segunda-feira, 16 de março de 2026

Europa libera reciclagem química, mas debate global expõe limites ambientais do plástico, g1

 

A reciclagem química do plástico, apresentada pelo setor como uma ferramenta para a descarbonização, recebeu na sexta-feira (6) sinal verde dos países da União Europeia.

O aval, porém, não encerra as controvérsias em torno da técnica, que segue sendo alvo de questionamentos por seus impactos ambientais, pelo alto consumo de energia e por um modelo econômico ainda incerto.

Veja os vídeos que estão em alta no g1

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A decisão europeia ocorre em um momento de crescimento contínuo da produção global de plásticos e de pressão política para ampliar a proporção de material reciclado em embalagens, especialmente garrafas plásticas, consideradas um dos principais vetores de poluição.

O que os países europeus aprovaram

Os 27 Estados-membros da União Europeia aprovaram na sexta-feira a inclusão do chamado reciclagem química no cálculo da proporção obrigatória de conteúdo reciclado em garrafas plásticas, além da metodologia usada para medir esse percentual. Atualmente, as garrafas devem conter pelo menos 25% de plástico reciclado. A meta sobe para 30% até 2030.

A Comissão Europeia propôs que o plástico reciclado por vias químicas passe a contar para o cumprimento dessa exigência regulatória. Segundo a Comissão, trata-se de um passo inicial para estruturar regras comuns no bloco. “É uma primeira etapa importante para a definição de normas sobre reciclagem química em nível europeu”, afirmou a porta-voz do órgão, Anna-Kaisa Itkonen.

O que é a reciclagem química do plástico

A reciclagem química não é uma tecnologia única, mas um conjunto de processos. “Trata-se de um grupo de tecnologias que pode ser dividido em duas grandes famílias: a despolimerização e os processos térmicos”, explica Jean-Yves Daclin, diretor-geral da Plastics Europe na França, entidade que representa a indústria de plásticos e reúne empresas como BASF, Eastman, ExxonMobil, Ineos, LyondellBasell, Shell e TotalEnergies.

A despolimerização consiste em quebrar as longas cadeias de polímeros que formam o plástico, usando, por exemplo, solventes químicos. O objetivo é retornar o material a seus componentes básicos, permitindo que ele seja reprocessado.

No entanto, a maior parte dos resíduos plásticos não pode ser tratada dessa forma. Nesses casos, os recicladores recorrem à pirólise, um processo que submete o plástico a temperaturas muito elevadas para quebrar as moléculas.

Esse tipo de reciclagem é intensivo em energia e envolve custos elevados. Ainda assim, passou a integrar o conjunto de soluções consideradas por autoridades públicas para enfrentar a poluição causada por embalagens plásticas.

Na prática, porém, a produção por essas vias segue residual. “São tecnologias relativamente inovadoras, ainda em estágios iniciais de desenvolvimento”, afirma Daclin. Ele reconhece que “o modelo econômico ainda precisa ser construído” e que serão necessários anos antes que a atividade alcance volumes relevantes de produção.

As críticas ao modelo

Para críticos da reciclagem química, o foco nessa tecnologia desvia o debate central. Ao enfatizar soluções tecnológicas, a indústria evita discutir a redução da produção e do consumo de plástico, considerada por ambientalistas a principal estratégia para limitar os impactos ambientais do material.

“Falar de reciclagem química permite deslocar o debate, em vez de enfrentar a questão da queda da produção e do consumo de plástico, que é o verdadeiro desafio”, analisa uma fonte da Comissão Europeia, sob condição de anonimato.

A ONG Zero Waste sustenta que o processo é poluente, altamente consumidor de energia e reforça o “mito” da reciclagem infinita do plástico. Segundo a organização, o material se degrada ao longo de seu ciclo de vida, o que torna inevitável a incorporação de plástico virgem para que ele continue cumprindo suas funções.

O peso real do plástico reciclado

A produção mundial de plástico segue em expansão. Em 2024, alcançou 430,9 milhões de toneladas de plástico virgem, um aumento de 4% em relação ao ano anterior.

Desse total, o chamado plástico “circular” — que inclui o reciclado mecanicamente, o produzido a partir de biomassa, o reciclado quimicamente e o obtido por captura de carbono — representa apenas 10% da produção global.

Mais da metade das matérias-primas plásticas provenientes de reciclagem, tanto mecânica quanto química, tem origem na Ásia, que responde por 54,9% desse volume. A China sozinha concentra 30,3%. A região asiática também domina a produção global de plásticos: 57,2% do total mundial é fabricado na Ásia, sendo 34,5% apenas na China.

Reciclagem não será solução para crise global gerada pelo lixo plástico, aponta estudo, g1

 A produção global de plástico aumentou de 2 milhões de toneladas em 1950 para 475 milhões de toneladas em 2022, segundo um relatório publicado na revista científica "The Lancet" nesta segunda-feira (4). A projeção dos estudiosos é que o número triplique até 2060.

Outros especialistas afirmam que isso poderia acontecer até 2050, usando cerca de um quarto do orçamento de carbono restante — ou seja, a quantidade de gases de efeito estufa que ainda pode ser emitida até que a atmosfera do planeta aqueça de forma descontrolada.

E o estudo adverte que "está claro que o mundo não conseguirá sair da crise da poluição plástica por meio da reciclagem". Hoje, apenas cerca de 9% dos plásticos, entretanto, são reciclados.

Os novos dados foram publicados um dia antes da retomada de negociações em Genebra entre 180 países para chegar a um tratado sobre como lidar com a poluição causada pelo plástico, depois de outras tentativas já terem falhado. Interesses de governos e corporações na indústria, entretanto, desafiam o andamento das conversas.

O plástico foi inventado no fim da década de 1940. Embora alguns dos seus produtos sejam hoje essenciais, grande parte é destinada a itens descartáveis, que não apenas causam poluição plástica direta, como também têm impacto prolongado no meio ambiente e no clima. Mas especialistas enxergam poucos sinais de uma mudança na tendência de crescimento da produção.

Microplástico que chega com a correnteza é encontrado em área de preservação ambiental em Fernando de Noronha — Foto: Fábio Tito/G1

Microplástico que chega com a correnteza é encontrado em área de preservação ambiental em Fernando de Noronha — Foto: Fábio Tito/G1

Mais produção fora da Europa

Cerca de 99% dos plásticos são derivados de combustíveis fósseis. O refino e transformação dos combustíveis fósseis em produtos plásticos, como embalagens, têxteis, eletrônicos e materiais de construção, liberam bilhões de toneladas de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global. Em 2019, esse processo respondeu por mais de 5% das emissões globais.

Um número crescente de países já limita produtos plásticos de uso único, com pelo menos 140 nações tendo implementado proibições ou restrições a algum tipo de produto plástico.

"O único lugar onde a capacidade está diminuindo um pouco é na União Europeia," diz Joan Marc Simon, fundador da Europa Sem Lixo (Zero Waste Europe, em inglês), rede dedicada à redução do lixo plástico. "O resto do mundo está aumentando."

No entanto, isso acontece porque os altos custos de produção levaram os fabricantes a produzir fora da Europa ou importar plástico de outras regiões, explica.

China e Brasil são focos

A China é a maior fabricante de plástico do mundo, respondendo por cerca de um terço da produção global.

"O que sabemos com certeza é que todos os principais produtores estão aumentando sua capacidade: EUA, China, África do Sul, Brasil, Irã, Arábia Saudita," prossegue Simon, acrescentando que mais plástico virgem também está sendo produzido em países como Malásia, Vietnã, Tailândia, Indonésia, em grande parte por empresas chinesas.

Em 2019, um estudo do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) apontou o Brasil como o quarto maior produtor de plástico no mundo, com 11 milhões de novas toneladas então produzidas ao ano.

Já em 2022, a produção chegou a 13,7 milhões de toneladas, uma média de 64 quilos por pessoa no ano, segundo pesquisa da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

No Brasil, segundo a Abrelpe, mais de 3 milhões de toneladas de resíduos sólidos vão parar nos rios e mares todos os anos, quantidade suficiente para cobrir mais de 7 mil campos de futebol.

Risco à saúde

A poluição por plásticos é "um perigo grave, crescente e pouco reconhecido à saúde", custando pelo menos 1,5 trilhão de dólares por ano globalmente, de acordo com o estudo na The Lancet.

Outra pesquisa deste ano, conduzida por cientistas da NYU Langone Health, nos Estados Unidos (EUA), já sugeriu que cerca de 10% das mortes por doenças cardíacas entre adultos de 55 a 64 anos naquele ano podem ser atribuídas aos ftalatos — compostos químicos usados para aumentar a durabilidade e a flexibilidade dos plásticos.

"Não há como subestimar a magnitude da crise climática e da crise do plástico", diz Philip Landrigan, pesquisador na Universidade de Boston, dos EUA. "Ambas estão causando doenças, mortes e incapacidades em dezenas de milhares de pessoas hoje, e esses danos se tornarão mais graves nos próximos anos, à medida que o planeta continua a aquecer e a produção de plástico continua a aumentar."

Ativistas defendem há muito tempo que a solução para o excesso de plástico é reduzir a produção desde o início. Mas, por anos, discussões públicas e negociações internacionais focaram em lidar com o lixo gerado, com iniciativas como limpeza de praias e reciclagem.

Apenas cerca de 9% dos plásticos, entretanto, são reciclados, e muitos tipos não podem ser transformados em novos produtos. Como resultado, a grande maioria acaba em aterros sanitários ou é incinerada.

Muito plástico vaza ainda para o ambiente em forma de microplásticos, encontrados nas regiões mais remotas do planeta, no ar e dentro dos corpos humanos.

"Ao contrário do papel, vidro, aço e alumínio, plásticos quimicamente complexos não podem ser facilmente reciclados”, alerta o relatório. "Agora está claro que o mundo não conseguirá sair da crise da poluição plástica por meio da reciclagem. O controle da crise dos plásticos exigirá pesquisas contínuas, aliadas a intervenções baseadas na ciência — leis, políticas, monitoramento, fiscalização, incentivos e inovações."

Ponto de atrito

A redução da produção foi o principal ponto de divergência nas negociações globais inconclusivas sobre plástico que aconteceram em dezembro na Coreia do Sul. Embora limitar a produção levante muitas questões — incluindo se isso significaria impedir a abertura de novas fábricas —, o principal obstáculo é simplesmente alcançar consenso sobre a redução.

No ano passado, enquanto mais de 100 governos apoiavam limitar a produção, outros países bloquearam a medida. Dentre eles, Rússia, Arábia Saudita, Irã e China.

"Este pequeno grupo de países, que são predominantemente economias petroleiras, está dizendo que esta é um claro limite a não ser cruzado," diz Christina Dixon, da ONG britânica Agência de Investigações Ambientais.

Já a advogada Giulia Carlini, do Centro para Legislação Internacional Ambiental (CIEL, na sigla em inglês), diz que um dos obstáculos para reduzir a produção é a forte influência que poderosos atores corporativos estabeleceram nas negociações internacionais.

Segundo análise do CIEL, lobistas do setor de combustíveis fósseis e químicos formaram a maior delegação nas negociações da Coreia, maior que a da União Europeia e seus Estados-membros juntos. Carlini acrescenta que, em alguns casos, esses lobistas estão inclusive registrados como parte das delegações nacionais.