quarta-feira, 1 de julho de 2026

Porque precisamos de heróis: Teodoro Sampaio- Mauricio Portugal Ribeiro, FSP

 Toda nação se constrói sobre mitos. Joseph Campbell ensinou que toda cultura precisa de seus heróis: figuras cuja jornada arquetípica organiza o imaginário coletivo e empresta sentido ao esforço comum. Os Estados Unidos cultuam seus pais fundadores e os engenheiros que rasgaram o Oeste; a França venera os construtores de catedrais e do Canal de Suez; o Japão homenageia os artífices dos trens-bala.

Nós, brasileiros, ainda parecemos envergonhados de quase tudo o que erguemos. Hoje, concessões se multiplicam, marcos regulatórios amadurecem, leilões mobilizam capital privado em volumes inéditos. Mas falta-nos uma narrativa épica do construir, falta-nos heróis cujas vidas lembrem que mover montanhas, abrir rios e ligar sertões são, antes de obra de engenharia, atos de civilização.

Retrato em preto e branco de homem idoso com cabelo curto e grisalho, barba e bigode brancos. Ele veste terno, camisa branca e gravata, olhando diretamente para a câmera com expressão neutra. Fundo desfocado e escuro.
Retrato do engenheiro Teodoro Sampaio - Divulgação

Sigo nesta série dedicada a resgatar essas figuras, aberta com Eliezer Batista, o primeiro herói aqui evocado. Hoje me detenho em um homem que deveria estar nos livros didáticos ao lado dos vultos consagrados da nossa história: Teodoro Fernandes Sampaio.

Teodoro nasceu escravizado, em 1855, no Engenho Canabrava, em Santo Amaro da Purificação. Filho de Domingas da Paixão do Carmo, mulher escravizada de origem jeje, e provavelmente do padre que lhe deu o sobrenome, foi alforriado no batismo. Aos nove anos, partiu para o Sudeste. Aos 22, formou-se engenheiro civil pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, tendo sido aluno de André Rebouças, cujas conquistas também o farão objeto desta série. Com seus primeiros salários, comprou as cartas de alforria dos irmãos Martinho, Ezequiel e Matias. A liberdade, para Teodoro, nunca foi conceito abstrato: era contrato a ser cumprido, parcela a parcela.

Em 1879, foi nomeado para a Comissão Hidráulica do Império, para estudar portos e a navegabilidade do interior. Era o único brasileiro entre engenheiros norte-americanos chefiados por William Milnor Roberts. Seu nome, contudo, foi omitido do edital: um funcionário de gabinete justificou que "poderia causar constrangimento aos outros estar ao lado de um homem de cor".

A reparação veio por intervenção do senador Viriato de Medeiros, que exigiu a republicação no diário oficial, com a inserção do nome de Teodoro. A humilhação não o deteve. Foi dele o primeiro estudo de melhorias do Porto de Santos. Foi dele o levantamento topográfico que abriu a Chapada Diamantina ao conhecimento da nação. Foi dele a expedição que percorreu o São Francisco da foz a Pirapora, viagem que Euclides da Cunha aproveitaria para escrever "Os Sertões" sem lhe dar o crédito devido.

A lista assombra por parecer sobre-humana: chefiou o prolongamento da Estrada de Ferro Salvador-São Francisco; comandou a Comissão de Desobstrução do São Francisco (com função corretiva de uma das primeiras rotas de navegação a vapor do Nordeste); integrou a Comissão Cruls, que demarcou no Planalto Central o sítio da futura capital; foi engenheiro-chefe da Companhia Cantareira, que deu água a São Paulo; dirigiu, de 1898 a 1903, o Saneamento do Estado de São Paulo, repensando cidades inteiras à luz das ideias higienistas de então.

Voltou à Bahia para executar o serviço de água e esgoto de Salvador. Cofundou a Escola Politécnica de São Paulo. Presidiu o 5º Congresso Brasileiro de Geografia. Em 1927, tornou-se o primeiro filho de mulher escravizada a chegar à Câmara dos Deputados.

E ainda escreveu. "O Tupi na Geografia Nacional", "O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina", "História da Fundação da Cidade do Salvador" (este o meu preferido) —clássicos do pensamento geográfico e histórico do país.

A imagem mostra um edifício de formato circular, com uma estrutura elevada sobre um jardim. O edifício possui uma cobertura plana e é cercado por árvores e vegetação. No primeiro plano, há grama verde e algumas plantas. Um poste de luz está visível próximo ao edifício, e há um recipiente verde no lado direito da imagem.
Prédio do Biênio da Escola Politécnica da USP, em São Paulo - Pedro Affonso/Folhapress

A vida de Teodoro Sampaio contraria todos os conformismos contemporâneos. Não esperou que o Estado lhe abrisse portas: arrombou-as com competência técnica. Não fez do preconceito desculpa para a paralisia: fez do trabalho a resposta mais eloquente. Não confundiu denúncia com obra. Em um Brasil que mal iniciava a abolição, mediu rios, traçou cidades, fundou escolas, formou discípulos.

Precisamos de heróis porque sem eles a infraestrutura vira planilha, e planilhas não movem nações. Os feitos de Teodoro lembram que portos, ferrovias, redes de água e cartografias são, no fundo, gestos de fé no futuro. Que possamos honrá-lo construindo o nosso.

Futebol, soccer e cabeças chutadas, Sergio Rodrigues, FSP

 Os nomes que damos às coisas do mundo importam, e muito, porque também são coisas do mundo. Mesmo que vá longe na Copa, como promete seu bom desempenho na primeira fase (escrevo antes de EUA x Bósnia), a seleção anfitriã continuará apartada da turma futebolística por uma palavra.

Como se sabe, lá o futebol se chama "soccer", como ocorre também no Canadá e na Austrália. Nos demais 48 países que foram à Copa, ou na imensa maioria deles, vigora uma tradução ou adaptação do inglês "football", palavra que junta "pé" e "bola".

A maior exceção no mundo tradicional da pelota esférica é a tetracampeã Itália, que também destoa do coro ao chamar o esporte de "calcio" – termo parente de coice e que significa chute. Mas os italianos não conseguiram vaga na Copa.

Jogador belga posiciona a bola em jogo da Copa do Mundo 2026 em Seattle, nos Estados Unidos - Albert Gea/REUTERS

A vitória do anglicismo "football" se construiu na virada do século 19 para o 20, quando as regras do "Football Association" inglês foram exportadas para o mundo.

"Football" é uma palavra mais antiga, como é antigo o hábito de chutar volumes arredondados mais leves que pedras. Supõe-se ser imemorial a prática, com a imaginação autorizada a conjurar craques pré-históricos dando lúdicos pontapés em cabeças de inimigos nas festas da vitória.

O termo inglês data do século 14. Shakespeare o usou a no "Rei Lear" para colorir um insulto, especialidade da casa. "Jogador de futebol desprezível!", ouve um servo no primeiro ato, após desrespeitar o rei enfraquecido.

Aquele futebol era uma brincadeira de rua desregrada, frequentemente violenta, que a elite desprezava e temia. Uma lei escocesa de 1424 chegou a torná-lo ilegal. Foi preciso esperar até o século 19 para que jovens filhos da elite gentrificassem o jogo.

O futebol como o conhecemos nasceu em universidades inglesas, com suas primeiras regras fixadas em 1848 em Cambridge. Quinze anos depois, o racha: a turma que gostava de usar as mãos e jogar com bolas ovais foi para um lado, o pessoal que preferia pés e bolas esféricas foi para o outro.

Um esporte passou a levar o nome da cidade de Rugby, vizinha de Birmingham, famosa pela qualidade do seu jogo. O outro ficou conhecido entre os estudantes como "soccer", forma abreviada e irreverente de "association" – sim, a palavra "soccer" também nasceu na Inglaterra. Mas caberia aos EUA abraçá-la.

Uma lenda antiga deriva "soccer" de "sock", meia, devido aos meiões pesados com que os jogadores protegem suas canelas. Embora nenhum etimologista sério dê crédito a isso, sabe-se que a internet pode ressuscitar a cascata a qualquer momento, bem ao seu estilo, então convém ficar de olho.

No inglês britânico, o vocábulo "football" sem qualificativos quer dizer futebol, ponto. Nos EUA, onde –pelo menos até recentemente– o esporte praticado por Pelé não teve solo fértil, "football" é futebol americano, um derivado do rugby praticado com armaduras almofadadas e mais interrupções.

Os caras sempre gostaram de interromper o jogo, pois é. A "pausa para hidratação" da Copa 2026 é um eco tardio do seu vício nas paradas para o cachorro-quente e os comerciais.

Aposentadoria de R$ 46 mil deixa de ser punição, Rômulo Saraiva, FSP

 Em meio a uma crise ética, o STF (Supremo Tribunal Federal) deu uma decisão que ameniza um pouco o rol de absurdos que emana do Poder Judiciário. Ministros da Primeira Turma entenderam que uma aposentadoria de até R$ 46 mil não deveria ser sinônimo de punição a magistrados e membros do Ministério Público que incorrerem em infrações graves.

Deveria parecer meio óbvio e ter sido extinta há tempo, mas a regra vigora desde 1979. A Loman (Lei Orgânica da Magistratura Nacional) admite há décadas uma paleta de punições disciplinares a magistrados, a exemplo de advertência, censura, remoção compulsória, disponibilidade com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço e aposentadoria compulsória com vencimentos proporcionais ao tempo de serviço, a punição mais grave.

Homem de meia-idade com óculos e cabelo grisalho, vestindo terno escuro, apoia o queixo nas mãos entrelaçadas em ambiente interno. Ao fundo, homem desfocado bebe de uma xícara.
O ministro Flávio Dino durante sessão plenária do STF (Supremo Tribunal Federal) em Brasília - Pedro Ladeira - 8.abr.26/Folhapress

Formalmente, a aposentadoria punitiva não foi extinta. Mas a partir de agora está suscetível de ser aplicada essa nova interpretação dada pelo STF em caráter nacional. Finalmente, a corte superior decidiu que a aposentadoria compulsória não pode mais ser utilizada como pena administrativa para juízes e membros do Ministério Público.

A penalidade de aposentadoria não encontra amparo na Constituição após as mudanças promovidas pela reforma da Previdência de 2019, evitando que magistrados fiquem imunes a um sistema efetivo de responsabilidade disciplinar. A aposentadoria compulsória deixa de ser encarada como punitiva. Punição agora será ficar sem ela.

O julgamento ocorreu de forma surpreendente, tendo em vista que foi prolatado num momento em que acumulam escândalos de negociatas e vendas de decisões judiciais em todo o país, inclusive no próprio Supremo, que enfrenta uma crise ética.

É um julgamento que representa pequena mudança no universo jurídico e pode ser um fio de esperança na redução da impunidade.

Não deixa de ser curioso que justamente o Ministério Público Federal, fiscal da lei, foi quem recorreu ao Supremo insistindo em que juízes e membros do Ministério Público, mesmo cometendo atos graves como estuprar, matar ou roubar, pudessem receber suas aposentadorias tranquilamente.

Isso mostra a inversão de valores que estamos vivenciando em nossa sociedade. O fiscal da lei esquece a ética e a moral em suas incursões processuais e funcionais.

Não era sem tempo a proibição de magistrados receberem aposentadorias como punição, enquanto a maior parte dos segurados do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) nos seus melhores sonhos almejam receber R$ 8.475, o teto da Previdência Social ou cerca de 20% do teto do funcionalismo público.