terça-feira, 17 de março de 2026

Documentários incorporam câmeras amadoras na era em que todos filmam suas crises, FSP

  

São Paulo

Não era a primeira vez que Pavel Talankin, organizador de eventos numa escola russa, filmava estudantes. Com uma Sony A6300, câmera portátil e de fácil operação, ele costumava registrar gincanas, atividades de culinária e outras descontrações. Naquele dia, porém, foi obrigado a gravar um exercício militar com armas, envolvendo crianças.

Revoltado, ele firmou uma parceria online com o cineasta David Borenstein, e o aparelho amador virou disfarce para Talankin, que buscava denunciar a propaganda do governo russo. "Imagens são uma forma de controle, e o excesso delas, hoje, tem sido menos usado para convencimento e mais para nos desgastar", diz Borenstein, que criou um roteiro para ordenar os materiais de "Um Zé Ninguém Contra Putin", que chega ao Brasil pela Filmelier+ no próximo dia 26, e disputa o Oscar junto de Talankin.

"Por um lado, a onipresença das imagens virou parte da mídia e instrumento de ideologias modernas. Por outro, essa onipresença pode ser subvertida", afirma ainda. "Sou um pouco cético em relação à tecnologia, mas a noção sobre filmagens e câmeras se dispersou e parece que todos podem ser parte de uma história e ter algum poder em mãos."

Pavel Talankin em cena de 'Mr. Nobody Against Putin', documentário de David Borenstein indicado ao Oscar
Pavel Talankin em cena de 'Mr. Nobody Against Putin', documentário de David Borenstein indicado ao Oscar - Divulgação

O documentário não é o único da lista atual da Academia que utilizou câmeras amadoras. No subúrbio americano, tensões num bairro de classe média são retratadas por câmeras corporais da polícia. Reunidas pela documentarista Geeta Gandbhir, as gravações de "A Vizinha Perfeita" recapitulam a execução de uma mãe negra, baleada por uma mulher branca que implicava com crianças da região e foi presa em 2023.

Produzido pela Netflix, o filme é um dos favoritos ao troféu de melhor documentário e pode ser encontrado na busca por "true crime". Baseado em crimes reais, o termo designa títulos de não-ficção e vem ampliando sua popularidade via podcasts, séries e longas voltados ao cotidiano de responsáveis por atos terríveis.

Atualmente, o termo também tem gerado polêmica por ser aplicado a produções que ficcionalizam a história de criminosos reais, como Jeffrey Dahmer e os irmãos Erik e Lyle Menendez. Para Luis Felipe Labaki, pesquisador e curador do festival documental É Tudo Verdade, "A Vizinha Perfeita" mobiliza o rótulo "true crime" como estratégia de atração para um público fascinado pelo gênero, mas, ao mesmo tempo, desmonta os recursos narrativos que costumam transformar esses casos em espetáculo.

Saem de cena reconstituições criminais e depoimentos de especialistas, que costumam antecipar eventos e esclarecer jargões criminais. Em entrevista ao The Washington Post, Gandbhir disse ter priorizado a imersão e a capacidade do público de formular opiniões próprias.

Na tela, as imagens granuladas das câmeras registram os ambientes em 360 graus. A diretora preserva a longa duração desses registros e, no início, mostra policiais acionados por denúncias da mulher defendendo as crianças do bairro. Após o assassinato, porém, os agentes evitam questionar as aparências sugeridas pelo título.

No caso desse documentário, a verificação dos arquivos criminais foi assegurada pela lei de acesso à informação, mas acusações contra policiais, que supostamente desligam suas câmeras em operações irregulares, geram dúvidas sobre a credibilidade dessa fonte material.

Mesmo assim, Labaki diz acreditar que o recurso será cada vez mais utilizado. Ele cita produções como "Incident", curta vencedor do Oscar que alterna câmeras de rua com câmeras corporais ao denunciar a morte de um homem negro, e o brasileiro "Auto de Resistência", vencedor do É Tudo Verdade de 2018. Na obra, a ferramenta é usada para documentar a violência policial sistemática contra civis.

Entre as grades de uma prisão, "Alabama: Presos do Sistema", também indicado ao Oscar, segue detentos que usam celulares contrabandeados para protestar contra condições precárias. Dirigido por Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman, o projeto mistura noticiários, gravações profissionais e transmissões móveis, com imagens de baixa definição captadas numa unidade de contenção.

Disponível no HBO Max, a obra nasceu do encontro entre o Free Alabama Movement, grupo que expõe agressões frequentes e a má preservação de celas num canal de YouTube, e a dupla de diretores. Em 2003, aliás, Jarecki conquistou o Oscar com "Na Captura dos Friedmans", longa que junta vídeos caseiros de uma família e narra a condenação de pai e filho por armazenamento de pornografia infantil.

O longa mostra uma época em que captações migravam da película —comum a documentaristas como Jonas Mekas, expoente do cinema vanguardista americano— para filmadoras portáteis. Com o tempo, inclusive, esses equipamentos trouxeram novos ângulos de filmagem e possibilitaram gravações em espaços apertados.

"Hoje, numa época em que todos filmam com seus iPhones, as imagens têm se tornado extremamente baratas", afirma Borenstein. Ele sugere que cineastas como o alemão Michal Kosakowski, destaque dos anos 2000 com visuais inventivos, podem ter perdido impacto em meio ao turbilhão de estímulos digitais.

Mas a internet também auxilia trabalhos como os de Kosakowski, reunidos num site próprio em que podem ser alugados ou vistos gratuitamente. Seus temas sensíveis, que embaralham realidade e ficção ao explorar traumas de guerra, dificultam a circulação pelo mainstream. A situação é parecida com a de "Sem Chão", documentário sobre tensões entre Israel e a população palestina que penou para conseguir distribuidores mesmo depois de vencer o Oscar.

O longa despertou debates ao redor do mundo e ganhou fôlego com a criação de um portal, em que é possível fazer doações para a comunidade representada e organizar exibições beneficentes.

"Conforme câmeras compactas e lentes versáteis se reproduziram, os documentários buscaram se tornar mais cinematográficos", adiciona Borenstein, que noutras produções explorou a relação entre a internet e os usuários. "Aquele foi um tempo de muita experimentação, e a impressão que fica agora é a de estarmos aguardando uma nova revolução."

Essas transformações contribuíram para outros documentários de guerra —como "20 Dias em Mariupol", que vê a invasão à Ucrânia pela visão de jornalistas—, mas também contemplam crises pessoais e mesmo produções hollywoodianas. Exemplo disso são os diários pandêmicos que tomaram as redes e nomes como Luc Besson e Charlie Kaufman, que subverteram burocracias da quarentena e de grandes estúdios via aparelhos móveis.

Longe de ser uma necessidade recente —Labaki descreve experimentos dos anos 1920, quando filmes científicos exigiam gravações submersas, por exemplo— a praticidade oferecida por celulares não só alimenta bancos de arquivos e perfis de conteúdo, como também alinha visões de mundo.

"Esses três indicados ao Oscar partem de cineastas que incorporaram imagens produzidas por terceiros", diz. "Em 'Presos do Sistema', por exemplo, os diretores ampliaram o alcance de imagens que já faziam parte daquela rotina." Ele compara o filme de Jarecki e Kaufman com "O Prisioneiro da Grade de Ferro", documentário de Paulo Sacramento, de 2003, em que detentos do Carandiru aprendem a filmar sua rotina.

"Essas pessoas não capturavam imagens para emular o documentário de cinema, mas para melhorar a realidade delas e de muitos outros. Já eram documentaristas da sua própria realidade."

Em momento de explosão imobiliária, São Paulo vira capital da demolição, FSP

São Paulo

Construída na segunda metade do século 20, São Paulo está vindo abaixo. Uma notícia recente de um prédio tombado que tem grandes chances de virar entulho é o da Escola Panamericana de Artes e Design, na avenida Angélica, em Higienópolis. A proprietária do imóvel pediu seu destombamento alegando que ele não tem relevância arquitetônica, urbanística ou afetiva.

Apesar do Conpresp (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo), na semana passada, ter adiado qualquer decisão sobre o caso, o prédio projetado pelo arquiteto Siegbert Zanettini corre o risco de ceder lugar para um grande edifício, seguindo a tendência que se intensifica na capital.

A imagem mostra o interior de um edifício em ruínas, com paredes parcialmente derrubadas e entulho espalhado pelo chão. Há uma escada de tijolos visível, levando a um andar superior, e uma parede amarela ao fundo. O ambiente parece desolado e em processo de demolição.
Casa sendo demolida na rua Mateus Grou, 100, no quadrilátero Vilas do Sol, em Pinheiros - Rafaela Araújo/Folhapress

Só no ano passado, a Prefeitura de São Paulo concedeu 3.824 alvarás de demolição, o que dá uma média de 10,5 imóveis desaparecendo por dia. É um recorde histórico diretamente associado ao apetite das incorporadoras e construtoras. O número representa um crescimento de 10% em relação a 2024.

O prédio da Escola Panamericana é só um exemplo. Os principais alvos dessa destruição programada são casas térreas, sobrados e pequenos edifícios antigos em bairros valorizados como Pinheiros, Vila Mariana, Mooca, Lapa, Santo Amaro e áreas próximas das estações do metrô.

Para efeito comparativo, entre 1997 e 2012, a média de imóveis demolidos por dia era de dois, levando em consideração os alvarás emitidos. Em pouco mais de uma década, o número quintuplicou, o que tem levado a uma transformação vertiginosa da paisagem urbana.

Vista de baixo para cima de um edifício com estrutura metálica vermelha e elevadores externos cilíndricos em verde e azul. O céu azul com nuvens ao fundo destaca o design industrial e futurista da construção.
Prédio sede da Escola Panamericana de Arte, na avenida Angélica, está ameaçado de demolição - Antônio Sagessi/Divulgação

Diante desse quadro, o Tribunal de Justiça de São Paulo, a partir de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade movida pelo Ministério Público, suspendeu liminarmente a emissão de novos alvarás de demolições, obras e de supressão de vegetação na cidade por causa de incongruências na Lei de Zoneamento, revista em julho de 2024.

Na última sexta-feira (13), a prefeitura apresentou um pedido de reconsideração da liminar, que não foi aceito por carecer "de qualquer respaldo no regramento processual vigente". A Câmara Municipal recorreu ao STF, alegando que a decisão do tribunal "paralisou o setor da construção civil em São Paulo".

A interferência judicial veio a calhar. Embora haja resistência de moradores à destruição em certas regiões, como a Vilas do Sol, em Pinheiros, e a Chácara das Jabuticabeiras, na Vila Mariana, ela é pontual e não consegue se alastrar por toda a cidade e fazer frente às vantagens financeiras oferecidas pelas incorporadoras aos donos dos velhos imóveis. Uma boa parte deles está disposta a se desfazer de suas propriedades, colocar um bom dinheiro no bolso e a mudar de endereço.

O movimento de demolição está diretamente atrelado a falhas identificadas pelo Ministério Público na Lei de Zoneamento. Mas também pesa a falta de terrenos vazios na metrópole e a grande valorização do metro quadrado em algumas áreas.

Quatro pessoas em fila seguram cartazes com a frase 'CHEGA DE PRÉDIOS' em letras maiúsculas. Ao fundo, há um caminhão amarelo estacionado e construções residenciais visíveis.
Moradores da Vila Mariana protestam contra a pressão das incorporadoras para a compra de casas - Karime Xavier/Folhapress

Demolição e construção caminham lado a lado. São Paulo passa por um momento de explosão imobiliária e para cada conjunto de casas que desaparecem um ou mais prédios sobem, aumentando a verticalização e o adensamento populacional em várias regiões, o que não é necessariamente ruim. O problema é a velocidade e a falta de limites dessa mudança.

Seria desejável que houvesse mais áreas de preservação, como são os Jardins, por exemplo. A percepção atual é de que se perde qualidade de vida e uma parte importante da história arquitetônica da cidade está sendo sumariamente apagada. Diante desse cenário, a decisão do tribunal é muito bem-vinda.

Vilas que contam a história da cidade estão desaparecendo, bairros que pareciam cidades do interior ganham ares cosmopolitas e espaços de memória caem no esquecimento. Estabelecimentos comerciais que faziam parte da rotina e da história da vizinhança também deixam de existir. Se nada for feito, a maior parte das tentativas de resistir ao avanço das demolições vai se transformar em saudosismo.

Super-atletas, FSP

 Marcus Campos

Professor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp

Bruno Gualano

É professor do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP. Também é autor de 'Bel, a Experimentadora'

Idealizado pelo australiano Aron D’SouzaThe Enhanced Games (Jogos Aprimorados) é um evento esportivo no qual o doping não apenas é permitido, mas incentivado. A organização compensa com US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,2 milhões) cada atleta que bater um recorde mundial. Atletismonatação e levantamento de peso compõem a edição inaugural, em maio de 2026, em Las Vegas. Além de super-humanos, os Jogos prometem gerar boas discussões éticas e científicas.

D’Souza e seus acólitos são críticos das políticas da World Anti-Doping Agency (WADA). Primeiro, por restringirem o potencial inalienável do homem de ser a melhor versão de si, com o auxílio de todas as ferramentas disponíveis para isso (leia-se doping). Segundo, porque o controle de doping seria uma miragem: por mais que os protocolos de detecção tenham avançado sobremaneira nas últimas décadas, o desenvolvimento de drogas novas e não rastreáveis sempre estaria um passo à frente, impossibilitando uma competição verdadeiramente limpa.

A imagem mostra um braço musculoso de um homem, com a pele exposta e bem definida. Ele está segurando uma seringa, apontando-a para o próprio braço, como se estivesse prestes a se injetar. O fundo é de cor escura, destacando a musculatura do braço e a seringa.
The Enhanced Games (Jogos Aprimorados) estimula o uso de drogas para melhorar a performance esportiva - Zamuruev/Adobe Stock

É possível conceder algo a esse argumento. Há evidências de que o número de atletas que admitem, anonimamente, se dopar é superior ao número de casos detectados pelas agências de controle. Daí se segue que, em alguma medida, a trapaça tem feito parte do esporte. Com a abertura ao doping, todos competiriam em igualdade de armas.

Restaria o contra-argumento de que o doping impõe riscos à saúde do atleta, e por isso, sua permissão seria incabível. Aparentemente, é um bom ponto, mas que perde força na medida em que distanciamos o esporte de uma visão romanesca de arquétipo de saúde.

Atletas de ponta estão frequentemente sujeitos a treinamentos extenuantes, dietas rigorosas, estresse psicológico, dor e lesões rotineiras. Em modalidades como o boxe e o MMA, a vitória advém de ferir o adversário a ponto de que este não consiga mais competir. Esses traços lembram que a saúde não é o enfoque do esporte de elite; por isso, o uso de substâncias dopantes, ainda que arriscado, não seria estranho nesse contexto.

Mas o negócio do Enhanced Games não é a elite do esporte. Esta é mera vitrine para mercadorias valiosas em nossos dias: o bem-estar e o desempenho. A empreitada, patrocinada por anarcocapitalistas, tecnolibertários e transumanistas, entre os quais Donald Trump Jr., tem como visão "criar o movimento científico, cultural e esportivo definitivo que evolua com segurança a humanidade para uma nova super-humanidade". Aos candidatos a super-humanos, oferece "uma linha premium de soluções baseadas em evidências científicas, projetadas para aumentar força, energia e longevidade". O elixir? Anabolizantes e suplementos.

Ocorre que a ciência não avaliza nenhuma forma segura de uso de testosterona, nem mesmo sob supervisão médica. Quem busca nos anabolizantes a imortalidade acaba por apressar o seu oposto. Quanto aos suplementos, vale a máxima: se funcionam, provavelmente são proibidos; se não são proibidos, provavelmente não funcionam.

O leitor ainda disposto a navegar pelo site do evento e compartilhar algumas informações pessoais com o robô interlocutor sairá com uma prescrição anabólica para chamar de sua —mediante pagamento. Assim, a esperança num Übermensch de Nietzsche se desfaz na vulgaridade de um marketplace de verniz futurista.

Embalado pelo desejo humano de eterno aperfeiçoamento, o Enhanced Games é obra da indústria cultural —hábil em embalar como novidade mercadorias requentadas. O evento é mais um a acotovelar-se na prateleira dos esportes em que o doping é estrutural —como no fisiculturismo— ou recorrente, como no Ultimate Fighting Championship (UFC) e na National Football League (NFL). O recorde que lhe importa bater é o de lucro dos congêneres.