sexta-feira, 6 de março de 2026

Moraes nega que mensagens de Vorcaro sejam para ele e diz que conversas estão vinculadas a 'outros contatos', FSP

 

Brasília

O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), negou na noite desta sexta-feira (6) que as mensagens enviadas pelo dono do Banco MasterDaniel Vorcaro, tenham sido para ele.

Em nota divulgada pela assessoria do Supremo, o gabinete de Moraes afirmou que os prints dos textos enviados por Vorcaro "estão vinculados a pastas de outras pessoas de sua lista de contatos e não constam como direcionados" a Moraes.

Homem calvo veste terno cinza, camisa azul clara e gravata azul com padrão, sentado em cadeira de couro marrom claro em ambiente formal, olhando para frente.
Alexandre de Moraes no STF - Pedro Ladeira - 5.mar.26/Folhapress

O gabinete afirmou ainda que uma análise técnica nos dados teria constado "que as mensagens de visualização única enviadas por ele no dia 17 de novembro de 2025 [data da primeira prisão do ex-banqueiro] não conferem com os contatos" de Moraes. A nota não informa quem são os autores da análise técnica.

"No conteúdo extraído do celular do executivo pelos investigadores, os prints dessas mensagens enviadas por Vorcaro estão vinculadas a pastas de outras pessoas de sua lista de contatos e não constam como direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes", diz a nota.

"A mensagem e o respectivo contato estão na mesma pasta do computador de quem fez os prints (Vorcaro). Ou seja, fica demonstrado que as mensagens (prints) estão vinculadas a outros contatos telefônicos no computador de Daniel Vorcaro, jamais ao Ministro Alexandre de Moraes", acrescenta.

As informações extraídas do celular de Vorcaro foram encaminhadas à CPI do INSS. O conteúdo das mensagens de Vorcaro atribuídas a conversas com Alexandre de Moraes aparecem em prints do bloco de notas do celular dele.

As mensagens eram enviadas por meio de prints dessas anotações em imagem que desaparece automaticamente após ser vista (a chamada mensagem de visualização única). Os textos são escritos no bloco de notas, depois transformados em print e enviados no formato instantâneo.

A jornalista Malu Gaspar, de O Globo, revelou que Vorcaro enviou mensagens a Moraes no mesmo horário em que as notas foram salvas no bloco de notas. A jornalista descreveu que houve nove mensagens trocadas entre os dois via WhatsApp entre as 7h19 e as 20h48 do dia 17 de novembro. A troca de mensagens entre Vorcaro e Moraes no dia da prisão do ex-banqueiro foi confirmada pela Folha.

Os dados obtidos indicam que Moraes respondia às mensagens. Em uma das conversas, o então banqueiro aparentemente esclarece uma dúvida do ministro. "Foi. Seria melhor na sexta junto com os gringos, mas foi o que deu pra fazer dentro da situação", escreveu.

Moraes, no entanto, afirma que as pastas de arquivos enviadas à CPI com essas mensagens e contatos telefônicos não coincidem com o seu número de telefone.

O argumento apresentado por Moraes se refere a 157 pastas que comportam pouco mais de 200 arquivos --entre imagens, planilhas, emails e contatos. Não há informações nesses arquivos sobre um vínculo direto entre os arquivos, como os prints, e contatos.

As mensagens atribuídas a Moraes estão salvas como imagens em mais de uma pasta. Na maior parte dessas pastas, não há outros arquivos, nem contatos. Em três delas, há contatos salvos, mas não existem registros que demonstrem que os prints têm relação com aqueles contatos.

Uma das imagens, com a pergunta "Alguma novidade?", está armazenada na mesma pasta em que há o contato de Antônio Rueda, presidente do União Brasil. Em outro caso, a pergunta "Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?" está na mesma pasta onde está o contato de "Vivi Moraes", advogada contratada pelo Master e mulher de Alexandre de Moraes. Uma outra reprodução dessa segunda mensagem foi feita uma hora depois e está salva na mesma pasta onde aparece o contato do senador Irajá Abreu (PSD-TO).

Irajá Abreu negou que tenha recebido a mensagem do dono do Master. "A informação que Daniel Vorcaro enviou qualquer mensagem ao senador Irajá é completamente inverídica", afirmou a assessoria do parlamentar. A Folha procurou o STF para obter mais explicações sobre os argumentos, mas o tribunal não quis de manifestar. Rueda não respondeu aos contatos para dizer se recebeu as referidas mensagens de Vorcaro.

Supremo em suprema encruzilhada aos 135 anos - Oscar Vilhena Vieira -FSP

 Ao completar 135 anos, o Supremo Tribunal Federal vive uma das mais graves crises de sua história.

Desde sua instalação, em 28 de fevereiro de 1891, as crises da República reverberam e se projetam sobre o Supremo. Responsável pela guarda da Constituição, num país marcado por sucessivas rupturas e por uma cultura política avessa ao governo das leis, não foram poucas as circunstâncias em que o Supremo teve sua autoridade afrontada, suas prerrogativas esvaziadas e seus membros ameaçados ou mesmo afastados de suas funções.

Floriano Peixoto, nos primeiros anos da República, descumpriu inúmeras decisões do Supremo que ousaram assegurar direitos a dissidentes. Indignado com a emergente independência do novo tribunal, teria advertido: se continuarem concedendo habeas corpus aos meus adversários, não sei quem amanhã concederá habeas corpus aos ministros do Supremo.

Getúlio Vargas foi ainda mais inclemente. Após tomar o poder, em 1930, aposentou nada menos que seis ministros do Supremo, de uma só penada, não deixando dúvidas sobre sua aversão ao regime constitucional. Com a instalação do Estado Novo, o Supremo teve suas prerrogativas e competências esvaziadas pela Carta autoritária de 1937.

Estátua da Justiça em pedra branca sentada com olhos vendados e segurando uma espada, em frente ao edifício moderno do Supremo Tribunal Federal, sob céu azul com poucas nuvens.
Escultura da Justiça em frente à sede do Supremo Tribunal Federal - Adriano Machado/Reuters

Os militares seguiram a mesma cartilha após o golpe de 1964. O AI-1 excluiu da apreciação do Judiciário as ações praticadas em nome do regime de exceção. O AI-2 ampliou de 11 para 16 o número de ministros, buscando domesticar o Supremo. Como isso não ocorreu, os ministros Victor Nunes Leal, Evandro Lins e Silva e Hermes Lima foram aposentados à força pelo AI-5.

A tensão entre civis e militares foi reacendida em 2018 pelo tuíte do general Villas Bôas, então comandante do Exército, ameaçando o Supremo caso concedesse habeas corpus ao presidente Lula, impedido de concorrer à eleição. Essa tensão recrudesceu durante o governo Bolsonaro, que incitou seus apoiadores contra o tribunal, o que culminou com o ataque à sede do Supremo em 8 de janeiro de 2023.

Daquela vez, no entanto, a ordem constitucional não foi rompida e os que atentaram contra a democracia foram pela primeira vez responsabilizados por seus atos.

O que distingue a presente encruzilhada das anteriores é sua dimensão interna.

Além de fatores externos que têm contribuído para pressionar o Supremo, como os ataques oriundos de setores hostis à democracia; de um contexto global de autocratização, que faz das cortes constitucionais alvos a serem dizimados; do protagonismo adquirido pelo em decorrência do modelo constitucional adotado pela Constituição de 1988; há uma série de distorções que são de responsabilidade do próprio Supremo.

A exacerbação de medidas monocráticas, a incapacidade de estabilizar sua jurisprudência e o abandono da liturgia e dos limites inerentes ao cargo por parte de alguns ministros foram deixando o tribunal mais vulnerável. A expansão de sua jurisdição, em detrimento das demais instâncias judiciárias, pela disposição de coordenar grandes processos de conciliação de interesses, transformaram o Supremo no centro da arena política brasileira, afastando-o de sua missão precípua de guarda da Constituição.

Crise designa um momento decisivo, uma encruzilhada em que a própria sobrevivência do corpo ou do sistema se encontra ameaçada.

Dada a natureza desta crise, caberá, sobretudo ao próprio Supremo, tentar resgatar sua autoridade, sob o risco de ver suas prerrogativas e competências mais uma vez suprimidas.


quinta-feira, 5 de março de 2026

Direita e mercado estão mal na foto do escândalo Master - Marcos Augusto Gonçalves FSP

 Lembremos, ainda, que o affair Master foi precedido pelo assustador escândalo contábil das Americanas, negócio de gente não raro incensada pelo mercadismo de plantão, como o Trio Lemann.

Não esqueçamos também que a grande trapaça de Vorcaro foi arquitetada, como escreveu meu colega Vinicius Torres Freire, para terminar com "a desova de um cadáver no colo do que, no fim das contas, é o governo, o público em geral". Um velho modus operandi, diga-se.

Em que pese manifestação de protesto do MBL em torno do escândalo, a esquerda vai cada vez mais se sentindo à vontade, em contexto de campanha eleitoral, para colar o episódio na direita. "Ah, mas é para ocultar o Lulinha e outros problemas", pode-se argumentar.

Sim, a esquerda não é nenhuma santa e até que se restabeleçam as bases do acordão em crise, se isso ocorrer, a disputa vai se acirrar. Ainda estamos em brumas e não se pode descartar um envolvimento mais consistente de alguém ligado ao petismo.

É difícil, porém, não considerar que a fotografia até aqui é desfavorável a mercadistas e direitistas.