quinta-feira, 19 de março de 2026

Ruy Castro - '1984' versão hoje, FSP

 Certos livros deveriam ser lidos todo ano. Exemplo: "1984", de George Orwell. Sei de gente que faz isso. Desde sua publicação, em 1949, já vendeu 30 milhões de exemplares –eu próprio comprei vários, inclusive, num leilão, a primeira edição, da Secker & Warburg, de Londres. Pois, seguindo meu próprio conselho, acabo de relê-lo de novo e fiquei ainda mais assustado que da última vez. Com razão –"1984" nunca foi tão atual. Ou Orwell adivinhou tudo ou está sendo seguido à risca.

Vide as teletelas. No livro, elas ficam em todas as paredes, regulando a vida dos cidadãos, e não podem ser desligadas. Hoje estão no nosso bolso ou na palma da mão. São os celulares. Assim como as teletelas, eles nos veem e nos ouvem, queiramos ou não. Já o Grande Irmão é o algoritmo. Sabe tudo sobre nós e nos bombardeia com mensagens dirigidas aos nossos gostos, preferências e, mais que tudo, convicções, permitindo-nos viver numa bolha onde nos sentimos "pertencendo", donde protegidos.

Página de rosto da primeira edição de "1984", livros sobre Orwell e reportagem na revista Manchete, em 1974
Página de rosto da primeira edição de "1984", livros sobre Orwell e reportagem na revista Manchete, em 1974 - Heloisa Seixas

No país de "1984", o culto ao ódio é obrigatório. As pessoas são instadas a pôr para fora a sua raiva contra indivíduos ou instituições sem saber muito bem por quê. Obedecem aos haters das redes sociais, especialistas em destruir a reputação do inimigo da vez –a contaminação é imediata, e o sujeito se vê, de repente, odiando alguém de quem jamais ouvira falar. No livro, não se tem descanso, porque o país está sempre em guerra contra um inimigo a ser odiado. Só que o inimigo de hoje pode se tornar o aliado de amanhã ou vice-versa. Mas o povo reage de acordo, porque acredita em tudo que lhe injetam.

Como a verdade é agora a mentira, alteram-se textos, imagens e biografias para produzir novos "fatos" –as fake news. O povo de "1984" acredita que a Terra é o centro do Universo, em torno da qual giram o Sol e os planetas. Equivale aos que no Brasil a acham plana, telefonam para ETs, rezam para pneus e negam a pandemia.

O país de "1984" é a URSS de Stálin. Os zumbis bolsonaristas não desconfiam, mas viveriam muito bem nele.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Com produção recorde de carne, Brasil consolida liderança mundial, FSP

 Mauro Zafalon

São Paulo

A produção nacional de carne bovina atingiu 11,1 milhões de toneladas no ano passado, um aumento de 7,2% em relação a 2024, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Esses números, divulgados nesta quarta-feira (18), levam em consideração o quanto de carne bovina chegou ao mercado via abates fiscalizados por órgãos federais, estaduais ou municipais. Considerados os abates informais, feitos em fazendas e sítios para consumo próprio, o volume chega a 12,3 milhões de toneladas, segundo a consultoria Athenagro.

Ao atingir esse patamar, o Brasil, além de ser o maior exportador, se tornou também o principal produtor mundial de carne bovina no ano passado, segundo o Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos). O país chega à liderança mundial na produção antes do previsto, uma vez que o mercado só apostava nessa possibilidade em dois anos. Ganho de produtividade e demandas interna e externa deram suporte a essa evolução.

Açougueiro realiza cortes em peça de carne no Rio de Janeiro - Mauro Pimentel - 06.dez.24/AFP

Brasil passa a ocupar o lugar dos Estados Unidos, que têm uma série de gargalos na produção, principalmente devido à redução do rebanho para o menor patamar em 75 anos. Outros grandes produtores, como Austrália, também vêm tendo problemas na pecuária bovina.

Os brasileiros terminam 2025 com uma produção certificada de 31,1 milhões de toneladas de carnes bovina, suína e de frango, segundo o IBGE, 5,5% a mais do que no ano anterior. Considerando os abates informais, essa produção supera 33 milhões de toneladas.

A maior oferta dessas três proteínas ocorre tanto pelo aumento do consumo interno como pelas exportações. O consumidor nacional consome 45,5 kg de carne de frango por ano, e o consumo de carne suína subiu para 18,6 kg, segundo a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal). O de carne bovina está em 30 kg, aponta a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes).

O salto dessa evolução da produção veio com um aumento de produtividade. Em 2020, o peso médio da carcaça bovina era de 262 kg por animal, segundo o IBGE. Em setembro, pela primeira vez, atingiu 303 kg, com a produção de carne bovina superando 1 milhão de toneladas em um mês, segundo a consultoria Athenagro. A produtividade da carcaça suína, que era de 90,7 kg em 2020, está em 94,2 kg, e a de frango subiu para 2,1 kg por ave no período, pelos dados do IBGE.

No mercado externo, o país ganhou força principalmente na China. Em 2015, o Brasil vendeu 406 mil toneladas de carnes bovina, suína e de frango para os chineses. No ano passado, foram 2,1 milhões. A carne de frango brasileira teve forte demanda na China no período mais agudo da gripe aviária, e a suína, no período da peste suína africana. A bovina, além de ajudar na retração da oferta das duas anteriores, foi se incorporando cada vez mais no hábito alimentar da população que ascendia de classe.

O abate de gado somou 42,9 milhões de cabeças no ano passado, 8,2% a mais do que em 2024. Esse resultado contrariou as previsões do início do ano passado, quando boa parte do mercado acreditava em queda na oferta. Com oferta maior, o Brasil exportou 3,5 milhões de toneladas de carne bovina, 21% a mais do que em 2024, de acordo com a Abiec.

O abate de suínos indica 60,7 milhões de animais, 4,3% acima do de 2024, o que permitiu ao país exportar 1,51 milhão de toneladas dessa proteína, 12% a mais. O abate de frango rendeu 14,3 milhões de toneladas de peso em carcaça e exportações de 5,3 milhões de toneladas, segundo a ABPA.

As receitas obtidas pelo setor no mercado externo com essas três proteínas atingiram o recorde de US$ 31,4 bilhões em 2025. A maior participação do Brasil no mercado externo, atualmente o país é responsável por 11% da produção mundial, trouxe os preços externos, em alta, para dentro do país. A inflação geral foi de 45,6% do início de 2019 ao final de 2025, e a de alimentação, de 76,4%, segundo a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). Nesse mesmo período, a carne suína subiu 92%; a bovina, 93%, e a de frango, 94%, segundo o órgão de pesquisa.

O IBGE divulgou também a produção de leite, que subiu para o recorde de 27,5 bilhões de litros, 8,5% a mais do que em 2024. A aquisição de couro foi de 44 milhões de unidades, um volume 3% superior ao do número de animais abatidos com inspeção sanitária. A produção de ovos subiu para 54,4 bilhões de unidades, 5,7% a mais.

Um Nelson que volta da morte, Ruy Castro _ FSP

 Quando me falam da falta que Nelson Rodrigues, morto em 1980, está fazendo ao Brasil, sou levado a responder: "Nelson não morreu! Ainda mora ali no Leme e pode ser visto todo dia, tomando café no balcão do botequim!". E por que não? Suas expressões, como o "complexo de vira-lata", calcificaram-se na cultura de tal forma que já nem lhe pertencem mais. E rara a semana sem uma peça sua em cartaz. Mas, claro, é uma ilusão. Nelson morreu, sim, no dia 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos.

A morte foi o centro de sua vida desde o assassinato do irmão Roberto, na Redação de Crítica, jornal de seu pai, em 1929. Suas peças são conduzidas por personagens mortos ou com fixação pela morte, como "Vestido de Noiva" (1943), "Anjo Negro" (1947), "Senhora dos Afogados" (1947), "A Falecida" (1953), "Perdoa-me por me Traíres" (1957), "Beijo no Asfalto" (1960). Seu romance "Asfalto Selvagem" (1959) começa num cemitério. E inúmeros contos de "A Vida Como Ela É..." se passam em velórios, com o alarido quase imoral dos pires e xícaras e os cafajestes que acendem o cigarro na chama do círio.

Fotonovelas, revistas populares, livros e LP baseados na obra de Nelson Rodrigues
Fotonovelas, revistas populares, livros e LP baseados na obra de Nelson Rodrigues - Heloisa Seixas

A intimidade com a morte não era privilégio de Nelson. Espalhou-se por sua família, como narro no meu livro "O Anjo Pornográfico", sua biografia. E não cessou com sua morte. Há dias (25/2), morreu seu filho Nelsinho, Nelson Rodrigues Filho, depois de dez anos aprisionado num AVC. A filha de Nelsinho, Crica, e o sobrinho Sacha, netos de Nelson, encarregaram-se dos papéis, velório e sepultamento no jazigo da família no São João Batista. A Sacha coube acompanhar a transferência das ossadas de Nelson, de Cris, mulher de Nelsinho, e de sua avó Elza, para acomodar Nelsinho.

Não era uma tarefa agradável. Mas Sacha é um Rodrigues. Ao ver as caixas com as ossadas, perguntou ao coveiro qual era de quem. Este teve de abri-las para ler a inscrição no verso das tampas.

E, com isso, Sacha (que tinha nove anos quando seu avô morreu) viu, a um palmo, o que ninguém, nem ele, um dia sonhara ver: o crânio de Nelson Rodrigues.