sábado, 23 de novembro de 2013

FHC: crise e novas ideias - MARIO SERGIO CONTI


O GLOBO - 21/11

Para FHC, o Brasil vive uma profunda crise urbana, e o povo quer mudanças urgentes


“Se tivesse 15 anos a menos, eu seria candidato à Presidência”, disse Fernando Henrique Cardoso durante o almoço. “Viajaria o país inteiro, falaria a pobres e ricos, estudantes e professores, para ouvir, dialogar e agitar ideias, que é o que mais falta hoje no Brasil.” Para o ex-presidente, só com uma discussão séria de novas ideias, ou então com uma crise mais profunda do que a ocorrida em junho, a nação poderá avançar.

Na manhã do almoço, na semana passada, Fernando Henrique Cardoso recebeu exames mostrando que curara a diverticulite que o atacara numa viagem ao Peru. A inflamação intestinal, provocada por alimentos condimentados, derivados de leite e vinho branco, havia sido contraída uma semana antes em Bordeaux, na França, onde comera sempre em restaurantes. O presidente estava mais esguio e com ótima aparência, mas a dieta o levara a marcar a conversa no seu apartamento, em Higienópolis, e a brincar: “hoje não comeremos bem” — o que não foi verdade, felizmente. “Como me sinto disposto, não percebo que tenho 82 anos e preciso diminuir o ritmo das viagens”, disse.

O gume da sua análise continua incisivo. Ele pensa que o sistema político, que trava a modernização republicana, só será reformado devido a pressões vindas de fora. “Os integrantes da política institucional passaram a ter como objetivo único ganhar eleições”, disse. “Há uma exaustão de ideias que precisa ser encarada, e fazer uma campanha presidencial com esse objetivo seria uma contribuição; pena que não tenha mais idade para a empreitada.”

Ele não teme outra crise social. Embora não a deseje, acha que ela será benéfica caso seja radical e tenha consequências. Nos eventos de junho, ficou claro para ele que o Brasil vive uma crise urbana profunda: “Nunca foi tão difícil viver nas metrópoles. Tanto o pobre que anda de ônibus como o rico que fica com o carro retido em engarrafamentos vivem o problema todos os dias. E eles não se sentem representados nem veem como essas dificuldades serão vencidas”.

O seu candidato nas eleições do próximo ano é o do PSDB, Aécio Neves, em quem ele vê um político que sabe mandar e administrar. Fernando Henrique tem bom diálogo com Dilma Rousseff, que o trata com afabilidade. “De vez em quando ela fica de mal comigo pelo que escrevo em jornais, o que é bobagem porque nunca faço ataques pessoais”, disse. “Há pouco ela insistiu que eu fosse à exumação do presidente João Goulart, e infelizmente estou meio de molho e não pude ir.” Quanto a Eduardo Campos, não tem opinião formada.

“As pesquisas atuais mostram que os três candidatos postos galvanizam menos que Lula, Serra e Marina”, afirmou. A questão para todos os candidatos é o que dirão a um povo que quer mudanças urgentes. Seria necessário, no seu entender, que os candidatos elaborassem propostas factíveis para melhorar com rapidez o transporte urbano, o atendimento da saúde e as escolas.

Ele não enxerga no horizonte imediato um tumulto internacional que bata com força no Brasil. “O fim do euro não veio, a economia americana se recupera e a China segue crescendo”, observou. “Ainda assim, ao contrário do que imaginou o governo, a decadência americana não será rápida, e a China levará tempo para adquirir um papel preponderante.”

O presidente pretende se afastar paulatinamente das lides partidárias. Fará isso com o fito de aumentar a sua participação enquanto intelectual público. E está disposto a dizer coisas que, bem sabe, poderão desagradar não só o Planalto como o Congresso, governadores e parlamentares de todos os níveis da federação. “Há fadiga de materiais e interesses encastelados em todos os cantos do Estado”, afirmou. “Para defender mudanças em situações assentadas, é melhor falar de fora, sem se beneficiar com o que aconteça ou deixe de acontecer”, disse.

O debate intelectual de propostas para o Brasil o levará, em médio prazo, a reduzir a interlocução internacional. Ele precisa de mais tempo para pensar e escrever. Só na manhã do almoço, havia recebido telefonemas de Kofi Annan, ex-secretário-geral das Nações Unidas, da rainha Sílvia, da Suécia, e do filho do empresário mais rico do México, Carlos Slim, os dois últimos de passagem por São Paulo. Fernando Henrique convidou-os a irem à sua casa: “São relações pessoais, fico sem jeito de nem chamá-los para um café”.

FHC fez um pequeno tour de la propriété antes das despedidas. O apartamento tem janelas amplas, que dão para as encostas do Pacaembu e o alto das Perdizes. O mobiliário é de sobriedade modernista e os quadros, de bons pintores nacionais. O escritório é o de um intelectual em ação: computador ligado, livros por todos os cantos e revistas especializadas abertas sobre a escrivaninha.

O Trem Ta Feio - Pena Branca e Xavantinho

http://www.radio.uol.com.br/#/letras-e-musicas/pena-branca-e-xavantinho/o-trem-ta-feio/1203303
Disse que aqui mais nada
E de graca, na e de coracao
Vamos num tal de toma-de-la-da-ca
Minha nega eu pago pra ver
Ver por debaixo o osso do angu
Disse que aqui mais nada tem troco
Tudo que vai nao vem
Perdem bodoque,facao-corneta
Quebra a defesa nega fulo
O trem ta feio
E e bem por aqui

Meu facao guarani
Quebrou na ponta,quebrou no meio
Eu falei pra morena que o trem ta feio

E a cana caiana
Eu disse a raiva,a carne de sol
Palha,forro e fumo de rolo
Tudo e motivo pro meu facao
Arma de pobre e fome,e facao
Abre semente,aperta inimigo
Espeta ate gaviao
Corta sabugo e lanca um desafio
E nao conta nem ate tres
O trem ta feio e e bem por aqui.

Meu facao guarani
Quebrou na ponta,quebrou no meio
Eu falei pra morena que o trem ta feio BIS. 

O DNA dos mais de 80 - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 23/11

Já têm posição garantida nesse time Cleonice Berardinelli, Adib Jatene, Hélio Bicudo, Beatriz Segall, Boris Fausto, Delfim Netto



Num país onde os velhos são considerados um estorvo, alguém está procurando mostrar que eles podem ser muito úteis, fornecendo seu DNA para um estudo que pretende ajudar as futuras gerações a viver mais e melhor. Estou me referindo ao projeto chamado 80+, que a premiada geneticista e bióloga molecular Mayana Zatz, nascida em Israel e criada em SP, vem desenvolvendo com pessoas que estão envelhecendo de forma saudável, particularmente do ponto de vista cognitivo. Especialista em doenças neuromusculares, sobre as quais tem trabalhos pioneiros, ela batalhou muito pela aprovação das pesquisas com células-tronco no Brasil. O estudo de agora, com apoio do CNPq, Fapesp e Hospital Albert Einstein, tem como objetivo formar um banco de dados e imagens funcionais do cérebro para fornecer à medicina elementos que possibilitem entender melhor distúrbios neurológicos como o Alzheimer e a esclerose que atingiu o físico britânico Stephen Hawking.

“O banco de dados dos 80+”, explica Mayana, “é formado por pessoas que têm chances mínimas de desenvolver essas doenças, pois gozam de boa saúde em idade já avançada. Se um jovem fizer o seqüenciamento do genoma, poderemos verificar se as mutações que ele tem são semelhantes às dos idosos saudáveis.” Depois de catalogar o código genético de mais de 400 oitentões, o projeto vai ter agora um desdobramento: um livro com 20 desses personagens, escolhidos por continuarem trabalhando e produzindo ativamente, contará um pouco de suas histórias, filosofia de vida, ambiente de trabalho.

Já têm posição garantida nesse time Cleonice Berardinelli, Adib Jatene, Hélio Bicudo, Beatriz Segall, Boris Fausto, Delfim Netto. Já Fernando Henrique Cardoso não quis participar e Fernanda Montenegro precisa conciliar sua agenda. Como também fui convidado, me vejo agora no Albert Einstein para os exames de admissão, que incluem ressonância magnética, teste de memória e coleta de sangue para a obtenção do DNA genômico, além de uma entrevista. Estou morrendo de medo de ser desconvocado por falta de requisitos. Posto que cada vez mais me esqueço das coisas, temo repetir aqui a piada do idoso que se queixa ao médico: “Doutor, acho que estou perdendo a memória.” “Desde quando?” “Desde quando o quê?”

Felizmente não dei vexame. Passei na avaliação mnemômica com louvor. Entre outros itens, disse meu nome certo, o endereço, a cidade em que me encontrava e até o bairro em que moro. Brilhante! Um elefante não faria melhor. Só errei o dia do mês, fazendo confusão com a véspera. Mas, em compensação, as três palavras que o dr. Michel pediu para eu memorizar — camisa, marrom e honestidade — pude repeti-las sem hesitação uns 40 minutos depois. Agora só falta o resultado da ressonância, que esquadrinhou minha cabeça.

A esperança é que, quando Alice e Eric tiverem a minha idade, quase no ano 3000, livres de alguns dos males que afetam a velhice hoje, eles saibam que o avô, de saudosa memória, teve alguma utilidade. Pelo menos como cobaia.