terça-feira, 1 de setembro de 2026

Mensagens de Vorcaro citam Moraes, Gonet e chefe da PF; entenda o caso- FSP

 Laura Intrieri

São Paulo

Uma série de mensagens, minutas de contratos e metadados obtidos pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro ampliou nesta terça-feira (1º) as informações conhecidas sobre a relação do ex-dono do Banco Master com autoridades.

Vorcaro procurou o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes enquanto tentava salvar o banco e acompanhar as investigações que levariam à prisão do ex-banqueiro. O material também registra pedidos para que fossem acionados o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, durante sessão de reabertura dos trabalhos do judiciário no STF - Pedro Ladeira - 3.ago.2026/Folhapress

Outros documentos tratam de um contrato de cerca de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, e de uma segunda proposta, de R$ 50 milhões, que previa o pagamento com cotas de um jatinho e de um helicóptero.

Parte das mensagens é atribuída diretamente a Moraes. Em outros trechos, a PF afirma apenas suspeitar que o ministro seria o interlocutor de Vorcaro. A extração recuperou conteúdos enviados pelo ex-banqueiro, mas não eventuais respostas, porque os dois usariam imagens de visualização única com textos escritos em outro aplicativo. Os documentos também não demonstram que os pedidos feitos por Vorcaro tenham sido atendidos.

O que Vorcaro disse a Moraes antes de ser preso?

As mensagens mostram que Vorcaro procurou Moraes repetidas vezes nos dias anteriores à própria prisão, em 17 de novembro de 2025.

No dia 14, perguntou se um encontro estava marcado para o dia seguinte. Em 15 de novembro, um sábado, pediu uma nova conversa e questionou: "Acha que segunda já tenho que estar fora?". No domingo (16), disse que estava em voo e que seguiria diretamente para encontrar o ministro após pousar.

Vorcaro também perguntou sobre o juiz responsável pelo caso, quis saber se o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, conhecia a situação e questionou se seria possível fazer algo. Já na tarde do dia em que foi detido, perguntou se o interlocutor havia obtido notícias ou conseguido "bloquear" a medida.

A PF afirma que Vorcaro enviou 12 capturas de tela relacionadas a encontros com Moraes nesse período. Os documentos, porém, não esclarecem se todas as reuniões chegaram a ocorrer.

Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de São Paulo quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta. Naquele mesmo dia, o Banco Central decidiu liquidar o Master, medida anunciada na manhã seguinte.

O que Vorcaro disse sobre Gonet e o chefe da PF?

Em mensagens enviadas a um interlocutor que a PF suspeita ser Moraes, Vorcaro pediu que fossem acionados "Andrei e Paulo". As referências, segundo a investigação, seriam a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.

Em um dos trechos, Vorcaro afirma ser importante reforçar o pedido com os dois para impedir que integrantes de escalões inferiores adotassem uma medida que prejudicasse o banco. Em outro, solicita que Andrei fosse sensibilizado a adiar uma ação da PF para a semana seguinte, argumentando que isso impediria a quebra do Master.

Não há, até agora, indicação de que Andrei ou Gonet tenham realizado as intervenções solicitadas. Os dois não haviam se manifestado até a revelação das informações sobre o caso.

O que significa a mensagem sobre um "aperto no Paulo"?

Em 19 de março de 2025, Vorcaro afirmou ao ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza que estava com Moraes e que o ministro "vai chamar o Paulo para dar um aperto".

Naquele momento, o ex-banqueiro tentava vender 58% do Master ao BRB (Banco de Brasília). A operação estava sob escrutínio do Ministério Público Federal, comandado por Gonet.

Quantas vezes Moraes e Vorcaro teriam se encontrado?

Mensagens analisadas pela PF indicam ao menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro.

O primeiro teria ocorrido em fevereiro de 2024, na casa do ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, que articulou as reuniões iniciais. As mulheres dos três também participariam do jantar.

Há ainda referências a encontros em julho e novembro de 2024 e em fevereiro, março e abril de 2025. Em algumas ocasiões, Vorcaro avisou pessoas próximas que estava com Moraes, incluindo sua namorada e Paulo Sérgio Neves de Souza, então diretor do Banco Central.

As conversas também sugerem uma reunião durante um feriado em Campos do Jordão. O relatório não apresenta confirmação independente de todos os encontros mencionados.

Qual era o contrato de R$ 131 milhões?

A PF identificou, por meio dos metadados de um arquivo encontrado no celular de Vorcaro, que Moraes fez edições em uma minuta do contrato entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes antes da assinatura.

O escritório afirmou que seu setor de compliance consultou Moraes, na condição de marido da sócia-diretora, para verificar se existiam impedimentos legais à contratação, como processos do Master sob relatoria do ministro.

O contrato vigorou de fevereiro de 2024 a novembro de 2025, quando o Master foi liquidado.

Em março, ao comentar outro conjunto de mensagens atribuído a ele, Moraes afirmou que não havia recebido os conteúdos divulgados e classificou a associação de seu nome aos diálogos como uma "ilação mentirosa" destinada a atacar o Supremo. O ministro ainda não havia se manifestado sobre as novas informações publicadas nesta terça.

O que previa a segunda proposta de contrato?

A PF também localizou minutas de uma segunda proposta, no valor de R$ 50 milhões.

Pelo documento, R$ 40 milhões seriam pagos por meio da transferência de cotas de um avião Legacy 650 e de um helicóptero. Outros R$ 10 milhões seriam destinados ao reembolso de despesas relacionadas aos voos.

O escritório de Viviane afirmou que essa proposta não foi aceita, que nenhum segundo contrato foi assinado e que não houve substituição do acordo original. A banca disse ainda que o primeiro contrato foi encerrado com a liquidação do Master.

A Folha já havia mostrado que Moraes usou uma das aeronaves ao menos em julho de 2025. Mensagens obtidas pela PF também tratam de uma viagem de Viviane e de uma conversa na qual ela disse estar satisfeita com a utilização das cotas.

O relatório registra ainda discussões sobre o chamado "risco reputacional" dos pagamentos e sobre a possibilidade de os ativos serem transferidos a outra empresa. Não está claro se alguma transferência chegou a ocorrer.

Qual foi a participação de Moraes em fóruns promovidos por Vorcaro?

Mensagens encontradas pela PF indicam que Moraes sugeriu mudanças, aprovou textos e vetou convidados de um fórum jurídico realizado em Londres e organizado pelo Grupo Voto, com participação de Vorcaro.

Uma integrante da organização afirmou ter seguido as recomendações enviadas pelo ministro. Vorcaro também disse que Moraes havia reclamado da organização do encontro, do destaque dado ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e da eventual participação de Antonio Rueda, presidente da federação União Brasil-PP.

Como o filho de Gonet aparece no relatório?

Outro conjunto de mensagens trata de um fórum jurídico previsto para ocorrer em Londres em 2025, mas que acabou cancelado.

Segundo o relatório da PF, Pedro Gonet, filho do procurador-geral da República, pediu para participar do evento com as despesas pagas por Vorcaro. O advogado Ciro Soares, ex-defensor do Master, atuou como intermediário entre Gonet e o então dono da instituição financeira.

Em uma conversa com uma funcionária, Vorcaro aprovou o pagamento das despesas de Pedro Gonet e de Ciro. O relatório também registra que a interlocução intermediada pelo advogado havia começado em 2024, inicialmente em assuntos ligados a Jarbas Soares Júnior, ex-procurador-geral de Justiça de Minas Gerais.

Ciro afirmou que não havia segredo na lista de convidados, que o seminário seria aberto ao público e que não existe ilegalidade em custear a participação de palestrantes e convidados. Gonet não se manifestou.

Terremoto institucional no STF atinge as campanhas, FSP

 Igor Gielow

São Paulo

A revelação das mensagens entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes é um choque sísmico de grandes proporções para a combalida vida institucional brasileira, e seus tremores secundários serão sentidos imediatamente na campanha à Presidência.

A menos que seja provada uma farsa inaudita na confecção das mensagens, o ministro do Supremo está numa posição que flerta a insustentabilidade.

Homem calvo veste terno cinza, camisa branca e gravata azul, sentado em cadeira com encosto vermelho, com expressão séria e olhar direcionado para a frente.
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, durante sessão da corte - Sergio Lima - 1º.set.26/AFP

Ainda é preciso saber como ele respondeu aos pedidos do ex-dono do Banco Master, claro, mas o fato de a conversa ter ocorrido no contexto do contrato entre a banca de sua mulher e Vorcaro a torna ainda mais difícil de explicar.

O embate se dará no plenário do Supremo, e o resultado dificilmente será salutar para a corte, que enfrenta a maior crise de sua história recente.

A esta altura, quaisquer alegações de abuso por parte de André Mendonça serão vistas como acobertamento; já o cisma instalado tornará os bate-bocas do passado, como no julgamento do mensalão, uma trivialidade.

Do ponto de vista eleitoral, a crise é um coringa a ser usado ao gosto de cada candidato, com chances incertas de sucesso.

Um caso é o do senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário histórico de Moraes, o homem que colocou seu pai na cadeia. À primeira vista, a barafunda é um ativo poderoso: a base bolsonarista sempre cultivou ódio ao ministro, e agora o assiste encarando o cadafalso político.

Mas talvez seja algo ilusório, dado que esse estrato já está com Flávio. Os eleitores indecisos vitais para o senador e para o presidente Lula (PT) não parecem tão interessados em briga pretérita com os mesmos atores.

Além disso, mais importante, há a relação próxima entre Flávio e Vorcaro. Nesse sentido, a crise recoloca em destaque todos os rolos do Banco Master, e o candidato mais implicado nessa disputa é o senador fluminense.

Cada vez que ele não responde acerca do caminho do dinheiro de "Dark Horse", cola mais em si o escândalo. Isso fora novidades que ainda surjam do relacionamento, como o depósito suplementar de R$ 8,5 milhões citados pela revista piauí.

Para Lula, esse roteiro acima parece desenhado para desgastar o adversário principal na disputa. Salvo novidades, o flanco petista no caso Vorcaro, centrado em Jaques Wagner (PT), pode acabar circunscrito à Bahia. De quebra, o caso Lulinha será ofuscado.

Isso dito, há uma associação natural de imagem entre o presidente e Moraes, dada a aliança tática promovida por Lula logo após os 8 de Janeiro, buscando criar um polo de contraposição política ao peso crescente do Congresso.

Não é casual que o governo Donald Trump, na primeira salva do tarifaço em 2025, tenha colocado Lula e Moraes na mesma equação, culpando o petista pelo processo contra Jair Bolsonaro.

Ante os preciosos indecisos, de todo modo, o peso de tal associação é tão duvidoso quanto o prêmio de ser anti-Moraes é para Flávio.

Sobra então o pelotão por ora atrás dos líderes na disputa, e aí o foco potencial de ganho com a crise vai para Augusto Cury (Avante), que vive seus dias de fenômeno digital-eleitoral.

Seu crescimento ainda precisa ser colocado à prova, assim como as suspeitas acerca de impulsionamento virtual, mas no primeiro momento ele tende a faturar. Por ora, Cury disse que a crise valida sua proposta de mandatos na corte.

O mais radical anti-STF dos candidatos, Romeu Zema (Novo), também poderia ter algum ganho, mas sua exposição limitada pela ausência de horário gratuito e anemia nas pesquisas coloca o escopo disso em dúvida.

Ronaldo Caiado (PSD) subiu seu tom anterior e pediu o afastamento de Moraes.