domingo, 3 de maio de 2026

Geradora defende exigência de instalação de baterias em novos parques solares para evitar cortes, FSP

 A Atlas Renewable Energy, uma das maiores geradoras de energia do país, defende que o Brasil passe a exigir que novas unidades solares no país sejam construídas já acopladas a grandes sistemas de baterias. O excesso de energia gerada em alguns períodos do dia é o maior gargalo para o setor de renováveis do país, que convive diariamente com cortes definidos pelo ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico).

A própria Atlas é uma das empresas que decidiram suspender os investimentos no país até que a situação seja resolvida. A companhia, controlada por um fundo ligado à gigante BlackRock, não tomou nenhuma decisão final de investimento no Brasil no ano passado e não prevê nenhuma em 2026.

Vista aérea mostra grande usina solar com milhares de painéis fotovoltaicos organizados em fileiras retas sobre terreno plano, cercada por vegetação e céu parcialmente nublado ao fundo.
Plana solar no interior do Ceará - Rubens Cavallari/Folhapress

Segundo o vice-presidente comercial da Atlas, Luís Ballester, o governo federal deveria seguir o exemplo do México e determinar uma fatia mínima necessária de baterias para essas instalações. Em março do ano passado, o governo mexicano definiu que todas as usinas solares e eólicas precisam ter sistemas de baterias equivalentes a 30% de sua capacidade instalada, com autonomia mínima de descarga de três horas —a medida deve adicionar 574 MW (megawatts) de baterias até 2028.

Para ele, no entanto, essa obrigatoriedade deve ser acompanhada de outros fatores. O primeiro é a regulamentação do uso desses sistemas, conhecidos no setor como BESS. O tema é pauta da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) desde 2023, mas está parado desde agosto do ano passado em meio a pedidos de vista de diretores do órgão regulador.

As principais discussões na Aneel passam pela forma como serão feitas a tributação e a remuneração de empresas donas de baterias. Além disso, há dúvidas se elas serão consideradas uma extensão das unidades renováveis ou um ativo separado capaz de ser despachado pelo próprio ONS.

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Já o segundo fator é a tributação. De acordo com Ballester, os tributos pagos no Brasil por importados correspondem atualmente a 70% do preço original desses sistemas, que vêm sobretudo da China, país que lidera a fabricação dessa tecnologia. "É uma carga tributária elevadíssima. Nós temos uma indústria nacional boa, mas ela tem produção e competitividade limitadas", diz Ballester.

A redução dos tributos dos sistemas de armazenamento é vista como essencial por todo o setor de renováveis —incluindo a indústria local de baterias, que depende da importação de equipamentos, também tributados.

Dentro da indústria solar e eólica, há o entendimento de que hoje, com a carga tributária elevada e sem uma remuneração específica para esses sistemas, a adoção de baterias não compensa o faturamento perdido com os cortes de energia.

Como a Folha mostrou, a situação atual dos cortes de energia provocou a suspensão de investimentos próximos a R$ 38,8 bilhões entre 2025 e 2026, principalmente no norte de Minas Gerais e no Nordeste, onde está a maior parte de grandes usinas solares e eólicas no país.

De acordo com Ballester, a Atlas tem entre 20% e 25% de sua energia cortada, o que, conforme a reportagem apurou, gerou perdas de US$ 45 milhões no ano passado. A empresa não revela seu faturamento anual.

Para além do prejuízo gerado pela incapacidade de vender a energia cortada, as empresas do setor também sofrem com a necessidade de comprar energia de outros agentes para vender a seus clientes. Isso acontece porque essas empresas têm contratos de fornecimento contínuo com grandes indústrias, por exemplo —assim, quando não há geração própria, é necessário contratar energia de outro gerador para, então, passar para o cliente.

Como forma de aliviar as perdas, o setor intensificou no ano passado a influência em Brasília para garantir o reembolso de parte dos cortes. Em novembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei aprovada no Congresso que garante a compensação daqueles cortes gerados pela falta de linhas de transmissão —estimado em cerca de R$ 4 bilhões pela Abrace, associação que representa os grandes consumidores de energia. Nesse caso, os cortes gerados pelo excesso de energia ficaram de fora do reembolso.

Mas, cinco meses após a aprovação da lei, o governo ainda não publicou o decreto que regulamenta a forma como será feito o reembolso. "Além disso, a lei também não trouxe nenhum prognóstico futuro, então está longe de ser minimamente bom", afirma Ballester.


RAIO-X Atlas

  • Capacidade instalada e em construção no Mundo: 6.000 MW
  • Capacidade instalada e em construção no Brasil: 3.911 MW
  • Onde atua: Brasil (BA, CE e MG), Chile, Colômbia e México
  • Maior acionista: Global Infrastructure Partners (GIP)
  • Principais concorrentes: Elera, Enel, Eneva

Marcus André Melo - Lula, o affair Messias e o presidencialismo de coalizão, FSP

 A rejeição da indicação de Messias ao Supremo não pode ser lida apenas como derrota do Executivo, nem apenas como reação do Centrão à escolha unilateral de Lula. Seu aspecto mais relevante é a evidência de uma articulação envolvendo lideranças do Senado e setores do próprio Supremo. O que veio à tona foi uma dinâmica inédita: a Corte não aparece apenas como instância de controle externo sobre Executivo e Legislativo, mas como ator que interfere no processo político de sua própria composição.

Esse ponto desloca o problema para além da literatura usual sobre independência judicial e separação de poderes. Em geral, as interações entre Executivo, Legislativo e Judiciário são pensadas em termos de checks and balances: o Congresso controla a Corte por sabatinas, orçamento e regras institucionais; a Corte controla Executivo e Legislativo por meio da revisão judicial; o Executivo influencia a Corte por meio de nomeações. O caso sugere algo inteiramente novo: a participação ativa de ministros ou "facções judiciais" na própria disputa sobre nomeações, em articulação com atores legislativos. Trata-se de uma forma de coordenação horizontal entre elites institucionais, na qual a Corte deixa de ser apenas árbitro e passa a operar diretamente a barganha. O mais assombroso é que as clivagens associadas ao Master se sobrepuseram às partidárias e às de governo/oposição.

Homem de terno escuro e gravata verde escura olha para o lado em ambiente interno com outras pessoas desfocadas ao fundo.
Ministro-chefe da AGU (Advocacia-Geral da União), Jorge Messias, após ser reprovado pelo Senado para o cargo de ministro do STF - Pedro Ladeira - 29.abr.26/Folhapress

A segunda dimensão é a transposição bizarra para o Supremo de uma lógica típica do presidencialismo de coalizão. Historicamente, a governabilidade brasileira foi garantida a partir da distribuição de portfolios ministeriais, cargos e recursos orçamentários. A variável central é a coalescência: a correspondência entre o peso parlamentar dos partidos e sua participação no governo. Nesse plano, o PT caracterizou-se pelo manejo monopolista da coalizão: mesmo minoritário no Congresso, concentra poder.

A indicação de Messias reproduz essa lógica monopolista no terreno judicial, com um critério novo, a lealdade pessoal. Lula desconsiderou uma concertação prévia em torno de Pacheco, para reiterar um padrão de nomeações personalistas. O problema é que esse padrão tem sido adotado num momento de forte declínio da força gravitacional do executivo (pela crescente probabilidade de derrota em novembro) e maior autonomia do Congresso. A escolha, portanto, revela uma inconsistência entre a estratégia presidencial de controle e as exigências de coordenação da coalizão.

Se o Supremo passou a integrar a lógica da partilha de poder, isso indica não apenas politização da Corte, mas erosão das fronteiras entre arenas institucionais. A nomeação para o tribunal deixa de ser apenas prerrogativa presidencial sujeita ao controle senatorial e passa a ser disputada como recurso estratégico da coalizão. O episódio, assim, ilumina uma transformação mais profunda: a governabilidade brasileira já não se organiza apenas pela distribuição de ministérios e orçamento, mas também pela disputa sobre ativos institucionais de alta intensidade —tribunais, regras, procedimentos e capacidade de veto. As consequências desse estado de coisas para o estado de direito são difíceis de superestimar.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Esforço para ser melhor que os outros é satânico, afirma professor da Universidade Yale, FSP

 

Valdinei Ferreira
Valdinei Ferreira

É doutor em sociologia pela USP e fundador do Mapa Centrante

A ideia de que a competição desenfreada para superar o próximo carrega uma natureza diabólica pode parecer um exagero retórico, mas é exatamente essa a conclusão de Miroslav Volf, um dos teólogos mais respeitados da atualidade.

Volf observa que a satisfação dos alunos pelo ingresso na Universidade Yale, uma das mais importantes universidades estadunidenses, vai se desfazendo à medida que percebem que estão cercados por colegas igualmente brilhantes e terão de provar para si mesmos e para os outros que são melhores que eles.

A busca pela superioridade sobre os outros, não importa a área da vida, é um vício transformado em virtude pela sociedade. A cultura atual frequentemente disfarça essa ambição implacável, mas o objetivo de Volf no livro "O Custo da Ambição: Como o Esforço de Superar os Outros Pode nos Derrubar" (Mundo Cristão, 2025) é mostrar que se trata de um vício socialmente aceito e autodestrutivo, e não uma virtude.

Duas esculturas pretas em forma de cabeças humanas em perfil, uma com boca aberta e outra fechada, posicionadas frente a frente com o mar e o céu alaranjado ao fundo durante o pôr do sol.
Singha Bohrer (-Bender) por Pixabay

Para compreender o problema, é preciso entender a distinção central da obra. O esforço por excelência baseia-se em buscar um aprimoramento real diante de um padrão objetivo, por exemplo, tocar melhor um instrumento ou atingir metas de sustentabilidade. Já o esforço por superioridade é estritamente competitivo; seu alvo primário não é a qualidade do que se faz, mas simplesmente "ser melhor que outra pessoa".

Miroslav confessa como esse vício surge no cotidiano. No aeroporto, ao carregar sua mala, ele costuma usar as escadas convencionais em vez das escadas rolantes. Nesse momento, admite sentir-se superior aos outros, julgando-os intimamente por não se exercitarem e por gastarem energia elétrica em vez de calorias.

Logo, porém, ele percebe que esse sentimento é uma completa loucura. Afinal, ele não sabe nada sobre a vida dos outros viajantes, ignorando se eles possuem limitações físicas, problemas de saúde ou qual é o verdadeiro compromisso deles com a sustentabilidade.

Para piorar, o teólogo nota a própria hipocrisia: é contraditório orgulhar-se de poupar energia logo após voar de avião e enquanto ele próprio dirige um carro a combustão, ignorando que as pessoas ao redor podem ter hábitos de vida muito mais sustentáveis que ele.

A grande trapaça psicológica desse vício em superioridade é dar como certo que o fato de uma pessoa ser melhor em algo, defender as causas certas ou conquistar medalhas no esporte, a torna um indivíduo de valor humano superior às outras pessoas.

Segundo Volf, o estrago do vício em superioridade é ainda maior na política polarizada, pois corrói o respeito fundamental pela dignidade humana. Ao transformar a preferência ideológica na medida de valor de uma pessoa, a política deixa de ser um esforço para resolver problemas comuns e se transforma em uma mera competição por domínio.

O resultado é o que Volf chama de "deterioração da verdade": líderes são motivados a dizer qualquer coisa que mantenha seu público, criando suas próprias regras e obscurecendo fatos e análises apenas para manter a superioridade e o poder sobre os adversários.

O desfecho final desse esforço contínuo não é um mundo melhor, mas o inferno no qual estamos mergulhados. Não por acaso, o Satanás de John Milton, na obra "Paraíso Perdido", é apresentado por Volf como o arquétipo e o exemplo literário mais extremo e perfeito desse vício.

A ânsia de ser maior e melhor que os outros é inerentemente irracional, destrutiva e geradora de um sofrimento sem fim. Como o próprio Satanás lamenta em um solilóquio, consumido pelo ódio de si mesmo diante de sua ambição inútil: "sob que tormentos interiores gemo [...] eu mesmo sou o Inferno".