente retomado no Periferia Viva. Exemplos nacionais e internacionais não faltam, como o extinto Favela Bairro do Rio de Janeiro, o Urbanismo Social de Medellín ou o Vilarejo Cultural de Gamcheon, em Busan, na Coreia. Embora a comparação seja de financiamento versus investimento de capital, o orçamento do MCMV ainda é cerca de 20 vezes o do Periferia Viva.

PUBLICIDADE

Além disso, o déficit não deve ser atendido necessariamente por imóveis novos, mas também por imóveis usados bem localizados. Essa alternativa fomenta a ocupação de espaços ociosos nos centros urbanos, aproveitando a infraestrutura existente, tornando a cidade mais viva e o transporte coletivo mais eficiente.

Em 2023, o MCMV teve reformulações que tornaram mais atrativa a possibilidade de financiamento de imóveis usados. Porém, essa categoria ainda é limitada a no máximo 30% do orçamento do programa, mantendo o objetivo prioritário de impulsionar o setor da construção civil. Se o objetivo é possibilitar o acesso à moradia, e não necessariamente a sua propriedade, o aluguel social para facilitar o acesso ao estoque existente também seria bem-vindo.

Existem soluções para o MCMV, mas elas exigem uma revisão profunda dos seus objetivos, prioridades e critérios.