quarta-feira, 11 de março de 2026

Energia solar volta a crescer em 2026, enquanto eólica desacelera, indica Aneel, EIXOS

 Drone sobrevoa usina solar fotovoltaica operada pela Enel (Foto Divulgação)

Drone sobrevoa usina solar fotovoltaica operada pela Enel | Foto Divulgação

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) prevê que a geração centralizada de energia solar será responsável por quase metade do crescimento da capacidade de geração elétrica no Brasil em 2026, com uma expansão de 4,56 gigawatts (GW) prevista para este ano.

Caso o total se confirme, o crescimento da fonte este ano será 61,7% maior do que em 2025, quando aumentou 2,82 GW.

Ao todo, a Aneel prevê que a geração centralizada vai crescer 9,14 GW no Brasil este ano. A expansão é maior do que em 2025, quando foi acrescentada uma capacidade de 7,40 GW ao Sistema Interligado Nacional (SIN).

Além da energia solar, as termelétricas a combustível fóssil também vão contribuir para a expansão da matriz elétrica em 2026.

A fonte fóssil deve atingir o recorde de expansão desde o início da série histórica, em 1997, adicionando 2,78 GW ao sistema.

Já a eólica deve viver uma desaceleração do crescimento este ano, com a adição de 1,44 GW, a menor desde 2019. A projeção indica uma desaceleração de 21,3% em relação a 2025, quando a fonte expandiu 1,83 GW. 

As eólias sofrem com o curtailment (cortes de geração). O corte forçado da geração pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) ocorre quando a rede elétrica não consegue absorver o excesso de energia ou devido a limitações de infraestrutura.

Quando o ambiente de desinformação compromete o desenvolvimento regional- EIXOS

 O Nordeste consolidou-se como protagonista da expansão eólica no Brasil. Com 32,4 GW em operação e mais de mil projetos, a região é liderada por Bahia e Rio Grande do Norte, seguidos por Piauí e Ceará.

Essa escalada impressiona: em 2010, o parque produtor era inferior a 0,4 GW. No início, os questionamentos focavam em contratos, preços, cadeia produtiva, leilões e mão de obra.

O setor entrou na pauta nacional como uma vitrine de modernidade e impacto regional.

Contudo, um elemento crucial foi negligenciado: a comunicação estratégica das ações e impactos locais.

Um levantamento realizado entre 2009 e 2025 em diversos canais — de jornais como Folha e O Globo a fontes independentes e órgãos oficiais — revelou uma mudança drástica na percepção pública em todos os estados da região (RN, CE, PB, PE, MA, PI e BA).

Além do aumento gradativo das notícias relativas ao setor no periodo, com a Bahia liderando em volume de menções (1.299), seguida pelo Rio Grande do Norte (891) e Piauí (788).

No entanto, mais importante que a quantidade, porém, é a evolução temática dos registros por biênio:

  • 2009-2014: foco no Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), leilões, atração de capital e recordes de geração.
  • 2015-2020: surgimento de denúncias ambientais (dunas no Ceará), conflitos fundiários e estudos sobre ruído e saúde.
  • 2021-2026: debates sobre Green Grabbing, recordes de conflitos no campo e judicialização massiva.

Essa transição de uma pauta baseada em benefícios para uma dominada por conflitos é alarmante. Em 2009, o sentimento era 90% positivo, impulsionado pela expectativa de empregos e renda. Gradualmente, essa percepção converteu-se em frustração.

Estamos diante de um paradoxo: um dos setores que mais investiu no Nordeste nos últimos 15 anos, com aumento comprovado de PIB municipal e transferência direta de recursos, enfrenta uma propaganda negativa severa. Isso ocorre por um ponto crucial, o setor não soube traduzir seus benefícios para a sociedade.

O cruzamento de dados oficiais com dados de resistência social revela um abismo de informações.

Enquanto associações e agências federais reportam que a energia eólica representa importante percentual da matriz elétrica nacional, com uma potência aproximada de 34,0 GW, os dados mostram que os conflitos no campo atingiram seu segundo maior patamar histórico em 2024, com mais de 2.100 ocorrências.

A análise demonstra que o crescimento da geração não foi acompanhado por uma percepção nas assimetrias de poder ou pela proteção dos bens comuns.

A ausência de uma coordenação que monitore a percepção social permite que narrativas sem base fática comprometam o desenvolvimento regional.

É urgente que as empresas se articulem para apresentar seus bons resultados de forma clara e dessa forma melhorar o diálogo com estados, municípios e órgãos ambientais.

A lição para empresas, entidades e governos é clara: o diálogo amplo é a única forma de mitigar crises de imagem e garantir que os interesses de todos os entes convirjam em um processo de transição energética que seja justa e social.


Jean Paul Prates é chairman do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne).

Darlan Santos é presidente do Cerne.

terça-feira, 10 de março de 2026

Governo Lula teme impacto eleitoral e age para evitar que EUA designem CV e PCC como terroristas - FSP

 

Brasília

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manifestou a aliados preocupação com os efeitos políticos e econômicos que uma possível designação do CV (Comando Vermelho) e do PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas pelos Estados Unidos pode causar. O Planalto age para ao menos postergar essa decisão pelos americanos.

Desde segunda-feira (9), o presidente se dedica a reuniões em busca de uma alternativa à proposta americana, que, segundo aliados do petista, abriria brecha legal para intervenções dos EUA em território brasileiro. O governo teme ainda a exploração política dos bolsonaristas e tenta traçar uma estratégia de comunicação para explicar por que resiste à ideia.

Colaboradores do presidente atribuem à controvérsia o cancelamento da viagem de Lula ao Chile. Apesar do incômodo com o convite ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), potencial adversário de Lula nas próximas eleições, o argumento desses auxiliares foi o de que a negociação com os EUA é emergencial.

Homem idoso com cabelo e barba branca, vestindo terno azul escuro e gravata, olha para trás com expressão neutra. Fundo desfocado com luzes amareladas.
O presidente Lula em evento no Palácio Itamaraty, em Brasília - Adriano Machado - 4.mar.26/Reuters

Pessoas que acompanham o tema falam em diversos riscos na mudança de classificação, entre eles o potencial de afetar a economia e a competitividade do Brasil no cenário internacional.

Uma das preocupações está no interesse do presidente dos EUA nas transações financeiras feitas por Pix. Há quem tema uma tentativa americana de controle dessas operações, sob o argumento de que são usadas pelo crime organizado.

Empresas de cartão de crédito dos EUA são críticas da ferramenta de pagamento desenvolvido pelo Banco Central.

Na noite de segunda-feira, o presidente do PT, Edinho Silva, divulgou um vídeo em que alertou para os perigos dessa proposta. Nele, Edinho disse que o Brasil não é um puxadinho de Trump. Afirmou ainda que o governo americano poderia invadir o país e aplicar sanções econômicas contra o Brasil. Segundo ele, seria uma agressão à soberania brasileira.

A discussão nos EUA sobre designar as duas organizações como terroristas ocorre desde o ano passado. Uma ala no Departamento de Estado, órgão análogo ao Ministério das Relações Exteriores, defende dar essa classificação às facções nos moldes do que fizeram com outros grupos da América Latina, como o Cartel de Jalisco, no México.

Esse debate foi impulsionado nos EUA com a atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) em 2025. Desde então, o governo Lula tenta brecar essa iniciativa. Na última semana, como revelou o UOL, o governo americano bateu o martelo e preparou toda a documentação para encaminhar ao Congresso e designar as facções como organizações terroristas.

O governo Lula agiu de imediato. Ainda na noite de domingo (8), o ministro Mauro Vieira (Relações Exteriores) telefonou ao seu homólogo, Marco Rubio. Segundo relatos obtidos pela Folha, um dos argumentos usados por Vieira foi o de que os americanos deveriam aguardar o encontro presencial entre Lula e Donald Trump para tomar a decisão definitiva.

Outros ministros também entraram em campo para tentar contornar a situação. O governo brasileiro acreditava que essa designação ocorreria ainda nesta segunda e, por isso, montou uma força-tarefa para debelar a movimentação. Auxiliares do presidente, porém, avaliam que o fato de ainda não ter havido anúncio significa apenas que o Brasil conseguiu ganhar tempo, e será necessário manter as conversas.

Entre as opções oferecidas pelo Brasil está a criação de uma cooperação na área do crime organizado. Integrantes do governo Trump, porém, avaliam que isso não é suficiente e que Lula atua para proteger as facções, segundo um conselheiro do presidente americano disse à Folha.

Como a Folha mostrou em uma série de reportagens, o CV e o PCC já estão presentes em todos os estados brasileiros e exercem hegemonia em ao menos 13 deles. As facções também expandiram sua atuação para além das fronteiras: o CV mantém negócios com ao menos oito países da América Latina, enquanto o PCC tem presença em ao menos 16 nações.