quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Mudanças no governo Alckmin, do blog Julia Duailibi


Com Bruno Boghossian 
O governador Geraldo Alckmin (PSDB) mobilizou seu secretariado para conquistar os votos necessários na Assembleia Legislativa a favor da indicação do chefe de sua Casa Civil, Sidney Beraldo, para uma vaga de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE). Alckmin fez o pedido em uma reunião com parte de seu primeiro escalão na noite de terça-feira, 16, no Palácio dos Bandeirantes.
Os secretários abriram negociações com deputados estaduais do PPS, do PV e do PSB no dia seguinte, para tentar reverter o apoio dos parlamentares à indicação do deputado estadual, Jorge Caruso, do PMDB. O objetivo é tentar atrair os partidos da base aliada de Alckmin ao conferir à nomeação de Beraldo o tom de uma disputa entre governistas e antigovernistas.
Um dos secretários de Alckmin vai se reunir nesta quinta-feira com o presidente do PTB paulista, o deputado estadual Campos Machado, que liderava a campanha pela nomeação de Caruso. Campos e a bancada do PMDB acusam o governo de romper um acordo pela indicação do deputado, que havia sido firmado em maio.
“Essa vaga pertence à Assembleia Legislativa, mas o PSDB quer romper o acordo. Seria colocar dinamite na Casa”, diz Campos Machado. A vaga no TCE será aberta no fim desta semana, com a aposentadoria do conselheiro Claudio Alvarenga.
A possível saída de Beraldo do governo deve precipitar a reforma na equipe de Alckmin, prevista para ocorrer agora logo depois do 2.º turno das eleições municipais. Candidato à reeleição em 2014, o tucano quer deixar o secretariado azeitado para a reta final da gestão, além de colocar na equipe integrantes de partidos que pretendem apoiá-lo.
O favorito para assumir a Casa Civil é Edson Aparecido, secretário licenciado de Desenvolvimento Metropolitano e coordenador da campanha de José Serra (PSDB) na capital paulista. Outros cotados são Julio Semeghini (secretário de Planejamento) e Saulo de Castro (secretário de Transportes).
O governo pode oferecer ao PTB uma secretaria nesta reforma para compensar o desembarque do partido da candidatura de Caruso ao TCE. O advogado Luiz Flávio Borges D’Urso, que disputou a eleição municipal pelo partido como vice na chapa de Celso Russomanno (PRB), é citado como possível ocupante da pasta da Justiça.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sutileza (sobre a desigualdade).


Nas "Lectures on Jurisprudence" (de 1766), Adam Smith afirma que todos os homens são iguais e têm um direito natural à vida, à liberdade e ao pleno gozo da sua propriedade, sem se preocupar como ficará a igualdade no correr da vida.
Condorcet, nas "Cinq Mémoires sur l'Instruction" (de 1791), reconhece a diferença natural dos homens e assegura que são direitos naturais de todos a liberdade, a segurança, a propriedade e a igualdade.
Na primeira metade do século 18, não havia um sistema de instrução pública organizado e a educação era, geralmente, feita por meio de preceptores privados aos quais só podiam ter acesso as famílias mais abastadas. Aliás, Smith era de uma delas.
O sistema de instrução pública (pago para Smith e gratuito para Condorcet) seria o caminho para o gozo dos direitos naturais, aperfeiçoaria a humanidade e aumentaria a solidariedade social.
Há uma divergência entre o papel da educação para Smith e para Condorcet. Para este, "a instrução pública destina-se a aperfeiçoar a espécie humana". Não se trata de promover a igualdade absoluta, mas de dar a todos a oportunidade de participar do progresso da humanidade e da ampliação do conhecimento.
É curioso ele já advertir para os riscos de uma educação pública gratuita, ao dizer claramente que "é preciso proteger o saber e seus agentes de possíveis controles do poder, seja ele civil, político, religioso ou econômico".
Para Smith, que postula a igualdade dos cidadãos ao nascer, os hábitos, os costumes e a educação são fundamentais na explicação das desigualdades dos talentos e no comportamento moral dos indivíduos.
Ele chega a dar um exemplo: a diferença entre um "filósofo" e um trabalhador comum. "Quando eles vieram ao mundo e durante os primeiros sete ou oito anos de suas vidas, deveriam ser muito parecidos. Depois, incorporaram-se ao mundo de formas diversas. Isso ampliou, pouco a pouco, a diferença de talentos, até que ao final a semelhança entre eles é irreconhecível".
Notemos que, para Smith, a coisa é mais sutil. Potencialmente, a simples ampliação da instrução não é, necessariamente, uma condição do progresso da humanidade, porque o aprendizado do conhecimento e do saber fazer corresponde ao papel desempenhado pelo indivíduo na divisão do trabalho, que gera o crescimento da riqueza.
Para Smith, um papel importante da educação é o de anular os males sobre os humanos produzidos pela condição do progresso material que é a divisão do trabalho.
ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras nesta coluna.
Antonio Delfim Netto
Antonio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda (governos Costa e Silva e Médici), é economista e ex-deputado federal. Professor catedrático na Universidade de São Paulo. Escreve às quartas-feiras na versão impressa da Página A2.

    terça-feira, 16 de outubro de 2012

    Ciência dos alimentos - XICO GRAZIANO


    O Estado de S. Paulo - 16/10


    Forte polêmica esquentou o mundo da biotecnologia. Pesquisadores de várias partes do mundo contestaram experimento, realizado na França, relacionando os alimentos transgênicos com câncer. Foram além. Denunciaram logro no trabalho.

    A pesquisa testou o efeito em ratos de laboratório de ração contendo milho geneticamente modificado, tolerante ao herbicida Roundup (milho RR). No experimento, porém, descobriram-se grosseiros erros metodológicos. Cientistas brasileiros da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), norte-americanos das Universidades da Califórnia e da Flórida, ingleses do King"s College, de Londres, combateram os resultados, apontando falhas inaceitáveis. Com os mesmos dados poderia ter sido provado o contrário, ou seja, que o milho transgênico reduziu, e não aumentou, o risco de câncer nos bichinhos.

    A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EF-SA) publicou análise desqualificando a pesquisa conduzida por Giles-Eric Séralini, conhecido ativista contrário ao uso da engenharia genética na agricultura. Aposição apriorística dele construiu uma conclusão equivocada. Picaretagem científica.

    Vem de longe a discussão sobre a cor ideológica da ciência. Nas ciências sociais, sabidamente, existe enorme dificuldade de os cientistas se isentarem de suas posições políticas nos estudos que realizam. A visão de mundo afeta, inevitavelmente, suas formulações teóricas, induzindo ao viés. Por essa razão existem tantas polêmicas na sociologia e na economia.

    Nas ciências exatas, por outro lado, praticamente inexiste relação entre conhecimento e ideologia. Na física ou na química, os fenômenos analisados são quantificáveis na exatidão. Mede-se a velocidade da luz, detalham-se as estruturas moleculares. Na matemática, dois mais dois são quatro, e acabou.

    Já nas ciências naturais, como a biologia e a agronomia, que estudam os seres vivos e j seu ambiente, os fenômenos, j além de complexos, variam em sua manifestação. Sua mensuração é difícil, estimada, nunca precisa. Podem-se observar tendências, leis gerais a guiar os processos vitais, mas cada i um deles pode reagir distintamente aos estímulos do meio onde vivem. Existem incertezas, imprecisões.

    Como diz o caboclo, aqui é que o bicho pega. Mesmo quando não são politicamente engajados, os pesquisadores raciocinam segundo seus princípios culturais e éticos. Isso, obviamente, cria distinções dentro dos laboratórios. Sabendo ser impossível a isenção ideológica, as normas científicas exigem que sejam conhecidos, e divulgados com clareza, os pressupostos básicos e a metodologia dos estudos, estabelecendo uma espécie de lealdade na busca da verdade.

    O rigor do método científico separa o bom conhecimento do fajuto. Este surge da empulhação, da fabricação de resultados segundo objetivos não confessáveis. Aqui parece enquadrar-se essa pesquisa sobre o milho transgênico RR e o câncer. Nem a estirpe nem a idade dos ratinhos alimentados em laboratório se conheciam, e sabe-se que, naturalmente, ratos mais idosos tendem a contrair mais câncer do que os jovens.

    Neste 16 de outubro se passa o Dia Mundial da Alimentação. Estudiosos da questão da fome concordam que o desafio da segurança alimentar não se vencerá facilmente até 2050, quando se estima que a população mundial venha, com 9 bilhões de pessoas, a se estabilizar. Três processos básicos determinarão o sucesso nessa difícil empreitada contra as restrições alimentares dos povos: expansão das áreas de produção; desenvolvimento tecnológico, elevando a produtividade na agropecuária; e surgimento de novas alternativas de comida. 

    A engenharia genética cumprirá papel imprescindível rumo à segurança alimentar. Após | 15 anos, desde que deixaram os laboratórios e seguiram para o campo, as variedades transgênicas, manifestadas em dezenas de espécies Vegetais, já ocupam 160 milhões de hectares, plantadas por 16,7 milhões de agricultores, em 29 países. Recebidas inicialmente com temor, nunca se avaliou tanto uma tecnologia. Mesmo procurando chifre em cabeça de cavalo, jamais se provou qualquer dano à saúde humana em decorrência de alimento geneticamente modificado. Nenhum caso.

    Novas gerações de organismos geneticamente modificados surgem dos laboratórios mundiais. As primeiras transgenias forneceram resistência das plantas a herbicida, depois às lagartas, daí não pararam mais de evoluir. A engenharia genética está inventando plantas resistentes à seca, tolerantes à salinização dos solos, suportáveis a solos mais pobres. Surgem grãos mais ricos em proteínas e vitaminas, frutas mais duráveis ao armazenamento. Nos animais, acaba de ser anunciada, na Nova Zelândia, uma vaca transgênica capaz de produzir leite sem a proteína beta-lacto-globulinay responsável por causar alergia em até 3% das crianças no primeiro ano de vida. Incríveis fronteiras da ciência dos alimentos.

    Normas internacionais proíbem produtores orgânicos de cultivar plantas transgênicas. Cada vez mais se comprova, porém, com biossegurança, o seu benefício na sustentabilidade dos sistemas produtivos. Superplantas transgênicas, resistentes às pragas e doenças, eliminarão o uso dos agrotóxicos na lavoura. Afora o preconceito ecológico, nenhuma razão agronômica opõe o orgânico ao transgênico. Inimigos hoje, poderão andar de mãos dadas amanhã.

    Conhecimento científico não rima com ideologia nem com intolerância. Ele se move, estimulado pelo dinamismo civilizatório, pelo desafio do desconhecido. Transilvânia, em latim, significa “além da floresta”. Na Romênia, acredita-se que lá viveu o assustador Conde Drácula, o mais famoso dos vampiros. Mera crença. Nada que ver com transgênico. Pura ciência.