terça-feira, 8 de junho de 2021

Mônica Bergamo - Vacina da Janssen chegará ao Brasil perto do prazo de validade e deve ser destinada apenas às capitais, FSP

 Os 3 milhões de doses da vacina da Janssen (Johnson & Johnson) que vão chegar ao Brasil ainda neste mês têm prazo de validade até 27 de junho e precisam ser aplicadas impreterivelmente até esta data.

O comunicado foi feito nesta terça (8) pelo Ministério da Saúde a técnicos das secretarias estaduais de todo o país.

A informação preocupou os gestores.

As doses da Janssen devem desembarcar na terça (15) no Brasil, data ainda não confirmada pelo Ministério da Saúde.

Seringas com a dose única da vacina da Janssen, em Los Angeles (EUA) - Frederic J Brown - 25.mar/France Presse

O prazo curto entre a chegada do imunizante e a aplicação lança um desafio logístico de grandes proporções, na opinião de técnicos ouvidos pela coluna.

Eles terão pouco mais de uma semana para receber e distribuir as doses para os municípios de seus estados.

Um dos técnicos afirmou que o prazo exíguo gera tensionamento e exige remanejamentos para colocar a nova vacina na rede de forma imediata. Alguns gestores manifestaram contrariedade com as condições em que terão que trabalhar.

O Ministério da Saúde confirma o prazo de validade da vacina, mas afirma que está montando uma estratégia que permitirá a aplicação imediata das doses.

Em primeiro lugar, afirma a pasta, elas serão distribuídas apenas às capitais –o que já estava sendo feito com a Pfizer, que exigia um esquema especial de manutenção a baixas temperaturas.

O ministério diz também que fará uma ampla campanha de utilidade pública incentivando as pessoas a procurarem os postos de saúde.

A pasta afirma ainda que o país tem capacidade de aplicar até 2,4 milhões de doses de vacinas por dia, e que em poucas horas as da Janssen estarão nos braços de 3 milhões de brasileiros.

secretário municipal de Saúde de São Paulo, Edson Aparecido, por exemplo, já planeja aplicar as doses que serão destinadas à capital apenas em profissionais da educação.

A vacina fabricada pela Johnson & Johnson tem eficácia de 85% na prevenção de casos graves e oferece proteção completa contra hospitalização e morte por Covid-19, segundo estudo divulgado em janeiro.

Ela tem a vantagem de ser aplicada em uma única dose, facilitando a imunização coletiva.

É a primeira vacina em dose única em estágios avançados de pesquisa e pode ser armazenada em geladeira.

O desempenho do imunizante e as facilidades logísticas relacionadas ao armazenamento e distribuição fazem com que ela seja considerada uma das melhores para aplicação em países em desenvolvimento.

Ministério da Saúde assinou um acordo com a Janssen para a aquisição de 38 milhões de doses da vacina da empresa, com previsão inicial de entrega de 16,9 milhões de doses entre julho e setembro e 21,1 milhões de outubro a dezembro.

Na semana passada, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, anunciou que conseguiu antecipar a entrega de 3 milhões de doses para o mês de junho. A data de entrega deve ser anunciada em breve.


Indicação de Crivella a embaixador visa salvar a própria pele e a da Universal na África, FSP

 Se depender da vontade do governo Bolsonaro, o ex-prefeito do Rio, ex-senador e bispo licenciado Marcelo Crivella será o próximo embaixador do Brasil na África do Sul. A indicação gerou dois tipos de reações: os que se indignaram com uma suposta “evangelização” da diplomacia brasileira e os que acham que o sobrinho de Edir Macedo não é qualificado o suficiente para a função.

O primeiro ponto exige uma reflexão à parte, mas parece equivocado falar em aparelhamento religioso da diplomacia profissional, que sobreviveu até mesmo a Ernesto Araújo. Quanto ao segundo ponto, Crivella é político experiente, fala inglês e passou dez anos como missionário na África. É até mais tarimbado que vários outros nomes que, por conveniência, já assumiram ou foram cotados para postos diplomáticos.

O ex-prefeito Marcelo Crivella durante evento no Rio
O ex-prefeito Marcelo Crivella durante evento no Rio - Mauro Pimentel - 20.mai.19/AFP

Apesar de o Itamaraty buscar resguardar embaixadas para diplomatas de carreira, essa exigência não é formal. No limite, a indicação é política. Os problemas do bispo são de outra ordem. Crivella chegou a ser preso em dezembro e é réu no processo do QG da Propina. Como embaixador, ele teria direito a foro especial e seria julgado pelo Supremo Tribunal Federal, fazendo de seu cantinho em Pretória um reino dos céus particular. Isso, em si, já seria chocante para um governo que se diz impoluto.

Só que o cálculo político de Bolsonaro é mais complexo: não se trata de ajudar um aliado —a quem o presidente deu as costas nas eleições municipais—, mas de recuperar o relacionamento com a Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, de quem Crivella é porta-voz na política mundana. Às vésperas da corrida presidencial, essa máquina político-espiritual é incontornável.

LÁ FORA

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Além de milhões de fiéis espalhados por todo o país, a Universal possui a segunda maior rede de comunicação do país, a Record, e está ligada a um partido político, o Republicanos, com 33 deputados e um senador. O pragmatismo desse grupo religioso, que já apoiou Lula e Dilma, difere do sectarismo de outras lideranças evangélicas, mais preocupadas com pautas conservadoras no Congresso.

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Com a Universal, o jogo é outro. Empreendimento monumental que é, demanda que governos assegurem seu bom funcionamento, inclusive fora do país. Foi-se o tempo em que bastava distribuir passaportes diplomáticos para impulsionar o trabalho missionário além-fronteiras.

Hoje, espera-se que o Itamaraty interceda pelos pastores brasileiros —e às vezes pela própria Universal— em disputas políticas ou até criminais. Foi o caso da crise em São Tomé e Príncipe, que levou à depredação de templos e à trágica morte de um adolescente. A embaixada teve que ser acionada para evitar a expulsão da igreja e de seus pastores.

Em Angola, não tiveram a mesma sorte. Após brigas com pastores angolanos, a cúpula brasileira no país foi removida do comando —no que chamaram de “golpe religioso”— em meio a acusações de crimes como evasão de divisas e racismo. Bolsonaro chegou a enviar uma carta ao presidente angolano pedindo proteção aos brasileiros, mas não conseguiu reverter a recente deportação de 34 membros da igreja. Foi a senha para que o grupo de Macedo ameaçasse publicamente romper com o governo.

A indicação de Crivella veio a público no mesmo momento em que autoridades angolanas afirmaram ter provas contundentes de que a chefes da Universal e da Record em Angola cometeram crimes como lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, o que reforça a tese de que a ida do bispo para a África do Sul, posto mais estratégico do continente, é uma jornada para salvar sua própria alma e expiar os pecados da igreja, cujas ramificações africanas estão enfraquecidas.

Os cínicos perguntarão se os governos anteriores não fizeram coisa pior. Afinal, não faltaram celeumas envolvendo mineradoras e empreiteiras em países africanos. No caso, é como se Dilma Rousseff tivesse resolvido nomear, digamos, Marcelo Odebrecht como embaixador para salvar o legado de sua empresa, em meio às investigações da Lava Jato e a um ano de sua campanha para reeleição.

E com a possível bênção dos senadores da base aliada.

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