terça-feira, 16 de outubro de 2012

O lugar da cota


SÃO PAULO - Contra ou a favor, as pessoas costumam ter uma opinião forte sobre cotas raciais. Isso ocorre porque o assunto mobiliza nossas intuições de justiça, que constituem a base de qualquer juízo moral. O interessante aqui é que tanto defensores como opositores das cotas pretendem ser os legítimos porta-vozes da equidade, atribuindo aos adversários uma visão distorcida do conceito e mesmo do mundo.
A diferença de perspectivas, creio, se deve ao fato de que cada lado aplica a noção de igualdade num momento diferente. Para o sujeito anticotas, a igualdade que prevalece é a jurídica. As regras devem ser rigorosamente as mesmas para todos, independentemente de raça, classe social, inteligência. Já para os cotistas, a igualdade tem de materializar-se nos resultados. Se negros e índios ficam sistematicamente para trás na corrida por uma vaga na universidade, precisamos equilibrar o jogo, dando-lhes alguma dianteira.
Tomadas pelo valor de face, as duas posições levam a aporias. Uma plena igualdade de todos diante da lei exigiria acabar com a progressividade do IR e as aposentadorias especiais, e estender o serviço militar obrigatório às mulheres. Até programas para auxiliar crianças disléxicas teriam de ser suprimidos. Já a rigorosa igualdade de resultados, na qual até os salários de todos os cidadãos precisariam ser os mesmos, destruiria a produtividade e a inovação. Algo assim já foi tentado com o comunismo.
O que devemos discutir, portanto, não é se ações afirmativas podem ser adotadas --a noção mesma de Estado democrático envolve algum tipo de auxílio aos mais necessitados--, mas em que grau e por quais instrumentos devemos implementá-las.
Pessoalmente, não gosto de cotas raciais. A ideia de ver agentes do Estado conferindo a cor da pele e outras características fenotípicas de cidadãos não evoca o melhor da humanidade. Existem alternativas mais inteligentes, mas essa é outra história.
Hélio Schwartsman
Hélio Schwartsman é bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve na versão impressa da Página A2 às terças, quartas, sextas, sábados e domingos e às quintas no site.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O calmo desespero das elites


Ilhados em escolas-bunker, nossos filhos estão sucumbindo a um 'dever' implícito e inconteste: ultrapassar seus coetâneos, transformados em aguerridos rivais pelo melhor lugar ao sol do consumo

07 de outubro de 2012 | 3h 09

JULIO GROPPA AQUINO - É LIVRE-DOCENTE DA FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA USP - O Estado de S.Paulo
Nas duas últimas semanas, dois acontecimentos, aparentemente isolados, interceptaram a típica pasmaceira educacional do País, envolvendo escolas privadas de prestígio: a polêmica em torno da instalação de câmeras nas salas de aula do Colégio Rio Branco, em São Paulo, e a presumida tentativa de suicídio de um aluno do quinto ano do ensino fundamental do Colégio São Bento, no Rio de Janeiro.
O que parece unir os dois acontecimentos é o fato de que o que se tentou prevenir, num caso, não foi capaz de ser remediado, no outro. Mostra também, por meio da irredutibilidade do segundo, a debilidade ético-política que ronda o primeiro. Em última instância, o caso limite do garoto suicida representaria o contrário absoluto do projeto de controle irrestrito sobre as novas gerações, por parte das famílias endinheiradas e, por extensão, de suas escolas marionetes.
Desponta, aqui, a lógica onipresente a demarcar os afazeres educacionais daqueles pertencentes (ou aspirantes) às classes abastadas: a do ensejo frenético de vigilância dos passos de sua prole. Trata-se de assegurar, a qualquer custo, um monitoramento diuturno das condutas das crianças e jovens de elite a título de "proteção e cuidado". Contra o quê?, caberia indagar.
Não bastassem as doses cavalares de bens e serviços à disposição desse segmento da população (do assédio tecnológico à voracidade clinicalizante dos profissionais parapedagógicos de plantão; da oferta de uma miríade de produtos de grife à difícil administração dos excessos comportamentais daí derivados; da volúpia confessional/opinativa nas redes sociais ao imperativo do empreendedorismo infanto-juvenil com pitadas surreais de voluntariado, etc., etc., etc.), trata-se cada vez mais de isolá-los do contato com um mundo potencialmente nefasto, agora no interior dos próprios intramuros escolares. Trata-se, enfim, de extirpar qualquer ameaça à integridade dos rituais extravagantes aí em curso. Em uma palavra: depuração acirrada dos usos e costumes daqueles considerados como a futura proa da minoria socioeconômica. Os fortes, enfim.
Claro está, desde sempre, que, a título de aquisição de um ensino de suposta melhor qualidade, o fetiche dos segmentos mais abastados em relação à educação privada (a totalidade dos que leem este jornal, por exemplo) jamais revela sua motivação base: a subtração vaidosa de sua prole do contato com o mundo feio, sujo e malvado que os circunda, o qual só pode ser avistado ao longe e em movimento, através das películas de blindagem de suas carruagens metálicas. Um mundo-lixeira.
Ilhados em suas escolas-bunker - quintal de seus condomínios-bunker, de seus shoppings-bunker, de suas academias-bunker -, a cada uma dessas crianças e jovens restaria um dever implícito e inconteste: ultrapassar seus coetâneos, tornados rivais aguerridos pelo melhor lugar ao sol do consumo. Daí um norte a presidir seus passos: a busca do sucesso, da dianteira, da "felicidade" de aparentar ser sempre mais e melhor do que os outros. Tornados autogestores em miniatura de um negócio demasiado incerto (qual seja, a própria vida), alguns deles, no entanto, sucumbirão a um efeito colateral incontornável: o fracasso, a rabeira, a desgraça de ser mais uma entre as tantas reles criaturas deste mundo. Eis o que o pequeno garoto, em sua coragem de desterro, não nos deixa esquecer.
É de um mundo em frangalhos, não obstante em calmo desespero, que seu pequeno grande salto se dá. É de um mundo miserável, em sua opulência fútil, que seu pequeno grande corpo emite seus sinais. Sinais de dor, tão somente e tanto.

Melhor o quê?


UGO GIORGETTI - É CINEASTA E COLUNISTA DO ESTADO - O Estado de S.Paulo
UGO GIORGETTI
Velhice. Perspectivas desagradáveis... - Umutrans
Umutrans
Velhice. Perspectivas desagradáveis...
Estatísticas são frequentemente um enigma. Quer dizer que seremos, em dez anos, 1 bilhão? Isto é, de velhos, categoria em que me enquadro muito a contragosto e premido pelos fatos. Então seremos não sei quantos no Japão, seremos outro número exorbitante na Indonésia e, finalmente, chegamos ao nosso querido Brasil, onde já somamos perigosos 23,5 milhões. A partir disso, só uma poderosa imaginação para prever o que virá.
Não é tanto a profusão dos números exatos das estatísticas o que me intriga, embora considere imprudente aceitarmos números definitivos num mundo que muda a cada segundo, mas o que significam esses números. Sim, estamos progredindo, nós os velhos, em direção a um fim menos pior, concordo. Mas de que velhos estamos falando?
Como todas as estáticas abrangentes, sobretudo aqui no Brasil, essa dos velhos suscita algumas perguntas que valem para muitas outras pesquisas. Quando se fala em velhice e seus progressos, imediatamente somos remetidos a imagens de velhos saltitando alegremente por calçadões à beira- mar, fazendo exercícios em verdes parques, passeando com seus cachorros, de bermuda e bonezinho. Serão esses os velhos brasileiros? Serão esses os velhos que estão atingindo no Brasil, de forma digna e vigorosa, os 70 anos? É apenas uma pergunta que faço a quem elabora as estatísticas.
Não acredito numa melhora de vida uniforme, pelo simples fato de que nada é uniforme, para não dizer minimamente igualitário, no Brasil. O que tem a ver os velhos furando filas em caixas de supermercados, felizes da vida, gozando de suas pequenas benesses, e a grande maioria de velhos que nem sequer consegue andar até o supermercado mais próximo? O que tem a ver os velhos que frequentam a Sala São Paulo com aqueles, a imensa maioria, que fica atirada numa poltrona o dia inteiro, à mercê de uma televisão que os desconecta ainda mais do pouco de realidade que lhes resta?
Do jeito que as coisas são, não seremos problema algum, pelo menos no Brasil. Aqui os velhos continuam morrendo cedo, se não de morte propriamente dita, pelo menos da morte do espírito, e não preciso de estatísticas para comprovar isso. Basta estar de olhos abertos. A saúde pública, por exemplo, continua indigna, e é uma das famosas "questões brasileiras" nunca resolvidas. Seremos, antes, uma desculpa para justificar déficits e buracos no orçamento da saúde dos quais sabemos muito bem as causas. Uma desculpa para continuarem supremamente incompetentes, injustos e de uma ineficácia escandalosa.
Então não melhoramos em nada no geral? Melhoramos, concordo que qualquer classe social se beneficiou, umas mais, outras bem menos, dos progressos principalmente em saúde pública e alimentação nas grandes cidades. Mas progredimos à brasileira, com as desigualdades brutais de costume que as estatísticas ocultam e também, digamos, por inércia do sistema. Seria verdadeiramente inconcebível que, ao atingir o patamar de "grande economia mundial", nossa esperança de vida se mantivesse nos 50 anos, como era não faz muito tempo.
Na minha opinião de leigo, apenas de observador atento do que acontece, somos, os velhos do Brasil, uma falsa ameaça. Quando as coisas apertarem haverá um político a pedir que se aumente a idade de aposentadoria, por exemplo. Haverá a costumeira, frágil, reação de velhos dos bairros nobres, um pouco de barulho, alguma polêmica nos jornais falados da TV, mas finalmente tudo vai se acertar. Da pior maneira, é claro.
Estou sendo muito pessimista? Talvez, mas nisso estou exercendo apenas uma prerrogativa dos velhos, não é mesmo? Por que eu seria diferente? Velhos tendem a achar que tudo está errado, em geral pior do que já foi. Pode ser que seja esse o caso. De qualquer maneira, de minha parte, nunca irei a bailes da terceira idade, vou me policiar para nunca furar uma fila dando cotoveladas, não visto bermuda na rua, não tenho cachorro e acho as perspectivas da velhice profundamente desagradáveis. Na língua portuguesa a única expressão que está acima de "terceira idade" no meu ódio é "melhor idade", que, inclusive, embute um insulto a quem tenha o cérebro com dimensão um pouco maior que a de um milho.
Mas não sou chato. Para minha velhice quero apenas seguir tendo um pouco de sorte. Sorte é a única coisa fundamental neste mundo para seguir vivendo, fazendo coisas sem pensar muito em velhice, etc. Principalmente no etc. E manter a elegância até quando der. Não a física, que é impossível, mas a mental. Neste momento me ocorre, não sei por quê, a figura do escritor argentino Adolfo Bioy Casares, que, metido sempre em impecáveis paletó e gravata, era um dos velhos mais elegantes, afáveis, inteligentes e irônicos que já vi. Talvez tenha pensado nele também por ter escrito um livro, cujo tema é a velhice, e que, graças a Deus, li quando jovem. Não é exatamente uma leitura agradável para velhos. Chama-se Diário da Guerra do Porco, e, suprema ironia, na época foi classificado como ficção científica.