quarta-feira, 1 de abril de 2026

Governo vai editar MP para diesel importado, Petrobras cobra caro no GLP e MME estuda medidas, EIXOS

 


MP do programa de subvenção adicional para importadores de diesel sai esta semana; ao menos 20 estados já aderiram à iniciativa;

MME estuda mais ações para mitigar efeitos do pico do preço do petróleo e cita GLP como um dos “mercados mais sensíveis”;

E Petrobras vende gás de cozinha até 100% mais caro em leilões

Editada por André Ramalho
andre.ramalho@eixos.com.br
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O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse nesta terça-feira (31/3) que o governo federal espera publicar ainda esta semana a medida provisória (MP) que institui o programa de subvenção adicional para os importadores de diesel, no valor equivalente a R$ 1,20 por litro do combustível – e com a divisão dos custos entre estados e União

Em paralelo, o Ministério de Minas e Energia (MME) informou que estuda outras ações para mitigar os efeitos econômicos da recente escalada do preço do petróleo – e citou o gás liquefeito de petróleo (GLP) como um dos “mercados mais sensíveis”. 

No mesmo dia, a Petrobras vendeu o gás de cozinha até 100% mais caro em leilões - impacto que será repassado pelas distribuidoras aos consumidores.

No diesel... o governo federal ainda busca a adesão de todos os governadores à nova subvenção, embora Durigan tenha sinalizado que a medida será formalizada mesmo sem unanimidade.

Ao menos 20 estados já indicaram adesão à política para conter a alta do preço do combustível no país, de acordo com levantamento do g1.

Entre as exceções:

  • Amapá, Goiás, Pará, Rondônia e São Paulo ainda não se manifestaram - embora, na véspera, o governador paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tenha afirmado que considerava “razoável” a proposta do governo federal e que SP deveria aderir à MP;
     
  • o governo do Rio de Janeiro informou que vai aguardar a MP;
     
  • e o Distrito Federal se posicionou contra.

O governo federal propõe que a subvenção ocorra por dois meses (abril e maio), ao custo de R$ 3 bilhões por mês, a ser repartido entre União e Estados.

É uma segunda fase do pacote de respostas do governo brasileiro à alta nos combustíveis – que incluiu, num primeiro momento, uma subvenção de até 32 centavos no diesel e a desoneração do PIS/Cofins do derivado.

O governo federal tenta desde então arrastar os estados para a desoneração — a carga tributária sobre os combustíveis é mais pesada, justamente, nos estados. Após semanas de negociações, os governadores começaram, enfim, a embarcar na medida..

Já no gás de cozinha...  A Petrobras  realizou um leilão de 70 toneladas de GLP com preços até 100% acima dos valores de tabela, nesta terça.

Repetiu, assim, a estratégia do recente do diesel, vendendo volumes adicionais com preço elevado.

  • O aumento mais expressivo registrado até o momento foi em Duque de Caxias (RJ), onde o preço do botijão de 13 kg sai por R$ 33,37 ao preço de tabela — e foi comercializado por R$ 72,77 no leilão. Veja os detalhes 

  • A Refinaria de Mataripe, na Bahia, confirmou um reajuste de 15,3% no preço do GLP vendido às distribuidoras a partir de 1º de abril.

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Impactos da guerra. O comissário de Energia e Habitação da União Europeia, Dan Jørgensen, disse que o bloco apresentará “em breve” um conjunto de medidas para proteger consumidores e empresas dos choques de energia criados pela guerra no Oriente Médio.

  • Jorgensen alertou que o bloco deve estar pronto para uma potencial interrupção prolongada do comércio internacional de energia e defendeu medidas para responder à situação.

Desdobramentos no meio ambiente. Relatório do Observatório de Conflitos e Meio Ambiente mostra que, além das mortes, a guerra dos EUA e Israel contra o Irã aumentou os riscos ambientais e climáticos na região.

Bombardeio dos EUA. A cidade de Isfahan, que abriga instalações nucleares do Irã, foi alvo de um bombardeio provavelmente lançado pelos EUA na terça (31/3). Uma enorme bola de fogo foi vista no céu durante o ataque. Teerã também foi alvo de uma nova ofensiva das forças americanas e israelenses.

Negociações para encerrar o conflito. O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou que o país não busca prolongar o conflito e está disposto a encerrá-lo, desde que haja garantias contra novas agressões. A declaração foi feita em conversa telefônica com o presidente do Conselho Europeu, António Costa.

E segue a perfuração na Bacia Foz do Amazonas. A Petrobras espera concluir a perfuração do poço de Morpho, na Margem Equatorial brasileira, no segundo trimestre, disse nesta terça a diretora de Exploração e Produção, Sylvia Anjos. Este é o quinto poço mais profundo perfurado pela estatal. A campanha exploratória foi retomada após interrupção por vazamento em janeiro.

  • E a Petrobras busca iniciar o descomissionamento da FPSO Cidade de Santos, previsto para 2027, ainda em 2026. Não é um caso isolado: a petroleira pretende antecipar, no próximo plano de negócios, a saída de plataformas por questões de segurança e integridade ambiental.

LRCAP em xeque? A Âmbar Energia (Grupo J&F) está isolada em sua tentativa de anular parcialmente os resultados do 2º Leilão de Reserva de Capacidade. A Abraget manifestou à Aneel o seu “apoio irrestrito” ao processo do certame e aos seus resultados. 

  • A entidade, que representa os interesses dos principais agentes do setor, muitos deles vencedores no leilão de 18 de março, não vê fundamentação nos recursos apresentados pela Âmbar. Entenda

Biometano para ônibus. A EcoGeo vai investir R$ 140 milhões na construção de sua primeira planta de produção de biometano em escala comercial em Goiás. O biocombustível será utilizado na frota de ônibus do transporte coletivo da Região Metropolitana de Goiânia.

O que esperar do marco legal para minerais críticos? O deputado federal, Arnaldo Jardim (Cidadania/SP), promete para 7/4 o relatório da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

FIQUE DE OLHO

AGENDAS PÚBLICAS EM 01/04/26I

Lula cumpre agendas no Ceará nesta quarta (1/4). Concede entrevista à TV Cidade, visita as obras do novo campus do ITA-CE e participa da cerimônia de celebração dos dois anos do Programa Pé-de-Meia. De Fortaleza, embarca para Salvador (BA).

Geraldo Alckmin participa do lançamento do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, tem reuniões com a ministra Margareth Menezes e com a Anfavea.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, se reúne com Renan Filho (MDB), tem reunião conjunta com integrantes da CVM, Anatel, Ministério da Justiça e Secretaria de Prêmios e Apostas (MF), e participa da assinatura de cédulas no Banco Central.

terça-feira, 31 de março de 2026

Para o PSD, o inimigo agora é Flávio, Dora Kramer, FSP

 

Brasília

Na escolha de Ronaldo Caiado em detrimento de Eduardo Leite, o PSD deixou claro seu plano, ao menos na linha inicial: avançar no eleitorado de Flávio Bolsonaro (PL) para tentar uma vaga no segundo turno.

Ou seja, investir em 2026 e não na construção de possibilidade para 2030. Assim seria se a opção tivesse sido pelo governador gaúcho, hipótese preferida pela ala de centro com plumagem tucana que orbita em torno do projeto alternativo, hoje tendo como referência Gilberto Kassab, mas sem garantia de efeito duradouro.

.)Dois homens de terno, um de cabelo branco e outro de cabelo escuro, se cumprimentam com sorrisos em evento. Pessoas ao fundo aplaudem e observam a interação, com microfones à frente.
Ronaldo Caiado (à esq.), presidenciável do PSD, ao lado de Gilberto Kassab, presidente do partido, durante anúncio da pré-candidatura, em São Paulo - Rafaela Araújo - 30.mar.26/Folhapress, Política

No ato inicial da indicação, a ideia obvia foi garantir impacto em termos de manchetes e cortes de internet com a retomada do tema anistia para Jair Bolsonaro e companhia. Isso enquanto o primogênito do ex-presidente precisa deixar certos radicalismos de lado para emplacar a figura do moderado.

Por ora, tal anistia é um terreno na Lua, mas serve para mexer no bolsonarismo e nos setores à direita que ainda não demonstraram especial entusiasmo com Flávio Bolsonaro. Dois são mais evidentes: os evangélicos e o agronegócio. Um candidato com identificação conservadora nítida teria, na visão dos arquitetos auxiliares de Kassab, potencial para estabelecer pontes e deslocar apoios.

Caiado pegou leve com o presidente Luiz Inácio da Silva, limitando-se a pregar a retirada do PT da cena do poder. Em relação a Flávio Bolsonaro, foi específico: atacou nos flancos da inexperiência e no ímpeto da juventude versus predicados de equilíbrio.

Outra aposta do PSD é na resistência do goiano para neutralizar e rebater ataques. Um político "cascudo", no dizer dos correligionários, tem mais capacidade de enfrentar Lula nos debates e fazer frente à ofensiva do PT ao longo da campanha.

Eduardo Leite daria à candidatura um colorido mais ao centro com pitadas de esquerda. Mas dificilmente conseguiria tirar a direita da disputa final.

Nessa perspectiva, Caiado falaria mais à maioria conservadora refratária a fanatismos. Dará certo? Impossível saber, mas esse é o plano.

O Congresso fatura com a indignação moral, Wilson Gomes, FSP (definitivo)

 A política brasileira atravessa um processo de transformação que, apesar de barulhento e exaustivo, pode passar despercebido. Não se trata apenas da radicalização do debate público nem da intensificação das disputas ideológicas. O que está em curso é algo mais complicado: a política parlamentar passou a viver de ondas de indignação moral.

Não por acaso, nos últimos anos, aprendemos a reconhecer esse fenômeno nas redes sociais. Plataformas digitais passaram a premiar conteúdos que despertam indignação, convocam juízos morais extremos e se baseiam em uma classificação nítida entre bons e maus. Nada engaja mais —nem estimula tanto a produção de conteúdo— do que uma boa revolta moral.

O que talvez ainda não tenhamos formulado com suficiente clareza é que essa lógica transbordou das redes e passou a organizar também a política institucional. O Parlamento —que deveria operar como espaço de deliberação e negociação— passou a mimetizar o padrão de interação das plataformas digitais. O governo também.

A dinâmica é reconhecível. Em vez de discutir políticas públicas, intervenções governamentais ou projetos de lei em termos de consequências e prioridades, o debate se organiza como uma competição moral. O adversário, evidentemente, não é alguém de quem se discorda, mas alguém que encarna o erro ou a perversidade.

Ilustração de Ariel Severino com fundo em degradê vibrante, do verde ao amarelo. No primeiríssimo plano, a cara de um congressista, no lugar dos olhos dois celulares. Nas telas se vê um feixe de dinamite vermelha com o pavio exposto e um isqueiro aceso prestes a detoná-los. Um dos aparelhos mostra apenas os explosivos; o outro inclui também o gesto de ignição, sugerindo ação iminente. A política aparece como espetáculo inflamado, em que narrativas são montadas e amplificadas digitalmente, incentivando conflitos visíveis e moralmente carregados.
Ariel Severino/Folhapress

Os episódios recentes no Congresso são ilustrativos. A criminalização da misoginia, o debate em torno da representação de Erika Hilton, a tipificação do vicaricídio, a acusação feita por dois senadores contra o relator da CPI do INSS de estupro de vulnerável e tentativa de suborno —todos esses casos compartilham uma mesma estrutura. Não são apenas controvérsias políticas, mas um conjunto de "performances de virtude".

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A pesquisa recente tem dado nome a esse fenômeno: ostentação moral ("moral grandstanding"). Trata-se do uso da retórica moral como instrumento de afirmação pública da própria virtude. E ele opera em duas direções complementares. De um lado, a busca de prestígio: apresentar-se como mais justo, mais sensível, mais comprometido do que os demais, conquistando admiração dentro do próprio campo. De outro, a busca de dominância: constranger, desqualificar e expor o adversário como moralmente inferior, afirmando superioridade por meio da humilhação pública.

Essas duas lógicas estruturam o comportamento parlamentar contemporâneo. Discursos em plenários ou comissões, declarações a jornalistas e os inúmeros posts em redes sociais que se seguem não são apenas argumentos. São performances voltadas à obtenção de reconhecimento. Intervenções não visam apenas convencer —visam também marcar posição em uma hierarquia moral visível. Acompanhe uma semana de seu deputado ou senador favorito e veja como esse jogo se joga.

Em ambientes digitais, expressões de indignação moral geram visibilidade, aprovação e engajamento. E, logo, à performance parlamentar juntam-se ativistas, jornalismo profissional, influenciadores e outras figuras públicas, todos ávidos por participar da grande competição de moralismo nacional. À medida que o bolo do engajamento cresce —na mídia digital, eletrônica e impressa—, cria-se um incentivo poderoso: vale a pena moralizar, acusar, dramatizar. Ao longo do tempo, forma-se um padrão de aprendizado coletivo em que a moralização tende a aumentar.

Por um lado, os benefícios individuais do exibicionismo moral são claros e crescentes: mais atenção, reconhecimento e capital político. Cada autor de um projeto de lei —desses apresentados como resposta a uma "injustiça que clama aos céus" ou como restauração da decência diante de uma "situação de calamidade ética"— torna-se o campeão moral de sua tribo. Por outro lado, os custos dessa dinâmica são difusos e coletivos: aumento da polarização, deterioração do debate e redução da capacidade de deliberação. O ator individual ganha ao participar do jogo; o sistema perde.

O Parlamento, mimetizando as redes, torna-se um palco privilegiado dessa dinâmica. Sessões se convertem em performances, discursos são moldados para circulação digital e conflitos se intensificam porque é deles que depende a atenção pública. Quanto mais gente chocada, furiosa ou brigando, melhor para o exibicionismo moral.

Não se trata de injetar mais ética no sistema, e sim de maximizar o lucro pessoal do parlamentar no mercado de indignação. A prioridade não são discussões substantivas em nome do interesse público, mas prevalecer na luta de pavões, vistosamente empenhados em exibir superioridade moral.