terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Tecnologia brasileira promete elevar eficiência da gestão hospitalar - Revista Pesquisa Fapesp

 Roseli Andrion | Pesquisa para Inovação – A maioria dos pacientes sai de consultas médicas com solicitações de exames, receitas e a sensação de que o tratamento começou. Poucas semanas depois, porém, raramente se pergunta se a vida deles melhorou de fato: se a dor diminuiu, se o sono foi restaurado ou se o emocional resistiu ao impacto da doença.

No sistema de saúde, esse silêncio custa caro e quase nunca aparece nos balanços financeiros. Embora médicos verifiquem a regressão de enfermidades e ajustem doses de medicamentos, o paciente pode estar curado "no papel", mas não necessariamente na vida real. Foi para preencher essa lacuna entre o sucesso clínico e o bem-estar que surgiu a Hi! Healthcare Intelligence.

A startup monitora o bem-estar real dos pacientes para tornar a gestão hospitalar mais eficiente. A solução, desenvolvida com apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, coleta desfechos relatados pelos próprios pacientes — os chamados Patient-Reported Outcome Measures (PROMs) — e cruza essas informações com dados de custo. Os resultados são oferecidos a gestores de hospitais, operadoras de saúde e administradores públicos para transformar a experiência clínica em eficiência operacional.

O sistema de saúde atual tende a medir o sucesso de um procedimento por métricas frias: alta hospitalar, ausência de infecção ou taxa de retorno ao pronto-socorro em até duas semanas. “O sistema atual mede muito bem quanto gasta, mas mede muito mal o que entrega”, resume Felipe Fagundes, fisioterapeuta, pesquisador e cofundador da Hi!. “A solução atua nesse desequilíbrio.”

Combate ao desperdício

Segundo dados da plataforma DRG Brasil e da IAG Saúde, 53% dos custos assistenciais nos hospitais brasileiros são consumidos por desperdícios. Com gastos previstos em cerca de R$ 980 bilhões para o setor no Brasil em 2024, estima-se que mais de R$ 500 bilhões sejam desperdiçados anualmente.

“Reduzir desperdício não é cortar o mais caro, é cortar o que não funciona”, explica Fagundes. “Para isso, é preciso avaliar a efetividade.” A Hi! expõe casos em que dois hospitais, com resultados clínicos imediatos idênticos, apresentam impactos distintos na qualidade de vida dos pacientes meses depois.

Como um "concierge tecnológico", a startup cuida de todo o fluxo: desde a montagem de questionários validados cientificamente até o contato ativo com pacientes e a análise econômica automatizada. Os resultados são integrados a análises farmacoeconômicas que mostram quanto custa cada protocolo frente ao seu resultado prático.

Resultados em oncologia e saúde mental

O primeiro grande projeto da startup foi realizado em parceria com o Hospital de Amor, em Barretos (SP), referência nacional em oncologia vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS). A startup aplicou questionários de qualidade de vida em pacientes com câncer de endométrio durante o tratamento ambulatorial.

O cruzamento de dados permitiu identificar, apenas em 2025, R$ 147 milhões em desperdícios potenciais nos projetos ativos da empresa. “Quando o gestor observa a experiência do paciente, os indicadores deixam de ser iguais”, ressalta Fagundes. A plataforma atua como um "GPS" para a gestão: aponta a rota da economia e da eficácia, embora a decisão final de seguir o caminho permaneça com o condutor (o gestor).

Em outra frente, com uma operadora de saúde mental, a startup detectou um dado alarmante: 12% dos pacientes em acompanhamento relatavam pensamentos suicidas diários. O risco permanecia invisível no monitoramento de rotina porque o tratamento seguia os protocolos oficiais. “Saúde não pode se resumir à ausência de doença”, reforça o pesquisador.

Mudança de modelo

A metodologia é aplicável a diversas condições de alto custo, como doenças cardíacas, tratamentos de coluna e uso de medicamentos imunobiológicos. De acordo com a plataforma Valor Saúde Brasil, 13,5% do desperdício total do setor provém de reinternações precoces que poderiam ser evitadas com melhor acompanhamento.

Fagundes argumenta que o modelo de remuneração por procedimento (fee-for-service), que estimula o volume de intervenções, é insustentável. A proposta da Hi! é viabilizar o pagamento por valor (value-based healthcare), premiando o que realmente melhora a vida do paciente.

A startup conta com o apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP. “O PIPE foi essencial para transformar uma ideia em solução validada, publicada e pronta para escalar”, afirma Fagundes. Os resultados dos projetos já foram apresentados em congressos nacionais de oncologia e publicados em periódicos especializados.

Alcance global

O desafio da eficiência hospitalar é global. Sistemas públicos de Portugal, França e Reino Unido enfrentam dilemas semelhantes, o que levou a Hi! a desenvolver projetos de pesquisa e testes fora do país.

Com mais de 6 mil hospitais e um dos maiores sistemas públicos do mundo, o Brasil tem potencial para liderar essa transição. Ao colocar o paciente no centro dos dados, a tecnologia revela que gastar mais não significa, necessariamente, cuidar melhor.

Palavras-chave: healthcare, gestão hospitalar, cross data


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

,OESP- Fundação FHC resgata entrevistas antigas com Lula, Brizola e Ulysses; veja como

 Por Juliano Galisi

Entre os anos 1980 e 1990, o programa Vamos Sair da Crise, da TV Gazeta, recebeu políticos, intelectuais e artistas em debates sobre os rumos do Brasil em meio à redemocratização. A emissora não fez cópias dos episódios, e o acervo teria se perdido se o apresentador Alexandre Machado não tivesse os gravado com fitas VHS próprias. O material seguiu intocado por anos, “morando num quartinho” da casa de Machado, como conta o jornalista, até ser restaurado por um projeto da Fundação FHC lançado nesta segunda-feira, 23.

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São 126 as gravações já disponíveis no site do instituto, e novas fitas serão digitalizadas nos próximos meses. Também foram produzidos nove minidocumentários sobre diferentes temas debatidos pelo programa, como as eleições de 1989, o Plano Collor e os movimentos indígena e negro.

“Foi um período muito rico da histórica política brasileira, ainda pegando o ‘rabo’ da Constituinte, da eleição de 1989. Tudo estava recomeçando em função da redemocratização”, disse Alexandre Machado, idealizador e coordenador do projeto.

Para você

O jornalista conta que, embora “de nicho”, o programa consolidou-se como um importante espaço de discussões na nova cena pública que emergia no País. “Estávamos numa emissora pequena e o público ainda não acompanhava política. Mas a nossa audiência era qualificada e o programa era muito conhecido em determinados meios”.

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O Vamos Sair da Crise entrevistou os principais candidatos das eleições de 1989, como Fernando CollorLuiz Inácio Lula da SilvaLeonel BrizolaMário CovasUlysses Guimarães, Paulo Maluf e Ronaldo Caiado.

Em outros encontros, nomes como Bresser PereiraRoberto CamposMaílson da Nóbrega e Zélia Cardoso debatem, em pormenores, propostas para o crítico momento econômico do País. O programa também recebeu artistas e intelectuais, como Gianfrancesco Guarnieri, Esther Góes, Ricardo Petraglia, Antônio Houaiss e Francisco Weffort.

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Para Machado, além de revisitar um momento importante da história política do Brasil, o projeto é o registro de um debate público anterior à polarização e à radicalização.

Como exemplo, o jornalista cita uma edição do programa cujos convidados foram o sociólogo marxista Florestan Fernandes e a deputada federal conservadora Sandra Cavalcanti. “São dois opostos. Mas é possível sentar e conversar”.

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A edição do projeto é de Sérgio Rizzo e Vinícius Bopprê, da Tukura Filmes, com pesquisa e catalogação de Flora Rouanet.

Onde assistir

Os 126 programas restaurados podem ser consultados e pesquisados no portal do acervo da Fundação FHC. Os minidocumentários temáticos estão disponíveis no canal do YouTube do instituto.

Marcelo Leite- Atraso também governa o Brasil na crise do clima -FSP

 Três meses depois de fechar a COP30 com documento pífio, o governo brasileiro publicou um sumário executivo de seu Plano Clima. Um amontoado de boas intenções, longe de um mapa do caminho para cumprir metas do Acordo de Paris (2015). E, pior, sem indicar quando se livrará de combustíveis fósseis.

Verdade que só saiu o sumário, não um mapeamento em alta resolução, detalhando setor por setor como chegar lá. O país continua no escuro quanto à rota para descarbonizar a economia, zerando emissões nas duas próximas décadas, como exige a meta de manter o aquecimento global no limiar de 1,5ºC.

Seis chaminés industriais emitem fumaça densa contra o céu escuro. Uma delas está iluminada por luz amarela intensa, destacando a fumaça ao redor.
Vista da usina termelétrica Presidente Médici Candiota III, da Eletrobrás CGT Eletrosul, em Candiota, no interior de Porto Alegre (RS) - Danilo Verpa/Folhapress

Quase todo o esforço de reduzir gases do efeito estufa aqui lançados na atmosfera se concentra no uso da terra (leia-se: desmatamento para agropecuária). Faz sentido, porque essa atividade responde por 70% das emissões nacionais.

O objetivo declarado é zerar desmatamento ilegal até 2030. Mesmo que Lula se reeleja, contra o que trabalham empresários de todos os campos e não só ruralistas, os quatro anos restantes não bastarão para eliminar 13 mil km2 de devastação ainda medidos em 2025 na Amazônia e no cerrado, mesmo com redução de 50% desde 2022.

Tão fantasiosa quanto se afigura a promessa de recuperar 12 milhões de hectares de matas até 2030. São 120 mil km2, área quase do tamanho do Ceará (81%). Pouco mais de um quarto (28%) disso se realizou em nove anos, e seria necessário quadruplicar o ritmo de restauração, pelos próximos quatro, para 17 mil km2 anuais (área equivalente a 11 municípios de São Paulo).

O Instituto Escolhas projeta o investimento necessário em R$ 228 bilhões, quatro vezes o rombo do Banco Master de Daniel Vorcaro no FGC (Fundo Garantidor de Créditos). Onde está o plano para levantar a grana? Negacionistas de direita em Brasília andam mais aflitos com delações do BRB, imagens de Trancoso e sócios do Tayayá do que com o clima.

Embora não pesem tanto hoje na emissão de carbono quanto o desmatamento, indústria, transportes e energia contam com espaço no Plano Clima para aumentar o lançamento de gases do efeito estufa. Sintoma evidente de que Planalto e Petrobras não planejam abandonar o vício em combustíveis fósseis.

Na geração de eletricidade, o país vive um paradoxo. A descarbonização pode avançar aí de três maneiras: com mais hidrelétricas, energia nuclear ou fontes limpas (eólica e fotovoltaica).

A primeira opção tem sido prejudicada pela justa resistência social à construção de grandes reservatórios e ao dano a populações locais e ao ambiente —para nada dizer da corrupção por empreiteiras. No que toca à segunda, o governo não consegue decidir nem se termina Angra 3, obra paralisada desde 2015.

O sucesso da geração com turbinas de vento e painéis solares, veja só, passou a ser um problema, cuja "solução" seria aumentar o parque de termelétricas fósseis para estabilizar e suprir o sistema elétrico em picos noturnos ou quando falta vento. Se não fôssemos tão atrasados, estaríamos programando bancos de baterias e hidrelétricas reversíveis, bombeando água a montante para armazenar energia.

O atraso tem consequências funestas, como já se escreveu.

P.S.: Este texto foi pesquisado, mas não escrito, com ajuda de inteligência artificial.