sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Estados Unidos Conheça Stephen Miller, Deirdre Nansen McCloskey, FSP

 A segunda pessoa mais poderosa do mundo atualmente não é Xi Jinping, o presidente da China, e certamente não é Vladimir Putin, o da Rússia. É alguém de quem você nunca ouviu falar: Stephen N. Miller.

Seus títulos oficiais no governo de Donald Trump não soam muito poderosos. Atualmente, ele é o vice-chefe de Gabinete da Casa Branca para Políticas e Conselheiro de Segurança Interna. Durante o primeiro mandato de Trump, ele redigia discursos para o presidente. Mas Miller tem a atenção de Donald Trump. Hoje em dia, o homem mais poderoso do mundo o ouve atentamente. Praticamente todas as políticas propostas ou implementadas pelo presidente norte-americano foram concebidas e articuladas por Stephen Miller.

Stephen Miller, vice-chefe de Gabinete da Casa Branca para Políticas e Conselheiro de Segurança Interna, em Washington - Annabelle Gordon - 27.jan.26/Reuters

Miller é o principal entre um grupo de teóricos conservadores retratados em um livro recente e brilhante de Laura Field, "Furious Minds: The Making of the Maga New Right" (Mentes furiosas: A formação da nova direita Maga). Desde o ensino médio em Santa Monica, na Califórnia, ele é um defensor ferrenho de uma versão estranhamente iliberal do libertarismo. Vamos ter um governo pequeno... "mais tarde. Muito mais tarde", diz o livro.

Miller afirma aderir à fórmula do libertarismo: "O melhor governo é o que menos governa". Mas, enquanto isso, devemos usar a coerção de um governo grande de forma irrestrita para esmagar gays, mulheres, negros, imigrantes e, especialmente, quaisquer adversários de Donald Trump, como os eleitores de esquerda das grandes cidades. Por exemplo, se pudermos impedi-los por lei de votar, isso será ótimo e tornará a América grande novamente.

Trump, pessoalmente, não tem teorias políticas. Assim como a maioria das pessoas, ele não tem uma orientação teórica, ele não entendeu a Constituição. Como a maioria das pessoas, seu coração, e não seu cérebro, determina suas palavras e ações políticas.

Antes de ouvir Miller e outros conservadores, sua única política era o desprezo por pessoas de cor, expresso, por exemplo, em sua alegação de que o presidente Barack Obama não era cidadão estadunidense por nascimento. Naquela época, Trump chegou a doar dinheiro para candidatos do Partido Democrata.

Miller, nascido em 1985 na Califórnia, é judeu e, desde a adolescência, cultiva o estilo argumentativo de contraponto típico do debate no judaísmo talmúdico. Mas, em vez de discutir minúcias da Mishná e da Guemará, seguindo, digamos, a escola de Shammai ou a de Hillel, seu impulso tem sido debater — e rejeitar — o liberalismo de esquerda que encontrou entre os colegas na escola e na Universidade Duke. Ele se tornou discípulo de Larry Elder, um radialista negro conservador, e mais tarde de outro judeu conservador, o refugiado do marxismo David Horowitz.

Será que Miller vencerá? Será que ele transformará os Estados Unidos numa fortaleza América conservadora que odeia imigrantes, muçulmanos e eleitores das grandes cidades? Eu acho que não. Assim como os brasileiros, os norte-americanos podem estar confusos sobre racismo, xenofobia e autoritarismo. Quando seus medos são despertados por pessoas como Miller, eles reagem e apoiam o líder amado. Mas eles também são respeitosos com outras pessoas. O amor vence o ódio. Em longo prazo.

Hélio Schwartsman - O anarquismo que funciona, FSP

 O procurador Cléber Eustáquio Neves, do MPF-MG, ingressou com ação civil pública contra a Rede Globo por suposto erro reiterado na pronúncia da palavra "recorde". O parquet cobra da emissora uma indenização não inferior a R$ 10 milhões por alegada lesão ao patrimônio cultural imaterial da língua portuguesa. No entender do fiscal da lei, a prosódia "correta" do termo é "reCOrde" (paroxítona) e não poucos locutores da Globo pronunciam "REcorde" (proparoxítona).

É o tipo de iniciativa que me faz perguntar se servidores públicos de fato dedicam seu tempo de trabalho a serviço do público. Já extrapolando um pouco, penso que um Catão moderno poderia usar episódios desse jaez para construir um argumento definitivo contra os penduricalhos nas carreiras jurídicas.

Homem de meia-idade com cabelo curto e escuro veste terno cinza, camisa branca e gravata roxa, posicionado em estúdio de telejornal com fundo azul e letras vermelhas.
Cesar Tralli, apresentador do Jornal Nacional, que teve pronúncia de palavra questionada por procurador de Minas Gerais - Reprodução/Globo

Por mais que me esforce não consigo ver méritos jurídicos nem linguísticos na empreitada. Mesmo reconhecendo que a Carta impõe a concessionários de TV aberta certas obrigações relativas ao conteúdo da programação, não vislumbro no arcabouço legal brasileiro nada remotamente semelhante a um dever de obedecer a gramáticos prescricionistas.

Que me perdoem meus amigos da Academia Brasileira de Letras, mas, entre a língua viva das ruas e as recomendações do Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), cada um é livre para escolher a forma que preferir ou até criar seu próprio idioleto. Desde que o falante se faça compreender, ninguém perde nada. Idiomas são a prova de que a autogestão pode funcionar. Milênios antes de nascer o primeiro gramático prescricionista, grupos humanos já se organizavam para manter línguas, todas elas munidas de gramáticas completas, que lhes permitiam comunicar qualquer ideia concebível e algumas inconcebíveis.

As regras inventadas por acadêmicos servem para marcar distinções sociais, mas não tornam o idioma melhor nem mais hígido.

Em suma, ninguém tem autoridade para legislar sobre a língua. É o fenômeno da linguagem que me permite manter vivas minhas simpatias naturais pelo anarquismo.

Gustavo Alonso - O ego de Lula no sambódromo, FSP

 

Muitos se perguntaram o que Lula ganhou com o desfile em sua homenagem realizado pela Acadêmicos de Niterói no sambódromo do Rio de Janeiro no último domingo (15). Por que bancar uma aposta tão personalista, fazendo o PT correr riscos políticos incalculáveis?

Lula não é ditador. Mas seu ego personalista parece não ter limites, com conivência submissa de sua base. Um exercício rápido de troca de personagens provaria o descalabro da aberração. Estaria correto Bolsonaro a aparelhar uma escola para exaltar sua vida e obra política em ano de eleição? Ainda mais com dinheiro público? Imagine o escândalo que seria entre as esquerdas, com razão.

Boneco gigante de homem branco com barba e terno escuro levanta o punho direito durante desfile noturno de carnaval. Pessoas observam e caminham ao redor, com iluminação artificial e estrutura decorativa ao fundo.
Boneco gigante de Lula durante desfile da Acadêmicos de Niterói - Pablo Porciúncula - 15.fev.25/AFP

Nem é preciso voltar tanto no tempo para ver que nossas esquerdas já foram mais coerentes. As atuais críticas à Acadêmicos de Niterói pela homenagem a Lula em ano eleitoral ecoam um episódio de 20 anos atrás, mas com os protagonistas invertidos. Em 2006 o PT criticou com razão a Escola de Samba Leandro de Itaquera, de São Paulo, por utilizar esculturas gigantes de José Serra e Geraldo Alckmin (ambos do PSDB na ocasião) em seu desfile, também às vésperas das eleições.

Diante da aberração política, aparentemente ninguém parou para analisar o enredo da Acadêmicos de Niterói e constatar o que pode ter agradado tanto ao ego de Lula. Tive acesso ao "Livro Abre Alas", material que é distribuído aos jurados pela Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro antes dos desfiles. Nele, cada escola de samba detalha suas escolhas estéticas, do enredo às fantasias, dos carros alegóricos aos menores adereços.

O "Livro Abre Alas" da Acadêmicos de Niterói é explícito na exaltação ao presidente em exercício. No entanto, mais do que o que foi dito no samba-enredo e na apresentação da escola, é preciso analisar os silêncios. Quase sempre é neles que está o controle da informação. Num show de performance verborrágica, o samba enredo se calou sobre fatos centrais da trajetória do presidente Lula. Vamos a alguns deles.

Em nenhum momento adversários históricos do presidente Lula, como FHC e Collor, foram citados. Uma direita mais coerente que a atual, que o derrotou três vezes nas urnas, foi apagada de sua trajetória. No samba enredo da Acadêmicos de Niterói, os seus inimigos são a ditadura militar e o fascista Bolsonaro. Deleta-se qualquer razoabilidade política em função de polarizações narrativas. Não quer Lula? Olha o que tem aí à espreita: ditadores e fascistas. Essa é exatamente a retórica que o PT instrumentaliza a cada eleição.

Outro silêncio chama muito a atenção. Como se sabe, o personagem histórico Lula não surgiu no vácuo. Ele foi fruto de lutas sociais da base. O Partido dos Trabalhadores foi expressão de três setores importantes que o fundaram: 1) os operários do ABC em mobilização contra empresas da região; 2) intelectuais da USP de linhagem marxista, em busca de associação com estes trabalhadores e 3) a igreja católica da Teologia da Libertação.

Destes três grupos, apenas o primeiro foi exaltado, justamente porque é a origem direta de Lula. Não à toa o samba-enredo se intitulava: "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil". Intelectuais e igreja católica nem sequer foram citados no desfile. No "Livro Abre Alas" tampouco aparecem. Apagando-se outras narrativas da própria esquerda, concretiza-se a ideia de Lula como salvador da pátria. No entanto, a retórica personalista lulista é infiel à própria história do PT.

Não é de hoje que o ego de Lula faz mal às esquerdas. E tudo leva a crer que nesta eleição viveremos novamente esse "dia da marmota", tudo novo de novo, igual como sempre.

Lamentável. Mas não é só culpa da "direita malvada" e das "elites conservadoras", como quis fazer crer o enredo da Acadêmicos de Niterói em endosso à narrativa lulista. Louvar um líder tão personalista configura-se numa submissão histórica das esquerdas brasileiras, que forja seus próprios grilhões.