A revelação das mensagens entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes é um choque sísmico de grandes proporções para a combalida vida institucional brasileira, e seus tremores secundários serão sentidos imediatamente na campanha à Presidência.
A menos que seja provada uma farsa inaudita na confecção das mensagens, o ministro do Supremo está numa posição que flerta a insustentabilidade.
Ainda é preciso saber como ele respondeu aos pedidos do ex-dono do Banco Master, claro, mas o fato de a conversa ter ocorrido no contexto do contrato entre a banca de sua mulher e Vorcaro a torna ainda mais difícil de explicar.
O embate se dará no plenário do Supremo, e o resultado dificilmente será salutar para a corte, que enfrenta a maior crise de sua história recente.
A esta altura, quaisquer alegações de abuso por parte de André Mendonça serão vistas como acobertamento; já o cisma instalado tornará os bate-bocas do passado, como no julgamento do mensalão, uma trivialidade.
Do ponto de vista eleitoral, a crise é um coringa a ser usado ao gosto de cada candidato, com chances incertas de sucesso.
Um caso é o do senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário histórico de Moraes, o homem que colocou seu pai na cadeia. À primeira vista, a barafunda é um ativo poderoso: a base bolsonarista sempre cultivou ódio ao ministro, e agora o assiste encarando o cadafalso político.
Mas talvez seja algo ilusório, dado que esse estrato já está com Flávio. Os eleitores indecisos vitais para o senador e para o presidente Lula (PT) não parecem tão interessados em briga pretérita com os mesmos atores.
Além disso, mais importante, há a relação próxima entre Flávio e Vorcaro. Nesse sentido, a crise recoloca em destaque todos os rolos do Banco Master, e o candidato mais implicado nessa disputa é o senador fluminense.
Cada vez que ele não responde acerca do caminho do dinheiro de "Dark Horse", cola mais em si o escândalo. Isso fora novidades que ainda surjam do relacionamento, como o depósito suplementar de R$ 8,5 milhões citados pela revista piauí.
Para Lula, esse roteiro acima parece desenhado para desgastar o adversário principal na disputa. Salvo novidades, o flanco petista no caso Vorcaro, centrado em Jaques Wagner (PT), pode acabar circunscrito à Bahia. De quebra, o caso Lulinha será ofuscado.
Isso dito, há uma associação natural de imagem entre o presidente e Moraes, dada a aliança tática promovida por Lula logo após os 8 de Janeiro, buscando criar um polo de contraposição política ao peso crescente do Congresso.
Não é casual que o governo Donald Trump, na primeira salva do tarifaço em 2025, tenha colocado Lula e Moraes na mesma equação, culpando o petista pelo processo contra Jair Bolsonaro.
Ante os preciosos indecisos, de todo modo, o peso de tal associação é tão duvidoso quanto o prêmio de ser anti-Moraes é para Flávio.
Sobra então o pelotão por ora atrás dos líderes na disputa, e aí o foco potencial de ganho com a crise vai para Augusto Cury (Avante), que vive seus dias de fenômeno digital-eleitoral.
Seu crescimento ainda precisa ser colocado à prova, assim como as suspeitas acerca de impulsionamento virtual, mas no primeiro momento ele tende a faturar. Por ora, Cury disse que a crise valida sua proposta de mandatos na corte.
O mais radical anti-STF dos candidatos, Romeu Zema (Novo), também poderia ter algum ganho, mas sua exposição limitada pela ausência de horário gratuito e anemia nas pesquisas coloca o escopo disso em dúvida.
Ronaldo Caiado (PSD) subiu seu tom anterior e pediu o afastamento de Moraes.

