segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Com gastos em xeque, TJ-SP blinda informações e tem transparência questionada, FSP

 José Marques

SÃO PAULO

Em meio a sucessivas polêmicas sobre a transparência dos gastos do Tribunal de Justiça de São Paulo, a corte publicou uma norma segundo a qual toda a informação gerada dentro do órgão deve ser considerada como seu patrimônio e deve ser protegida, sob a possibilidade de punições criminal, civil e administrativa.

A portaria, assinada pelo presidente Geraldo Pinheiro Franco e publicada no Diário da Justiça Eletrônico da última quarte-feira (26), atualiza a Política de Segurança da Informação (PSI) do tribunal.

A publicação da norma levantou questionamentos internos, tanto em servidores como na magistratura, sobre a probabilidade de ser utilizada para responsabilizar quem dá acesso a dados que o Judiciário paulista não divulga a jornalistas e pesquisadores.

Consultados pela reportagem, especialistas em transparência afirmam que é importante que o tribunal tenha diretrizes de segurança para dados pessoais e sigilosos que tramitam na corte.

No entanto, dizem que essas diretrizes deveriam estar subordinadas a uma política de transparência de informações, deixando claro que publicidade é a regra, e o sigilo, exceção —o que não identificam no plano aprovado pelo presidente Pinheiro Franco.

[ x ]

Procurado, o TJ afirma que o plano “não se presta a dirigismo ideológico ou ferramenta de censura” e que a norma foi revisada devido à Lei Geral de Proteção de Dados.

A versão anterior da Política de Segurança da Informação do TJ-SP tem menos de um ano. É de novembro de 2019, da gestão Manoel Pereira Calças. Em linhas gerais, também diz que informação gerada no TJ deve ser de propriedade do TJ, mas seu objetivo principal é que ela "seja utilizada por usuários devidamente autorizados para fins profissionais, no estrito interesse da Instituição".

Agora, a portaria assinada por Pinheiro Franco que institui a nova política já diz em seu segundo artigo que "não é escusável" a magistrados, servidores e terceirizados o descumprimento das normas sob a alegação de desconhecimento, sob o risco de punições —não são detalhadas por quais eventuais irregularidades.

O texto afirma que toda informação "coletada, gerada, adquirida, utilizada, em trânsito e armazenada; própria, pessoal ou custodiada; por meio de tecnologias, procedimentos, pessoas e ambientes" tem que ser tratada como patrimônio do tribunal e "deve ser protegida quanto aos aspectos de confidencialidade, integridade e disponibilidade, bem como de proteção de dados pessoais, privacidade e conformidade legal".

As informações agora são tratadas como “ativos” e são classificados como “ativos de informação” até “os recursos humanos que a eles têm acesso” –ou seja, magistrados, demais servidores e terceirizados.

Folha submeteu a portaria para análise de três especialistas em transparência pública, que destacaram aspectos diferentes da medida. Dois deles apontaram que o texto pode afetar funcionários que liberem acesso a informações que já deveriam estar disponíveis ao público.

"Os dados são importantes ativos, sim, mas não do tribunal. São bens públicos, da sociedade. O tribunal deveria elaborar uma política de governança de dados que assegure sua ampla disponibilização e uma política de segurança subordinada a essa diretriz geral para proteger aquilo que deve ser de acesso restrito, sigiloso ou de caráter pessoal", afirma Fernanda Campagnucci, diretora executiva da Open Knowledge Brasil.

"Ao estabelecer a política de segurança primeiro e de forma generalizante para tudo que é dado custodiado pelo tribunal, corre-se o risco de penalizar agentes pela disponibilização de dados, documentos e informações que já deveriam estar disponíveis ativamente."

Geraldo Francisco Pinheiro Franco, presidente do TJ-SP
Geraldo Francisco Pinheiro Franco, presidente do TJ-SP - Marcus Leoni/Folhapress

Consultor e especialista em transparência, Fabiano Angélico afirma que a linguagem do texto é "quase aterrorizante" para os funcionários "no sentido de que não pode dar informação para nada e para ninguém".

Ele diz que, embora seja uma portaria preocupada em listar normas técnicas sobre segurança da informação, tem "um sentido geral muito ruim". Angélico nota que a introdução da portaria não cita a Lei de Acesso à Informação ou outros princípios constitucionais de publicidade.

Segundo ele, em consequências práticas, a medida deve afetar diretamente servidores que lidam com transparência. "Na prática, a regra vai ser o sigilo. [O servidor vai pensar]: 'Eu posso ser punido se eu der uma informação'."

Cientista da computação e pesquisadora do Colaboratório de Desenvolvimento e Participação da USP, Gisele Craveiro tem uma visão positiva da portaria. Ela acha que a medida é boa para implantar definições normativas a respeito de gestão da informação no tribunal.

“Sem as definições claras, você não tem um mapa de riscos, não define níveis de acesso e responsabilização. Se uma empresa que presta serviço para o tribunal não tem isso especificado, um funcionário pode indevidamente compartilhar uma informação ou vender sem isso nunca ser percebido ou responsabilizado”, afirma.

Ela acrescenta que a portaria, para funcionar de maneira adequada, deve ser sucedida de investimentos em capacitação, treinamento e conscientização.

Craveiro, no entanto, questiona o fato de o tribunal frisar que a informação é patrimônio do tribunal, e não do público. “Tem que ser muito preservado o caráter de que é uma informação do público. O Estado é guardião, o Estado não é dono. É uma formulação infeliz, quero crer que seja nessa linha”, diz.

Maior tribunal do Brasil, o TJ-SP tem 360 desembargadores e aproximadamente 40 mil servidores. Nos últimos anos, teve um orçamento de aproximadamente R$ 12 bilhões.

Entre as informações sob a guarda do TJ, estão dados relativos a processos, mas também informações detalhadas sobre os gastos de magistrados, de custos em geral do Judiciário paulista e documentos sobre decisões internas da administração do tribunal. Apenas parte dessas informações, como, por exemplo, os salários de magistrados, estão publicadas em portais da transparência.

No último ano, informações que circularam dentro do tribunal sem divulgação ampla foram reveladas por veículos de imprensa.

No ano passado, por exemplo, a construção de um prédio bilionário para abrigar gabinetes de desembargadores acabou suspensa após a repercussão negativa.

Em junho, a Folha revelou que, de forma oculta ao público, o TJ-SP vinha usando uma verba reservada a situações urgentes e imprevisíveis para comprar petiscos como queijo maasdam holandês (R$ 67,90 o quilo) e salame hamburguês Di Callani (R$ 60,25 o quilo) aos desembargadores.

Também foi apontado que um relatório de fiscalização do TCE (Tribunal de Contas do Estado) questionava os registros de gastos com pessoal do TJ e que havia setor inflado por cargos em comissão, no qual funcionários com cargo de supervisor comandavam apenas uma pessoa.

Em agosto, o Painel mostrou que o TJ decidiu dar uma premiação de até R$ 100 mil a desembargadores que julgassem processos em Câmaras Extraordinárias durante a crise. Após a divulgação, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) foi acionado e o presidente Geraldo Pinheiro Franco decidiu suspender a medida.

PLANO É TÉCNICO, E NÃO FERRAMENTA DE CENSURA, DIZ TJ

Procurado, o Tribunal de Justiça de São Paulo respondeu que o plano apresentado “é um documento técnico de segurança da informação” e “não se presta a dirigismo ideológico ou ferramenta de censura”.

“Dados e informações são tratados como ativos de uma organização. Ativo é um termo técnico da NBR ISO/IEC para designar qualquer coisa que tenha valor para a organização”, diz nota assinada pelo juiz assessor do Gabinete Digital da Presidência Fernando Antonio Tasso.

“Todas as regras citadas são manifestação do compromisso que o TJ-SP reafirma de que tratará os dados e informações que lhe forem confiados com responsabilidade e profissionalismo”, afirma.

Segundo ele, a nova portaria não é mais rígida, mas “claramente estabelecida e atualizada” e revisada em pressuposto de implementação da Lei Geral de Proteção de Dados. A norma anterior, diz, já previa que seria necessária atualização em até dois anos.

“A nova PSI inaugura um tratamento mais técnico e alinhado com as normas internacionais de segurança da informação, na medida em que impõe ao ente público uma definição clara de suas regras, em detalhes. Este é um elemento fundamental na instituição de um programa de governança de dados, tema relacionado à Lei Geral de Proteção de Dados, da Gestão Documental e da Lei de Acesso à Informação, em alinhamento com as posturas normativas do Conselho Nacional de Justiça”, afirma a nota de Tasso.

“A censura é o impedimento de uso da informação por motivos subjetivos e sem amparo em regras claras. Estabelecer uma PSI é exatamente o contrário. Identifica o dado como um ativo de importância para a organização e estabelece regras prévias e claras quanto ao seu uso responsável. Portanto, a PSI tem a ver com o Estado Democrático de Direito e não com censura, que é vedada pela Constituição Federal.”

sábado, 29 de agosto de 2020

Um mutante menos letal do coronavírus, Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo


29 de agosto de 2020 | 05h00

Muitos temem o aparecimento de um SARS-CoV-2 mais perigoso - que se espalhe pelo planeta, aumentando o caos em que vivemos. Já sabemos muito sobre a evolução da relação de um parasita com seu hospedeiro. E, por isso, o mais provável é que aconteça o contrário: o aparecimento de uma forma branda do SARS-CoV-2. Um mutante descoberto em Cingapura é um bom exemplo.

Imagem ampliada exibe partículas do vírus (pontos escuros) aderidas à membrana da célula
Imagem ampliada exibe partículas do vírus (pontos escuros) aderidas à membrana da célula  Foto: IOC/Fiocruz

Os vírus são parasitas radicais. Além de só reproduzirem no interior de seu hospedeiro, sobrevivem em um estado de dormência absoluta quando estão fora dele. O SARS-CoV-2 não é diferente. Após aderir à superfície de uma célula humana, ele é posto para dentro e começa a reproduzir. Centenas ou milhares de cópias são produzidas e expelidas pela célula. Uma vez fora da célula, ele não possui metabolismo e fica praticamente “morto”, flutuando passivamente pelo ambiente até aderir a uma outra célula do mesmo hospedeiro ou de outro hospedeiro, onde reinicia sua fase “viva”.

PUBLICIDADE

Sabemos que, nessa relação vírus-hospedeiro, leva vantagem o vírus que não mata rapidamente o hospedeiro ou produz sintomas. Imagine dois vírus competindo para sobreviver entre os humanos. Um deles infecta e se espalha por todo o corpo em um ou dois dias, imobiliza a vítima por causa de sintomas violentos e provoca sua morte em menos de uma semana. Esse vírus tem pouco tempo para produzir muitas cópias de si mesmo. O hospedeiro fica logo incapacitado, deixa de interagir com outros seres humanos, talvez seja isolado, e quando morre vai ser enterrado rapidamente. O tempo que o vírus tem para passar para outra pessoa é pequeno e a probabilidade baixa. Agora imagine um outro vírus que, após infectar uma pessoa, praticamente não provoca sintomas, mas se reproduz com eficiência, fazendo com que tanto a pessoa infectada quanto seus amigos não percebam sua presença. E quando a doença aparece ela leva tempo para progredir e a pessoa pode infectar dezenas de outras pessoas antes de ele ser detectado. Esse segundo vírus, menos letal, pode se espalhar rapidamente, garantindo sua sobrevivência entre os seres humanos. Quando esses dois vírus competem entre si, e isso já foi demonstrado em centenas de exemplos, o vírus menos letal tem mais chances de se espalhar entre os hospedeiros. É por esse motivo que as cepas que vão aparecendo ao longo do tempo ficam cada vez menos letais. Esse é um processo lento de competição entre cepas que pode levar décadas ou séculos. Os outros coronavírus que circulam entre nós se espalham rapidamente, provocam resfriados leves que nosso sistema imune combate rapidamente. São tão inofensivos que nem vale a pena tentar criar uma vacina.

Pesquisadores de Cingapura identificaram um mutante de SARS-CoV-2 que começou a circular na cidade em janeiro e fevereiro. Como essa mutação consistia em uma deleção de 382 nucleotídeos no genoma do vírus, que destruía um gene e sua capacidade de produzir uma das proteínas do vírus, os pesquisadores resolveram comparar as pessoas infectadas com o mutante e as infectadas pelo coronavírus original. Entre 22 de janeiro e 21 de março, 278 pacientes infectados tiveram o tipo de vírus que os infectou sequenciado. Desses 131 foram acompanhados cuidadosamente. Nesse grupo, 92 (70%) haviam sido infectados com o vírus comum, outros 10 (8%) estavam infectados com uma mistura do comum e do mutante e 29 (22%) somente com o vírus mutante (com a deleção). 

O desenvolvimento da doença nesses pacientes foi acompanhado dia a dia. Constatou-se que nenhum dos 29 pacientes com o vírus contendo a deleção precisou de oxigênio ou internação em UTIs. Já entre 92 pacientes com o vírus normal, 26 (28%) sofreram dificuldade de respirar e tiveram de receber oxigênio. Depois de controlar o experimento para a presença de outros fatores, como comorbidades e sexo, os cientistas concluíram que o vírus com essa deleção é mais benigno, não provocando casos graves de covid-19.

Depois disso, essa mutação e outras deleções nesse mesmo local, mas com diferentes tamanhos, têm aparecido na Ásia. O que ainda não se sabe é se o vírus com a deleção se espalha mais facilmente do que o original. Se esse for o caso e ele se espalhar pelo mundo ao longo dos anos, competindo com o vírus original, é possível que no futuro tenhamos um número maior de casos mais leves da doença. Esse exemplo mostra como não devemos ter medo do aparecimento de SARS-CoV-2 mutantes. 

Para competir com o original, a grande maioria precisa se espalhar mais rapidamente e, por isso, provavelmente é menos letal, ou provoca mais casos assintomáticos. E assim, ao longo de décadas, talvez o SARS-CoV-2 acabe ficando mais parecido com os outros coronavírus que circulam entre nós. Pena que não haja registros históricos de como foi a primeira pandemia desses outros coronavírus quando primeiro infectaram seres humanos.

MAIS INFORMAÇÕES: EFFECTS OF A MAJOR DELETION IN THE SARS-COV-2 GENOME ON THE SEVERITY OF INFECTION AND THE INFLAMMATORY RESPONSE: AN OBSERVATIONAL COHORT STUDY LANCET. Link: https://bit.ly/2YJvmQx 

Discursos inéditos de Erico Verissimo chamam o capitalismo de triste erro, FSP

 

PORTO ALEGRE

Trabalhando ao menos oito horas por dia num escritório em Washington, o escritor gaúcho Erico Verissimo se empenhou para situar as Américas do Sul e a Central num patamar de igualdade com à do Norte, habituada ao seu status de domínio cultural e econômico.

O autor da trilogia “O Tempo e o Vento”, Verissimo foi diretor do Departamento de Assuntos Culturais da Organização dos Estados Americanos, a OEA, de 1953 a 1956, seu único cargo político. O conjunto de seus discursos revela uma postura diplomática sem submissão e uma defesa intransigente da liberdade.

Diferentemente de outros intelectuais de sua época, como o amigo Jorge Amado, Verissimo nunca pertenceu ao Partido Comunista. Suas manifestações como dirigente da OEA, porém, poderiam fazer dele um perigoso “vermelho” aos olhos dos nativos.

Os Estados Unidos viviam a Guerra Fria, com forte propaganda anticomunista. Jorge Amado, por exemplo, nem sequer poderia entrar no país comandado por Dwight Eisenhower e chegou a ser espionado pela CIA, a agência de inteligência americana, na década de 1950.

Neste contexto, em 21 de fevereiro de 1955, numa conferência no Hollins College, no estado americano da Virgínia, Verissimo proferiu, fez um discurso em inglês. “Penso que seria um triste erro fazer nossos países seguirem a trilha dos Estados Unidos e se tornarem capitalistas. Espero que um dia possamos alcançar um tipo de socialismo cristão moderado, pleno de liberdade social. Para esse fim, é necessário que os raros felizes desistam daquilo que constitui luxo, para que a maioria possa ter o essencial.”

[ x ]

Este e outros discursos inéditos integram o livro “Erico Verissimo na União Pan-Americana: Discursos”, recém-lançado pela Edições Makunaíma, organizado pelas pesquisadoras Maria da Glória Bordini e Ana Letícia Fauri, com apoio público do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. O ebook é gratuito para download.

Os discursos foram encontrados por Fauri na Biblioteca Colombo, em Washington. A instituição é ligada ao departamento que Verissimo chefiou. A descoberta ocorreu enquanto Fauri procurava material relacionado ao pensamento político do autor para a sua tese de doutorado.

“A questão política era uma das menos desenvolvidas sobre o Erico. A grande questão era se ele era de direita ou de esquerda. Condenavam-no por ser muito liberal ou por ser muito conservador, por razões mais díspares”, afirma Fauri, professora do Departamento de Línguas Românicas e Literatura da Universidade de Notre Dame, no estado americano de Indiana.

Erico Verissimo, retratado em 1951, quando trabalhava em 'O Tempo e o Vento'
Erico Verissimo, retratado em 1951, quando trabalhava em 'O Tempo e o Vento' - Folhapress

Nos seus discursos, Verissimo defendeu também a erradicação do analfabetismo e o acesso a itens básicos como alimento e serviço de saúde.

“Ele propõe àqueles que buscam hegemonia que conheçam melhor os países que apenas olham as Américas do Sul e Central com interesses comerciais e ideológicos. Ele fez algo que não sei se outro escritor brasileiro teria feito na mesma situação”, diz Bordini, professora convidada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e que se dedica ao estudo da obra do autor desde a década de 1980.

No Brasil, o Acervo Literário de Erico Verissimo, o Alev, integra o Instituto Moreira Salles, o IMS, no Rio de Janeiro, desde 2009.

“Que o americano das ruas —o homem de apenas educação básica— continue acreditando na imagem da América Latina que os filmes padrão de Hollywood apresentam —a dança do mambo, señoritas, alegres caballeros com grandes sombreros tocando violão ou desfrutando de siestas e fiestas intermináveis. Mas os senhores, que estudam na faculdade, que leem e querem aprender, deveriam conhecer melhor e evitar todos esses clichês e fórmulas tolas”, discursou Verissimo, fazendo uma crítica pouco sutil.

Verissimo assumiu o cargo na OEA atendendo ao convite do seu antecessor, Alceu Amoroso Lima, conhecido também sob o pseudônimo Tristão de Athaíde. Alguns de seus discursos eram proferidos também em espanhol. O gaúcho se apresentava como “escritor e cidadão das Américas”.

Ao defender a liberdade e criticar ditadores, não deixou de citar a “pressão externa” sobre os países latino-americanos. Pouco mais de uma década mais tarde, as ditaduras militares na América Latina sofreram grande influência dos Estados Unidos, como já mostrou vasta documentação da época.

“Aqueles que favorecem governos autoritários entre nós costumam dizer que um país de mestizos não pode ser governado democraticamente. Eu me ressinto disso. Primeiro, da implicação de que um mestiço é um ser inferior”, critica o romancista.

“É muito melhor ter uma democracia imperfeita do que uma assim chamada ditadura benevolente. O único modo de alcançar uma democracia perfeita é pelo estágio intermediário da nossa atual democracia imperfeita”, acrescentou.

Todavia, não é apenas do preconceito racial que o escritor se ressentia. Ele manifestou seu desconforto com o rótulo de “comunista” para qualquer um que defendesse uma maior igualdade social.

“Muitos intelectuais em nossos países foram rotulados de comunistas porque desejam proporcionar uma vida melhor aos menos favorecidos, porque falaram ou escreveram contra a ditadura e a opressão em seus países ou contra a pressão de trustes estrangeiros. Os senhores precisam esquecer as vantagens imediatas e aprender quem são seus verdadeiros amigos”, afirmou.

A desaprovação de tal postura se soma a outra, que pode soar atual num momento de negacionista de fatos científicos e ataques a acadêmicos e intelectuais. Segundo ele, não só atrás da Cortina de Ferro, mas nos países democráticos, intelectuais “são encarados com desconfiança e má vontade por políticos reacionários e grandes empresários, que os consideram um elemento perturbador”.

Por sua vez, argumenta Verissimo, o “empreendedor, o industrial, o empresário é glorificado”. A diferença de tratamento ocorre, segundo o autor, como “resultado da sutil e insistente influência da própria doutrina que desejam combater e varrer da face da terra, os líderes do mundo ocidental parecem ter chegado à conclusão de que todos os problemas humanos podem ser resolvidos por meios econômicos”.

“Em uma época de grandes contrastes e disputas, seus discursos até se assemelham com algumas coisas que vivemos hoje”, diz Fauri.