domingo, 22 de março de 2026

A economia da incompletude, Alvaro Machado Dias FSP

 Estamos tão vidrados nos LLMs (grandes modelos de linguagem) que acabamos esquecendo que os algoritmos das redes sociais estão mudando. Métricas clássicas como curtidas e compartilhamentos vêm perdendo centralidade, enquanto a capacidade de fazer a conversa continuar tornou-se a grande obsessão das plataformas preocupadas em atualizar a matemática do engajamento.

Detalhes recém-publicados e em parte ofuscados do código-fonte do algoritmo do X mostram isso. O sistema passou a privilegiar conteúdos que estimulam réplicas sequenciais em vez dos que geram reações imediatas, ainda que em maior número.

Silhueta de perfil de uma pessoa olhando para o logo preto do X em fundo branco, com foco no símbolo centralizado.
Miniatura do rosto de Elon Musk e logotipo do X - Dado Ruvic - 23.jan.25/Reuters

Uma atualização deste mês do Instagram vai na mesma direção: interações entre membros da audiência dispararam no ranqueamento. Os produtores de conteúdo reagiram multiplicando as narrativas que prendem pela sensação de que é sua obrigação contribuir com uma síntese. Como os entendimentos variam, criam-se debates infinitos.

A tática não é nova. Ela está presente no antigo caso do vestido que ora parece azul, ora dourado e, mais ainda, na polarização, cuja forma só se realiza quando quem foi fisgado responde. Agora esse princípio virou peça central de todas as categorias, levando a uma nova gama de iscas.

Posts com datas erradas ou erros de grafia para ativar o impulso corretivo. Vídeos que fundem a denúncia da má-fé dos bilionários com dicas secretas para enriquecer como eles. Listas dos "dez melhores" que omitem deliberadamente o mais óbvio para que todos comentem "você esqueceu de X". Filmagens de explosões monumentais em Israel, feitas por IA, não mais para só enganar, mas para estimular a juventude progressista a interagir dizendo "como eu gostaria que fosse verdade". Opiniões apresentadas como impopulares, mas calibradas para dividir a audiência exatamente ao meio.

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A estrutura lembra Sam Altman quando diz que a IA geral pode acabar com a humanidade e que, justamente por isso, ele precisa desenvolvê-la. É o desejo do aparte que cria o meme.

Na base do fenômeno está a comoditização da incompletude. Ideias ambíguas ou contraditórias são usinadas sem qualquer pretensão de autoria e se espalham como vírus moral, levando os infectados a lhes dar sentido como quem faz uma boa ação. Isso não se escora em predileções narrativas, mas em ciência comportamental, especificamente processamento preditivo, que mostra que o cérebro-mente é facilmente cooptado por Gestalts em aberto, mesmo as que têm baixo valor pessoal.

O novo regime produtivo parece feito sob medida para a fusão do Instagram com o Moltbook, a rede social de agentes de IA adquirida pela Meta neste mês. A empresa já disse que prevê centenas de milhões de influencers sintéticos operando nas suas plataformas, com bios, fotos de perfil e a capacidade de postar e comentar como qualquer conta humana.

A fórmula da incompletude é altamente replicável e expansível e já está presente no ChatGPT, com suas sugestões insuportáveis ao final de cada resposta. É fácil imaginar os arquitetos da modelagem comportamental desenhando IAs hiperespecializadas em reagir com aquela quantidade ideal de informação para provocar uma réplica.

Isso dá outra dimensão às mudanças algorítmicas. As plataformas que premiam a incompletude estão prestes a ser povoadas por entidades cujo sentido de resolução é a possibilidade de gerar o próximo token.

Sem mais silencio, Ruy C FSP

 O jovem de fones ao ouvido atravessou a rua fora do sinal, costurando entre os carros em movimento e tirando fino das motos entre eles. Perplexo, eu assistia a tudo da calçada. Mas nada aconteceu. O garoto chegou ao outro lado e retomou tranquilo o seu caminho, como se o asfalto fosse uma extensão de sua casa. Perguntei-me que maravilhas estariam saindo dos fones, abafando tudo e permitindo-lhe ignorar as buzinas. Rock, rap, forró, k-pop?

Jovem caminha enquanto usa com fones de ouvido - Stock Adobe

Outra cena que sempre me intriga é a dos jogadores descendo do ônibus do clube para o jogo de dali a pouco, no qual, em tese, eles deveriam estar totalmente concentrados. Todos trazem alguma coisa ao ouvido. Como 90% dos atuais jogadores são evangélicos, imagino que devem estar escutando os hinos e pregações que os levarão à vitória. Mas, se o repertório de seus fones vier do cafonejo, e ainda por cima perderem o jogo, não podem culpar Deus pela derrota.

Digo tudo isso ao ler sobre os efeitos dos headphones nas pessoas que hoje os atracam às orelhas para correr, caminhar, pedalar, motocar, dirigir, dormir, trabalhar e até estudar, alheios à vida ao redor. É como se se isolassem da vida. Usam-nos também para reduzir o estresse, relaxar ou, ao contrário, excitar-se, tudo exceto refletir. É um passaporte para a alienação, o individualismo, o não-tou-nem-aísmo.

Por sorte, quem usa esses fones tem a liberdade de tirá-los para, às vezes, dar um alívio aos fatigados tímpanos. Mas, e se uma pessoa for obrigada a ouvi-los, sem poder arrancá-los ou implorar a alguém para fazer isso?

Foi o que me contaram de um conhecido meu, homem de seus 80, nos estágios finais de um mal que o impedia de mover-se ou comunicar-se. Todos sabiam do amor que, em dias mais felizes, ele dedicara a Lizst, Chopin e Tchaikovski. Daí, seus netos prepararam 24 horas de playlist com suas sinfonias favoritas e, todos os dias, aplicavam-lhe os fones pelo dia inteiro.

É o terror: ser condenado a escutar sem parar o que você ama, quando tudo que quer é o silêncio.


Quem bloqueia código no STF fortalece fama de pior tribunal de todos os tempos, Elio Gaspari, FSP

 O juiz Oliver Wendell Holmes dizia que a Corte Suprema dos Estados Unidos assemelhava-se a nove escorpiões dentro de uma garrafa. O Supremo Tribunal Federal brasileiro tem 11 ministros e passa pelo pior momento de sua existência.

Já houve casos de choque entre o tribunal e o Executivo. Às vezes os choques deram-se com o Congresso, mas foram leves. Desta vez, o curso de colisão é com a opinião pública. Uma pesquisa da Quaest revelou que, pela primeira vez, a porcentagem de pessoas que não confiam no Supremo Tribunal (49%) superou a dos que confiam (43%).

Homem branco de cabelos brancos e óculos, vestindo terno azul escuro e gravata, ajusta casaco preto sobre o ombro em ambiente interno com fundo escuro e vidro ao lado.
O ministro e presidente do STF, Edson Fachin, durante sessão da corte - Pedro Ladeira - 11.fev.25/Folhapress

Essa novidade ocorre num cenário que não envolve divergências políticas. O que desgasta o Supremo Tribunal são condutas pessoais, autoritarismos, blindagens e até mesmo farofas.

O ministro Edson Fachin pôs na mesa a discussão da necessidade de um código de conduta e foi repelido por alguns de seus pares como se propusesse um veneno.

A banda do Supremo que bloqueia o código ainda não se deu conta de que está fortalecendo a ideia de que o atual Pretório Excelso pegou fama como o pior tribunal de todos os tempos.

Maxwell na rede

Está na rede a edição eletrônica do livro "Globalização do Século 18: A Conspiração de Minas e o Atlântico Revolucionário", do professor Kenneth Maxwell, autor do celebrado "A Devassa da Devassa".

Com novos documentos, ele revisita a tentativa de envolvimento dos Estados Unidos com a conspiração dos mineiros. Em 1786, o estudante Joaquim Maia e Barbalho tratou do assunto com Thomas Jefferson, então embaixador dos Estados Unidos na França. Jefferson não queria encrenca com Portugal.

O pano de fundo dessa história foi um pequeno livro, com uma coletânea de documentos da revolução americana. Dois exemplares do livrinho estavam no Brasil e um passou pelas mãos de Tiradentes.

Os "americanos ingleses", como eram chamados os subversivos da época, foram citados 90 vezes nas devassas da Inconfidência Mineira e os livros revolucionários tiveram 15 menções. Gente perigosa, aqueles americanos.

Nesse livro, Maxwell faz uma audaciosa afirmação: "José Bonifácio era tudo o que Thomas Jefferson gostaria de ter sido".

A perigosa coletânea de textos ficou nos arquivos até 1860, quando o historiador Alexandre de Mello Moraes doou-a à biblioteca pública de Florianópolis.