segunda-feira, 9 de março de 2026

A China quer fazer com o espaço o que fez com os carros elétricos, Ronaldo Lemos, FSP

 As guerras na Ucrânia e agora no Irã mostraram que um dos recursos estratégicos mais importantes do presente são as constelações de satélites. No Irã, satélites lançados pela SpaceX de Elon Musk (e especialmente seu braço bélico, chamado Starshield) permitiram sucessos militares iniciais. Sua constelação de satélite forneceu acesso dinâmico à internet e analistas apontam que ajudou também na localização de lançadores de mísseis iranianos.

Em 2025 a SpaceX lançou 3.169 satélites, o que representa 70% do total global. No entanto, há um competidor em vista. A China mobilizou-se nos últimos anos para acelerar sua tecnologia espacial e competir diretamente com a SpaceX.

Foguete decolando da plataforma próxima ao mar, com chamas intensas e grande nuvem de fumaça branca ao redor. Ao fundo, duas turbinas eólicas visíveis sob céu claro.
Foguete Smart Dragon-3 carregando sete satélites é lançado da costa de Yangjiang, na China - Lu Hanxin/Xinhua

O objetivo do país é fazer com a SpaceX a mesma coisa que fez com a Tesla. A empresa dominava o setor de carros elétricos e hoje foi ultrapassada por uma pletora de empresas chinesas, lideradas pela BYD.

No entanto, em tecnologia espacial a China ainda está atrás. Em 2025 ocupou o segundo lugar em lançamentos, mas com apenas 371 satélites lançados. A ambição do país é lançar 27 mil nos próximos anos, com finalidades de comunicação, militar e de monitoramento ambiental.

A China quer construir não só uma megaconstelação como a da SpaceX, mas três delas. Para fazer isso o país fez um movimento radical. Em 2014 abriu o setor espacial para competição privada. O resultado foi o surgimento de dezenas de empresas espaciais no país, competindo entre si. Oito delas já conseguiram fazer lançamentos bem-sucedidos.

Esse modelo de competição brutal financiada por recursos privados e estatais é típico da China e tem obtido sucessos. Funcionou para os carros elétricos e também para painéis solares. Nos anos 2000 o país tinha participação de mercado de 5% em painéis solares. Hoje domina 80% do mercado. Para chegar lá, incentivou o surgimento de centenas de empresas que literalmente se mataram na competição. Isso reduziu os preços de geração solar para até US$ 0,07 por watt. Hoje, só um punhado dessas empresas sobreviveram. E o setor enfrenta crises justamente pelo sucesso na redução radical de preços.

Em tecnologia espacial a China busca também especialização. Por exemplo, a fabricante de carros Geely está lançando seus próprios satélites para criar uma rede própria de veículos autônomos com precisão total. Já a empresa Ada Space quer criar um centro de processamento de dados diretamente no espaço. E vale lembrar. Nos anos 1980 e 90 o Brasil foi um parceiro importante de tecnologia espacial para a China. Fornecemos conhecimento e know-how para o país. E depois ficamos totalmente para trás.

No longo prazo, o objetivo da China inclui também a exploração de recursos minerais no espaço e criar uma base permanente na lua. No entanto, falta ao país asiático dominar com sucesso algo que a SpaceX já conseguiu: foguetes que sejam reutilizáveis para reduzir custos. Sem isso, o país ainda estará distante de fazer com a tecnologia espacial o que fez com os carros elétricos e os painéis solares.

READER

Já era – SpaceX atuando praticamente sozinha

Já é – Competição com a China em satélites de baixa órbita

Já vem – O Brasil ficando cada vez mais para trás nessas tecnologias, nas quais já foi protagonista


domingo, 8 de março de 2026

Como a bioeletricidade pode abrir novas vias contra o câncer, Marcelo Leite, FSP

 Quando a gente pensa que já viu de tudo na ciência biomédica (e também o seu contrário), aparece pela frente um conceito surpreendente: eletrocêuticos para deter a proliferação de células tumorais. Entre eles, o bom e velho pantoprazol.

Calma, não é para pessoas com câncer saírem tomando o remédio contra azia e refluxo como se fosse água. Todo fármaco tem efeitos adversos, e a pesquisa em questão obteve só uma prova de princípio com células tumorais em laboratório, portanto há um caminho árduo para chegar a um tratamento —se é que.

Eletrocêuticos modulam o estado elétrico de células, com a polarização/despolarização de membranas. O grupo de Michael Levin na Universidade Tufts (EUA) testou seu emprego contra glioblastoma, um renitente tumor cerebral, baseado na noção de que sinais elétricos, e não só os genes, desempenham papel crucial no comportamento das células (e até na comunicação entre elas).

Células cancerígenas - toeytoey/adobe stock

Um desses processos vitais é a diferenciação, percurso que leva células-tronco a se tornarem adultas, vale dizer, um tipo celular especializado num determinado tecido ou órgão, como neurônios no cérebro e hemácias no sangue. Células maduras, que não se dividem tanto, têm membranas hiperpolarizadas; ancestrais primitivas, com alta capacidade de proliferação, são mais despolarizadas.

A estratégia consiste em forçar células cancerosas, que partilham com células-tronco a alta capacidade para multiplicar-se, a avançar na diferenciação interferindo nos canais de íons da membrana, que controlam entrada e saída de partículas carregadas. Amadurecendo e envelhecendo, as células esquecem a proliferação que faz o tumor crescer.

O time de Levin testou várias combinações de fármacos que mexem com canais de íons. As mais eficazes para deter o crescimento de células de glioblastoma in vitro continham na mescla o pantoprazol, inibidor de bombas de prótons que parece potencializar o efeito das outras drogas, mas os pesquisadores não sabem bem por quê.

artigo que descreve o teste saiu em 2022, e não se encontra notícia de que tenha rendido frutos concretos desde então —o que não é de estranhar, pois desenvolver medicamentos pode tomar décadas, ou mesmo dar errado. Se a estratégia se comprovar, contudo, seria uma bela ajuda para tratar esse tumor duro na queda.

O tratamento usual é cirúrgico, seguido de radiação e temozolomida para inibir a mobilização do DNA e, assim, a reprodução celular. Mas a reincidência é alta, da ordem de 90%, partindo em geral da área adjacente ao tumor extirpado, o que faz a sobrevida após cinco anos ficar na casa de meros 10% dos pacientes.

Tão fascinante quanto o potencial terapêutico são as investigações de Levin sobre bioeletricidade na vida em geral, não só na saúde humana. Ele entende que todas as células, não só neurônios, usam eletroquímica para se comunicar e, por que não, reter memória de condições enfrentadas e agir de acordo com esse aprendizado.

Dá o que pensar. Por exemplo, na existência de percepção, memória, cognição e agência até em plantas, fungos e microrganismos, mesmo na ausência de redes de neurônios que confinam essas faculdades vitais no reino animal. Assunto para outras colunas, ou um livro inteiro.

Sua Excelência a pé, Ruy Castro _FSP

 

  • Sem carro fornecido pelo Estado, como os juízes podem ir de casa para o trabalho e vice-versa?
  • Se for por segurança, não poderão julgar nem briga de vizinho, casal em litígio ou atropelamento de cachorro
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

  • 18

Outro dia, assisti na TV ao depoimento de uma juíza de primeira instância sobre as agruras dos profissionais do seu status, o mais inferior da categoria. Aflito, ouvi seu protesto contra o fato de que, ao contrário dos colegas de instâncias superiores, ela não dispunha de carro fornecido pelo Estado. Pela ênfase que dava ao tópico, não se sabe como conseguia dar conta de suas atribuições, sem um veículo que a levasse de casa para o trabalho e, ao fim do expediente, a devolvesse ao sacrossanto recesso.

Sem um carro à custa do erário, o que lhe restava? Ir a pé para o tribunal? Pegar uma carona com um vizinho? Chamar um táxi? Ir de bicicleta? Ou comprar um carro com seu salário e pagar pela gasolina assim como nós, os mortais, temos de fazer? E com a vantagem de seu salário gozar de penduricalhos a que os reles praticantes de outras profissões não fazem jus.

Sua Excelência dirá que os juízes precisam de carro por questão de segurança. De fato, se o sujeito de sua alçada for um arquivo vivo de algum big escândalo corrente, o juiz não deve ficar flanando pela cidade. Aliás, nesse caso, um simples carro oficial não será suficiente —precisará ser blindado, à prova de metralhadoras, e com escolta. Mas não acho que um juiz de primeira instância esteja exposto o tempo todo a tal perigo. Quero crer que a maioria das causas em suas mãos se refira a brigas de vizinhos, casais em litígio, ações contra planos de saúde e atropelamento de cachorro. Exigirão tanta proteção?

Fui informado de que os carros destinados aos juízes devem se limitar às funções do trabalho —é proibido usá-los para ir ao supermercado, buscar as crianças na escola ou ir vistoriar suas propriedades na roça. Parece, inclusive, que, nos fins de semana e feriados, os carros devem se conservar nas garagens oficiais. Mas você sabe como é o Brasil, não?

Exemplarmente, a ministra Cármen Lúcia, do STF, não vai de carro oficial para o trabalho. Vai de táxi e aproveita para bater papo com o taxista a respeito da vida real.