terça-feira, 1 de setembro de 2026

Oposição cobra impeachment de Moraes, mas vê resistência de Alcolumbre e centrão, FSP

 Senadores de oposição falam em aumentar a cobrança pelo impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), mas admitem poucos efeitos práticos, diante da falta de votos e de apoio do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

Reservadamente, dois aliados de Alcolumbre dizem não ver qualquer mudança de postura por parte dele, a partir das novas informações sobre a relação do ministro do Supremo com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.

Alcolumbre e Moraes no Congresso Nacional durante lançamento de livro organizado por Pacheco, em 2024 - Pedro Ladeira - 1º.abr.24/Folhapress

Um deles afirma que a possibilidade de o senador dar início a um processo de impeachment continua igual a zero e que qualquer desdobramento no Senado só deve ocorrer depois das eleições.

Alcolumbre, Moraes e o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB-MG) jantam juntos frequentemente e têm uma relação de bastante proximidade. Na presidência, os dois senadores sempre se colocaram como anteparo do afastamento de Moraes.

Um dos principais líderes do centrão, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que é investigado pela Polícia Federal no caso Master, não quis responder sobre o pedido de impeachment nem sobre o teor do inquérito que veio à público nesta terça. Ciro afirmou que não tinha visto o noticiário e que está focado na reeleição dele.

"Eu só quero saber de eleição no Piauí. Nenhuma outra pauta. Esse não é meu foco, desculpa", disse o senador, suspeito de receber dinheiro vivo e viagens de luxo de Vorcaro e de atuar a favor dos interesses dele no Congresso Nacional.

Para aumentar a pressão pública, parte da oposição discute repetir o motim feito quando o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi preso, em agosto do ano passado, segundo a senadora Damares Alves (Republicanos-DF).

"O Brasil aguarda isso. Defendo ocuparmos o Senado até o impeachment ou a renúncia de Moraes. O Brasil aguarda isso, é estarrecedor", afirma.

As notícias envolvendo Moraes e Vorcaro foram discutidas nesta terça-feira (1º) durante um almoço organizado semanalmente entre bolsonaristas. Segundo relatos, o clima foi de resignação.

"O presidente [Davi Alcolumbre] tem feito acordos e mantido pedidos de impeachment na gaveta. O Senado é a Casa que tem que ter altivez. Não podemos mais deixar de dar respostas", diz o senador Carlos Viana (PSD-MG).

Parlamentares dos dois lados afirmam que as revelações sobre Moraes e Vorcaro devem incendiar ainda mais as eleições, tanto a de presidente da República como a de senadores.

Sem maioria política no Senado para um processo de impeachment, o candidato à Presidência do PL, senador Flávio Bolsonaro, defendeu que o ministro renuncie ao cargo e cobrou explicações —apesar de, ele próprio, evitar responder sobre sua relação com Vorcaro. O ex-banqueiro financiou o filme "Dark Horse", que contará a história de seu pai, Jair Bolsonaro.

"É uma coisa muito grave. Eu acho que o Alexandre de Moraes tinha que renunciar ao Supremo Tribunal Federal. Não tem mais condição dele continuar sendo ministro do Supremo", disse Flávio a jornalistas.

O líder da oposição no Senado e coordenador da campanha de Flávio, Rogério Marinho (PL-RN), anunciou um novo pedido de impeachment e disse que o grupo vai continuar fazendo a parte dele. Segundo o Partido Novo, há 53 pedidos de afastamento contra Moraes no Senado.

Integrantes do governo avaliam que as revelações desta terça devem tumultuar o Senado, mas não a ponto de impedir votações como a do fim da escala de trabalho 6x1 na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), prevista para esta quarta (2).

Cury é a terceira via que veio para ficar? Helio Schwartsman - FSP

 O fenômeno Augusto Cury é para valer? O candidato pelo Avante, que em uma semana saltou de 2% das intenções de voto para 11% na pesquisa BTG/Nexus, tem condições de romper a lógica da polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro? Como sempre digo aqui, tudo o que não é proibido pelas leis da física pode acontecer. E a tal da terceira via não viola nenhuma das regras da natureza, ainda que suas chances de concretização pareçam diminutas.

A demanda do eleitorado por algo diferente dos dois candidatos que vêm figurando como favoritos nas pesquisas é real. Ela fica patente tanto pela escala das rejeições a Lula e a Flávio Bolsonaro, ambas em torno dos 50%, quanto por perguntas diretas. Uma sondagem da Quaest de maio mostrou que 38% prefeririam eleger um candidato da terceira via, contra 32% que querem a recondução de Lula e 24% que optam pela volta de um Bolsonaro. Cury, mais que os outros pretendentes com mais de 1%, é quem melhor se encaixa no figurino de moderado (em oposição a Renan Santos) e que se afasta um pouco mais da imagem de força auxiliar de Bolsonaro (casos de Ronaldo Caiado e Romeu Zema).

Três homens sentados lado a lado em estúdio com fundo azul. O homem à esquerda usa terno, gravata e chapéu branco, sorri. O do meio veste terno azul escuro e camisa branca, expressão neutra. O da direita usa terno escuro, camisa branca e óculos, também com expressão neutra.
Da esq. p/ dir., o presidente Lula (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o escritor Augusto Cury (Avante), candidatos à Presidência da República em 2026 - Manoella Mello - 29.ago.26/Globo

Ainda assim, o avantista tem uma muralha diante de si. É relativamente fácil atrair o eleitor independente ou apenas hesitantemente pró-Lula ou pró-Bolsonaro. Mas, para tornar-se viável, Cury precisaria ameaçar Flávio na disputa por uma das vagas para o segundo turno. E, para que isso aconteça, seria preciso mudar o voto de eleitores mais cognitivamente comprometidos com Lula e com Flávio Bolsonaro. É difícil.

Nossos cérebros são fortemente enviesados para evitar perdas. O medo motiva mais que a esperança, e isso faz com que o eleitor deixe de votar de acordo com as suas preferências reais para reduzir o risco de ver triunfar o candidato que mais rejeita.

O voto estratégico, já foi matematicamente demonstrado, infesta a maioria dos sistemas de votação, fazendo o eleitor falsificar suas preferências. Essa é uma vulnerabilidade que, infelizmente, já vem inclusa no pacote democracia.

Cury cita em plano de governo doutorado em psicologia que não fez, FSP

 Ana Luiza Albuquerque

São Paulo

O escritor Augusto Cury (Avante), candidato à Presidência, citou no plano de governo apresentado ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) um doutorado que não fez. A mesma declaração consta em um site que reúne sua biografia, cursos, livros e projetos.

O documento encaminhado à Justiça Eleitoral diz que Cury tem doutorado em Psicologia Multifocal pela americana Florida Christian University, completado em 2013 com a tese "Programa Freemind como ferramenta global para prevenção de transtornos psíquicos".

Homem de meia-idade com terno azul escuro e camisa branca fala gesticulando com as mãos. Ele usa óculos e tem microfone preso na camisa. Ao fundo, painel desfocado com símbolo circular branco.
O escritor Augusto Cury, candidato a presidente, em debate na Band - Jean Carniel - 23.ago.2026/Reuters

No próprio currículo Lattes do escritor, porém, ele diz ter um PhD em administração de empresas, e não em psicologia, pela universidade citada.

Ele reafirmou a declaração em artigo publicado em julho deste ano no site Observatório da Imprensa. Na ocasião, em resposta a um texto anterior que apontava inconsistências na formação, disse que não apresenta o PhD na Florida Christian University como um doutorado acadêmico em psicologia.

Isso significa que a teoria da Inteligência Multifocal, um método para entender o funcionamento da mente humana que foi sistematizado em um de seus livros e serviu como alicerce para a sua carreira, nunca foi revisada por pares e, portanto, não passou pelo método científico.

Procurada, a assessoria de Cury não respondeu por que a informação incorreta consta no plano de governo.

Cury é médico psiquiatra e ficou muito conhecido como autor de best-sellers de autoajuda e de cursos online que prometem ensinar os alunos a desenvolver inteligência emocional. Ele é o presidenciável com o maior patrimônio declarado à Justiça Eleitoral em 2026: mais de R$ 242 milhões.

Na última semana, surpreendeu as campanhas adversárias com um crescimento vertiginoso nas redes sociais –ganhou cerca de 2,5 milhões de seguidores no Instagram em duas semanas– e nas pesquisas eleitorais.

Nesta segunda (31), após subir nove pontos em uma semana, apareceu em terceiro lugar no levantamento BTG/Nexus, com 11% das intenções de voto.

Adversários levantaram suspeitas de que a equipe do escritor teria pagado influenciadores para fazer propaganda, o que ele nega.

Cinco psiquiatras procurados pela Folha em abril afirmaram que a Teoria da Inteligência Multifocal não tem embasamento científico. Em um de seus livros, Cury escreveu que o método traria soluções para o autismo, um transtorno do neurodesenvolvimento que não tem cura.

Em 2018, em entrevista a uma revista do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo), o escritor afirmou que era "muito difícil desenvolver uma nova teoria psicológica nos dias atuais, ainda mais em uma nação saturada de preconceitos, que importa tudo, incluindo o conhecimento, que não valoriza seus cientistas e pensadores".

"Lembro que, no final da década de 80, procurei uma das maiores universidades, animadíssimo, e comentei que queria pesquisar sobre os pensamentos e as armadilhas mentais. O professor-doutor olhou bem nos meus olhos e me disse: ‘você é ousado! O que você quer, pesquisar ou ganhar o Prêmio Nobel?’", disse.

"Entendi, portanto, que uma teoria não cabe dentro de uma tese de doutorado, ela é uma fonte de teses. Ela não é um corpo de verdades, mas um conjunto de hipóteses e postulados que outros pesquisadores devem comprovar ou refutar."

A faculdade Florida Christian University, na qual Cury informou ter completado um doutorado em Administração, é uma instituição de orientação religiosa que oferece formação em "coaching". A universidade não tem nenhuma acreditação relevante de qualidade no sistema americano.

Entre as pós-graduações disponíveis, estão os mestrados em "Casamento e terapia familiar" e "'Coaching' em saúde e bem-estar".

Um catálogo de 2020/2021 da instituição afirmava: "A Florida Christian University não é credenciada por nenhuma agência aprovada pelo governo, e os alunos que se formam em nossa instituição não têm permissão para prestar exames profissionais, nem têm direito a auxílio financeiro".

Como mostrou a Folha em 2020, a universidade já foi alvo de sentença por oferta irregular de mestrados no Brasil, por meio de articulação com instituições privadas brasileiras.

Na ocasião, em decisão liminar (provisória), a Justiça determinou que a Florida Christian e parceiras interrompessem cursos e emissão de diplomas.

Em seu Linkedin, Cury afirma que é pós-graduado na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo e no centro médico Marmottan, localizado em Paris (França).

No artigo publicado no site Observatório da Imprensa, Cury disse que cursou disciplinas de mestrado em psicologia social na PUC-SP em 1986, mas não confirmou ter completado formação na universidade.

No texto, Cury defendeu sua "produção intelectual", afirmando que ela "originou e inspira projetos educacionais, preventivos e comunitários" e que "alcançou ambientes acadêmicos e instituições públicas".

A Folha confirmou que o escritor ministrou uma disciplina de "Gestão da Emoção" na área de Reabilitação Oral no curso de pós-graduação da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto, da USP (Universidade de São Paulo).

Cury disse, ainda, que a Teoria da Inteligência Multifocal e a expressão Síndrome do Pensamento Acelerado, pela qual também ficou conhecido, "são construções teóricas próprias".

"A validade, os limites e a nomenclatura de qualquer formulação podem e devem ser debatidos. Discordância científica, porém, não prova desonestidade, e a ausência de catalogação não autoriza concluir que alguém 'brinca (e lucra)' com saúde mental."