quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Roberto Fernandes e Leão Serva - Queima de resíduos é tão insustentável quanto acusação de interesses escusos - FSP (réplica)

 Roberto Fernandes

Ex-presidente e diretor-executivo da Fundação Florestal de São Paulo

Leão Serva

Jornalista, é professor de ética jornalística (ESPM-SP) e ex-secretário de Redação (1988-92) e colunista da Folha (2013-18); autor de 'Jornalismo e Desinformação' (Senac)

A acusação de "conspiração estrangeira" para desqualificar a resistência ambiental passou a ser uma espécie de clichê. O caso arquetípico é o do "ogronegócio" amazônico, dependente do comércio multinacional, mas que acusa seus críticos de serem financiados por "interesses internacionais", como se vê atualmente na disputa em torno do rio Tapajós.

É nesse registro que se insere o artigo "A guerra financiada contra a geração de energia a partir do lixo" (20/2), publicado nesta Folha, em defesa da queima de resíduos sólidos para geração de energia (Waste-to-Energy - WtE).

Unidade de recuperação energética de resíduos em Dublin, Irlanda - Clodagh Kilcoyne - 30.ago.2023/Reuters

A proposta é apresentada como solução limpa e eficiente para um problema antigo: transformar lixo em energia por meio de tecnologias modernas de combustão. Em vez de apresentar dados, custos, comparação com alternativas e impactos sobre reciclagem, os autores preferem insinuar que ONGs críticas ao WtE seriam financiadas por entidades norte‑americanas e europeias. Apontam um suposto estudo com fake news, sem dizer qual é nem refutar seu conteúdo. E proclamam que o WtE é "consenso científico", o que é desmentido pelo fato de que precisam escrever para defendê‑lo.

Mais curioso ainda é observar quem faz essa acusação. Um dos autores é professor da Universidade Columbia (EUA) e fundador de uma ONG internacional, Global WtERT Council, criada para promover a tecnologia WtE pelo planeta (exatamente porque não é consenso). O outro é presidente de uma associação brasileira cuja base é majoritariamente estrangeira e parceira da mesma rede global. Ora, se a lógica da "conspiração estrangeira" vale para um lado, por que não vale para o outro?

Ao final, o artigo conclama: "Chegou a hora de um acerto de contas público". Nesse ponto, concordamos. Mas um verdadeiro acerto de contas exige exposição de argumentos, não apenas de adjetivos. Por que os autores não apresentaram o que chamam de fake news, seus opositores e, sobretudo, as evidências cientificas que tornariam o WtE a melhor opção?

Os principais questionamentos à queima de resíduos sólidos são conhecidos: o alto custo de implantação das usinas, que depende de apoio público; o risco de desviar para a fornalha materiais recicláveis, inviabilizando a economia circular; o fato de que a queima do metano em aterros sanitários reduz emissões e gera energia a custos menores; e o perigo de que o WtE se torne um salvo-conduto à manutenção de um modelo em que a métrica é sustentada unicamente em redução do lixo enquanto o consumo segue a gerar detritos e esgotamento de recursos naturais.

Só na cidade de São Paulo são cerca de 20 mil toneladas de resíduos por dia, a um custo superior a R$ 2 bilhões anuais. Por envolver cifras dessa magnitude, o tema exige debate qualificado e transparência. Não há solução simples para um problema público complexo. Aterros, sozinhos, tampouco o resolvem.

Esse debate está longe de se limitar a fronteiras nacionais: em países europeus, como Portugal, cresce a pressão pelo WtE diante da saturação de aterros, mas a tecnologia é criticada por não atacar a raiz do problema (produção, consumo e descarte) e por disputar, na prática, o mesmo "insumo" da reciclagem. O termo "greenwashing" aparece com frequência quando usinas WtE são vendidas como solução "limpa".

O próprio site do Parlamento Europeu, ao tratar de gestão sustentável de resíduos, enfatiza redução de consumo, reúso e reciclagem. Incineração não é celebrada como panaceia.

Se queremos um "acerto de contas público", que ele seja feito às claras: com números sobre custos, impactos climáticos comparados, efeitos sobre catadores e cooperativas, metas de redução de resíduos e transparência de todos os lados —ONGs, empresas e governos. Acusar críticos de serem "agentes estrangeiros", sem enfrentar argumentos, não limpa ou ilumina cidades nem aquece casas. Só queima, mais uma vez, a possibilidade de um debate honesto sobre o lixo que produzimos e o futuro que queremos.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Em paz – Amado Nervo (do blog Nova-Acrópole)

 Perto do meu ocaso, eu te bendigo, ó Vida,

porque nunca me destes esperança falida
nem trabalhos injustos, nem pena imerecida.

Porque vejo no fim de meu rude caminho
que fui eu o arquiteto de meu próprio destino;
que se os méis ou o fel eu extraí das cousas
foi que nelas pus mel ou biles amargosas:
quando plantei roseiras, não colhi senão rosas.

Às minhas louçanias vai suceder o inverno;
mas tu não me disseste que maio fosse eterno!
Julguei sem fim as longas noites de minhas penas;
mas não me prometeste noites boas apenas,
e, afinal, tive algumas santamente serenas…

Amei e fui amado, o sol beijou-me a face.
Vida, nada me deves! Vida, estamos em paz!

 

Nota Biográfica

Amado Nervo, pseudônimo de Juan Crisóstomo Ruiz de Nervo, nasceu em 27 de agosto de 1870, em Tepic, no México. Poeta e diplomata, considerado o maior poeta mexicano do final do século XIX e meados do século XX, caracteriza-se por um profundo sentimento religioso e formas simples, pela busca do autoconhecimento, a autocompreensão e a paz interior em um mundo incerto e confuso.

 

O Congresso e o Banco Master, Elio Gaspari, FSP

 O caso do Banco Master tornou-se radioativo. O Banco Central teve mais de um ano para enquadrá-lo e frangou o tamanho da fraude. O ministro Dias Toffoli tomou as rédeas do inquérito e embrulhou-se. O Supremo Tribunal tirou-o do caso mas, no mesmo lance, solidarizou-se com ele. (Como isso é possível, só o tempo dirá.) Uma parte do Congresso quer uma CPI, outra prefere apenas interrogar Daniel Vorcaro, dono da encrenca e arquivo vivo de suas ramificações.

Nessa confusão, em Brasília atira-se para todos os lados, menos para o alvo: as conexões de Vorcaro. Não deixa de ser curioso que, enquanto o tiroteio toma conta da agenda, a única instituição que vem investigando com sucesso o material radioativo é mantida ao largo da agenda. Trata-se da Polícia Federal, a quem se devem as poucas novidades saídas da caixa preta do Master.

Homem de barba e cabelo escuro veste terno azul e gravata clara, falando ao microfone azul em ambiente interno com iluminação azul e público ao fundo.
O banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em vídeo do grupo Lide, durante evento em São Paulo em 2024 - Reprodução TV Lide no YouTube

Por incrível que pareça, a criação de uma CPI traz mais riscos que esperanças. A CPI da fraude das Lojas Americanas ainda está na memória das pessoas. Aquela CPIzza terminou num vexame. Não responsabilizou viv'alma nem ouviu os grandes acionistas da empresa. Quando ela terminou, havia deputados denunciando deputados, e só.

Vorcaro quer um microfone para responsabilizar o Banco Central, o governo quer proteger sua tropa e parte da oposição quer manter as investigações longe de seus afortunados parlamentares. Com essas forças chocando-se na discussão do problema, só havia uma resultante possível: o sigilo. O ministro Dias Toffoli bem que tentou. Teve a má sorte de encrencar-se com a Polícia Federal e deu no que deu.

A saída de Toffoli da relatoria jogou na agenda o que seria o vazamento, a partir de um grampo, de uma reunião fechada do STF. Beleza, sorteia-se um novo relator e o crime estaria num provável grampo, que revelou com fidelidade o desfecho do problema. Ministros do Supremo querem identificar e punir os responsáveis pelo vazamento. Tudo bem, desde que prossigam as investigações da PF.

O estouro do Master começou com um banco fraudando operações e lesando fundos de pensão de servidores. Essa rede de tramoias vinha das conexões de Vorcaro azeitadas por negócios, eventos e festas. Uma parte dessas conexões está guardada nos 52 aparelhos celulares do banqueiro e de seus diretores. Esse material está com a PF, que até agora não o mostrou, nem ao STF.

É por aí que a maior fraude bancária de Pindorama poderá vir à luz. Nessa trama, Vorcaro é um detalhe, como detalhes foram os Magalhães Pinto do banco Nacional e Calmon de Sá do Econômico. Os banqueiros arruinados são a parte móvel de um elenco. Ora é um, ora é outro, até que chega o próximo. A trama é sempre a mesma e passa pelas conexões desses bancos com o andar de cima da política de Pindorama. (Na receita do Econômico e do Nacional, havia ex-ministros no pódio.)

Se as combinações de Brasília resultarem numa CPI para o Master, tudo bem, desde que não atrapalhe nem tente obstruir o trabalho da Polícia Federal. Tentou-se e não deu certo.