domingo, 22 de março de 2026

Novas lombadas virão na relação Brasil-EUA, ELio Gaspari, FSP

 Com a proximidade da campanha eleitoral, as relações do Brasil com os Estados Unidos voltaram a azedar. O Itamaraty cancelou o visto de Darren Beattie, conselheiro do governo Trump para assuntos relacionados com Pindorama. Ele pretendia visitar Jair Bolsonaro na Papudinha. Novas lombadas virão.

Muita gente mete a colher nessa encrenca. Para evitar que o Brasil caia em crises pueris, valeria prestar atenção no estilo do chanceler Mauro Vieira. Afinal, foi ele quem aplainou as arestas criadas por Trump.

Vieira fala pouco, só quando quer, sem dar detalhes de suas negociações. Cala-se quando consegue prevalecer e nunca reclama.

Homem de terno cinza claro, camisa azul e gravata escura caminha por corredor interno com janelas à direita. Dois homens ao fundo, um com crachá, observam a passagem.
O chanceler Mauro Vieira participa de reunião da Comissão de Relações Exteriores do Congresso Nacional - Gabriela Biló - 18.mar.26/Folhapress

O cérebro de Trump

Um neurologista que acompanha as idas e vindas de Donald e o viu fazendo piada com o ataque a Pearl Harbor com a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi arrisca um palpite, quase uma certeza:

"Ele tem um quadro relacionado com alguma lesão do lobo frontal do cérebro. A pessoa perde a inibição e toma decisões erráticas. Em português claro, diz o que lhe vem à cabeça."

Trump estava com a primeira-ministra quando um repórter perguntou-lhe por que atacou o Irã sem consultar seus aliados, como o Japão. Ele estava ao lado de Sanae Takaichi e respondeu:

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"Nós queríamos surpresa. Quem entende melhor de surpresa que o Japão? Por que você não me avisou de Pearl Harbour?"

O Japão atacou a base naval dos Estados Unidos no Havaí em dezembro de 1941, enquanto conduzia negociações diplomáticas em Washington.

Quatro anos depois os Estados Unidos jogaram duas bombas atômicas no Japão, acabando com a guerra.

Vorcaro quer pautar a delação

  • Colaboração premiada não existe para fazer amigos
  • Vorcaro dizer que não quer envolver magistrados é piada
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Daniel Vorcaro é uma pessoa audaciosa e o que ele fez com o Banco Master comprova essa característica. Da cadeia, ele sinalizou que partirá para a delação. Até aí, tudo bem, mas em apenas uma semana ele soltou sinais de fumaça, indicando que pretende ser o maestro do espetáculo.

Quando estava solto e tentava ser recebido pelo ministro Fernando Haddad, ele avisava: "Eu preciso falar para ele o que pode acontecer se algo acontecer comigo".

Enquanto a Polícia Federal digere o conteúdo de seus oito celulares, os primeiros sinais revelaram-no simultaneamente ameaçador e conciliador. Ameaçou revelar suas conexões com o PT e levantou uma bandeira branca para as ligações com magistrados, revelando que não pretende envolver o Supremo Tribunal Federal na sua delação.

Três fotos lado a lado mostram um homem adulto com cabelo curto e escuro, vestindo camiseta branca. As imagens incluem perfil esquerdo, frente e perfil direito, com fundo branco e marcações de altura visíveis.
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no Complexo Penal II de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo - Divulgação Polícia Federal

Vorcaro achou que controlaria o Banco Central dando capilés a pelo menos dois funcionários. Depois acreditou que paralisaria o BC indo a Lula com o consigliere Guido Mantega. Quando deu tudo errado e o Master entrou em regime de liquidação, valeu-se de uma patrulha de blogueiros para intimidar o BC. Deu errado de novo e ele acabou preso pela segunda vez. Só então partiu para a delação, mas acredita que pode pautá-la.

Vorcaro dizendo que não quer envolver magistrados com sua colaboração é uma piada. Uma delação controlada pelo delator é uma inversão dos papéis. Quem controla esse processo são funcionários da Viúva. Eles podem influir na fixação do tamanho da multa que será imposta a Vorcaro, bem como na extensão da pena que cumprirá.

Vorcaro tem um fraco por espetáculos, quer pelas suas festas, quer pelos seus patrocínios de farofas enfeitadas por parlamentares e magistrados. O melhor que pode lhe acontecer é transformar sua colaboração num espetáculo, colocando-se no papel principal.

Em 2013, quando a Receita dos Estados Unidos detonou a rede de roubalheiras no futebol, o empresário brasileiro José Hawilla foi preso e passou a colaborar com a polícia federal americana. Ele gravava conversas e era acompanhado por Jared Randall, um agente do FBI.

A certa altura depois de ter sido fixada uma multa de US$ 20 milhões, garantida por um depósito de US$ 5 milhões, Randall sentiu-se na obrigação de lembrar ao colaborador: "Eu não sou teu amigo".

O instituto da delação premiada não existe para fazer amizades e a colaboração de Vorcaro não pode avacalhar o processo.

Agora vai-se ver o que acontece com Vorcaro falando.



Delação de Vorcaro põe classe política e STF sob pressão em ano eleitoral, FSP

 A informação de que o banqueiro Daniel Vorcaro negocia com a Polícia Federal e a PGR (Procuradoria-Geral da República) um acordo de delação premiada aumentou o clima de tensão em Brasília com possíveis novas revelações sobre o escândalo do Banco Master.

A avaliação na classe política, jurídica e empresarial é a de que as revelações podem provocar danos em todas as vertentes. A eventual delação tem potencial de atingir integrantes do governo Lula (PT), do Congresso, da cúpula dos partidos do centrão, da oposição e do STF (Supremo Tribunal Federal), além de outras instâncias do Judiciário.

Homem de terno escuro e gravata clara sentado em cadeira branca, segurando microfone e gesticulando durante palestra. Fundo azul com padrões ondulados e painéis com logo 'esfera'.
Ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro manteve relação com juízes, ministros, empresários e políticos - Rubens Cavallari - 22.abr.24/Folhapress

Entre os políticos, a principal preocupação é que as investigações invadam o período de campanha e que as repercussões da delação afetem o xadrez eleitoral, com denúncias e operações policiais ao longo do pleito. O ministro André Mendonça, relator do processo no STF, já afirmou a auxiliares que não pretende suspender as apurações durante a eleição.

No Congresso e no Judiciário, há críticas sobre o que veem como vazamentos seletivos de informações por parte da polícia, como forma de ganhar apoio popular para investigar autoridades. Há a percepção de que revelações sobre as festas luxuosas de Vorcaro, com gastos milionários, popularizaram e atraíram atenção para o escândalo, que, até então, era de conhecimento restrito a quem acompanha o mercado financeiro.

Congressistas ouvidos pela Folha preveem que os presidentes dos dois maiores partidos do centrão devem ser atingidos: Antônio Rueda, do União Brasil, e Ciro Nogueira, do PP. Em conversas com aliados, eles confirmam as relações pessoais com Vorcaro —já explicitadas pela quebra de sigilo telefônico do banqueiro—, mas negam transações financeiras.

De acordo com relatos, Nogueira e Rueda defendem em conversas reservadas que a participação em festas não é crime e que todos os políticos desejavam se aproximar de Vorcaro na época. O ex-banqueiro participava e patrocinava eventos com autoridades.

Há um receio, no entanto, de vazamento de fotos e conversas pessoais que podem ser exploradas por adversários para constrangê-los na campanha.

À Folha Rueda disse que não comenta fofocas nem supostas delações. "Nunca fiz qualquer intermediação, não recebi vantagem e não tenho relação de natureza negocial com quem quer que seja nesse caso. Qualquer tentativa de me envolver é especulativa", afirmou.

Nogueira não respondeu à reportagem.

Aliados do presidente Lula também buscam blindá-lo e investem no discurso de que foi seu governo que desbaratou esquemas herdados da gestão Jair Bolsonaro. Na quinta-feira (19), ele disse em discurso: "Esse Banco Master é obra, é o ovo da serpente, do Bolsonaro e do Roberto Campos [Neto], ex-presidente do Banco Central".

Colaboradores do presidente alimentam expectativa de uma atuação técnica do ministro André Mendonça. Na visão de aliados, ainda que haja uma tentativa de responsabilização do governo Lula, é impossível poupar a administração anterior.

Ainda segundo auxiliares, Lula afirma que, mesmo que viesse à tona a participação de algum aliado, seria uma gota em um oceano de bolsonaristas. Ministros do governo lembram que o presidente incentivou as investigações e sugeriu que os citados se explicassem.

Um deles minimiza o risco de Vorcaro proteger amigos em eventual delação e lembra que o banqueiro terá que fundamentar suas acusações. Apesar desses argumentos, uma ala do governo admite que acusações de Vorcaro podem causar danos eleitorais.

Entre políticos da direita e bolsonaristas, a negociação para a delação foi comemorada e a esperança é de que sejam atingidos nomes do centrão e da esquerda, mas principalmente ministros do STF. O discurso de membros do PL, por exemplo, é o mesmo que embasou os pedidos de CPI do Master protocolados por esse campo —de que tudo deve ser investigado.

O pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, escreveu: "Por favor, Vorcaro, delate todo mundo! Sejam políticos, pastores, empresários, ministros do STF etc. Em nome de Jesus".

Parte do bolsonarismo desconfia, porém, que Vorcaro pode tentar poupar as relações com ministros da Suprema Corte e entregar apenas políticos. Também há receio de que uma delação que implique o STF ou a própria PGR não seja homologada, numa tentativa de blindagem às autoridades.

Parlamentares do PL que mantêm uma briga antiga com o Supremo, especialmente com o ministro Alexandre de Moraes, veem na delação uma oportunidade de expor o que consideram corrupção na corte e, assim, fortalecer o discurso pró-impeachment de ministros.

Nomes da direita também minimizam revelações que possam surgir a respeito da Igreja Batista da Lagoinha e do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que usou um avião ligado ao dono do Master em agendas no segundo turno de 2022. Em suas redes, Nikolas comemorou uma notícia da delação dizendo que Vorcaro não pouparia ninguém.