domingo, 24 de novembro de 2013

Selfie


Vinda de 'self-portrait', ou autorretrato, eis a palavra do ano - um tipo de onanismo visual

23 de novembro de 2013 | 16h 40

J. R. Duran - O Estado de S. Paulo
Então é assim. Ao final do Grande Prêmio de Monza deste ano, na Itália, do alto de seu segundo lugar no pódio o piloto Fernando Alonso levantou o braço esquerdo e segurando um aparelho celular tirou uma foto dele mesmo. Clique e pronto. Precisar se fotografar, Alonso não precisava. Ainda mais se consideramos que um batalhão dos melhores fotógrafos esportivos do mundo inteiro estava a seus pés para registrar o momento que, diga-se de passagem, se tornou uma constante este ano: tomar vários segundos de diferença de Sebastian Vettel. Talvez para espantar o tédio, ou a frustração, é que ele praticou esse ato de onanismo visual que, acreditem se quiserem, tem uma denominação clara como uma imagem de 41 pixels. É o selfie. É assim que se denomina o exato momento em que alguém se fotografa com um smartphone com o propósito de postar a imagem nas redes sociais.
Convencionou-se que, se você tem um celular e não se fotografa, é porque você não existe - Barry Hall
Barry Hall
Convencionou-se que, se você tem um celular e não se fotografa, é porque você não existe
Na década de 1990 existiu, nos Estados Unidos, um programa de televisão para crianças chamado Pee-Wee’s Playhouse. Na casa de Pee-wee cadeiras falavam, humanos se misturavam com bonecos e robôs, ficção e realidade, tudo em um mundo lúdico e colorido que entretinha crianças e, frequentemente, adultos também. Em um certo momento do programa uma palavra qualquer era escolhida como "a palavra do dia", e a cada vez que ela era pronunciada as luzes se acendiam, as portas do cenário se abriam e fechavam e todo mundo batia palmas.
Para alegria e farra geral o Oxford Dictionary Online (e atenção, não é a mesma coisa queOxford English Dictionary) decidiu que a palavra do ano é… selfie! E batemos palmas, como crianças de Pee-wee Herman, toda vez que alguém segura o celular com o braço estendido, levemente arqueado, com a lente apontada diretamente para si mesmo, espiando o coração de algum ego no ato de praticar quiromania fotográfica. A cada segundo nasce mais um perfeito selfie.
Em um momento não muito distante as pessoas viajavam e se fotografavam ao lado de monumentos famosos com a clara intenção de provar, na volta para casa, que tinham estado lá (e atire o primeiro celular quem nunca esteve em Pisa e fez uma foto empurrando - ou escorando - a torre). Hoje em dia não é preciso chegar ate a locação - a foto dentro do avião já é um selfie perfeito. A internet está repleta de imagens de pessoas que se fotografam em qualquer lugar, seja no banheiro, no restaurante, chapados na balada, com o bicho de estimação no colo, grávidas, dormindo, ou no reflexo de alguma superfície espelhada, a qualquer momento e sem nenhuma razão. Sempre fazendo cara de pato na tentativa de sugar as bochechas e parecer mais magro.
Os narcisos do smartphone precisam desesperadamente da polinização fotográfica nas redes sociais para que isso possibilite uma autofecundação digital de pixels emocionais. Uma legião de Zeligs desesperados padece da compulsão de se inserir em qualquer realidade para poder existir. Apenas porque se convencionou que se você tem um celular na mão e não está inserido em algum lugar você não existe. O que conta no fim do dia é a historia oficial espalhada na internet, como se a pessoa tivesse de ver sua imagem refletida na rede para ter certeza da própria existência. Nesse sentido os smartphones são o equivalente multiuso do canivete suíço, a perfeita síntese da portabilidade, neste caso repleta de imagens e emoções acumuladas em camadas e mais camadas de aplicativos.
É através dessa atividade de formiga digital que se pode escrever, verdadeiro mosaico de pequenas fotos, uma biografia visual que não requer edição nem leitura para ser entendida, basta apenas ser percebida. E sai dessa percepção a perfeita biografia imaginária. Surreal. Pode ser que as imagens não mintam, mas não se pode esquecer que a câmera sempre pode ser manipulada por um mentiroso de primeira categoria.
É curioso que essa superexposição da privacidade acontece em um momento em que se discute se as biografias devem ser, ou não, autorizadas. Como se sabe, é difícil apagar o passado na internet e o gesto de Fernando Alonso deixa o recado de que, apesar do testemunho de todas as objetivas ali apontadas para o campeão, apenas a imagem dele seria a mais verdadeira de todas. Porque nela Alonso se mostrou como queria, ou imaginava ser visto.
O personagem de Pee-wee Herman era interpretado por um ator chamado Paul Rubens. O programa dele terminou no auge do sucesso quando, ironia do destino, Paul foi pego pela polícia praticando o autoerotismo em um cinema para adultos, na Flórida. De acordo com as leis da cidade de Sarasota, o lugar podia ser restrito, mas isso não significava que ele pudesse chegar às vias de fato. O escândalo nos jornais foi tão grande que o show acabou.
Já, nas redes sociais, a autossatisfação digital do ego não causa espanto. Ela é digna, apenas, de um simples hashtag: #selfie.
E vamos aguardar a palavra do próximo ano.
J.R. DURAN, FOTÓGRAFO E ESCRITOR, É AUTOR DE CIDADE SEM SOMBRA(BENVIRÁ, 2013)

Quem ficou rico no Brasil - VINICIUS TORRES FREIRE


FOLHA DE SP - 24/11

Espírito Santo lidera crescimento no século e fica atrás apenas de Rio e SP em renda per capita


O NORDESTE seria a região que mais teria crescido no Brasil "nos últimos tempos", nos anos Lula etc. Era o que a gente tinha a impressão de ouvir por aí.

Bem, o Centro-Oeste cresceu mais entre 2002 e 2011. Quietinho, quietinho, o Estado que mais cresceu foi o Espírito Santo. Também foi o que se tornou relativamente mais rico neste século: o aumento de seu PIB per capita também foi o maior.

Os capixabas tinham em 2011 o terceiro maior PIB per capita do Brasil, depois de São Paulo e Rio (exclui-se aqui o Distrito Federal, uma anomalia estatística, entre outras). Em 2002, estavam em sétimo lugar.

As economias de Rio Grande do Sul, Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro, pela ordem, estão no G4, na "zona de rebaixamento" --foram as que cresceram menos.

Esquisito mesmo, porém, é que alguns Estados se tornaram relativamente mais pobres entre 2002 e 2011. O PIB per capita do Pará ficou estagnado ou decresceu e o de Rondônia cresceu pouco; os de Amazonas, Amapá, Roraima e Acre decresceram.

É o que se pode depreender do balanço das Contas Regionais (PIB por Estados) de 2011, divulgado pelo IBGE na sexta-feira passada. O IBGE divulgou só o PIB per capita de 2011, baseado na contagem de população dos municípios enviada ao Tribunal de Contas da União em 2011.

No entanto, fazendo contas pela estimativa de população da Pnad-IBGE, é possível fazer uma comparação aceitável dos PIBs per capita ("renda per capita") dos Estados entre 2002 e 2011.

Não aconteceu nenhuma catástrofe econômica nos Estados do Norte. As economias do Pará e de Rondônia estão em segundo e terceiro lugares na lista das que mais cresceram. Porém, houve um crescimento brutal das populações desses Estados, o que puxou para baixo seu PIB per capita, claro.

O que o Espírito Santo tem? Commodities (minerais metálicos, papel e celulose, petróleo e gás), por exemplo. Em 2002, 6% do PIB do Estado vinha da indústria extrativa; em 2011, 22,3%.

O grande setor da economia que mais cresceu no Brasil desde 2002 foi o extrativista. Porém, observando estatísticas antigas, vê-se que o Estado cresce bem mais do que o Brasil desde os anos 1980.

Piauí e Maranhão vêm logo depois do Espírito Santo em termos de velocidade do crescimento da renda per capita. Mas sua base (renda inicial) era muito baixa. Os desempenhos mais consideráveis, a seguir, são os de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, que tiraram proveito do crescimento de agropecuária e indústria extrativa, embora Mato Grosso do Sul tenha feito um progresso mais "completo", se industrializando bem.

Fora da região Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo registraram a menor alta do PIB per capita, não muito longe, é verdade, da Bahia e do Rio. Nesses Estados, o peso da indústria de transformação ("fábricas") era grande em 2002 e ainda é relevante.

Os tropeços feios do crescimento industrial parecem ter prejudicado o desempenho deles. Mas Santa Catarina tem indústria de peso e não foi nem de longe tão mal. Além do mais, São Paulo tem a economia mais diversificada do país, as maiores e melhores universidades e é o centro financeiro do Brasil. Por que não inventou negócios novos?

Filas nas farmácias - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 24/11

Comprar medicamentos tem exigido cada vez mais tempo e paciência do consumidor. Além da distribuição de senhas, algumas farmácias em São Paulo já dispõem de bancos ou cadeiras enfileiradas para os que aguardam atendimento.

O problema se agrava no caso dos remédios sujeitos a controle ou no das compras por meio do programa Farmácia Popular, do Ministério da Saúde. Em ambos os casos, além de apresentar a receita médica e documento de identidade, o cliente deve preencher formulário com múltiplos dados pessoais, que depois precisam ser lançados em sistemas eletrônicos.

Essas exigências aumentaram o tempo de atendimento e carregam os custos das farmácias. Pelos cálculos da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), a operação de venda de um medicamento comum leva, em média, 6 minutos. Nos casos de controle, são 14 minutos. "Há excesso de burocracia, o farmacêutico se tornou um digitador de luxo", reclama Sérgio Mena Barreto, presidente executivo da Abrafarma.

Em uma farmácia na Avenida Pompeia, em São Paulo, por exemplo, quatro farmacêuticos se revezam para lançar diariamente cerca de 300 receitas médicas no Sistema Nacional de Gestão de Produtos Controlados (SNGPC). Nessas condições, tende a aumentar a incidência de erros de digitação.

Essa é a lei e a lei tem de ser cumprida, argumentam os reguladores da Anvisa e do Ministério da Saúde. Mas, para garantir segurança, não é necessário tanto arrasta-arrasta. Nos Estados Unidos e em certos países da Europa, por exemplo, as receitas médicas têm validade de dois a três anos. E pacientes com doenças crônicas ou que fazem uso contínuo de medicamentos podem cadastrar-se e encomendar remédios até pela internet.

A regulação dos medicamentos controlados no Brasil, assim como a exigência de receita especial e identificação no ato da compra, existe desde 1998 (Portaria 344). A informatização, a partir de 2009, não deixou de ser um avanço, porque antes os dados eram anotados manualmente em livros de registro.

O secretário-geral do Conselho Federal de Farmácia (CFF), José Vilmore, atribui a excessiva lentidão do sistema à falta de investimentos das farmácias em informatização. O setor de Comunicação da Anvisa argumenta que a digitação dos dados nos sistemas de controle não precisa, necessariamente, ser tarefa de farmacêutico; podendo ser delegada a outros funcionários sob supervisão.

Mesmo que a tarefa seja repassada para auxiliares, não há garantia de fim dos transtornos ao cliente. "O atendimento demora porque há poucos profissionais ou porque eles estão despreparados", diz Ana Maria Malik, coordenadora do Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Independentemente das justificativas de um lado e de outro, o fato é que a população brasileira está ficando mais velha, vai dependendo mais dos seus remedinhos e precisa de mais cuidado, não só das farmácias, mas também da regulamentação. Apenas chá de cadeira não é remédio.