terça-feira, 1 de setembro de 2026

Mendonça atropela rito para beneficiar Flávio Bolsonaro e abrir inferno ao STF, dizem ministros, FSP

 

Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) fizeram duras análises sobre a atuação de André Mendonça na obtenção e divulgação de mensagens constrangedoras para Alexandre de Moraes.Nesta terça (1), o magistrado levantou o sigilo de um relatório da PF (Polícia Federal) que mostra uma troca de mensagens intensa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com Moraes.

Homem de meia-idade com cabelo curto e escuro veste terno preto com gravata cinza, sentado em cadeira de couro marrom claro, olhando para frente com expressão neutra.
Ministro André Mendonça em sessão no STF - Adriano Machado - 12.ago.26/REUTERS

Entre outras coisas, elas sugerem que os dois se encontraram antes de o ex-banqueiro ser preso e que mantinham uma agenda de reuniões frequentes.

Nesses encontros, Moraes se comprometeria até mesmo em dar "um aperto" em autoridades para favorecer o Banco Master, que contratou o escritório da mulher dele, Viviane Barci de Moraes, por R$ 131,2 milhões para um trabalho de compliance.

Na avaliação de colegas de ambos, Mendonça está certo de não encobrir eventuais irregularidades de Moraes.

O método que ele usou para obter as mensagens, o momento em que decidiu avançar contra o colega e a divulgação das informações, no entanto, são "altamente questionáveis", na opinião de um ministro ouvido pela coluna.

"Todos aqui tocam investigações, e há sempre um respeito por rito e forma, que ele não seguiu nesse caso", diz.

Para esse mesmo magistrado, é "óbvio" que o resultado da avalanche de reportagens feitas sobre o caso beneficia o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que disputa a eleição presidencial.

O filho de Jair Bolsonaro já afirmou em nota que Moraes deveria renunciar ao cargo.

O momento, portanto, seria o pior possível, e não haveria justificativa para que Mendonça tomasse a iniciativa agora.

"O STF, que já estava dentro do cenário eleitoral enfrentando certa má vontade da população, entra no furacão de vez", afirma um ministro. "Ele riscou o palito de fósforo dentro do tanque de combustível. Abriu as portas do Supremo para o inferno, e ninguém sabe as consequências disso", segue o magistrado, referindo-se à possibilidade de um possível impeachment futuro de mais de um integrante do STF.

O mesmo magistrado diz acreditar que, em caso de vitória de Flávio Bolsonaro, Mendonça se tornaria uma das pessoas mais poderosas do Brasil, por quem passariam as indicações de pelo menos três futuros ministros do STF, para vagas que serão abertas no próximo governo pela aposentadoria de alguns de seus integrantes.

O método usado por Mendonça também é criticado.

Pela jurisprudência do STF, um ministro do Supremo só poderia ser investigado depois de um pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República). A petição de Mendonça em que pede à PF um relatório sobre as mensagens de Vorcaro a Moraes, no entanto, foi feita de ofício, ou seja, por ele mesmo.

Um dos magistrados ouvidos pela coluna afirma que o relatório gerado a pedido de Mendonça é já uma investigação, feita, portanto, sem o necessário pedido da Procuradoria. E seria um ato nulo.

A terceira questão é o vazamento das mensagens.

Antes mesmo do levantamento do sigilo, órgãos de imprensa tiveram acesso a elas.

Na sequência, Mendonça permitiu o acesso a todo e qualquer cidadão. "É correto um juiz vazar as coisas para atingir um investigado? Ainda mais sendo um colega?", questiona um segundo ministro da Corte.

Ex-ministro de Bolsonaro intermediou contato entre Vorcaro e Moraes: 'dá tempo de tomar um whisky', mostram mensagens- FSP

 Mensagens obtidas pela PF (Polícia Federal) no celular de Daniel Vorcaro mostram que o ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro, Fábio Faria, intermediou o contato entre o dono do Banco Master e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes.

O magistrado e o banqueiro se encontraram ao menos seis vezes. Os documentos da polícia enviados ao ministro André Mendonça mostram que Faria repassou os números de telefone de Moraes a Vorcaro, no final de 2023, por meio do aplicativo WhatsApp, que foi salvo logo em seguida em sua agenda.

Logo em seguida, Faria encaminhou mensagem ao dono do Master mencionando "Alex" e "almoço no dia 30". A PF registrou também que, no mês seguinte, o ex-ministro de Bolsonaro perguntou a Vorcaro se ele poderia falar, pois iria conversar com interlocutor não nominado no diálogo, ao qual se refere por meio do emoji de "homem careca".

Homem de meia-idade com cabelo escuro e barba curta veste terno azul escuro, camisa branca e gravata azul-marinho, posando em frente a uma cortina azul.
Empresário Fábio Faria no lançamento do canal SBT News, nos Estúdios SBT - Ronny Santos/Folhapress

No mesmo dia, ele perguntou se Vorcaro "respondeu a Vivi". Dois dias depois, em 17 de janeiro de 2024, o contato "Vivi Moraes" retornou com a versão final do contrato firmado entre o escritório da mulher de Moraes, Viviane Barci de Moraes, com o dono do Master.

O acordo teve a sua última modificação feita pelo usuário "Ministro Alexandre de Moraes", em 15 de janeiro de 2024, conforme metadados do documento.

Em outra mensagem, Faria enviou mensagem a Vorcaro informando que havia confirmado jantar com "o Careca" para o início de fevereiro. Já em março de 2024, foi pedido um outro encontro por ele a Moraes, que o respondeu não conseguia jantar, mas que teria tempo "de tomar um whisky".

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O diálogo com o ministro foi encaminhado por Faria ao banqueiro que, no mesmo mês, o alertou que "o careca não pode atrasar".

Imediatamente após a cobrança feita pelo ex-ministro de Bolsonaro, segundo a PF, Vorcaro encaminhou mensagens a assessores dizendo que os pagamentos ao escritório Barci de Moraes não poderiam "atrasar um dia", pois "É o pgto (pagamento) mais importante que temos", disse.

Na sequência, Vorcaro afirmou a uma funcionária "pode pagar sempre, sem nota", depois finalizou "do jeito que for". Após o alerta, ele recebeu um registro de uma transferência do Banco Master para o escritório de Viviane de Moraes no valor de R$ 3,4 milhões.

Já no contexto da organização de um evento do banco em Londres, em abril de 2024, Faria encaminhou uma mensagem a Vorcaro, enviada por um terceiro, agendando reunião às "18h na casa do Alexandre".

Em nota, Fábio Faria disse que sugeriu o escritório Barci de Moraes para atuação em um caso na Justiça de São Paulo, que não se reuniu em nenhum momento com a banca e "sequer tomou conhecimento dos valores contratados entre as partes". Procurado, Moraes não respondeu à reportagem.

Mensagens de Vorcaro citam Moraes, Gonet e chefe da PF; entenda o caso- FSP

 Laura Intrieri

São Paulo

Uma série de mensagens, minutas de contratos e metadados obtidos pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro ampliou nesta terça-feira (1º) as informações conhecidas sobre a relação do ex-dono do Banco Master com autoridades.

Vorcaro procurou o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes enquanto tentava salvar o banco e acompanhar as investigações que levariam à prisão do ex-banqueiro. O material também registra pedidos para que fossem acionados o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, durante sessão de reabertura dos trabalhos do judiciário no STF - Pedro Ladeira - 3.ago.2026/Folhapress

Outros documentos tratam de um contrato de cerca de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, e de uma segunda proposta, de R$ 50 milhões, que previa o pagamento com cotas de um jatinho e de um helicóptero.

Parte das mensagens é atribuída diretamente a Moraes. Em outros trechos, a PF afirma apenas suspeitar que o ministro seria o interlocutor de Vorcaro. A extração recuperou conteúdos enviados pelo ex-banqueiro, mas não eventuais respostas, porque os dois usariam imagens de visualização única com textos escritos em outro aplicativo. Os documentos também não demonstram que os pedidos feitos por Vorcaro tenham sido atendidos.

O que Vorcaro disse a Moraes antes de ser preso?

As mensagens mostram que Vorcaro procurou Moraes repetidas vezes nos dias anteriores à própria prisão, em 17 de novembro de 2025.

No dia 14, perguntou se um encontro estava marcado para o dia seguinte. Em 15 de novembro, um sábado, pediu uma nova conversa e questionou: "Acha que segunda já tenho que estar fora?". No domingo (16), disse que estava em voo e que seguiria diretamente para encontrar o ministro após pousar.

Vorcaro também perguntou sobre o juiz responsável pelo caso, quis saber se o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, conhecia a situação e questionou se seria possível fazer algo. Já na tarde do dia em que foi detido, perguntou se o interlocutor havia obtido notícias ou conseguido "bloquear" a medida.

A PF afirma que Vorcaro enviou 12 capturas de tela relacionadas a encontros com Moraes nesse período. Os documentos, porém, não esclarecem se todas as reuniões chegaram a ocorrer.

Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de São Paulo quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta. Naquele mesmo dia, o Banco Central decidiu liquidar o Master, medida anunciada na manhã seguinte.

O que Vorcaro disse sobre Gonet e o chefe da PF?

Em mensagens enviadas a um interlocutor que a PF suspeita ser Moraes, Vorcaro pediu que fossem acionados "Andrei e Paulo". As referências, segundo a investigação, seriam a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.

Em um dos trechos, Vorcaro afirma ser importante reforçar o pedido com os dois para impedir que integrantes de escalões inferiores adotassem uma medida que prejudicasse o banco. Em outro, solicita que Andrei fosse sensibilizado a adiar uma ação da PF para a semana seguinte, argumentando que isso impediria a quebra do Master.

Não há, até agora, indicação de que Andrei ou Gonet tenham realizado as intervenções solicitadas. Os dois não haviam se manifestado até a revelação das informações sobre o caso.

O que significa a mensagem sobre um "aperto no Paulo"?

Em 19 de março de 2025, Vorcaro afirmou ao ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza que estava com Moraes e que o ministro "vai chamar o Paulo para dar um aperto".

Naquele momento, o ex-banqueiro tentava vender 58% do Master ao BRB (Banco de Brasília). A operação estava sob escrutínio do Ministério Público Federal, comandado por Gonet.

Quantas vezes Moraes e Vorcaro teriam se encontrado?

Mensagens analisadas pela PF indicam ao menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro.

O primeiro teria ocorrido em fevereiro de 2024, na casa do ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, que articulou as reuniões iniciais. As mulheres dos três também participariam do jantar.

Há ainda referências a encontros em julho e novembro de 2024 e em fevereiro, março e abril de 2025. Em algumas ocasiões, Vorcaro avisou pessoas próximas que estava com Moraes, incluindo sua namorada e Paulo Sérgio Neves de Souza, então diretor do Banco Central.

As conversas também sugerem uma reunião durante um feriado em Campos do Jordão. O relatório não apresenta confirmação independente de todos os encontros mencionados.

Qual era o contrato de R$ 131 milhões?

A PF identificou, por meio dos metadados de um arquivo encontrado no celular de Vorcaro, que Moraes fez edições em uma minuta do contrato entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes antes da assinatura.

O escritório afirmou que seu setor de compliance consultou Moraes, na condição de marido da sócia-diretora, para verificar se existiam impedimentos legais à contratação, como processos do Master sob relatoria do ministro.

O contrato vigorou de fevereiro de 2024 a novembro de 2025, quando o Master foi liquidado.

Em março, ao comentar outro conjunto de mensagens atribuído a ele, Moraes afirmou que não havia recebido os conteúdos divulgados e classificou a associação de seu nome aos diálogos como uma "ilação mentirosa" destinada a atacar o Supremo. O ministro ainda não havia se manifestado sobre as novas informações publicadas nesta terça.

O que previa a segunda proposta de contrato?

A PF também localizou minutas de uma segunda proposta, no valor de R$ 50 milhões.

Pelo documento, R$ 40 milhões seriam pagos por meio da transferência de cotas de um avião Legacy 650 e de um helicóptero. Outros R$ 10 milhões seriam destinados ao reembolso de despesas relacionadas aos voos.

O escritório de Viviane afirmou que essa proposta não foi aceita, que nenhum segundo contrato foi assinado e que não houve substituição do acordo original. A banca disse ainda que o primeiro contrato foi encerrado com a liquidação do Master.

A Folha já havia mostrado que Moraes usou uma das aeronaves ao menos em julho de 2025. Mensagens obtidas pela PF também tratam de uma viagem de Viviane e de uma conversa na qual ela disse estar satisfeita com a utilização das cotas.

O relatório registra ainda discussões sobre o chamado "risco reputacional" dos pagamentos e sobre a possibilidade de os ativos serem transferidos a outra empresa. Não está claro se alguma transferência chegou a ocorrer.

Qual foi a participação de Moraes em fóruns promovidos por Vorcaro?

Mensagens encontradas pela PF indicam que Moraes sugeriu mudanças, aprovou textos e vetou convidados de um fórum jurídico realizado em Londres e organizado pelo Grupo Voto, com participação de Vorcaro.

Uma integrante da organização afirmou ter seguido as recomendações enviadas pelo ministro. Vorcaro também disse que Moraes havia reclamado da organização do encontro, do destaque dado ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e da eventual participação de Antonio Rueda, presidente da federação União Brasil-PP.

Como o filho de Gonet aparece no relatório?

Outro conjunto de mensagens trata de um fórum jurídico previsto para ocorrer em Londres em 2025, mas que acabou cancelado.

Segundo o relatório da PF, Pedro Gonet, filho do procurador-geral da República, pediu para participar do evento com as despesas pagas por Vorcaro. O advogado Ciro Soares, ex-defensor do Master, atuou como intermediário entre Gonet e o então dono da instituição financeira.

Em uma conversa com uma funcionária, Vorcaro aprovou o pagamento das despesas de Pedro Gonet e de Ciro. O relatório também registra que a interlocução intermediada pelo advogado havia começado em 2024, inicialmente em assuntos ligados a Jarbas Soares Júnior, ex-procurador-geral de Justiça de Minas Gerais.

Ciro afirmou que não havia segredo na lista de convidados, que o seminário seria aberto ao público e que não existe ilegalidade em custear a participação de palestrantes e convidados. Gonet não se manifestou.