quarta-feira, 11 de março de 2026

Raízen entra com pedido de recuperação extrajudicial para renegociar dívida de R$ 65 bi- FSP

 

São Paulo

A Raízen protocolou nesta terça-feira (10) pedido de recuperação extrajudicial para renegociar dívidas de R$ 65 bilhões. A empresa, uma joint venture entre Cosan e Shell, enfrenta há meses uma crise por causa do endividamento.

Diferentemente do plano de recuperação judicial, em que todas as dívidas do grupo (trabalhistas, com fornecedores, bancos etc.) são renegociadas na Justiça, na recuperação extrajudicial a companhia escolhe um grupo de credores para fechar uma negociação e homologá-la depois junto ao Judiciário.

Também nesta terça, o Grupo Pão de Açúcar recorreu ao mesmo recurso, com dívida de R$ 4,5 bilhões.

Vista aérea de vários tanques cilíndricos brancos de armazenamento em terminal industrial da Raízen, com tubulações e passarelas amarelas conectando-os. Área cercada por vegetação ao fundo e caminhões estacionados à direita.
Tanques de combustível em centro de distribuição da Raízen em São Paulo - Amanda Perobelli -20.ago.25/Reuters

A Raízen conseguiu adesão de detentores de mais de 40% do valor. Após o pedido, a empresa tem um prazo de 90 dias para elevar o atual apoio para a maioria simples (50% mais um), atingindo o quórum necessário para a validação do pacto. Durante esse período, não há pagamento da dívida principal nem de juros.

A companhia, que atua na produção de etanol e açúcar e na distribuição de combustíveis, produtos e serviços por meio da marca Shell, escolheu a recuperação extrajudicial para preservar caixa para o pagamento de fornecedores e funcionários.

Entre os credores da companhia há cerca de 15 bancos e detentores de títulos no mercado financeiro. De acordo com pessoa familiarizada com o assunto, a ideia é que os credores possam converter cerca de 40% em ações da companhia. Esse ponto ainda será negociado.

Pelo acordo, ficou acertado que a Shell vai injetar R$ 3,5 bilhões na empresa, como já havia sido adiantado há algumas semanas. O Aguassanta Investimentos, fundo da família de Rubens Ometto, controlador da Cosan, deve colocar os outros R$ 500 milhões.

A reestruturação inclui ainda o plano de venda da operação da Raízen na Argentina, com o objetivo de levantar US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bilhões) até abril. Com essas medidas, a expectativa é reduzir a relação dívida líquida/Ebitda de 5,5 vezes para algo entre 2,5 e 3 vezes.

O plano de recuperação extrajudicial está sendo liderado por Lourival Luz, ex-presidente da BRF (atual MBRF) e atual diretor financeiro da Raízen.

O caminho da empresa até o atual cenário financeiro aconteceu rapidamente e se deu por uma série de fatores.

Uma das maiores empresas de energia e bioenergia do mundo, a Raízen é uma joint venture que opera, desde 2011, a bandeira Shell no Brasil e na Argentina. Em agosto de 2021, quando realizou o segundo maior IPO (oferta pública inicial, em inglês) da bolsa brasileira, a companhia levantou R$ 6,9 bilhões e era avaliada em R$ 74,4 bilhões.

À época, a expectativa do mercado era forte no crescimento de biocombustíveis e energia limpa, atividade da qual a Raízen é dominante no país.

O modelo de negócio, no entanto, foi colocado à prova com dificuldades como condições climáticas e o aumento das queimadas. Em situações como essa, a safra de cana é diretamente impactada e a produção de açúcar e etanol é reduzida, pressionando as receitas e margens da companhia.

Além disso, com a Selic acima dos 10% ao ano, a partir de 2022, a operação da companhia ficou ainda mais complicada. Com juro caro, ficou difícil injetar dinheiro novo na operação através da captação no mercado.

O forte movimento de expansão também cobrou seu preço. A aquisição da Biosev, em 2021, por um total de R$ 6,5 bilhões era apontada pela companhia como importante para ampliar o parque industrial de cana-de-açúcar no país. O negócio, no entanto, se mostrou pouco rentável e exigiu altos investimentos em maquinário para aperfeiçoar as plantas da Biosev.

O próprio ciclo do açúcar, que até 2021 estava aquecido, acabou revertido. Fora isso, apostas mais sustentáveis, como o SAF (combustível sustentável de aviação) e o etanol de segunda geração, não deram retorno financeiro esperado.

No terceiro trimestre da safra 2024/2025, por exemplo, a Raízen registrou prejuízo de R$ 2,5 bilhões ante lucro de R$ 793 milhões no mesmo período do ano anterior.

Para a safra de 2025/2026, a deterioração dos resultados foi ainda maior: no 2° trimestre houve prejuízo líquido de R$ 2,3 bilhões e a dívida líquida ultrapassou R$ 53 bilhões.

Como forma de reverter prejuízos, a companhia passou a vender ativos, plantas de energia e usinas. Em julho do ano passado, a companhia vendeu as usinas Santa Elisa, por R$ 1,04 bilhão, e Leme, por R$ 425 milhões (ambas adquiridas da Biosev anteriormente), a usina Continental, por R$ 750 milhões, repassou projetos solares (pouco mais de R$ 1 bilhão) e negocia refinarias na Argentina que podem render US$ 1 bilhão.

A joint-venture formada com a Femsa pelo controle da rede de mercadinhos de bairro Oxxo cambaleou e no mês passado a Raízen saiu formalmente do negócio.

Em outubro, a Raízen tentou cessar rumores e negou ao mercado que estivesse considerando uma recuperação judicial. Segundo fato relevante, a posição de caixa era "robusta", com R$ 15,7 bilhões em disponibilidades.

Ainda assim, no mesmo comunicado a companhia afirmava que os acionistas controladores discutiam alternativas de capitalização para fortalecimento da estrutura de capital e estratégia de longo prazo.

Já na virada do ano, a Bloomberg afirmou que Shell e Cosan discutiam uma injeção de capital de R$ 10 bilhões. O BTG Pactual, que nos últimos anos ampliou sua participação acionária na Cosan, entraria como um potencial parceiro.

No último dia 9, a companhia comunicou a contratação de consultores financeiros e jurídicos para desenvolver alternativas de fortalecimento de liquidez e otimizar estrutura de capital. Foram chamados para assessoramento legal e financeiro os escritórios Pinheiro Neto, Cleary Gottlieb e Rothschild.

As atualizações dos balanços trimestrais e a contratação de advogados levaram a uma revisão das agências de classificação, que passaram a enxergar risco elevado na operação devido à alta alavancagem e geração de caixa fraco.


RAIO-X | RAÍZEN
Fundação: 2011
Sede administrativa: Piracicaba (SP)
Funcionários: 45 mil
Concorrentes: Vibra, Ultrapar
Receita líquida: R$ 60,4 bilhões (entre outubro e dezembro de 2025)
Prejuízo líquido: R$ 15,6 bilhões (entre outubro e dezembro de 2025)

Flávio Bolsonaro surpreendeu- Elio Gaspari, FSP

 A notícia não podia ser pior para o PT. Numa simulação para o segundo turno, o Datafolha mostrou que Lula (46%) e Flávio Bolsonaro (43%) estão tecnicamente empatados. A avaliação negativa do governo chegou a 40% e 49% desaprovam o trabalho de Lula. Quando se vai para a rejeição, estão novamente empatados: Lula (46%) e Flávio (45%).

Lula já surfou com sucesso em outras pesquisas e faltam sete meses para a eleição. Flávio Bolsonaro até agora jogou parado, à sombra do pai preso.

Pode-se atribuir os números do Datafolha a uma polarização que envenena as eleições desde 2018. Os números do terceiro mandato de Lula indicam que há algo de injusto nesse empate com Flávio. A economia anda de lado, mas o Brasil saiu do mapa da fome, a renda dos trabalhadores melhorou e o desemprego caiu a níveis inéditos.

Dois homens em trajes formais falam em microfones. O homem à esquerda tem cabelo branco, barba branca e usa terno escuro com gravata vermelha, sorrindo. O homem à direita tem cabelo escuro, usa óculos, terno azul e gravata azul clara, gesticulando com a mão direita.
Na justaposição de imagens, o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) - Pedro Ladeira e Danilo Verpa/Folhapress

Uma explicação pode estar no próprio Lula. Três dias depois da divulgação do Datafolha, Lula recebeu o presidente da África do Sul e repetiu sua encíclica diplomática. Ele faz campanha no Itamaraty e tomou gosto pela autolouvação (71% dos entrevistados pelo Datafolha condenaram o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói). Ulysses Guimarães ensinava que o Itamaraty só dá votos no Burundi.

O silêncio e o absenteísmo de Lulinha começam a pesar mais para Lulão do que o encarceramento de Jair Bolsonaro para o desempenho de seu filho. Pode-se achar que há uma desproporção nesse resultado, mas assim é a vida. O silêncio de Lulinha tornou-se um peso morto para o pai.

A ascensão surpreendente de Flávio Bolsonaro será mais um estímulo para que a Faria Lima faça sua escolha. Lula recebeu Daniel Vorcaro numa brecha de sua agenda. O banqueiro foi levado ao presidente pelo ex-ministro Guido Mantega, seu consigliere. O simples fato de Mantega estar no Planalto comboiando Vorcaro seria suficiente para que os assessores de Lula dissessem que os dois seriam recebidos se a audiência tramitasse pelos devidos canais. Só a onipotência explica esse encontro. Lula acautelou-se colocando testemunhas na conversa. Sabendo o que sabia do Banco Master, Lula teria feito melhor recusando-se a receber Vorcaro.

Onipotência, na política, é prima do salto alto, e são vários os conhecedores de Brasília que se revelam surpresos com a altura do salto petista. Lula tem sete meses para calçar as sandálias da humildade.

Só o tempo explicará a decisão de Lula de atirar o ministro Fernando Haddad na frigideira de uma disputa com o governador Tarcísio de Freitas. Enquanto o governo de Lula tem 40% de avaliação negativa, o de Tarcísio tem 45% de avaliação positiva.

Lula 3.0 cultiva uma agenda internacional que coleciona o êxito da neutralização do estrago feito pelos bolsonaristas na Casa Branca, que envenenaram a relação de Donald Trump com o Brasil. A volatilidade do presidente americano recomenda que esse sucesso seja sorvido com cautela.

Flávio Bolsonaro não poderá ir longe jogando parado. Sua primeira bola de ferro será a defesa de uma anistia para o pai, rejeitada por 54% numa pesquisa de setembro de 2025.