terça-feira, 10 de março de 2026

O que a Folha pensa - Retrocesso trabalhista, FSP

 As empresas brasileiras desembolsaram no ano passado o montante inaudito de R$ 50,7 bilhões em ações trabalhistas em 2025 —cifra que supera todo o orçamento da Justiça do Trabalho (R$ 30 bilhões) e marca um patamar inédito de custo.

O que chama a atenção não é apenas o valor absoluto, noticiado pelo jornal O Estado de S. Paulo, mas também o fato de que esse ônus supera, em termos reais de impacto sobre a atividade produtiva, os picos verificados antes da reforma trabalhista de 2017.

A judicialização, que a reforma pretendia conter, voltou a subir em custos, mesmo com número de ações ainda inferior ao período anterior. Em 2024, a Justiça do Trabalho recebeu 2,134 milhões de novas ações; em 2025, o total saltou a 2,321 milhões, com alta de 8,5%. Para efeito de comparação, o pico histórico ocorreu em 2016, com 2,756 milhões.

Além de flexibilizar contratos de emprego, as mudanças buscaram desincentivar a litigância predatória ao prever que o perdedor arcasse com honorários periciais e de sucumbência.

Em outubro de 2021, porém, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou a prática inconstitucional e determinou o limite de renda de 40% do teto dos benefícios do INSS ou ausência de condições materiais como critérios para acesso a gratuidade. Já o Tribunal Superior do Trabalho (TST) consolidou a concessão automática por mera autodeclaração.

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Ocorrem, assim, ações em tribunais diferentes, sem prova documental e com pedidos abusivos, sem consistência de decisões e aderência à jurisprudência.

A enxurrada judicial se dá mesmo com o emprego em patamares recordes —de acordo com a pesquisa do IBGE, a taxa de desocupação ficou em 5,4% no trimestre encerrado em janeiro último, menor patamar da série histórica iniciada em 2012.

Enquanto isso, o debate sobre pejotização —a contratação como pessoa jurídica para serviços especializados— segue pendente no Supremo. O julgamento pode legitimar novas modalidades de relação de trabalho não celetista, tendo em vista a realidade do trabalho por aplicativos.

É imperativa a necessidade de proteção efetiva ao trabalhador. Combater contratos fraudulentos que disfarçam vínculo empregatício é correto. Também é preciso reconhecer que o mundo do trabalho passa por inovação tecnológica, num contexto em que os próprios trabalhadores demandam flexibilidade.

O equilíbrio é possível e já tarda. A reforma de 2017 foi um avanço, mas ficou pela metade. O STF tem, agora, nova oportunidade de recalibrar a gratuidade, exigindo prova objetiva de insuficiência econômica, sem fechar as portas a quem precisa. A Justiça do Trabalho deve assimilar que direitos se defendem com regras claras, previsíveis e adaptadas ao novo mundo do trabalho.

editoriais@grupofolha.com.br

Não há como ter paz o cientista que vê ataque onde há questionamentos, Guilherme Henrique Porceban- FSP

 Foi com incredulidade que li nesta Folha o artigo "Deixem a Tatiana trabalhar em paz" (5/3), no qual a colunista Suzana Herculano-Houzel tenta blindar a colega bióloga Tatiana Sampaio do escrutínio inerente à pesquisa médica. Não funcionou; muito pelo contrário.

Ao transformar o rigor metodológico em mera "maledicência" de "cientistas de poltrona", a autora recorre a falácias cognitivamente pobres ao classificar o uso de placebos como injetar "aguinha na medula" para criar uma falsa dicotomia entre abandonar a ciência e torturar o paciente.

Mulher de cabelos castanhos claros e lisos, olhando para a esquerda, com expressão neutra. Fundo preto uniforme destaca seu rosto iluminado de perfil.
A pesquisadora Tatiana Sampaio - Zanone Fraissat - 9.set.2025/Folhapress

A realidade, no entanto, é que oferecer intervenções experimentais a pessoas em estado agudo e altamente vulneráveis exige um rigor que não pode ser relativizado ou tratado como sadismo burocrático. Trata-se de um imperativo ético, determinado pelas declarações de Helsinque e Tratados de Nuremberg, que determinam que grupos vulneráveis devem receber proteção específica por estarem mais sujeitos a injustiças e danos sob o perigoso precedente de "tentar ajudar".

O desespero da ausência de tratamento não autoriza o "vale tudo", tampouco permite que a análise de dados robustos seja substituída pelo sensacionalismo emocional para reforçar a precoce e falsa solução para a cura de lesões medulares. Na realidade, deveria evocar um cuidado adicional aos pesquisadores.

Metodologicamente, a exigência de um grupo controle serve justamente para separar o efeito real da droga da história natural da doença e de vieses observacionais. A conclusão precoce de que a polilaminina recuperou movimentos desconsidera flagrantemente que a intervenção ocorreu de maneira simultânea ao tratamento padrão-ouro em condições ideais, que são a cirurgia de descompressão e reabilitação intensiva. Isso, por si só, já consagra um potencial de recuperação de até 65% (Kirshblum et al., 2021).

Soma-se a isso a gravidade da omissão sobre o "choque medular", fenômeno fisiológico que invalida a certeza clínica de que as lesões eram, de fato, completas no momento da aplicação. Justificar a ausência de controle usando todos os casos históricos anteriores é insustentável e ingênuo, pois lesões medulares traumáticas apresentam características altamente heterogêneas, desde diagnóstico até tratamento, distorcendo qualquer comparação confiável em relação a um padrão único de tratamento.

Por fim, celebrar um sucesso de 100% ignora um problema central de ética na pesquisa: a estatística principal excluiu os participantes que morreram. Em uma amostra de apenas oito pacientes, três óbitos representam uma taxa alta demais para ser descartada, tornando impossível afastar a hipótese de influência da substância nesses desfechos fatais. Ainda mais quando consideramos que os casos mais graves não foram incluídos no estudo.

À colunista, serei categórico: quem sofreu uma lesão medular precisa de esperança, mas também de honestidade. Seu artigo oferece apenas esperança superficial ao tratar o método científico como obstáculo moral. Não é. O método é justamente o que impede que o desespero vire mercado, que a compaixão vire improviso e que promessas se transformem em fraude.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Hélio Schwartsman-Uma eleição a ser decidida nos detalhe, FSP

 O Datafolha meio que confirma o que já se suspeitava. A eleição presidencial deste ano deverá ser mais uma vez bastante disputada, opondo ao que tudo indica Lula a Flávio Bolsonaro.

Temos dois grandes blocos de tamanhos comparáveis. O primeiro é composto por petistas convictos e pessoas com simpatias pela esquerda. A eles se soma o contingente dos eleitores que não estão tão enamorados de Lula, mas não hesitam em sufragar seu nome para evitar que um Bolsonaro volte ao Palácio do Planalto. O segundo bloco é constituído por bolsonaristas irredutíveis e direitistas genéricos, aos quais se aliam os que topam tudo para tirar o PT do poder.

Dois homens em trajes formais falam em microfones. O homem à esquerda tem cabelo branco, barba branca e usa terno escuro com gravata vermelha, sorrindo. O homem à direita tem cabelo escuro, usa óculos, terno azul e gravata azul clara, gesticulando com a mão direita.
Montagem com o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) - Pedro Ladeira e Danilo Verpa/Folhapress

Isso significa que a eleição acabará sendo decidida por uma fatia de não mais de 5% do eleitorado que não apresenta lealdades tribais automáticas nem semiautomáticas, podendo pender para qualquer lado. Essa turma responde principalmente a fatores econômicos, mas, quanto mais apertado for o pleito, maior a chance de elementos mais diáfanos como as narrativas em torno dos postulantes desempenharem papel decisivo. Quanto mais simetricamente a população se divide, maior o espaço para marqueteiros, influenciadores e até agentes externos, governos e empresas.

Nos últimos meses, já assistimos a um vaivém de números. Até meados do ano passado, Lula parecia estar nas cordas, depois se tornou franco favorito e agora vai pintando um quadro de virtual empate. Acho que o pano de fundo é mesmo o de uma disputa acirradíssima, que será definida nos detalhes.

Por contribuição do destino, calhou de enfrentarmos várias situações que ampliam a incerteza. No front externo, uma guerra que pode ter impactos inflacionários. No interno, dois megaescândalos que deixarão mortos e feridos, embora ainda não dê para saber qual lado sofrerá mais baixas. No plano pessoal, ambos os candidatos estão cheios de esqueletos no armário.

O Brasil dificilmente sairá melhor do próximo pleito, mas a diversão está assegurada nos próximos meses.