domingo, 1 de março de 2026

Desemprego na mínima ofusca desperdício de mão de obra ainda em dois dígitos -FSP

 Leonardo Vieceli

Rio de Janeiro

A taxa de desemprego (ou desocupação) renovou a mínima da série histórica no Brasil, mas isso não significa que o mercado de trabalho tenha superado todos os seus desafios.

Conforme economistas, a desocupação no menor patamar já registrado pode ofuscar outros indicadores que sinalizam dificuldades mais amplas. É o caso da taxa de subutilização, que também atingiu a mínima histórica, embora siga em dois dígitos.

O conceito de subutilização vai além do desemprego e capta ainda situações como a dos profissionais que desistiram de procurar emprego ou que até trabalham, mas menos do que gostariam. Por isso, funciona como uma espécie de termômetro do desperdício de mão de obra.

No trimestre até dezembro, a taxa de subutilização recuou a 13,4%, enquanto a de desemprego baixou a 5,1%.

Os dados oficiais são da Pnad Contínua, pesquisa iniciada em 2012 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

No caso da subutilização, analistas recomendam a análise a partir do quarto trimestre de 2015 em razão de ajuste metodológico ocorrido à época.

A subutilização chegou a superar 30% durante a pandemia, em 2020. Mesmo estando na mínima histórica após a recuperação do mercado de trabalho, a proporção de 13,4% ainda pode ser considerada elevada, na visão do pesquisador João Mário de França, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).

O percentual mais recente equivale a 15,3 milhões de pessoas subutilizadas de 14 anos ou mais em uma força de trabalho ampliada de 113,8 milhões de pessoas.

"Se você olhar só para a desocupação, pode mascarar alguma outra informação", diz França.

A imagem mostra um homem carregando uma caixa. Ao fundo, há uma barraca de roupas com várias peças expostas, incluindo camisetas e vestidos. Uma mulher passa ao lado do homem. Ela está vestindo uma camiseta preta.
Homem carrega caixa na região da 25 de Março, área comercial de São Paulo - Rafaela Araújo - 16.jul.25/Folhapress

QUEM SÃO OS SUBUTILIZADOS

Os 15,3 milhões de subutilizados somam três grupos: desempregados (5,5 milhões), subocupados por insuficiência de horas (4,5 milhões) e força de trabalho potencial (5,3 milhões).

Os desempregados não estão trabalhando, seguem à procura de vagas (formais ou informais) e estão disponíveis para ocupar eventuais oportunidades. Para entrar nessa classificação, não basta só não ter emprego.

Já os subocupados até estão trabalhando, mas menos de 40 horas semanais, e gostariam de ter jornadas maiores. Um possível exemplo é o de quem faz bicos de forma esporádica.

Por fim, a força de trabalho potencial envolve pessoas que desistiram de procurar emprego, como os desalentados, e profissionais que até buscaram vagas, mas não estavam disponíveis para ocupá-las por diferentes razões, como doenças ou cuidado de familiares.

A subutilização consegue captar aspectos "mais estruturais" do mercado de trabalho no Brasil, como produtividade média mais baixa e informalidade mais elevada do que em outros países, segundo o economista Ely José de Mattos, professor da Escola de Negócios da PUCRS.

"Não diria que é uma taxa muito alta, ela vem caindo, mas ainda está em 13%, em dois dígitos, e chama um pouco a atenção. É algo mais estrutural do que conjuntural. Tem a ver com a maneira como o emprego está estruturado."

O IBGE afirma que a taxa de desemprego é amplamente utilizada pelos países, mede a procura por trabalho e permite maior comparabilidade internacional. Já a taxa de subutilização, segundo o instituto, pode ampliar o diagnóstico ao captar outras formas de "insuficiente inserção laboral".

"Embora a taxa de desocupação seja diferente da taxa de subutilização, isso não a torna ‘mais verdadeira’ ou ‘menos verdadeira’. O IBGE produz e divulga ambas, e podem ser analisadas de forma complementar", acrescenta.

DIFERENÇAS REGIONAIS

No quarto trimestre de 2025, a subutilização atingiu a mínima da série nas cinco grandes regiões do país. As desigualdades, contudo, permanecem.

O percentual de mão de obra desperdiçada foi de 22,6% no Nordeste, seguido pelo registrado no Norte (15,7%). A taxa nordestina é mais que o triplo da encontrada no Sul (7,2%). Centro-Oeste (8,6%) e Sudeste (11%) completam a relação.

Em 20 de fevereiro, quando o IBGE divulgou dados do quarto trimestre e da média de 2025, o pesquisador do instituto William Kratochwill disse em nota que a queda do desemprego "mascara problemas estruturais", citando informalidade e subutilização elevadas no Norte e no Nordeste.

A taxa de subutilização ficou acima de 20% em seis estados no quarto trimestre de 2025. Todos estão no Nordeste: Piauí (27,8%), Bahia (25,4%), Alagoas (25,1%), Sergipe (24,3%), Maranhão (22,8%) e Pernambuco (21,9%).

Oito estados, por outro lado, mostraram percentuais abaixo de 10%. Foram os seguintes: Santa Catarina (4,4%), Espírito Santo (5,9%), Mato Grosso (6,1%), Rondônia (6,9%), Mato Grosso do Sul (7%), Rio Grande do Sul (7,9%), Goiás (8%) e Paraná (8,6%).

O economista e pesquisador Alysson Portella, que estuda o mercado de trabalho e as suas desigualdades, diz que as diferenças regionais estão associadas a processos históricos.

Locais como o Nordeste, segundo ele, enfrentaram dificuldades mais acentuadas em áreas como educação ao longo do tempo.

"Tem também o perfil econômico. O Nordeste, historicamente, não passou por um processo de desenvolvimento tão forte quanto o Sul e o Sudeste na indústria e nos serviços. A própria agricultura tem mais dificuldades."

No recorte das capitais, a maior subutilização foi encontrada pelo IBGE no Recife, onde a taxa ficou em 19,9% no quarto trimestre do ano passado. Aracaju (18,4%) e Salvador (18,1%) vieram na sequência.

Já os menores níveis de desperdício de mão de obra foram verificados em Goiânia (5,5%), Campo Grande (5,9%) e Florianópolis (6%).

"A gente tem de pensar o país de formas diferentes, porque os problemas das regiões são completamente diferentes", diz o economista Edgard Leonardo Lima, professor do Centro Universitário Tiradentes, no Recife.

Ele afirma que profissionais que perderam o emprego em crises anteriores podem ter enfrentado dificuldades para se requalificar em meio a transformações da tecnologia no mundo do trabalho.

Com isso, a alternativa pode ter sido a migração para vagas com características de subutilização. É o que Lima chama de "desemprego disfarçado".

Diferentes setores da economia brasileira passaram a relatar escassez de profissionais disponíveis e aptos a preencher determinadas vagas após a recuperação do mercado de trabalho.

A situação ocorre em um momento no qual o país discute o eventual fim da escala 6x1 –seis dias de trabalho e um de descanso na semana. A ideia divide opiniões.

Defensores do fim desse modelo dizem que o trabalhador precisa de mais tempo livre para o seu bem-estar e que isso não traria risco a empregos. Setores contrários à mudança, incluindo líderes empresariais, falam em aumento de custo e risco de demissões.

Muniz Sodré O neoterrorismo dos notáveis fsp

  

Numa mensagem ao potentado árabe Sultan Ahmed bin Salayem, delicia-se Jeffrey Epstein: "Adorei o vídeo de tortura". Apesar da repetição cansativa dos horrores nos arquivos Epstein, a cada página a magnitude da aberração ainda faz refletir. A frase tenebrosa sugere algo além de sexo stricto-sensu no círculo de depravação que, desde uma princesa norueguesa até um príncipe britânico, se fechou em torno de figuras notáveis do poder global.

Jeffrey Epstein em fotografia para o registro de agressores sexuais do Departamento de Polícia da Flórida - HO/Departamento de Polícia da Flórida - 10.jul.19/AFP

Jean Baudrillard insistia na anedota do devasso que pergunta sedutoramente à parceira: "O que você vai fazer depois da bacanal?" A suposição normalizada é a da orgia como clímax dionisíaco de um encontro sexual, mas na pergunta está implícito um "além" não formulado.

É que há muito tempo vivemos no desencantamento do mundo, outro modo de falar do niilismo total, que recobre praticamente a todos. "As pessoas trabalham com mais eficácia, consomem mais, comem com mais abundância e fazem amor com mais liberdade... mas o trabalho perdeu o sentido, o sexo está perdendo o seu, e a alimentação torna-se uma questão de higiene" (Raymond Ledrut, "La révolution cachée").

Na destruição permanente de todos os valores e de negação, por princípio, de qualquer legitimidade, o sexo perde de fato a referência externa (até mesmo o imperativo biológico da reprodução) que o sacraliza como encontro jubiloso de corpos por pressão do desejo. Não mais é "moderno" associá-lo à subversão antivitoriana (Sigmund Freud) ou à liberdade revolucionária (Wilhelm Reich).

Reduzido a relações contingentes, ele é uma função biologicamente racionalizada e instrumentalizada pelo mercado. Jacques Lacan, o psicanalista que fez furor e faz moda, era taxativo: "Não existe a relação sexual".

Mas como é temerário conceitualizar ou generalizar sobre a pulsão alheia, resta a hipótese de que tudo se limite a uma variedade do niilismo intelectual, despercebido pelo senso comum ou pela passividade da experiência cotidiana. Certo mesmo é que esse durável espírito de destruição exprime plenamente a época atual em muitas formas ativas, a exemplo do terrorismo.

Não o terror dos loucos de Deus, que buscam o paraíso no martírio, no massacre de multidões ou na explosão dos símbolos fortes de um poder. Mas o niilismo terrorista dos valores, com alvo fixo nas vísceras da moralidade, o neofascismo dos ricos. De fato, acontece à nata de uma elite bilionária transpirar aspectos insuspeitados da dimensão terrorista do capital, onde neoliberalismo e neofascismo são duas faces de uma mesma moeda.

Uma rede depravada como a de Epstein é reveladora porque ataca fragmentos de sacralidade humana ainda persistentes na totalização niilista. Trata-se do corpo feminino, antes reverenciado da puberdade à maternidade, agora temido pelo niilismo. De um lado, a ameaça do tecnicismo biológico. De outro, pretexto erótico para o terrorismo da diferença sexual (tortura, pornografia, humilhação) pela degradação do sexo e pela corrupção de menores. Versão neoliberal da burca talibã. Nesse ecossistema bestial fazem cadeia bilionários, gurus, TrumpClinton, príncipe, princesa. O ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor, literalmente: a polícia já bateu na porta e levou.


Ruy Castro Mel Brooks, feroz e letal- FSP

 Mel Brooks, humorista, comediante, cineasta, dramaturgo, compositor e letrista, fez 99 anos. Está em grande forma e, com razão, a Broadway lhe despeja confetes. Exceto por Woody Allen, é o último remanescente da geração que, na Nova York dos anos 1950 e 1960, revolucionou o humor nos EUA –os outros, Carl Reiner, Neil Simon, Joan Rivers, Larry Gelbart, Lenny Bruce, Elaine May. Tudo que se faz hoje de stand-up surgiu deles. Mas Brooks sempre levou uma vantagem: é tão feroz e letal na vida real quanto na página escrita. Eis amostras de suas respostas em entrevistas.

"Adoro espaguete e sexo. Às vezes, ao mesmo tempo". * "Se Deus quisesse que voássemos, teria nos mandado as passagens". * "O que os presidentes não fazem com suas esposas fazem com o país". * "Se Bernard Shaw e Einstein não escaparam da morte, que chance você tem? Praticamente nenhuma". * Vim à luz na mesa da cozinha. Éramos tão pobres que minha mãe não tinha condições de me parir. Tive de nascer de uma senhora vizinha".

"Meus filmes estão um degrau abaixo da vulgaridade". * "Se as pessoas soltam pum na vida real, por que não nos filmes? A boca pode dizer o que quiser, mas o outro lado tem de ficar calado. Quem sabe ele não tem algo a dizer?". * Pessoas que soltam pum são uma minoria reprimida. Precisamos tirá-las do armário e trazê-las para a sala". * "O mau gosto se resume em dizer a verdade antes que ela possa ser dita".

"Não sou um gigante da comédia. Tenho só 1,65m". * "Ser baixinho só me incomodou por três segundos. O resto do tempo levei querendo me matar". * "Não sou um gênio de verdade. Sou um quase gênio". * "O humor é uma defesa contra o Universo". * "Graças a ‘Primavera para Hitler’, sou o único judeu que ganhou dinheiro com Hitler". * "A tragédia é quando eu corto o dedo. Comédia é quando você cai num bueiro e morre".

"Torça pelo melhor, mas espere pelo pior. A vida é uma peça de teatro mal ensaiada". * "É fundamental fracassar. Enxugue as lágrimas e você será melhor como pessoa e como artista".

Hélio Schwartsman - matéria do mal, FSP

 Acho que foi Woody Allen quem criou um personagem que se deprimia com o fato de que, dentro de bilhões de anos, o Universo vai acabar. Para Drew Dalton, a morte térmica do Universo não é motivo para piada, mas para séria reflexão ética.

Em "The Matter of Evil", Dalton sustenta que aquilo que a ciência nos informa sobre o mundo precisa estar no centro de nossa metafísica e que esta deve orientar nossos juízos éticos. O quadro resultante não é bonito. A mensagem da ciência é a de que o Universo não é um lugar aprazível. Uma das poucas certezas que temos é a entropia, que inevitavelmente levará à destruição de tudo, matéria e pensamento. O absoluto é mau.

"The Matter..." é um livro ambicioso. O autor começa renegando Kant. Para Dalton, quando o prussiano decretou a impossibilidade de conhecermos as coisas em si (só o fenômeno nos é acessível), ele baniu o absoluto da filosofia e a condenou ou à irrelevância, ou ao quietismo, ou a alguma das muitas formas de niilismo contemporâneas. Dalton sustenta que precisamos resgatar a possibilidade do absoluto e que uma visão de mundo cientificamente informada é o caminho para isso. Daí o pessimismo metafísico do autor.

Minha impressão é que Dalton se agarra a uma concepção excessivamente realista da filosofia das ciências. Não são poucos os epistemologistas que veem a ciência de modo mais instrumental, incapaz de afirmar certezas sobre o mundo. O autor passa meio batido por esses problemas.

O legal do livro é o passeio pela história da filosofia que ele nos proporciona. Dalton faz ótimas observações não só sobre Kant mas também sobre SpinozaSchopenhauer e Nietzsche, além de pincelar o pensamento de autores contemporâneos como Meillassoux e Badiou.

Ao fim e ao cabo, ele se aproxima de Schopenhauer. A realidade não presta, mas podemos, momentaneamente, nos aproximar do bem, que surge como ideia por contraposição ao mal, que é ubíquo. É um pouco como a vida: não tem sentido e vai acabar, mas podemos tentar aproveitá-la enquanto durar.

Desiludida, geração Z de esquerda tem revolta anticapitalista e críticas a Lula e Nikolas, fSP

  

São Paulo

Todos os dias, o pequeno comércio se instala ao redor da estação Vila Madalena, na zona oeste da capital paulista. Em meio à maré humana, um estabelecimento chama a atenção: a Casa Marx, espaço cultural com livraria, sebo, café e brechó, dedicado a difundir o pensamento de esquerda. Funciona ali também a sede do Faísca Revolucionária, coletivo de jovens anticapitalistas, atuante em 15 países.

Dois jovens posam com punhos cerrados diante de um mural colorido de Karl Marx. O mural exibe o rosto de Marx em tons vibrantes de amarelo, azul, rosa e vermelho, com a frase 'Trabalhadores do Mundo' escrita ao fundo.
Noah Brandsch, 21 (à esquerda), e Pedro Pequini Ferreira, 26, líderes da Faísca Revolucionária, do coletivo Faísca, que atua a partir da Casa Marx, em São Paulo - Rafaela Araújo/Folhapress

"O termo ‘anticapitalista’ tenta dar conta de diversos fenômenos relacionados ao sentimento de que o sistema atual não oferece mais esperança para nós", diz Pedro Ferreira, 26, líder do grupo, nos fundos da casa, de paredes cobertas por lambe-lambes, com gravuras de Vladimir Lênin e de Leon Trótski.

A existência do Faísca se relaciona com o surgimento de outros coletivos de jovens que lutam pela mesma causa, dentro e fora das universidades. Em comum, fazem oposição ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e aos integrantes do MBL (Movimento Brasil Livre), hoje apoiados por parte expressiva da juventude. Ao mesmo tempo, criticam o presidente Lula (PT) e não se sentem representados pelos políticos que despontam como candidatos. Na origem, o sentimento anticapitalista é um traço da chamada revolta da geração Z, jovens desiludidos que agora organizam protestos ao redor do mundo.

Ligado ao MRT (Movimento Revolucionário dos Trabalhadores), o Faísa, criado há uma década, tornou-se conhecido por promover oficinas de estudo sobre comunismo nas universidades. Seus integrantes se tratam por "camarada" e, em vez do ChatGPT, utilizam o ChatMarx, aplicativo de inteligência artificial de orientação marxista.

Noah Brandsch, 21, outro líder do Faísca, está à procura de uma alternativa a Lula. "Utopia é a gente acreditar que é possível mudar as coisas por dentro do sistema capitalista", afirma. "É uma tarefa da esquerda superar o que foi a conciliação de classes do PT, que só reforçou a extrema direita."

A insatisfação com o governo também está presente no Movimento Correnteza, organização estudantil criada há oito anos sob o lema "organize a sua revolta" e voltado à luta pela educação. Thaís Rachel, 32, liderança do Correnteza e vice-presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), prefere votar na candidata Samara Martins, do UP (Unidade Popular).

Segundo Rachel, os jovens estão subrepresentados na política. "Até existem novas lideranças, mas o sistema eleitoral é injusto e só favorece os partidos que estão aí há anos", diz.

Nos últimos anos, a revolta da geração Z, expressão que faz referência aos nascidos entre o fim dos anos 1990 e 2010, desencadeou protestos em países como Peru, Bangladesh, Indonésia e Quênia. Cada um deles tinha motivação própria, mas todos ambicionavam a mudança do status quo. Para tanto, apropriaram-se do mesmo símbolo: a bandeira do "One Piece", mangá em que os protagonistas lutam contra o sistema.

Nos Estados Unidos, o democrata Zohran Mamdani, 34, foi eleito prefeito de Nova York graças a uma articulação com a juventude, excitada com a plataforma socialista apresentada na campanha —78% dos eleitores com idade inferior a 30 anos votaram nele. A realidade é bem diferente no Brasil. Por aqui, a esquerda anticapitalista é minoritária entre os jovens.

Pesquisa Atlas Intel, publicada em dezembro, mostrou que 52% da geração Z se diz de direita ou de centro-direita. Deputados como Nikolas Ferreira (PL) e Kim Kataguiri, do MBL, têm especial ligação com esse eleitorado, que absorve e propaga noções de meritocracia, empreendedorismo e até um desprezo pela CLT, tema que ficou em alta em postagens no TikTok.

"As redes do Nikolas são usadas para referenciar a figura dele. Podem até chamar para atos, mas não para uma organização coletiva a longo prazo", afirma Theo Lobato, 30, líder do coletivo Juntos! —assim mesmo, com ponto de exclamação ao final. Ele se angustia com a crise climática, o avanço tecnológico e a precarização do trabalho. Tendo entrado no Juntos! há uma década, ainda sob o impacto das Jornadas de Junho de 2013, Lobato esteve, em novembro, na COP30, em Belém.

Para Julia Andrade Maia, 27, também militante do Juntos!, a direita tem eficiência na internet porque tem mais poder econômico, em um contexto de crise de representatividade na esquerda. Diante da ausência de opções, ela votaria no Lula, mas não "fará o L" — referência ao símbolo do petista, feito com as mãos pelos apoiadores.

A militante critica o arcabouço fiscal, que limita os gastos do governo, a morosidade da discussão sobre a escala 6x1 e a exploração da Foz do Amazonas. "Quando eu era mais nova, os meus pais me falavam que, se eu estudasse, teria um emprego, uma casa e um carro. Estou na segunda graduação e tudo isso está longe de acontecer."

Na noite da quarta-feira (25), o Juntos! organizou um debate, no campus da USP, com o título de "Os Povos do Mundo Contra Os Imperalismos: A Luta Antifascista e Antirracista para Salvar o Planeta". Na mesa, estavam o professor de filosofia da USP, Vladimir Safatle, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), revelada pelo Juntos!, a codeputada estadual Ana Laura (PSOL-SP) e o filósofo Douglas Barros.