quinta-feira, 2 de julho de 2026

Com inaugurações no metrô, SP chega a quase 400 km de trilhos; veja como fica o mapa, FSP

 Fábio Pescarini

São Paulo

Com a inauguração do primeiro trecho da linha 6-laranja nesta quinta-feira (2) e a abertura na última terça-feira (29) da estação Washington Luís, da linha 17-ouro —ambas do metrô—, o sistema metropolitano de São Paulo passa a contar com 393,3 km de trilhos.

Ao todo, são 188 estações de trens e de metrô.

Em cerimônia marcada para as 10h desta quinta-feira, serão inauguradas seis estações da linha 6-laranja.

O ramal abre ao público nesta sexta-feira (3), um dia depois da cerimônia, e cerca de 18 anos após seu projeto ser anunciado.

O trecho a entrar em operação será entre as estações João Paulo 1º e Perdizes e compreenderá também as paradas Frequesia do Ó, Santa Marina, Água Branca e Sesc-Pompeia.

Até o fim do ano, a linha vai operar em horário reduzido, das 10h às 15h e de segunda a sexta-feira (exceto feriados). Não haverá cobrança de passagem aos usuários.

Ao todo, a linha 6-laranja contará com 15 estações e vai ligar a Brasilândia, na zona norte, à Liberdade, na região central.

O percurso, por enquanto, será feito com dois trens em sistema de ida e volta, com velocidade aproximada de 30 km/h (eles podem alcançar até quase 90 km/h). O trecho entre as seis estações deve ser percorrido em 19 minutos. Apenas um acesso em cada estação estará aberto aos passageiros.

A Água Branca, uma das que serão abertas, tem integração com a estação homônima da linha 7-rubi, do trem metropolitano.

Como o túnel entre as duas não está pronto, o passageiro que chegar de metrô precisará sair da estação e acessar o outro prédio pelo lado externo, onde pagará tarifa para embarcar na rede ferroviária.

Duas das primeiras estações do trecho norte da linha 6 —Brasilândia e Itaberaba-Hospital Vila Penteado— devem ser abertas ao público no fim do ano.

Dois trabalhadores com capacetes estão em plataforma elevatória azul entre estruturas de concreto e metal. Um terceiro trabalhador observa no chão, em área de construção com equipamentos e materiais.
Funcionários trabalham no fim de obra da estação Washington Luís, da linha 17-ouro do metrô, que passou a funcionar em horário reduzido na última terça-feira (30) - Danilo Verpa - 30.jun.26/Folhapress

A estação Maristela, a segunda da linha na zona norte, com 68% das obras concluídas, conforme a última atualização, deve ficar pronta apenas em 2027, assim como as demais, menos a 14 Bis-Saracura, na Bela Vista, região central —devido a achados arqueológicos, as obras no local só foram liberadas recentemente pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Na linha 17-ouro, o trecho aberto nesta semana tem cerca de 800 metros.

Também em horário reduzido por causa de operação assistida, as oito estações do monotrilho do aeroporto de Congonhas funcionam das 9h às 16h. Igualmente não há cobrança de passagem.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Porque precisamos de heróis: Teodoro Sampaio- Mauricio Portugal Ribeiro, FSP

 Toda nação se constrói sobre mitos. Joseph Campbell ensinou que toda cultura precisa de seus heróis: figuras cuja jornada arquetípica organiza o imaginário coletivo e empresta sentido ao esforço comum. Os Estados Unidos cultuam seus pais fundadores e os engenheiros que rasgaram o Oeste; a França venera os construtores de catedrais e do Canal de Suez; o Japão homenageia os artífices dos trens-bala.

Nós, brasileiros, ainda parecemos envergonhados de quase tudo o que erguemos. Hoje, concessões se multiplicam, marcos regulatórios amadurecem, leilões mobilizam capital privado em volumes inéditos. Mas falta-nos uma narrativa épica do construir, falta-nos heróis cujas vidas lembrem que mover montanhas, abrir rios e ligar sertões são, antes de obra de engenharia, atos de civilização.

Retrato em preto e branco de homem idoso com cabelo curto e grisalho, barba e bigode brancos. Ele veste terno, camisa branca e gravata, olhando diretamente para a câmera com expressão neutra. Fundo desfocado e escuro.
Retrato do engenheiro Teodoro Sampaio - Divulgação

Sigo nesta série dedicada a resgatar essas figuras, aberta com Eliezer Batista, o primeiro herói aqui evocado. Hoje me detenho em um homem que deveria estar nos livros didáticos ao lado dos vultos consagrados da nossa história: Teodoro Fernandes Sampaio.

Teodoro nasceu escravizado, em 1855, no Engenho Canabrava, em Santo Amaro da Purificação. Filho de Domingas da Paixão do Carmo, mulher escravizada de origem jeje, e provavelmente do padre que lhe deu o sobrenome, foi alforriado no batismo. Aos nove anos, partiu para o Sudeste. Aos 22, formou-se engenheiro civil pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, tendo sido aluno de André Rebouças, cujas conquistas também o farão objeto desta série. Com seus primeiros salários, comprou as cartas de alforria dos irmãos Martinho, Ezequiel e Matias. A liberdade, para Teodoro, nunca foi conceito abstrato: era contrato a ser cumprido, parcela a parcela.

Em 1879, foi nomeado para a Comissão Hidráulica do Império, para estudar portos e a navegabilidade do interior. Era o único brasileiro entre engenheiros norte-americanos chefiados por William Milnor Roberts. Seu nome, contudo, foi omitido do edital: um funcionário de gabinete justificou que "poderia causar constrangimento aos outros estar ao lado de um homem de cor".

A reparação veio por intervenção do senador Viriato de Medeiros, que exigiu a republicação no diário oficial, com a inserção do nome de Teodoro. A humilhação não o deteve. Foi dele o primeiro estudo de melhorias do Porto de Santos. Foi dele o levantamento topográfico que abriu a Chapada Diamantina ao conhecimento da nação. Foi dele a expedição que percorreu o São Francisco da foz a Pirapora, viagem que Euclides da Cunha aproveitaria para escrever "Os Sertões" sem lhe dar o crédito devido.

A lista assombra por parecer sobre-humana: chefiou o prolongamento da Estrada de Ferro Salvador-São Francisco; comandou a Comissão de Desobstrução do São Francisco (com função corretiva de uma das primeiras rotas de navegação a vapor do Nordeste); integrou a Comissão Cruls, que demarcou no Planalto Central o sítio da futura capital; foi engenheiro-chefe da Companhia Cantareira, que deu água a São Paulo; dirigiu, de 1898 a 1903, o Saneamento do Estado de São Paulo, repensando cidades inteiras à luz das ideias higienistas de então.

Voltou à Bahia para executar o serviço de água e esgoto de Salvador. Cofundou a Escola Politécnica de São Paulo. Presidiu o 5º Congresso Brasileiro de Geografia. Em 1927, tornou-se o primeiro filho de mulher escravizada a chegar à Câmara dos Deputados.

E ainda escreveu. "O Tupi na Geografia Nacional", "O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina", "História da Fundação da Cidade do Salvador" (este o meu preferido) —clássicos do pensamento geográfico e histórico do país.

A imagem mostra um edifício de formato circular, com uma estrutura elevada sobre um jardim. O edifício possui uma cobertura plana e é cercado por árvores e vegetação. No primeiro plano, há grama verde e algumas plantas. Um poste de luz está visível próximo ao edifício, e há um recipiente verde no lado direito da imagem.
Prédio do Biênio da Escola Politécnica da USP, em São Paulo - Pedro Affonso/Folhapress

A vida de Teodoro Sampaio contraria todos os conformismos contemporâneos. Não esperou que o Estado lhe abrisse portas: arrombou-as com competência técnica. Não fez do preconceito desculpa para a paralisia: fez do trabalho a resposta mais eloquente. Não confundiu denúncia com obra. Em um Brasil que mal iniciava a abolição, mediu rios, traçou cidades, fundou escolas, formou discípulos.

Precisamos de heróis porque sem eles a infraestrutura vira planilha, e planilhas não movem nações. Os feitos de Teodoro lembram que portos, ferrovias, redes de água e cartografias são, no fundo, gestos de fé no futuro. Que possamos honrá-lo construindo o nosso.