terça-feira, 1 de setembro de 2026

Terremoto institucional no STF atinge as campanhas, FSP

 Igor Gielow

São Paulo

A revelação das mensagens entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes é um choque sísmico de grandes proporções para a combalida vida institucional brasileira, e seus tremores secundários serão sentidos imediatamente na campanha à Presidência.

A menos que seja provada uma farsa inaudita na confecção das mensagens, o ministro do Supremo está numa posição que flerta a insustentabilidade.

Homem calvo veste terno cinza, camisa branca e gravata azul, sentado em cadeira com encosto vermelho, com expressão séria e olhar direcionado para a frente.
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, durante sessão da corte - Sergio Lima - 1º.set.26/AFP

Ainda é preciso saber como ele respondeu aos pedidos do ex-dono do Banco Master, claro, mas o fato de a conversa ter ocorrido no contexto do contrato entre a banca de sua mulher e Vorcaro a torna ainda mais difícil de explicar.

O embate se dará no plenário do Supremo, e o resultado dificilmente será salutar para a corte, que enfrenta a maior crise de sua história recente.

A esta altura, quaisquer alegações de abuso por parte de André Mendonça serão vistas como acobertamento; já o cisma instalado tornará os bate-bocas do passado, como no julgamento do mensalão, uma trivialidade.

Do ponto de vista eleitoral, a crise é um coringa a ser usado ao gosto de cada candidato, com chances incertas de sucesso.

Um caso é o do senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário histórico de Moraes, o homem que colocou seu pai na cadeia. À primeira vista, a barafunda é um ativo poderoso: a base bolsonarista sempre cultivou ódio ao ministro, e agora o assiste encarando o cadafalso político.

Mas talvez seja algo ilusório, dado que esse estrato já está com Flávio. Os eleitores indecisos vitais para o senador e para o presidente Lula (PT) não parecem tão interessados em briga pretérita com os mesmos atores.

Além disso, mais importante, há a relação próxima entre Flávio e Vorcaro. Nesse sentido, a crise recoloca em destaque todos os rolos do Banco Master, e o candidato mais implicado nessa disputa é o senador fluminense.

Cada vez que ele não responde acerca do caminho do dinheiro de "Dark Horse", cola mais em si o escândalo. Isso fora novidades que ainda surjam do relacionamento, como o depósito suplementar de R$ 8,5 milhões citados pela revista piauí.

Para Lula, esse roteiro acima parece desenhado para desgastar o adversário principal na disputa. Salvo novidades, o flanco petista no caso Vorcaro, centrado em Jaques Wagner (PT), pode acabar circunscrito à Bahia. De quebra, o caso Lulinha será ofuscado.

Isso dito, há uma associação natural de imagem entre o presidente e Moraes, dada a aliança tática promovida por Lula logo após os 8 de Janeiro, buscando criar um polo de contraposição política ao peso crescente do Congresso.

Não é casual que o governo Donald Trump, na primeira salva do tarifaço em 2025, tenha colocado Lula e Moraes na mesma equação, culpando o petista pelo processo contra Jair Bolsonaro.

Ante os preciosos indecisos, de todo modo, o peso de tal associação é tão duvidoso quanto o prêmio de ser anti-Moraes é para Flávio.

Sobra então o pelotão por ora atrás dos líderes na disputa, e aí o foco potencial de ganho com a crise vai para Augusto Cury (Avante), que vive seus dias de fenômeno digital-eleitoral.

Seu crescimento ainda precisa ser colocado à prova, assim como as suspeitas acerca de impulsionamento virtual, mas no primeiro momento ele tende a faturar. Por ora, Cury disse que a crise valida sua proposta de mandatos na corte.

O mais radical anti-STF dos candidatos, Romeu Zema (Novo), também poderia ter algum ganho, mas sua exposição limitada pela ausência de horário gratuito e anemia nas pesquisas coloca o escopo disso em dúvida.

Ronaldo Caiado (PSD) subiu seu tom anterior e pediu o afastamento de Moraes.

Oposição cobra impeachment de Moraes, mas vê resistência de Alcolumbre e centrão, FSP

 Senadores de oposição falam em aumentar a cobrança pelo impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), mas admitem poucos efeitos práticos, diante da falta de votos e de apoio do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

Reservadamente, dois aliados de Alcolumbre dizem não ver qualquer mudança de postura por parte dele, a partir das novas informações sobre a relação do ministro do Supremo com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.

Alcolumbre e Moraes no Congresso Nacional durante lançamento de livro organizado por Pacheco, em 2024 - Pedro Ladeira - 1º.abr.24/Folhapress

Um deles afirma que a possibilidade de o senador dar início a um processo de impeachment continua igual a zero e que qualquer desdobramento no Senado só deve ocorrer depois das eleições.

Alcolumbre, Moraes e o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB-MG) jantam juntos frequentemente e têm uma relação de bastante proximidade. Na presidência, os dois senadores sempre se colocaram como anteparo do afastamento de Moraes.

Um dos principais líderes do centrão, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que é investigado pela Polícia Federal no caso Master, não quis responder sobre o pedido de impeachment nem sobre o teor do inquérito que veio à público nesta terça. Ciro afirmou que não tinha visto o noticiário e que está focado na reeleição dele.

"Eu só quero saber de eleição no Piauí. Nenhuma outra pauta. Esse não é meu foco, desculpa", disse o senador, suspeito de receber dinheiro vivo e viagens de luxo de Vorcaro e de atuar a favor dos interesses dele no Congresso Nacional.

Para aumentar a pressão pública, parte da oposição discute repetir o motim feito quando o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi preso, em agosto do ano passado, segundo a senadora Damares Alves (Republicanos-DF).

"O Brasil aguarda isso. Defendo ocuparmos o Senado até o impeachment ou a renúncia de Moraes. O Brasil aguarda isso, é estarrecedor", afirma.

As notícias envolvendo Moraes e Vorcaro foram discutidas nesta terça-feira (1º) durante um almoço organizado semanalmente entre bolsonaristas. Segundo relatos, o clima foi de resignação.

"O presidente [Davi Alcolumbre] tem feito acordos e mantido pedidos de impeachment na gaveta. O Senado é a Casa que tem que ter altivez. Não podemos mais deixar de dar respostas", diz o senador Carlos Viana (PSD-MG).

Parlamentares dos dois lados afirmam que as revelações sobre Moraes e Vorcaro devem incendiar ainda mais as eleições, tanto a de presidente da República como a de senadores.

Sem maioria política no Senado para um processo de impeachment, o candidato à Presidência do PL, senador Flávio Bolsonaro, defendeu que o ministro renuncie ao cargo e cobrou explicações —apesar de, ele próprio, evitar responder sobre sua relação com Vorcaro. O ex-banqueiro financiou o filme "Dark Horse", que contará a história de seu pai, Jair Bolsonaro.

"É uma coisa muito grave. Eu acho que o Alexandre de Moraes tinha que renunciar ao Supremo Tribunal Federal. Não tem mais condição dele continuar sendo ministro do Supremo", disse Flávio a jornalistas.

O líder da oposição no Senado e coordenador da campanha de Flávio, Rogério Marinho (PL-RN), anunciou um novo pedido de impeachment e disse que o grupo vai continuar fazendo a parte dele. Segundo o Partido Novo, há 53 pedidos de afastamento contra Moraes no Senado.

Integrantes do governo avaliam que as revelações desta terça devem tumultuar o Senado, mas não a ponto de impedir votações como a do fim da escala de trabalho 6x1 na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), prevista para esta quarta (2).