quarta-feira, 18 de março de 2026

Martin Wolf- Trump quebrou. Agora é problema dele, FT FSP

 "A única coisa que está impedindo o trânsito no estreito agora é o Irã atirando em navios. Está aberto para passagem, desde que o Irã não faça isso." Essa declaração impressionante do "secretário de guerra" Pete Hegseth explica por que nenhum dos aliados dos Estados Unidos convidados a participar da luta para reabrir o estreito de Hormuz está disposto a fazê-lo: eles não foram consultados; esta não é uma operação da Otan; e, acima de tudo, as pessoas no comando são claramente negligentes.

É claro que o Irã está atacando os navios no estreito. Essa é a maneira mais óbvia de sua liderança se defender do ataque dos Estados Unidos e de Israel. A questão é, antes, o que os atacantes são capazes de fazer a respeito. Afinal, como observa Ray Dalio, fundador da Bridgewater, "no caso desta guerra com o Irã, há um consenso quase universal de que tudo se resume a quem controla o estreito de Hormuz". No momento, é o Irã. Enquanto isso for verdade, ele está vencendo.

Homem branco com cabelo loiro penteado para trás, vestindo terno azul escuro, camisa branca e gravata vermelha, sentado em ambiente interno com fundo desfocado onde se vê uma bandeira dos Estados Unidos.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca, em Washington, D.C. - Nathan Howard/REUTERS

De forma simples, como a Agência Internacional de Energia observou: "A guerra no Oriente Médio está criando a maior interrupção de fornecimento da história do mercado global de petróleo". No entanto, ela também estima que a oferta global de petróleo na verdade aumentará "em 1,1 milhão de barris por dia em 2026, em média, com os produtores fora da Opep+ respondendo por todo o aumento". Isso porque a AIE espera que os fluxos comerciais pelo estreito sejam retomados gradualmente a partir do final de março e depois se recuperem rapidamente ao longo de abril. Mas não é difícil imaginar um futuro muito mais sombrio.

Em seu excelente Substack, The Overshoot, Matthew Klein, ex-FT, argumenta que os preços do petróleo estão surpreendentemente baixos. Isso é verdade tanto em termos nominais quanto em termos reais de longo prazo. Assim como a AIE, os mercados presumem que as coisas logo voltarão ao normal. No entanto, não é nada óbvio por que isso acontecerá. Em particular, como Klein enfatiza, "a atual ameaça ao fornecimento não tem precedentes". Além disso, ele acrescenta, as "mudanças de preços anteriores necessárias para reduzir a demanda e/ou aumentar a oferta foram muito maiores do que o que vimos até agora, e os períodos de ajuste também levaram mais tempo, embora as mudanças nos volumes também fossem muito menores do que o que está acontecendo atualmente".

Crucialmente, as exportações de petróleo bruto do IrãIraque, Kuwait, Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos representavam cerca de 20% da oferta global e mais de 40% das exportações globais de petróleo bruto. Grande parte disso agora desapareceu. Se o tráfego pelo estreito permanecesse bloqueado porque os navios optam por evitar os mísseis, drones e minas do Irã, a perda de oferta global seria sem precedentes.

Desde o início dos anos 1970, observa Klein, tivemos três períodos em que os preços do petróleo mais que dobraram em relação aos níveis "normais" e depois permaneceram altos: o embargo árabe de petróleo de 1973; a revolução iraniana do final dos anos 1970; e a demanda crescente de 2003-08, especialmente da China. Para que demanda e oferta se equilibrem, seria necessário novamente preços muito mais altos, porque a demanda por petróleo é inelástica, especialmente no curto prazo. Para alcançar as reduções necessárias na demanda, os preços do petróleo poderiam ter que subir muito acima de US$ 200 por barril, o que suprimiria a demanda por petróleo tanto diretamente quanto indiretamente, por meio dos impactos macroeconômicos de inflação mais alta, taxas de juros e desemprego.

Além disso, não se trata apenas de petróleo. Trata-se também de gás, fertilizantes e petroquímicos, de forma mais ampla. Esses são insumos cruciais. Preços mais altos e escassez absoluta teriam efeitos prejudiciais, notadamente na produção de alimentos. Muitos desses efeitos seriam particularmente danosos na Ásia, para a qual o Golfo é o fornecedor dominante de petróleo, gás e produtos relacionados.

Em resumo, se o estreito não for reaberto em breve, o mundo corre o risco de disrupção econômica e política. Apenas uma grande potência, a Rússia, estará inequivocamente em melhor situação. Além disso, não apenas os importadores líquidos de petróleo e gás serão prejudicados. Os países podem precisar de alguns desses produtos porque atendem a propósitos específicos. Além disso, quase todos os países serão afetados pelo impacto na inflação, na demanda e na distribuição de renda.

Então, o que deve ser feito? No curto prazo, cabe aos Estados Unidos resolver o problema que criaram. Eles devem encontrar uma maneira de acabar com essa ameaça totalmente previsível (e prevista) do Irã. Não pode caber a outros salvá-los de sua falha em pensar nas consequências, particularmente após suas múltiplas ações e palavras hostis, notadamente sobre tarifas. Deveriam ter lembrado das palavras de Colin Powell, um líder militar mais sábio, que famosamente alertou George W. Bush de que "se você quebrar, é seu". Isso foi dito sobre a guerra no Iraque. Agora é verdade para o fornecimento global de petróleo. Os Estados Unidos são donos desse problema.

Sim, os Estados Unidos ameaçarão não vir em socorro de seus aliados da Otan em uma crise. Mas a triste verdade é que muito poucos de seus aliados esperam que isso aconteça de qualquer forma. Seu comportamento em relação a eles tem sido tão errático e ofensivo, sob Trump, que a confiança em grande parte evaporou. Pior, os Estados Unidos até pareceram hostis aos valores democráticos liberais que europeus e outros há muito acreditavam compartilhar com a potência hegemônica.

Existe então uma saída dessa confusão para um grau de estabilidade significativa nesta região crucial do mundo? Não sei. Se for uma saída militar, cabe àqueles que atacaram o Irã encontrá-la. Se for uma saída diplomática, então países de fora podem ser capazes de ajudar, embora a Índia ou a China provavelmente tenham muito mais influência sobre o Irã do que qualquer potência ocidental.

No longo prazo, o mundo precisa diminuir sua dependência de petróleo e gás. Mas isso não será amanhã. No curto prazo, o mundo tem que torcer para que os Estados Unidos recuperem o bom senso. Eu costumava pensar que o único ponto positivo de Trump era que ele não queria travar guerras. Agora, acontece que ele as adora, mas não se dá ao trabalho de pensar em como vai vencê-las —um problema que muitos de seus antecessores compartilharam. Talvez ele aprenda algo útil com esta guerra. Mas, antes de tudo, ele precisa encontrar uma maneira de acabar com ela.

Agnotologia: ignorar essa palavra nunca mais, Sergio Rodrigues, FSP

 Por décadas, entre os anos 50 e os 90 do século passado, a indústria do cigarro soube que seu produto era uma catástrofe para a saúde pública, mas trabalhou para semear a dúvida. Comprou pesquisas científicas e artigos jornalísticos. Ganhou tempo.

Com isso, provocou conscientemente a morte de um número de pessoas que se conta em dezenas de milhões, na mesma prateleira numérica da Segunda Guerra. Motivação? Bilhões de dinheiros –que, como se sabe, costumam falar mais alto que milhões de vidas.

A atriz Bette Davis em cena de filme em meados do século 20 - Reprodução

Foi a turma cigarrífera que levou um historiador da ciência da Universidade Stanford, Robert Proctor, a cunhar nos anos 90 a palavra "agnotology", dicionarizada no Brasil como agnotologia.

Parente do agnóstico —com quem compartilha o elemento grego "agn-", relativo a ignorância—, agnotologia nomeia o estudo da ignorância pública fabricada, intencional, monetizada.

Anúncio publicitário retrô com fundo rosa, mostrando um bebê de olhos grandes e expressão surpresa no centro. Balão de fala do bebê diz: 'Gee, Mommy you sure enjoy your Marlboro'. Abaixo, texto em inglês destaca que não é necessário sentir-se excessivamente fumante, chamando isso de 'Milagre do Marlboro'. No canto inferior esquerdo, mulher sorridente segura um cigarro. À direita, maço aberto de cigarros Marlboro com detalhes em preto e branco e assinatura manuscrita. Rodapé menciona opções de pontas de cigarro: Ivory Tips, Plain Ends e Beauty Tips (Red).
Propaganda de cigarro dos anos 1950 - Divulgação

A indústria da inteligência artificial segue hoje o manual que sua prima corporativa mais velha e fedorenta criou. Cultiva a incerteza e nela se escuda para tocar seu negócio pisando no acelerador, embora saiba que o produto que vende é nocivo para os viciados, digo, usuários.

Como a complexidade real da IA é bem maior que a de um canudo de fumo picado, basta um modo levemente enviesado de contar a história para que fugir da responsabilização seja mais fácil para as big techs do que era para o pessoal da terra de Marlboro.

Se você acha que a comparação de IA com cigarro é muito forte, eu concordo. Mais forte é saber que saiu da boca de Alondra Nelson, ex-diretora de política científica da Casa Branca de Joe Biden.

Também consultora da ONU para assuntos de IA, Nelson atualizou o neologismo de Proctor e lançou há três semanas numa conferência em Paris –reportada pela podcaster norte-americana Shae Omonijo– o conceito de "agnotologia algorítmica".

Que me lembre, eu nunca tinha esbarrado na palavra agnotologia, mas desde que fomos apresentados não a tiro da cabeça. Como é possível que, existindo há três décadas, uma ideia tão luminosa ainda seja obscura, distante demais do estrelato político, acadêmico e midiático que merece?

A agnotologia pôs em foco o que, o tempo todo, dançava borrado diante do meu nariz: que a ignorância fabricada é uma das fibras mais resistentes do tecido social contemporâneo, do negacionismo climático à usina de desinformação política das mídias sociais.

Com o advento da internet e sobretudo das redes, o trabalho dos fabricantes de ignorância pública ficou bastante facilitado, enquanto o dos agnotólogos se complicou ao infinito.

Nunca foi tão fácil confundir, criar incerteza, fugir de regulações, pôr abaixo estruturas psicossociais construídas ao longo de séculos, transformando toda a população da Terra em cobaia de artefatos tecnológicos que são propriedade de meia dúzia de pessoas.

Se o estudo da ignorância fabricada aponta para o futuro, vale lembrar que não é uma invenção recente. Ao dizer que "a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto", Darcy Ribeiro foi um genial precursor da agnotologia.

TCU suspende R$ 2,6 bi de aportes do governo federal para o túnel Santos-Guarujá, FSP

 Alex Sabino

São Paulo

Em decisão unânime, o TCU (Tribunal de Contas da União) suspendeu o repasse de R$ 2,6 bilhões em recursos federais para a construção do túnel imerso entre Santos e Guarujá, no litoral paulista.

O acórdão proíbe a APS (Autoridade Portuária de Santos) de disponibilizar qualquer dinheiro para o projeto até nova deliberação da corte.

Grupo de dez pessoas em evento formal, com homem ao centro levantando um martelo sobre um pedestal azul com o logo [B]³. Fundo exibe tela com texto técnico sobre projeto de túnel submarino.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), bate o martelo na B3 após o leilão para a construção do túnel - Rafaela Araújo-5.set.25/Folhapress

O processo tem a relatoria do ministro Bruno Dantas. A decisão determina que a APS apresente, em 30 dias, instrumento formal de governança do aporte federal. O documento deverá ser assinado ao menos pelo governo paulista e pela própria autoridade portuária. Também foi prorrogado por 30 dias acórdão anterior que já havia estabelecido exigências semelhantes à APS e à Antaq (Agência Nacional de Transportes).

Em documento de fevereiro, Dantas já havia requerido ao governo de São Paulo e à Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo) o aditamento do "contrato de concessão patrocinada para a inclusão formal da Autoridade Portuária como interveniente-anuente. Solicita que lhe seja assegurado o acesso prévio à minuta do termo aditivo para análise formal e, subsidiariamente, caso este Tribunal entenda desnecessário o aditamento, que emita manifestação expressa conferindo segurança jurídica para a operacionalização dos repasses nos moldes atuais."

A reclamação da APS ao TCU era que, embora seja responsável por metade dos R$ 5,14 bilhões de aportes públicos para a obra, não havia sido informada quanto aos termos do contrato já assinado pelo governo de São Paulo e a concessionária, a portuguesa Mota-Engil.

O túnel imerso entre Santos e Guarujá é a principal obra do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo Lula. A responsabilidade pela obra ficou com o governo de São Paulo.