domingo, 1 de março de 2026

Camilo Santana perdeu oportunidade de discutir os resultados do Censo Escolar, Elio Gaspari, FSP

 O ministro da Educação, Camilo Santana, resolveu reagir aos números do Censo Escolar com o jogo do contente: "O número de matrículas na educação básica reduziu, perdemos um milhão de matrículas apenas no último ano. Mas isso não é um problema, é na verdade um bom sinal de que nosso sistema educacional está mais eficiente".

"A queda de matrículas também está relacionada à diminuição da repetência. Os alunos estão repetindo menos e, com isso, a gente deixa de ter um inchaço no sistema educacional com alunos fora da série em que deveriam estar."

Homem de meia-idade com cabelo grisalho veste terno azul e camisa branca, gesticulando com as mãos abertas em escritório com bandeira do Brasil ao fundo.
O ministro da educação, Camilo Santana, durante entrevista em seu gabinete - Pedro Ladeira - 24.fev.26/Folhapress

O ministro elogiou sua gestão e chegou a criticar reportagens que mostravam a queda no número de matrículas.

Sumiram 1 milhão de matrículas, e o sistema melhorou. Quem acredita nisso ganha um fim de semana na Groenlândia. Alguns fatores citados por Santana são verdadeiros, pois a queda de matrículas na educação básica reflete um dado demográfico real. Havendo menos crianças, haverá menos matrículas.

Esse fator não explica a queda no ensino médio, onde o governo investiu mais de R$ 16,6 bilhões em 2025, com o programa Pé-de-Meia, concedendo ajudas a 4 milhões de jovens do ensino médio. As redes estaduais públicas, que concentram 80% dos alunos, perderam 428 mil matrículas entre 2024 e 2025. Já a rede privada teve uma pequena alta de 0,6%.

Santana perdeu uma oportunidade de discutir os resultados do Censo Escolar. Pena.

Flávio Bolsonaro não está tão parado quanto parece, Elio Gaspari, FSP

 Parecendo jogar parado, Flávio Bolsonaro aparece empatado numa pesquisa sobre o segundo turno contra Lula, e o Planalto acordou.

Flávio Bolsonaro não está tão parado quanto parece. Cinquenta e cinco apoiadores de sua candidatura pagaram para impulsionar críticas ao PT pelo desfile da Acadêmicos de Niterói. Receberam entre R$ 100 e R$ 300.

Essa técnica foi uma das marcas da campanha de seu pai, que gerou o Gabinete do Ódio.

Tudo bem, mas foi a escola de samba quem resolveu desfilar criticando as famílias conservadoras.

Homem de terno azul e gravata azul com padrão branco levanta as duas mãos abertas à frente do corpo, sentado em cadeira de madeira com estofado vermelho. Ao fundo, parte da bandeira do Brasil é visível. Sobre a mesa à frente, há duas garrafas de água e um copo de vidro.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante homenagem a Valdemar Costa Neto, presidente do PL, na Alesp - Danilo Verpa - 27.fev.26/Folhapress

Zema de colete

Quando era um novato na política, o governador Romeu Zema queixou-se porque molhou os sapatos ao visitar uma região alagada.

Passou o tempo e o governador ilustrou-se, vestindo um colete-emergência. Mudou o modelo, e ele e sua equipe passaram a vestir um colete tão colorido que, pelo andar da carruagem, na próxima enchente irão à região inundada num carro alegórico.

Lula e seus herdeiros

Lula parece prestes a convencer Fernando Haddad a disputar o Governo de São Paulo. Hoje, o ministro da Fazenda não parece páreo para o governador Tarcísio de Freitas, que o derrotou há quatro anos.

Olhando a manobra com boa vontade, Haddad iria para o sacrifício porque não há melhor alternativa.

Olhando com má vontade, essa seria a quarta derrota eleitoral de Haddad. Como dizia um cacique oposicionista: "Lula é um urso que come o dono".

A Cargill foi invadida e o governo cedeu, Elio Gaspari, FSP

 Em agosto do ano passado, os çábios de Brasília soltaram o decreto 12.600, incluindo milhares de quilômetros de hidrovias em trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Plano Nacional de Desestatização. A iniciativa abria o caminho a estudos para avaliar uma eventual concessão de serviços de navegabilidade, dragagem e manutenção dos canais. Há anos, o Arco Norte da Amazônia, com suas rotas fluviais, transporta cerca de 40% das exportações nacionais de soja e milho.

Desde a assinatura do decreto por Lula, uma dezena de povos indígenas combatem o que chamam de venda desses rios. Assim como sucede com as eventuais reservas de petróleo da Margem Equatorial, o governo diz que pretende apenas estudar a opção. Fica combinado assim. O decreto fala em dispensa de licenciamento ambiental. (O garimpo ilegal poluiu com mercúrio o leito do Tapajós e uma dragagem revolveria a terra, contaminando as águas.)

Homem caminha descalço em rua carregando uma lança longa com ponta vermelha. Ao fundo, barricada improvisadas, folhas secas espalhadas e edifícios urbanos.
Barricada em frente ao terminal portuário da Cargill em Santarém (PA) - Adriano Machado - 23.fev.26/Reuters

Passou o segundo semestre, o caso parecia ser apenas uma guerra de palavras.

No dia 22 de janeiro, a encrenca mudou de aspecto: indígenas e seus aliados bloquearam o acesso de caminhões ao terminal da Cargill no porto de Santarém. A Cargill opera em 70 países e é uma das maiores negociantes de grãos do mundo. Em 2021, exportou 6 milhões de toneladas por esse terminal.

Os manifestantes pediam a revogação do decreto 12.600. (A Cargill nada tem a ver com o estado presente do debate em torno do decreto de agosto.) Seguiram-se outros bloqueios. Em 13 de fevereiro, o Tribunal Regional Federal concedeu uma liminar à empresa dando 48 horas para que o bloqueio fosse encerrado. Palavras ao vento. Seis dias depois, uma barcaça da Cargill foi interceptada.

Na madrugada do dia 21 de fevereiro, os manifestantes dobraram a aposta e invadiram o terminal da Cargill, 42 funcionários abrigaram-se por três horas em salas trancadas. Um manifestante exaltado disse, num vídeo, que destruiria instalações do terminal.

Não foi preciso. Na segunda-feira (23), o governo revogou o decreto 12.600 e seus efeitos. Mandou parar tudo, inclusive as análises neutras da hidrovia do rio Tapajós e de trechos dos rios Madeira e Tocantins.

Para quem joga com as canetas de Brasília, o caso estaria resolvido. O terminal da Cargill foi invadido, o decreto foi revogado e todos passaram a viver na paz da Amazônia.

Faltou combinar com a Cargill. A empresa financia projetos para a plantação de cacau no Pará, inclusive em áreas de pastagens degradadas. Há um estudo para que ela venha a investir até US$ 250 milhões no cultivo de cacau na região, gerando milhares de empregos e beneficiando populações originárias. (Nos últimos cinco anos, a Cargill investiu no Brasil mais de R$ 8 bilhões.)

Diante dos acontecimentos de Santarém, com a exposição da insegurança jurídica que ele produziu, em questão de dias o projeto do cacau amazônico migrou para o Equador.