domingo, 15 de março de 2026

Vespa parasita castra vítima, Fernando Reinach OESP

 

Formigas ‘médicas’: insetos fazem amputações entre si para curar feridas; veja vídeo

Capa do video - Formigas ‘médicas’: insetos fazem amputações entre si para curar feridas; veja vídeo

Em 90% dos casos analisados, as formigas sobreviveram ao procedimento. Medida pode evitar que infecções se espalhem pelo corpo do inseto.

“Pega pra capar” significa confusão e violência. Sua origem está na pecuária. Vaqueiros laçam o bezerro, o derrubam, e enquanto dois seguram a vítima, um terceiro corta o testículo castrando o animal. É violento mesmo quando feito por vaqueiros experientes, mas funciona. O bezerro castrado perde o desejo sexual e só pasta, engordando mais rápido e atingindo um peso maior. Mais carne, mais dinheiro no bolso do pecuarista.

A novidade é que uma vespa parasita incluiu essa prática na sua estratégia reprodutiva. O que um animal não faz para deixar descendentes…

Para você

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A vespa Cotesia vestalis é um parasita sexual, depende de outra espécie para reproduzir. Funciona assim. A vespa adulta pousa nas costas de uma lagarta de um lepidóptero da espécie Plutella xylotella, e, usando seu ovopositor, que funciona como uma espécie de seringa, deposita seus ovos no interior da lagarta. No início a lagarta continua a comer as folhas das quais se alimenta com a esperança de vir a se transformar em um adulto semelhante uma traça. Mas seu destino está traçado, os ovos da vespa eclodem e se transformam em larvas que devoram a lagarta por dentro enquanto ela come as folhas de couve ou dezenas de outros vegetais apetitosos. É claro que as larvas da vespa acabam matando a pobre coitada e novas vespas deixam o cadáver em busca de outras lagartas.

O que os cientistas descobriram faz algum tempo é que logo após a eclosão dos ovos da vespa, ocorre um fenômeno estranho na lagarta: as células reprodutivas da lagarta morrem. Ou seja, de algum modo a vespa castra a lagarta parasitada. E a lagarta castrada come mais, como um bezerro castrado, o que no fim resulta em mais comida para as larvas da vespa que estão devorando o interior da lagarta.

Ao investigar como a vespa induz a morte das células reprodutivas da lagarta os cientistas descobriram que é uma castração química: as larvas da vespa produzem uma proteína chamada CvBV_22-9 que se liga nas células reprodutivas e induzem seu suicídio (um processo chamado de apoptose). Mas ao investigar o genoma da vespa no intuito de achar o gene da CvBP os cientistas levaram um susto. Esse gene na verdade vem de um vírus que no passado infectava as vespas e foi incorporado no seu genoma. A proteína desse vírus se tornou uma segunda arma do arsenal da vespa.

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Ficou confuso? Deixe-me resumir. A vespa parasita deposita seus ovos na lagarta que parece uma taturana. Os ovos eclodem e os filhotes da vespa comem a lagarta por dentro ao mesmo tempo que produzem uma proteína que mata as células reprodutivas da lagarta. E o gene dessa proteína foi “roubado” pela vespa de um vírus. Ao matar as células reprodutivas da lagarta ela produz mais alimento para os filhotes da vespa. Cruel, mas funciona. É como castrar um bezerro.

Esse é um ótimo exemplo de quão complexa e sofisticada pode ser a estratégia reprodutiva de um animal.

Mas vale a pena voltar ao campo. Atualmente vespas parasitas de diferentes espécies são criadas em laboratório e soltas nas plantações para infectar as lagartas de espécies que devoram nossas plantações de soja, milho e algodão. É o que chamamos de controle biológico de pragas: usar um ser vivo para atacar e matar outro ser vivo que nos prejudica. Essa tecnologia reduz ou evita o uso de inseticidas nas lavouras.

Mais informações: Parasitic castration by a viral protein tyrosine phosphatase targeting the host cell cycle checkpoint protein Rad9A. Proc. Nat. Acad. Sci. https://doi.org/10.1073/pnas.2524949123 2026

Lula, Flávio e o 'Memento Mori', Mafalda Anjos - FSP

 Há dias, em visita ao Museu Reina Sofia, em Madri, um quadro de Gutiérrez-Solana prendeu a minha atenção, por causa da inscrição "Memento Mori ", a expressão latina que significa "lembra-te que és mortal".

Na Antiguidade Clássica, essa frase era sussurrada ao ouvido dos generais romanos vitoriosos nas paradas de glória. Foi a forma encontrada para controlar a húbris e fazer esses homens todo-poderosos "descer à terra".

Lembrei-me dessas duas palavrinhas (e que bem que elas ficariam num quadro em cima da mesa de todos os políticos da atualidade) a propósito da corrida presidencial no Brasil, que começa a esquentar. É que, olhando de uma distância que me resguarda do entrincheiramento, confesso que me causa estranheza as principais opções que surgem providencialmente nos dois grandes blocos do polarizado espectro político brasileiro.

Dois homens em trajes formais falam em microfones. O homem à esquerda tem cabelo branco, barba branca e usa terno escuro com gravata vermelha, sorrindo. O homem à direita tem cabelo escuro, usa óculos, terno azul e gravata azul clara, gesticulando com a mão direita.
Montagem com o presidente Lula e Flávio Bolsonaro (PL) - Pedro Ladeira e Danilo Verpa/Folhapress

De um lado, o carismático Lula da Silva. Meio homem, meio lenda hipnotizante, Lula é dos maiores animais políticos globais deste século. Sua história, tão complexa como intensa, parece trama de ficção do Kleber Mendonça Filho. Sim, estou bem ciente de que foi com Lula que o Brasil avançou na luta contra a desigualdade, a pobreza e a fome, no acesso à educação, na estabilização econômica. Foi lindo ver tantos milhões de brasileiros ascenderem a uma classe média e aspirarem a mais para suas vidas —sem ela, nenhum país é próspero e sustentável. Já não foi tão bom ver os escândalos de corrupção e algumas tomadas de posição em matéria de política externa alinhadas com os vilões da história…

Tal como Charles de Gaulle, Churchill e Péron, conseguiu voltar ao poder depois de um hiato. E se, contrariando o que anunciou em 2022, fosse reeleito, chegaria ao fim do quarto mandato com a idade avançada de 85 anos e 16 anos no cargo. É certo que Putin na Rússia e Orbán na Hungria já governam há mais tempo do que ele, mas são péssimos exemplos democráticos. E é inquestionável que, como escreveu a Economist, a meio dos 80, a falta de energia e o declínio cognitivo já se fazem notar na grande maioria das pessoas. Lula é enorme, mas não é uma entidade divina.

Do outro lado, emerge Flávio Bolsonaro, que já anunciou pré-candidatura e está bem colocado nas pesquisas. Sem pudor, confirmou que foi escolhido pelo pai, Jair, para representar o PL na disputa. Como se o Brasil fosse uma monarquia, é ele o abençoado pelo progenitor para espalhar a mensagem "Deus, Pátria, Família e Liberdade".

Flávio cresceu à sombra confortável do pai e, como todos os nepobabies, o sobrenome é seu principal capital político. Um filho predestinado ou marioneta, a quem o ex-presidente quer passar o testemunho para manter viva a chama incendiária do bolsonarismo. Se vende como moderado, mas tudo cheira a bafio, promete anistia e sonha com a volta do pai-herói ao Planalto em 2027. O "Memento Mori" não passa por ali.

Estreei-me na Folha escrevendo que o Brasil é exemplo para o mundo em muitas áreas. Acredito que esse país já mostrou grande maturidade democrática. E é exatamente por isso que digo agora —correndo o risco de ser xingada de lulista pelos bolsonaristas e de bolsonarista pelos lulistas— que o país merecia mais renovação e melhores opções.

Marcelo Neves - De luto por Habermas, FSP

 

Marcelo Neves

Professor titular de direito público da UnB, é autor de ‘Entre Têmis e Leviatan: uma Relação Difícil – o Estado Democrático de Direito a Partir e Além de Luhmann e Habermas' (WMF Martins Fontes)

Morreu neste sábado (14) Jürgen Habermas, 96, no mesmo dia da morte de Karl Marx. Estou de luto.

Habermas foi o mais importante filósofo alemão do último quarto do século 20 e do primeiro quarto do século 21 e talvez o mais influente do mundo neste período. Embora possamos discordar de suas posições, sua obra é uma contribuição monumental para a filosofia.

Homem idoso com cabelo branco e óculos transparentes fala gesticulando com a mão direita em frente a um microfone. Ele veste terno escuro, camisa clara e gravata preta, com fundo preto.
O filósofo alemão Jürgen Habermas - Juan Esteves/Folha Imagem/Juan Esteves/Folhapress

Tive a honra de ter sido seu estudante em 1987 e1988, quando também participei, a convite, do seu colóquio especial em que preparava a obra filosófico-jurídica "Facticidade e validade", e de ter me tornado seu colega na Universidade de Frankfurt em 2001 e 2002. Ele ainda ministrava alguns colóquios como professor emérito.

Fui citado algumas vezes por ele. Habermas adotou minha concepção da força simbólica em detrimento da força normativa de constituições como a brasileira e dos direitos humanos no plano internacional, sobretudo nas obras "Verdade e justificação" ("A letra imaculada do texto constitucional não é senão a fachada simbólica de uma ordem jurídica imposta de uma maneira altamente seletiva") e "Ensaio sobre a Constituição da Europa" ("A política dos direitos humanos das Nações Unidas (...) revela a contradição entre a difusão da retórica dos diretos humanos, por um lado, e a sua utilização abusiva para legitimar a habitual política de poder, por outro").

Aproximei-me pessoalmente dele através de um amigo comum, Hauke Brunkhorst. Em 1996, após enviar-lhe minha tese de doutorado (1992) por sugestão de Hauke, ele me convidou para uma reunião em que discutimos por uma hora sobre o trabalho em um café nos arredores da Universidade de Frankfurt. Junto com Hauke, jantei com ele em Frankfurt e tomei algumas cervejas por ocasião de um evento em Flensburg sobre a democracia em Hans Kelsen, no qual ele esteve presente na minha palestra.

Habermas, já como professor emérito, disse-me um dia em tom jocoso: "Eu vi o programa de aulas deste semestre e percebi que a universidade precisou de um brasileiro para dar um curso sobre minha obra".

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Realmente, naquele ano de 2001, semestre de verão, eu era o único docente que dava curso sobre a obra de Habermas na Universidade de Frankfurt. Estava lá como professor catedrático interino a convite do Departamento de Ciências da Sociedade para ensinar filosofia jurídica e social.

Mais tarde, o seu discípulo Klaus Günther, junto com seus colegas Christian Joerges e Camil Ungureanu, convidou-me para participar de uma coletânea em homenagem a Habermas. Eu e Niklas Luhmann (in memoriam) fomos convidados para fazer um contraponto a partir da teoria dos sistemas. Eu apresentei o artigo "Do consenso ao dissenso: o Estado constitucional democrático além de Habermas". Também Hauke Brunkhorst me convidou para um compêndio sobre a obra de Habermas, do qual participei com três verbetes: "Sistema e mundo da vida", "Evolução" e "Teoria dos sistemas".

Apesar de tudo isso, fui um crítico do seu modelo consensualista, enfatizando que, em uma sociedade sistemicamente complexa e heterogênea quanto a valores, a questão fundamental, na política e no direito, seria a de como absorver, processar e mesmo possibilitar a emergência do dissenso, que nos é estrutural e estruturante. Isso significa continuar convivendo com o dissenso mesmo depois de resultados procedimentais que nos são adversos.

Por exemplo, o resultado da eleição democrática não é orientado nem mesmo idealmente ao consenso entre os participantes, mas à absorção do dissenso, com os perdedores tendo de respeitar o desfecho e continuar, na esfera política, a criticar os vencedores. Claro, desde que os procedimentos sigam as regras do jogo e não sejam corrompidos.

A obra de Habermas, orientada normativamente na busca do discurso racional na esfera pública, entrou sem dúvida em crise com as transformações radicais dos meios de comunicação no século 21, no qual os memes e as fake news como manifestações irresponsáveis vêm tomando cada vez mais o espaço dos argumentos (responsáveis) na formação da vontade política. Habermas enfrentou esse problema recentemente em seu livro "Uma Nova Mudança Estrutural da Esfera Pública e a Política Deliberativa", reconhecendo as dificuldades de sua teoria da ação comunicativa e sua teoria do discurso nesse contexto de disrupção do mundo da vida e da esfera pública, tal como ele os entendia.

Foi nessas circunstâncias que Florian Hoffman, professor da PUC-Rio, convidou-me para uma coletânea a ser publicada no German Law Journal em 2028, em comemoração aos 100 anos de Habermas (2029). Infelizmente, com a notícia deste sábado (14), essa homenagem será em memória do grande filósofo.

Triste e saudoso, relembro esta minha maravilhosa experiência.