quarta-feira, 1 de julho de 2026

Romário na Copa errada: ilegal e cara de pau, Conrado Hübner Mendes, FSP

 

Na competição de ausências no Senado em 2026, Romário foi o único acima de 50% de faltas. Supera, entre outros, Flávio Bolsonaro, Dorinha e Cleitinho, senadores que chegam aos 43%. Mesmo na votação remota, há compromissos superiores na agenda de alguns parlamentares. Para não perder o mandato, só precisam de atenção, pois o limite constitucional é de um terço de faltas não justificadas.

Comentar futebol na Copa para uma TV privada, sem pedir licença do mandato, serve de justificativa para Romário. Ainda mais se renunciar ao salário público, o que fez após pressão. Avisou o Senado e viajou pelo próprio bolso.

Dois homens seguram microfones com logotipos de canal de TV, um veste terno azul e o outro camiseta amarela com crachá. Ao fundo, arquibancada cheia de torcedores em estádio de futebol.
O senador Romário participa de transmissão da CazéTV durante jogo do Brasil nos Estados Unidos - Reprodução CazéTV no Instagram

Como a Mesa Diretora instituiu regime semipresencial durante a Copa, e como a Constituição permite a parlamentar exercer algumas atividades privadas sem conflito de interesse, há problema na conduta do senador? Ou será na liberalidade das regras de representação política?

Apesar de a Câmara dos Deputados ter proibido votação remota para deputados no exterior, o Senado não aderiu a tamanho rigor. O Parlamento brasileiro também é dos mais permissivos no mundo democrático quanto a vínculos privados de seus membros. Segundo interpretação constitucional vigente na nossa praxe parlamentar, é válida toda atuação privada não expressamente proibida.

No Parlamento britânico, por exemplo, um segundo emprego não gera só conflito de interesse financeiro, mas "conflito de atenção". No Congresso americano, é proibido usar prestígio do cargo para promover qualquer atividade. A Espanha adota o princípio de dedicação exclusiva com poucas exceções. No Canadá e na Noruega, o cargo parlamentar se sujeita a regime de confiança pública como bem supremo. Não foi a opção constitucional brasileira.

Mas e Romário? É conceitualmente impossível eliminar conflito de interesses nessa situação. Primeiro porque, segundo a ideia de universalidade de indivisibilidade do mandato, parlamentar representa o interesse público difuso, não um setor específico.

Diferente de um profissional privado, senador não tem "folha de tarefas". Para exercer outra atividade, não basta "compatibilidade de horários". Vota Orçamento, define tributo, fiscaliza agências. Romário pode ter de votar, a qualquer momento, projeto que impacta orçamento de seu empregador. Na ética pública moderna, conflito de interesses dispensa batom na cueca, mas qualquer razão objetiva para desconfiar do batom eventual. Mandato constitucional não é hora extra ou um segundo emprego.

O emprego privado e a performance televisiva de Romário não são apenas exemplares de quebra de decoro parlamentar, de violação da moralidade administrativa e de função incompatível com o mandato. Mercantilizar sua imagem pública não de ex-jogador, mas de senador, não configura apenas fato ilegal e imoral. Repare também na cara de pau.

Romário foi relator da CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas. O relatório da CPI recomendou indiciamento de empresários e agentes do futebol, recomendou a proibição de apostas em lances específicos, iluminou operação de crime organizado. Quis reestruturar a integridade do esporte.

Romário foi para a Copa fazer publicidade da Superbet.

Rincon Sapiência lança disco sobre identidade e música negra, Billboard

 Rincon Sapiência lança nesta terça-feira (30) seu terceiro álbum de estúdio, um trabalho que coloca a vivência do corpo preto no centro da narrativa e aprofunda a pesquisa musical do artista. Com 17 faixas, o disco transita entre rap, música eletrônica, samba, dancehall, afrobeats, funk e reggae, reafirmando a proposta do rapper de expandir os limites do gênero sem abrir mão de suas raízes.

O principal lançamento audiovisual do projeto é o filme da faixa “Homem Gol”, com participações de Péricles e Marissol Mwaba. Dirigido por Juliana Jesus e produzido pela Monomito Filmes, o vídeo foi gravado na Zona Leste de São Paulo com a participação de moradores da região, incluindo elenco, equipes técnicas e times de futebol de várzea.

Segundo Rincon, o projeto nasceu a partir de uma revisão de sua própria trajetória artística. Ao revisitar composições recentes, o músico percebeu que o elemento central de suas histórias não eram os temas abordados, como festas, dinheiro ou relacionamentos, mas a perspectiva de um homem preto retinto que vive essas experiências.

“Ao enfatizar que são as histórias e vivências de um corpo preto, tudo ganha sabores, cores e discussões diferentes”, afirma o artista.

A proposta também se reflete na sonoridade. O álbum recupera influências presentes desde o início da carreira de Rincon e as combina com elementos contemporâneos da música eletrônica, além de referências ao samba, reggae, dancehall, afrobeats, funk e rap. O trabalho ainda propõe uma reflexão sobre a origem negra de muitos desses gêneros e sobre a presença de artistas negros nesses espaços.

Participações especiais

Além de Péricles e Marissol Mwaba, o disco também reúne participações de Dino Santiago, Lino Kriz, Funk Buia, Mylena Drague, Torya, F7rança e Bren9ve, conectando diferentes gerações e estilos musicais em torno de uma mesma proposta artística.

Rincon explica que o novo trabalho amplia a pesquisa iniciada em “Galanga Livre”, de 2017, e aprofundada em “Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps”, de 2019.

“Trago sempre a influência do continente africano, a música mais antiga de lá, além de coisas de brasilidade. A partir do segundo disco, fui adicionando mais a tecnologia, com sintetizadores e autotune e, agora, quero mesclar as duas coisas”, diz. “É um álbum em que se evidencia a pesquisa sobre a obra de artistas que vieram antes da gente e abriram nossos caminhos, sobre o que está aqui e sobre o que ainda virá.”

Lançado de forma independente pelo selo MGoma, criado e dirigido pelo próprio artista, o álbum traz a proposta de Rincon Sapiência de unir criatividade, pesquisa musical e discussões sociais em uma obra concebida para ser apreciada do início ao fim.

“Com o disco, quero me posicionar como um grande artista, compositor e produtor musical, entendido como quem acessa muita pesquisa musical, criatividade e genialidade. Não vamos mais estar em pontos estigmatizados por ser uma pessoa de periferia, de trazer questões raciais e sociais. Estou num lugar ainda maior do que esse”, conclui.

R$ 2 bi em patrocínio, 8 bi de visualizações: Casimiro construiu isso indo ao trabalho ao meio-dia, Camila Farani, OESP

 Um dia de trabalho de Casimiro Miguel começa por volta do meio-dia. Antes de sair de casa, aula de inglês. De estômago vazio, ele atravessa o Rio de carro até Botafogo. E dá-lhe trânsito. Lá, almoça um joelho, aquele salgado de queijo com presunto que nós, cariocas, conhecemos bem, e umas bombas de chocolate. De moletom. Sem cerimônia. Senta em reuniões com o mesmo tom de papo de bar que usa nas lives.

Fernanda Torres, numa conversa com ele no ano passado, perguntou com genuína curiosidade como alguém consegue transformar atividades feitas no próprio quarto numa potência de mídia. É a pergunta certa. E a resposta não está no manual que o mercado de comunicação escreveu nos últimos 50 anos.

Casimiro não leu o manual do mercado, e foi exatamente por isso que o escreveu de novo
Casimiro não leu o manual do mercado, e foi exatamente por isso que o escreveu de novo Foto: Reprodução/Instagram @casimiro

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Os números que esse homem descontraído ajudou a construir não cabem em quarto nenhum. O canal soma 31 milhões de inscritos e 8 bilhões de visualizações no YouTube.

Só em 2025 foram 3,7 bilhões de visualizações. A LiveMode, empresa controladora da operação, recebeu aporte estimado de R$ 450 milhões da General Atlantic e do braço de private equity da XP.

Vendeu 11 cotas de patrocínio da Copa do Mundo por R$ 185 milhões cada, totalizando cerca de R$ 2 bilhões em receita comercial do torneio. O Itaú BBA projeta que o mercado brasileiro de direitos de mídia esportiva pode chegar a R$ 12 bilhões. O canal está no centro dessa equação. E tudo começou com um rapaz reagindo a vídeos de arrumação de lancheiras. É isso mesmo que ouviu.

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A história que o mercado ainda não contou direito não é a de Casimiro. É a da LiveMode. Edgar Diniz e Sérgio Lopes, dois executivos com passagem pelo Esporte Interativo, fundaram a empresa em 2017 num coworking com dois sócios e três estagiários.

Apostaram em distribuição digital de esporte quando o mercado ainda estava inteiro na TV. Em 2022, identificaram uma brecha na Copa do Catar: os direitos digitais ainda não tinham dono. Fecharam com a Fifa antes que qualquer emissora percebesse o tamanho da oportunidade.

Chamaram Casimiro para ser o rosto. A estreia foi Brasil e Sérvia. Deu 3,5 milhões de espectadores simultâneos no YouTube. Em quatro anos, saíram de um coworking para comandar todos os 104 jogos da Copa mais assistida da história.

Tenho visto muitos fundadores construírem produto certo para o momento errado e produto errado para o momento certo. A LiveMode fez a combinação mais difícil: produto certo, momento certo e pessoa certa na frente. Casimiro não foi escolhido, apesar de ser como é. Foi escolhido por causa disso. Quem assiste às transmissões não está consumindo apresentação polida.

Está consumindo um cara que parece estar num churrasco, que faz piada no meio da análise tática e que chegou na Copa mais assistida da história sendo exatamente o mesmo que era quando reagia a vídeo de lancheira.

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Essa autenticidade não é estratégia de marketing. É personalidade. E personalidade autêntica, quando encontra o produto certo no momento certo, escala de uma forma que nenhuma consultoria de branding consegue replicar artificialmente.

Nas quartas de final da Copa do Catar, o Brasil perdeu para a Croácia nos pênaltis. Naquele momento de derrota coletiva, o canal tinha quase 7 milhões de pessoas assistindo juntas. Tristeza compartilhada em escala que a televisão nunca havia conseguido mensurar com essa precisão.

Foi nessa derrota que o produto se provou definitivamente. Não era sobre o gol. Era sobre o que as pessoas sentiam assistindo. E, quando você cria um espaço onde milhões de pessoas sentem juntas, você não construiu um canal.

Construiu uma comunidade.

Comunidade não troca de plataforma por causa de delay de três segundos. Fica porque pertence. A operação hoje vai muito além de um cara no estúdio. A empresa lançou canal em Portugal com Cristiano Ronaldo como acionista.

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Está explorando expansão para TV aberta. Fechou direitos da Libertadores e negociou ciclos com clubes brasileiros que vão até 2075.

O mercado de streaming esportivo global deve chegar a US$ 14,2 bilhões em 2026. A empresa construiu uma posição nesse mercado que nenhuma emissora tradicional conseguiu em décadas, em quatro anos, a partir de um canal do YouTube criado às pressas para transmitir uma Copa.

A Vivo, que patrocina o torneio e entende que futebol em 2026 não é só o jogo, mas o clip, o meme e a reação em tempo real, chegou nessa Copa sabendo que a batalha pela atenção do torcedor jovem já havia sido decidida antes do apito inicial.

Casimiro disse numa entrevista a uma mídia que acha fascinante a ideia de que alguém numa garagem pode estar criando agora o próximo negócio capaz de disruptar o que ele construiu. E completou: não posso dizer que não tem como. Eu vim dessa garagem.

Essa frase diz mais sobre o modelo de negócio que ele representa do que qualquer análise financeira. R$ 2 bilhões em patrocínio. 31 milhões de inscritos. General Atlantic e XP como investidores. Cristiano Ronaldo como sócio. Tudo construído por um homem que chega ao trabalho depois do meio-dia, come joelho no almoço e prefere o quarto ao estúdio quando pode escolher.

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O mercado sempre imaginou que mídia de escala exigia gravata, sede imponente e executivo com MBA.

Casimiro não leu esse manual. E foi exatamente por isso que o escreveu de novo.

Foto do autor
Opinião por Camila Farani