segunda-feira, 4 de maio de 2026

O que pesquisador descobriu pedalando como entregador de apps por 6 meses: 'É terra de ninguém, risco de vida o tempo todo', FSP

 Rute Pina

São Paulo | BBC News Brasil

A notificação do celular anuncia mais uma corrida. Na tela, o mapa mostra a distância a ser percorrida em 12 minutos para que Douglas Alexandre Santos pedale até um McDonald's na cidade de São Paulo.

Para fugir do trânsito, ele decide subir na calçada com a bicicleta alugada. A corrente estoura, e ele quase sofre uma queda. Mas, enquanto tenta solucionar o problema, ele perde a entrega. O pedido é repassado a outro entregador.

Santos, na verdade, é um sociólogo que trabalhou como cicloentregador no iFood por seis meses entre 2023 e 2024, como parte da sua pesquisa de mestrado na USP (Universidade de São Paulo). O trabalho foi premiado como melhor dissertação de 2025 do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da instituição.

Entregador com mochila vermelha da iFood pedala em faixa de pedestres larga em cruzamento de avenida movimentada. Prédios comerciais altos e pedestres ao fundo.
O iFood afirmou que não incentiva comportamentos de risco e que adota medidas para aumentar a segurança dos entregadores - Victor Moriyama/Bloomberg via Getty Images

A experiência etnográfica revelou, segundo o pesquisador, um sistema de trabalho em que o algoritmo não perdoa a prudência. Pelo contrário, ele diz que os prazos curtos do aplicativo forçam os entregadores a cometerem infrações e arriscarem a própria vida no trânsito, se quiserem garantir a entrega.

"É um trabalho muito perigoso. E as plataformas não têm nenhum tipo de concernimento sobre a segurança do trabalho, sobre a integridade das pessoas e dos jovens negros que exercem essas ocupações", afirma.

"Eles não usam capacetes, não usam EPI [Equipamento de Proteção Individual]. Eles não têm nenhum tipo de conscientização que parte das plataformas para preservar a própria vida e a própria integridade física."

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Procurado pela reportagem, o iFood afirmou que não incentiva comportamentos de risco e que adota medidas para aumentar a segurança dos entregadores, incluindo ciclistas.

Segundo a empresa, os tempos de deslocamento definidos pelo aplicativo levam em conta dados de navegação e incluem uma margem adicional (leia mais sobre o posicionamento da empresa abaixo).

Homem jovem de pele clara e cabelo curto encaracolado, com barba rala no queixo e bigode, veste camiseta branca, posicionado contra fundo branco neutro.
Douglas Alexandre Santos trabalhou como entregador ciclista no iFood por seis meses entre 2023 e 2024 - Divulgação

Como pesquisador, Santos estabeleceu um limite para a sua segurança: ele não atravessaria sinais vermelhos e não se arriscaria no trânsito perigoso. Ele preferia ir pelas calçadas quando o fluxo de carros era grande e só cruzava a rua quando o sinal estava verde para pedestres.

A postura cautelosa teve um preço: respeitar as leis de trânsito significou mais perdas de entregas. "O tempo estipulado pela plataforma para as entregas simplesmente ignora engarrafamentos, semáforos fechados ou acidentes."

"Esse é o tempo que você tem e você faz o que for necessário para cumprir. Pedalar entre os carros, subir nas calçadas, atravessar cruzamentos, atravessar sinais vermelhos, colocar a própria vida em risco o tempo todo", diz.

No caso da entrega perdida do McDonald's, ele relata que acessou o aplicativo para informar o imprevisto, esperando ganhar alguns minutos para trocar a bicicleta alugada em uma estação próxima.

Segundo Santos, a resposta da inteligência artificial foi automática: além da perda da entrega, a plataforma aplicou um bloqueio temporário de 15 minutos, sem possibilidade de receber novos pedidos.

"Fica evidente que o trabalhador arca com todos os custos e riscos da infraestrutura, enquanto a plataforma pune qualquer desvio de produtividade. Seja usando uma bicicleta própria ou alugada, o desgaste físico e material é totalmente transferido para o ciclista."

Com seis meses de pesquisa de campo, o pesquisador avaliou que já havia coletado informações suficientes. Mas também decidiu parar para não se arriscar mais. "A sensação de ter a vida em risco no trânsito de São Paulo era constante."

App como libertação

O trabalho por aplicativos segue em expansão no Brasil. Em 2024, eram 1,7 milhão de pessoas nessa modalidade, segundo o IBGE, o equivalente a 1,9% dos ocupados no setor privado. Em dois anos, houve um crescimento de 25,4%, com a entrada de mais 335 mil trabalhadores.

A maioria atua no transporte de passageiros: são 58,3% (964 mil). Já os entregadores representam 29,3%. Ou seja, são 485 mil.

Mas o grupo não é homogêneo. Os trabalhadores que atuam em entregas se dividem principalmente pela idade e pelo veículo utilizado pelos profissionais, pontua o pesquisador.

De um lado, estão os motoboys. Douglas explica que esse grupo é formado por homens adultos, geralmente acima dos 30 anos, que são pais de família e principais provedores de seus lares.

"Entre eles, existe muito a figura do pai de família, o homem que tem o seu próprio núcleo familiar e que precisa participar da manutenção de um lar", diz.

Do outro lado, estão os entregadores que trabalham com a bicicleta, o foco da sua tese. São jovens, majoritariamente negros e moradores de periferias. A maioria tem entre 18 e 24 anos e nunca trabalhou com carteira assinada.

"Esses jovens entregadores que baixam o aplicativo com 18 anos já têm uma trajetória ocupacional muito longa", diz o pesquisador.

"Eles começam a trabalhar muito cedo, na informalidade, na ilegalidade, em todo tipo de ocupação que você imaginar. Então, o referencial que eles têm, por exemplo, para avaliar a ocupação com os aplicativos é muito difícil", continua.

Um dos entregadores acompanhados relatou que começou a trabalhar aos 13 anos, carregando sacolas pesadas em uma ladeira íngreme em troca de gorjetas. Para esses jovens, o aplicativo aparece como uma libertação, já que elimina a figura do patrão tradicional e oferece uma sensação de autonomia, diz o pesquisador.

Esses jovens demonstram, no geral, forte antipatia por movimentos políticos e sindicais –diferentemente de parte dos motoboys, que têm se organizado em torno da regularização do trabalho nas plataformas, em discussão no Congresso Nacional.

Virilidade como sobrevivência

Segundo o pesquisador, como o aplicativo pressiona por velocidade e pune os atrasos da corrida, os jovens abraçam o perigo como estilo de vida.

"Percebi que tinha um componente que estava fugindo um pouco aos olhos dos sociólogos, que estão sempre atentos às dinâmicas de mobilização, de formalização da relação empregatícia, por exemplo, que é uma dinâmica que tem a ver com a constituição da identidade de gênero desses jovens periféricos e, ao mesmo tempo, da identidade profissional deles", afirma.

"Observei dois fenômenos acontecendo ao mesmo tempo: a consolidação da identidade profissional e a consolidação da identidade de gênero. Essas coisas se construindo mutuamente."

Lucas, de 19 anos, contou ao pesquisador que, apesar do medo constante da mãe, seus pais sentiam muito orgulho dele porque, ao garantir seu dinheiro de forma independente no trânsito, ele estava "virando homem".

Passar cruzamentos no sinal vermelho, ignorar a ciclofaixa e costurar entre ônibus não são atitudes vistas por eles apenas como necessidades financeiras, mas como verdadeiras provas de masculinidade.

Nos relatos de campo, os acidentes são contados com risadas. Rafael, um entregador de 20 anos, era famoso entre os colegas por sua ousadia e velocidade extremas.

Ele já havia quebrado a perna, operado o pescoço e perdido o movimento de um dedo do pé em acidentes. Mesmo assim, vangloriava-se de parar o trânsito com a própria bicicleta. Com firmeza, Rafael afirmou diretamente ao pesquisador: "Pra gente não tem regra. Quem faz a regra é nóis!".

Os jovens transformam o medo em coragem e adrenalina. Ao assumir uma postura destemida, o entregador ganha status no grupo, eleva sua autoestima e passa a se sentir invencível.

Mas existe um custo físico dessa coragem. Santos acompanhou Wesley, um jovem que relatou ter pedalado tanto em um único dia que, ao chegar em casa e tirar os sapatos, viu que suas meias estavam manchadas de sangue. Fred, outro entregador veterano, resumiu a brutalidade da rotina dizendo que suas pernas já não sentiam mais dor. "Calejado é pouco."

Três bicicletas estacionadas em área urbana com mochilas térmicas vermelhas e verdes para entregas. Um entregador está agachado à esquerda, usando boné branco e camiseta preta. Capacete branco está sobre uma mochila vermelha no centro da imagem.
Empresas do setor afirmam que não incentivam comportamentos de risco e que adotam medidas para aumentar a segurança dos entregadores - Victor Moriyama/Bloomberg via Getty Images

Motoristas e entregadores de plataformas digitais estão hoje em uma "zona cinzenta", em que não são empregados formais pela CLT, mas profissionais autônomos que dependem de regulamentação específica.

A regulamentação do trabalho intermediado por plataformas vem sendo debatida no Congresso Nacional e ganhou tração no governo Lula –mas tem sido difícil encontrar consenso entre empresas do setor, representantes dos trabalhadores e governo.

Além da remuneração, um dos principais debates é em relação ao tipo de vínculo e a inclusão previdenciária dos trabalhadores do setor.

Santos adverte que os projetos de lei para regulamentar os aplicativos no Brasil se centralizam, basicamente, na categoria dos motoboys.

"O trabalho dos motoboys já é regulado pelas leis de trânsito. Já para o ciclista, é como se fosse uma terra de ninguém. Ele pode estar descalço, ele pode trabalhar sem nada e pode trabalhar com uma bolsa térmica velha, sem capacete, com celular antigo, seja lá qual for. E ninguém está olhando isso."

Santos defende que, muito além de negociar centavos na taxa de entrega por quilômetro, as empresas de delivery precisam fornecer equipamentos de segurança individual e água, além de criar, urgentemente, campanhas de proteção à vida para seus entregadores.

"O mais dramático nessa situação é que são vidas, integridade física, jovens se acidentando, ossos quebrados. É muito comum."

O que dizem as plataformas

Procuradas pela reportagem, empresas e representantes do setor afirmam que não incentivam comportamentos de risco e que adotam medidas para aumentar a segurança dos entregadores.

A Amobitec (Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia), que reúne plataformas como iFood, Uber e 99, disse que os tempos e trajetos das entregas são definidos por algoritmos que consideram dados como histórico de tráfego, velocidade das vias, volume de pedidos e condições em tempo real.

Segundo a entidade, os prazos são dinâmicos e podem ser ampliados automaticamente em situações como chuva ou horários de pico, com o objetivo de reduzir a pressão sobre os trabalhadores.

Em casos de imprevistos, como problemas mecânicos ou vias bloqueadas, a associação afirma que os entregadores podem acionar canais de suporte nos aplicativos para reportar atrasos sem sofrer penalidades automáticas. Nesses casos, o sistema pode redistribuir o pedido ou atualizar o cliente.

As empresas também dizem investir em campanhas de segurança, cursos de direção defensiva e ferramentas tecnológicas que monitoram o comportamento dos condutores, com alertas de excesso de velocidade.

O iFood, principal empresa do setor no país, afirma que não incentiva corridas contra o tempo e que os prazos de entrega incluem uma margem adicional em relação ao tempo estimado de deslocamento.

"Não tem nenhum incentivo para que ele corra", disse Johnny Borges, diretor de Impacto Social da empresa.

Segundo ele, entregas feitas por bicicleta são limitadas a trajetos mais curtos, de até quatro quilômetros, e concentradas em áreas com maior infraestrutura urbana. A empresa afirma ainda que evita direcionar ciclistas para regiões com relevo mais acentuado.

Borges disse que a plataforma pode reatribuir pedidos antes da retirada no restaurante, caso identifique desvios de rota ou imprevistos, mas afirma que não há bloqueio por atraso na entrega ao cliente.

Sobre segurança, o iFood afirma que oferece treinamentos, distribui equipamentos e mantém um seguro contra acidentes para todos os entregadores. Segundo o executivo, o uso de itens como capacete é incentivado, mas não obrigatório. "Eles não gostam de usar capacete", disse.

O representante reconhece que o uso simultâneo de múltiplos aplicativos, uma prática comum entre entregadores, pode aumentar a pressão por tempo e influenciar comportamentos de risco.

Já a Keeta, empresa chinesa que entrou recentemente no mercado brasileiro, afirmou que a segurança dos entregadores é prioridade e que investe em tecnologia para reduzir riscos na operação.

Segundo a empresa, sistemas próprios de inteligência artificial permitem otimizar rotas, reduzir o tempo de espera e aumentar a produtividade sem exigir que os trabalhadores ultrapassem limites de velocidade.

A Keeta afirma ainda que mantém uma central de suporte para entregadores, desenvolve iniciativas de orientação e atua em parceria com autoridades públicas e especialistas em mobilidade para aprimorar políticas de segurança.

A Rappi e a 99Food também foram procuradas, mas não responderam até a publicação deste texto.

Este texto foi publicado originalmente aqui.

Wesley Cardia - É mais fácil culpar as bets, FSP

 

Wesley Cardia

Advogado, é ex-presidente da ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias)

As apostas esportivas foram legalizadas no Brasil em 2018 e passaram a operar dentro de rígidas normas editadas pelo governo a partir de janeiro de 2025 —há menos de um ano e meio, portanto. Apenas no ano passado, as operações de jogos online já contribuíram com mais de R$ 9,95 bilhões em impostos e taxas. E, apenas em janeiro e fevereiro deste ano, a Receita arrecadou R$ 2,5 bilhões com as casas de apostas. Poderia ser mais? Sem dúvida, se não fossem os milhares de sites ilegais que atuam no Brasil sem pagar qualquer imposto por isso.


Enquanto apenas 87 empresas trabalham dentro das rígidas normas impostas pela legislação, milhares de outras —as ilegais— não pagam impostos, recebem apostas de menores de idade, fazem propaganda fraudulenta, com frequência deixam de pagar prêmios, não têm sede, mascaram CNPJs, aceitam apostas de cidadãos contemplados com os inúmeros programas sociais oferecidos pelo governo e mudam de nome quando são identificadas pelas autoridades. A SPA (Secretaria de Prêmios e Apostas) já mandou tirar do ar 27 mil sites ilegais até agora.

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Pessoa jogando jogos de azar em sites de apostas e bets - Mathilde Missioneiro - 17.set.24/Folhapress

Esses dois parágrafos são suficientes para qualquer pessoa de bom senso entender que o problema está no jogo ilegal, e não naquele que segue todas as regras. No entanto, a indústria de jogos tem sofrido ataques de podcasts que não têm ideia do que estão falando, do Legislativo e do próprio Executivo, responsável pelas leis e portarias que norteiam o setor. Por quê? Por razões absolutamente alheias às boas práticas e às normas seguidas pelas empresas licenciadas pelo Ministério da Fazenda.

Nesse contexto, há quem defenda no Congresso Nacional a proibição total das apostas no Brasil, sob o argumento de conter impactos sociais e econômicos, especialmente no que diz respeito à saúde mental e à estabilidade financeira das famílias.

A solução, no entanto, ignora um ponto elementar: proibir não elimina a demanda —apenas a desloca. Especialistas e representantes do setor têm alertado que uma medida dessa natureza tende a empurrar ainda mais a atividade para a ilegalidade, reduzindo a capacidade de fiscalização do Estado e ampliando justamente os riscos que se pretende combater. Experiências recentes mostram que mercados regulados, com cobrança de impostos e mecanismos de controle, oferecem mais proteção ao consumidor e geram receitas públicas relevantes, enquanto a repressão indiscriminada abre espaço para o fortalecimento de operações clandestinas já existentes.

Os ataques têm dois propósitos diferentes: um eleitoreiro. Uma vez que o governo percebeu que o endividamento da população é ruim para sua imagem (74,7% dos eleitores se dizem preocupados com custo de vida e endividamento, segundo pesquisa Meio/Ideia), resolveu atribuir às bets os malefícios das dívidas das famílias. Quando poderia, simplesmente, não aumentar a dívida pública e, com isso, reduzir a taxa de juros. Mas seria ruim, na propaganda política, explicar que os gastos excessivos do governo são os responsáveis por manter a taxa de juros acima de 14%. É mais fácil, então, culpar as bets.

O outro grupo, que vive falando em aumentar os impostos, sabe que majorar a carga tributária pode impedir as empresas corretas e autorizadas de funcionar, porque os impostos já são mais altos do que o mercado suporta. E sobre isso eu poderia escrever páginas neste jornal para explicar. O que os incautos não sabem, no entanto, é que, ao aumentar os impostos, dificulta-se a vida das empresas legais e abre-se, ainda mais, o mercado para as ilegais —intuito de muitos interessados quando trabalham pela ampliação dessa carga tributária.

O aumento da carga tributária para setores como jogos e cigarros, por exemplo, atende às máfias, às milícias, aos contrabandistas e a todos aqueles que dão suporte às atividades ilegais. Proibir as bets, ou coibi-las com a expansão de impostos, só atende aos interesses da criminalidade, porque o mercado será tomado pelo jogo ilegal e sem qualquer controle, como em vários outros países do mundo.