quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Dos 77 aos 78, Ruy Castro, FSP

 Em 2002, aos 77 anos, meu sogro, Delio Seixas, fã de futebol e torcedor do Fluminense, perguntou-se a quantas Copas do Mundo ainda assistiria depois daquela que estava para começar no Japão/Coreia do Sul. Afinal, já era um recordista no gênero. Pelo rádio ou pela TV, acompanhara todas de 1938 em diante (a de 1950, ao vivo, no Maracanã), o que significava, até então, 14 Copas no seu cartel. Modesto, calculou que, no tempo que lhe restava, seriam talvez mais duas. Mas Delio subestimou-se: viveria até os 97 anos, maravilhosamente saudável e lúcido, com o que torceu pelo Brasil em mais seis Copas, até a de 2022.

Bem, despedindo-me nesta quinta-feira (26) dos meus próprios 77 anos, não tenho ideia de quantas Copas me restam nem isso me altera o sono —as de 1958 e 1970 já terão sido suficientes. Só sei que não atingirei a marca de Delio. Alto funcionário do Banco Central, ele nunca fumou ou bebeu e levou a vida fazendo esporte, dormindo cedo e comendo salada. Eu, ao contrário, até os 40 anos vivia pela madrugada, pulando janelas, cercado de más companhias e resistindo a tudo, menos às tentações. Depois regenerei-me e me tornei um cidadão exemplar, ou quase. Mas nunca se sabe quanto, um dia, nos custarão os prazeres.

Como dizia Groucho Marx, a velhice não é uma grande coisa —basta viver para chegar até lá. Mas alguns parecem querer se antecipar a ela. Tom Jobim, que morreu tão cedo, aos 67 anos, já se sentia velho muito antes. Certa vez, na rua, alguém lhe perguntou: "Hei, Tom, o que você está compondo?". E ele: "Não estou compondo. Estou decompondo!". E Nelson Rodrigues, que também morreu com inacreditáveis 68, escreveu várias vezes: "Eu sou uma múmia, com todos os achaques das múmias".

Nelson e Tom eram de uma geração em que os 50 anos já pareciam levar à reta final. Hoje, com essa idade, o cidadão ainda não chegou nem à primeira curva. Segundo meu médico, os 78 anos de agora são os 55 de até outro dia.

Ótimo. Outra grande vantagem dos 78 é que ainda falta um ano para os 79.

Discurso de Trump no Congresso desafia realidade, e democratas caem na arapuca, Lúcia Guimarães - FSP

 O discurso presidencial sobre o Estado da União, proferido há 236 invernos americanos, é uma função constitucional do cargo, uma ocasião cerimonial em que o chefe de Estado relata ao Legislativo e ao povo o que fez e pretende fazer no cargo. Não deve se assemelhar a um baile funk ou a um comício em Sucupira.

O cenário na segunda-feira (23) à noite no Congresso provocaria um ataque de nervos em George Washington, o primeiro presidente a fazer o discurso, no sul de Manhattan. A última chance de Donald Trump para capturar uma audiência nacional simultânea antes da eleição de novembro foi, como se esperava, desperdiçada porque não faz parte do DNA do presidente admitir que a União anda num estado delicado.

Homem de cabelos claros e terno escuro com gravata vermelha está em púlpito de madeira, apontando com as duas mãos à frente, com expressão séria. Dois microfones estão posicionados à sua frente.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, gesticula durante discurso do Estado da União, no Congresso americano, em Washington - Andrew Caballero-Reynolds - 24.fev.26/AFP

Sim, ele fez do discurso um comício de 108 minutos —o mais longo da história— e provavelmente a audiência começou a cair depois de meia hora.

Quem sabe se os eleitores independentes, o bloco sem o qual Trump não teria conseguido se reeleger, ainda prestavam atenção ao discurso quando o presidente qualificou a principal questão para qualquer americano —o custo de vida— como "uma mentira suja e repugnante" perpetrada por democratas. O apoio dos independentes a Trump despencou para uma baixa recorde de 26%, de acordo com uma nova pesquisa da rede CNN.

Mas os democratas parecem aparvalhados. Onze anos depois de o empresário nova-iorquino ter descido a escada rolante para anunciar a primeira candidatura, a oposição ainda não conseguiu se adaptar ao mundo pós-verdade e apresentar uma frente articulada para lidar com o país aprisionado numa casa do Big Brother. Gritar da plateia no meio do discurso não é tática de oposição.

Um repórter da revista The Atlantic recentemente ligou para uma veterana consultora política que se desligou do Partido Republicano por causa do trumpismo e hoje se alinha aos democratas. Ela ainda reúne grupos focais semanalmente para tomar o pulso de diferentes segmentos de eleitores.

Ao ser indagada sobre o ânimo da oposição, começou a gritar no telefone: "Os republicanos estão em campo como mercenários, enquanto os democratas estão dando folga para todo mundo nas sextas-feiras para conversar sobre o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal", disse Sarah Longwell.

Além de pedir aos americanos para não acreditarem na realidade que teima em dominar seu cotidiano em custo de vida, empregos e acesso à assistência médica, o presidente não ofereceu soluções para os problemas que ele nega existir. Citou com rancor a habitual lista de culpados, distribuiu medalhas e, acima de tudo, prestou tributo a si mesmo.

Mas as consequências da noite produzida como reality show não serão imediatamente sentidas por americanos. O público mais ansioso com o discurso não vai votar em novembro e vive a oceanos de distância de Washington.

Depois de Trump encorajar os protestos que resultaram no massacre de possivelmente 30 mil pessoas, os iranianos não ouviram qualquer definição clara do socorro oferecido pelo presidente que, sabemos, está assustado com os alertas feitos pelos comandantes militares sobre o risco de um ataque.

E, no país mais existencialmente ameaçado pelas mudanças de humor de Trump, os ucranianos não ouviram uma só frase indicando que os EUA vão usar seu poder para deter Vladimir Putin.

Nunes demite presidente da SPTuris e adjunto após denúncias, Demétrio Vecchioli, Metropoles

 O prefeito Ricardo Nunes (MDB) anunciou, nessa quarta-feira (25/2), pelas redes sociais, a demissão de Rodolfo Marinho, secretário adjunto de Turismo da cidade de São Paulo e ligado ao vereador Gilberto Nascimento Jr (PL), e do presidente da São Paulo Turismo (SPTuris), Gustavo Pires, que chegou ao cargo devido à grande proximidade com o ex-prefeito Bruno Covas.

Na sexta-feira (20/2), a coluna Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, revelou que Marinho era sócio de Nathália Carolina de Silva Souza quando esta fundou a agência MM Quarter. Assim que ele se tornou secretário de Turismo, nomeado por Nunes, em 2022, a Quarter passou a ser contratada de forma contínua pela SPTuris e pela própria secretaria de Turismo.

Atualmente, a Quarter tem R$ 232 milhões em contratos vigentes com a prefeitura de São Paulo. O prefeito não explicou por que manteve no cargo o atual secretário de Turismo da prefeitura, superior de Marinho, o pastor evangélico e deputado estadual Rui Alves (Republicanos).

No vídeo publicado no Instagram, Nunes conta que determinou que a Controladoria-Geral do Município (CGM) investigasse o caso ainda na sexta-feira, após reportagem desta coluna, e que a CGM descobriu uma procuração de Nathália para Rodolfo, sem dar mais detalhes.

“Vocês devem ter acompanhado, no dia 20 saiu uma matéria trazendo denúncias sobre uma empresa fornecedora da prefeitura de São Paulo. Hoje, a controladoria me trouxe documentos referentes a esta apuração. Dentro desses documentos, uma procuração da Nathália para o secretário adjunto Rodolfo Marinho. Por causa disso, estou demitindo, exonerando, o senhor Rodolfo Marinho”.

No mesmo vídeo, Nunes também anuncia que está nomeando o “Coronel Salles” (Marcelo Vieira Salles), ex-comandante da Polícia Militar, para presidir a SPTuris. Isso significa a demissão de Gustavo Pires, que ocupava o cargo. Pires, porém, não foi citado nominalmente pelo prefeito. Salles foi vereador pelo PSD e subprefeito da Sé.

Esta coluna mostrou que Nathália, que é a dona da Quarter no papel, informava à Junta Comercial, desde que fundou a agência com capital de R$ 1,2 milhão, que morava em um cortiço na zona norte. A coluna esteve lá e descobriu que Nathália vivia em um quarto e sala alugado com outros três familiares, mesmo depois de tirar R$ 14 milhões de lucro da Quarter em 2024.

A Quarter, que é administrada pelos irmãos Victor e Marcelo Correia Moraes, nega que Nathália fosse laranja. Na segunda, informou à Junta Comercial um novo endereço residencial para Nathália, uma sala comercial na zona sul.

A agência só tem mais de R$ 200 milhões em contratos com a SPTuris e com a Secretaria de Turismo porque, sempre que precisa renovar os contratos feitos sem licitação, ambas recorrem a pesquisas de mercado em que cotam preços com a VM Produções, de Victor Moraes, e a Oleiro, de Claudete Santos, que vem a ser a principal coordenadora da empresa.

Nesta quarta (25), a coluna mostrou que a Secretaria de Turismo, sob comando de Rui Alves, que segue no cargo, tem renovado o contrato para que a Quarter gerencie o Centro de Informações Turísticas (CIT) da cidade por R$ 12 milhões ao ano, apesar de a empresa não entregar itens visíveis, como TV de 85 polegadas e mapa tátil, que custam R$ 200 mil ao ano ao município.

Pelo mesmo contrato, a prefeitura de São Paulo bancou um salário de R$ 76 mil para Bárbara Moraes, irmã de Victor e Marcelo, no mês passado. Nunes recebe metade disso.