domingo, 1 de março de 2026

Ruy Castro Mel Brooks, feroz e letal- FSP

 Mel Brooks, humorista, comediante, cineasta, dramaturgo, compositor e letrista, fez 99 anos. Está em grande forma e, com razão, a Broadway lhe despeja confetes. Exceto por Woody Allen, é o último remanescente da geração que, na Nova York dos anos 1950 e 1960, revolucionou o humor nos EUA –os outros, Carl Reiner, Neil Simon, Joan Rivers, Larry Gelbart, Lenny Bruce, Elaine May. Tudo que se faz hoje de stand-up surgiu deles. Mas Brooks sempre levou uma vantagem: é tão feroz e letal na vida real quanto na página escrita. Eis amostras de suas respostas em entrevistas.

"Adoro espaguete e sexo. Às vezes, ao mesmo tempo". * "Se Deus quisesse que voássemos, teria nos mandado as passagens". * "O que os presidentes não fazem com suas esposas fazem com o país". * "Se Bernard Shaw e Einstein não escaparam da morte, que chance você tem? Praticamente nenhuma". * Vim à luz na mesa da cozinha. Éramos tão pobres que minha mãe não tinha condições de me parir. Tive de nascer de uma senhora vizinha".

"Meus filmes estão um degrau abaixo da vulgaridade". * "Se as pessoas soltam pum na vida real, por que não nos filmes? A boca pode dizer o que quiser, mas o outro lado tem de ficar calado. Quem sabe ele não tem algo a dizer?". * Pessoas que soltam pum são uma minoria reprimida. Precisamos tirá-las do armário e trazê-las para a sala". * "O mau gosto se resume em dizer a verdade antes que ela possa ser dita".

"Não sou um gigante da comédia. Tenho só 1,65m". * "Ser baixinho só me incomodou por três segundos. O resto do tempo levei querendo me matar". * "Não sou um gênio de verdade. Sou um quase gênio". * "O humor é uma defesa contra o Universo". * "Graças a ‘Primavera para Hitler’, sou o único judeu que ganhou dinheiro com Hitler". * "A tragédia é quando eu corto o dedo. Comédia é quando você cai num bueiro e morre".

"Torça pelo melhor, mas espere pelo pior. A vida é uma peça de teatro mal ensaiada". * "É fundamental fracassar. Enxugue as lágrimas e você será melhor como pessoa e como artista".

Hélio Schwartsman - matéria do mal, FSP

 Acho que foi Woody Allen quem criou um personagem que se deprimia com o fato de que, dentro de bilhões de anos, o Universo vai acabar. Para Drew Dalton, a morte térmica do Universo não é motivo para piada, mas para séria reflexão ética.

Em "The Matter of Evil", Dalton sustenta que aquilo que a ciência nos informa sobre o mundo precisa estar no centro de nossa metafísica e que esta deve orientar nossos juízos éticos. O quadro resultante não é bonito. A mensagem da ciência é a de que o Universo não é um lugar aprazível. Uma das poucas certezas que temos é a entropia, que inevitavelmente levará à destruição de tudo, matéria e pensamento. O absoluto é mau.

"The Matter..." é um livro ambicioso. O autor começa renegando Kant. Para Dalton, quando o prussiano decretou a impossibilidade de conhecermos as coisas em si (só o fenômeno nos é acessível), ele baniu o absoluto da filosofia e a condenou ou à irrelevância, ou ao quietismo, ou a alguma das muitas formas de niilismo contemporâneas. Dalton sustenta que precisamos resgatar a possibilidade do absoluto e que uma visão de mundo cientificamente informada é o caminho para isso. Daí o pessimismo metafísico do autor.

Minha impressão é que Dalton se agarra a uma concepção excessivamente realista da filosofia das ciências. Não são poucos os epistemologistas que veem a ciência de modo mais instrumental, incapaz de afirmar certezas sobre o mundo. O autor passa meio batido por esses problemas.

O legal do livro é o passeio pela história da filosofia que ele nos proporciona. Dalton faz ótimas observações não só sobre Kant mas também sobre SpinozaSchopenhauer e Nietzsche, além de pincelar o pensamento de autores contemporâneos como Meillassoux e Badiou.

Ao fim e ao cabo, ele se aproxima de Schopenhauer. A realidade não presta, mas podemos, momentaneamente, nos aproximar do bem, que surge como ideia por contraposição ao mal, que é ubíquo. É um pouco como a vida: não tem sentido e vai acabar, mas podemos tentar aproveitá-la enquanto durar.

Desiludida, geração Z de esquerda tem revolta anticapitalista e críticas a Lula e Nikolas, fSP

  

São Paulo

Todos os dias, o pequeno comércio se instala ao redor da estação Vila Madalena, na zona oeste da capital paulista. Em meio à maré humana, um estabelecimento chama a atenção: a Casa Marx, espaço cultural com livraria, sebo, café e brechó, dedicado a difundir o pensamento de esquerda. Funciona ali também a sede do Faísca Revolucionária, coletivo de jovens anticapitalistas, atuante em 15 países.

Dois jovens posam com punhos cerrados diante de um mural colorido de Karl Marx. O mural exibe o rosto de Marx em tons vibrantes de amarelo, azul, rosa e vermelho, com a frase 'Trabalhadores do Mundo' escrita ao fundo.
Noah Brandsch, 21 (à esquerda), e Pedro Pequini Ferreira, 26, líderes da Faísca Revolucionária, do coletivo Faísca, que atua a partir da Casa Marx, em São Paulo - Rafaela Araújo/Folhapress

"O termo ‘anticapitalista’ tenta dar conta de diversos fenômenos relacionados ao sentimento de que o sistema atual não oferece mais esperança para nós", diz Pedro Ferreira, 26, líder do grupo, nos fundos da casa, de paredes cobertas por lambe-lambes, com gravuras de Vladimir Lênin e de Leon Trótski.

A existência do Faísca se relaciona com o surgimento de outros coletivos de jovens que lutam pela mesma causa, dentro e fora das universidades. Em comum, fazem oposição ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e aos integrantes do MBL (Movimento Brasil Livre), hoje apoiados por parte expressiva da juventude. Ao mesmo tempo, criticam o presidente Lula (PT) e não se sentem representados pelos políticos que despontam como candidatos. Na origem, o sentimento anticapitalista é um traço da chamada revolta da geração Z, jovens desiludidos que agora organizam protestos ao redor do mundo.

Ligado ao MRT (Movimento Revolucionário dos Trabalhadores), o Faísa, criado há uma década, tornou-se conhecido por promover oficinas de estudo sobre comunismo nas universidades. Seus integrantes se tratam por "camarada" e, em vez do ChatGPT, utilizam o ChatMarx, aplicativo de inteligência artificial de orientação marxista.

Noah Brandsch, 21, outro líder do Faísca, está à procura de uma alternativa a Lula. "Utopia é a gente acreditar que é possível mudar as coisas por dentro do sistema capitalista", afirma. "É uma tarefa da esquerda superar o que foi a conciliação de classes do PT, que só reforçou a extrema direita."

A insatisfação com o governo também está presente no Movimento Correnteza, organização estudantil criada há oito anos sob o lema "organize a sua revolta" e voltado à luta pela educação. Thaís Rachel, 32, liderança do Correnteza e vice-presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), prefere votar na candidata Samara Martins, do UP (Unidade Popular).

Segundo Rachel, os jovens estão subrepresentados na política. "Até existem novas lideranças, mas o sistema eleitoral é injusto e só favorece os partidos que estão aí há anos", diz.

Nos últimos anos, a revolta da geração Z, expressão que faz referência aos nascidos entre o fim dos anos 1990 e 2010, desencadeou protestos em países como Peru, Bangladesh, Indonésia e Quênia. Cada um deles tinha motivação própria, mas todos ambicionavam a mudança do status quo. Para tanto, apropriaram-se do mesmo símbolo: a bandeira do "One Piece", mangá em que os protagonistas lutam contra o sistema.

Nos Estados Unidos, o democrata Zohran Mamdani, 34, foi eleito prefeito de Nova York graças a uma articulação com a juventude, excitada com a plataforma socialista apresentada na campanha —78% dos eleitores com idade inferior a 30 anos votaram nele. A realidade é bem diferente no Brasil. Por aqui, a esquerda anticapitalista é minoritária entre os jovens.

Pesquisa Atlas Intel, publicada em dezembro, mostrou que 52% da geração Z se diz de direita ou de centro-direita. Deputados como Nikolas Ferreira (PL) e Kim Kataguiri, do MBL, têm especial ligação com esse eleitorado, que absorve e propaga noções de meritocracia, empreendedorismo e até um desprezo pela CLT, tema que ficou em alta em postagens no TikTok.

"As redes do Nikolas são usadas para referenciar a figura dele. Podem até chamar para atos, mas não para uma organização coletiva a longo prazo", afirma Theo Lobato, 30, líder do coletivo Juntos! —assim mesmo, com ponto de exclamação ao final. Ele se angustia com a crise climática, o avanço tecnológico e a precarização do trabalho. Tendo entrado no Juntos! há uma década, ainda sob o impacto das Jornadas de Junho de 2013, Lobato esteve, em novembro, na COP30, em Belém.

Para Julia Andrade Maia, 27, também militante do Juntos!, a direita tem eficiência na internet porque tem mais poder econômico, em um contexto de crise de representatividade na esquerda. Diante da ausência de opções, ela votaria no Lula, mas não "fará o L" — referência ao símbolo do petista, feito com as mãos pelos apoiadores.

A militante critica o arcabouço fiscal, que limita os gastos do governo, a morosidade da discussão sobre a escala 6x1 e a exploração da Foz do Amazonas. "Quando eu era mais nova, os meus pais me falavam que, se eu estudasse, teria um emprego, uma casa e um carro. Estou na segunda graduação e tudo isso está longe de acontecer."

Na noite da quarta-feira (25), o Juntos! organizou um debate, no campus da USP, com o título de "Os Povos do Mundo Contra Os Imperalismos: A Luta Antifascista e Antirracista para Salvar o Planeta". Na mesa, estavam o professor de filosofia da USP, Vladimir Safatle, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), revelada pelo Juntos!, a codeputada estadual Ana Laura (PSOL-SP) e o filósofo Douglas Barros.