domingo, 8 de março de 2026

Demissão por justa causa bate recorde e cresce 200% ante o pré-pandemia - FSP

 Maeli Prado

São Paulo

Punição máxima prevista pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), a demissão por justa causa bateu recorde em 2025, registrando um crescimento de quase 200% na comparação com 2019, no pré-pandemia.

Dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostram que foram registrados 638,7 mil desligamentos do tipo no ano passado, o maior número desde 2004, quando começa a série histórica. Apenas em janeiro deste ano, foram 65,3 mil casos, alta de 22% ante o mesmo mês do ano passado.

A justa causa representou 2,6% do total de términos de contrato em 2025, também a maior proporção já capturada pelos dados do cadastro, segundo números levantados pelo economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4Intelligence.

A imagem mostra uma mão segurando uma carteira de trabalho, que é de cor azul. A carteira está posicionada sobre uma superfície de cor azul clara. O texto na capa da carteira diz "CARTEIRA DE TRABALHO" e "PREVIDÊNCIA SOCIAL".
Demissão por justa causa bateu recorde em 2025 - Gabriel Cabral/Folhapress

É um movimento que se acentuou nos últimos cinco anos e que é estimulado por uma tempestade perfeita: a combinação de alta rotatividade, maior vigilância dos empregadores sobre funcionários, retorno ao presencial após a pandemia e a chegada da geração Z à vida profissional.

A queda na taxa de desemprego, que segundo o IBGE se reduziu de 14,9% em março de 2021 ao piso de 5,4% no trimestre encerrado em janeiro, ajuda a explicar o aumento dessas demissões de forma indireta.

Em meio às dificuldades de encontrar funcionários, os empregadores abriram o leque das contratações, passando a admitir trabalhadores menos qualificados e com maior dificuldade de inserção no mercado. "Isso pode contribuir para a insatisfação de empregadores e gerar movimentos maiores de demissões por justa causa", diz Imaizumi.

Ele lembra que a justa causa é devida em casos mais graves, como desonestidade, agressão e abandono de emprego, mas também em situações de zona mais cinzenta, como atrasos frequentes, faltas injustificadas e até não se adequar às regras da empresa. "E os funcionários menos qualificados têm uma probabilidade de erro maior", afirma.

Os trabalhadores, por sua vez, com mais opções na mesa, se tornaram mais exigentes em relação à qualidade do emprego. Um sintoma disso é a taxa de rotatividade: o percentual de profissionais que saíram a pedido atingiu mais de 36% em 2025, segundo dados do Caged.

"Existe um cenário que indica a incompatibilidade atual da relação entre empregador e empregado. É como se os dois lados estivessem dizendo que essa relação não está funcionando direito", diz Alexandre Pellaes, pesquisador em tendências para o futuro do trabalho e professor da Fundação Dom Cabral.

Entre os direitos que o trabalhador perde ao ser demitido desta forma estão o saque do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e a multa de 40% sobre o fundo. Não há pagamento de 13º e férias proporcionais, nem de seguro-desemprego.

Números do Caged levantados pela reportagem mostram que as demissões por justa causa se concentram em empresas de setores altamente empregadores, que oferecem vagas pouco atrativas e de baixos salários.

No caso dos hipermercados, por exemplo, esse tipo de demissão representou 10,7% dos desligamentos em dezembro de 2025. Outras atividades com elevada proporção de justa causa são abate de aves em frigoríficos (9,6% do total) e atendimento em call centers (9%).

Quando se olha para os escritórios, a razão para o aumento do uso da sanção máxima prevista na CLT é, em parte, a reversão do trabalho remoto e híbrido para o presencial. A avaliação de especialistas é que, nesse retorno, há um choque de cultura e de autonomia.

O retorno compulsório ao regime presencial resgatou o horário de entrada, o tempo de almoço e a presença física na mesa. Esse cenário criou um ambiente favorável para conflitos que podem escalar para a justa causa.

"Após a pandemia, passou-se a buscar mais qualidade de vida, mais propósito, mais limites de respeito e de tempo", diz Pellaes. "As pessoas não estão mais tão propensas a aceitar práticas que aceitavam antes da pandemia."

As empresas também passaram a adotar complexos sistemas de monitoramento digital do trabalho dos seus funcionários, levantando informações como a frequência de acesso a redes sociais e o tempo de atividade no computador.

"Esse aumento de demissões por justa causa está muito relacionado à hipervigilância dos empregadores em relação aos trabalhadores", afirma Mauro Menezes, advogado trabalhista. "Os meios tecnológicos proporcionam às empresas uma lente de monitoramento muito mais potente e detalhada."

Essa rastreabilidade, diz ele, mudou a dinâmica das punições: o que antes dependia da observação direta de um supervisor, hoje é consolidado em relatórios de dados que servem como prova de baixa produtividade ou de inadaptação às regras da empresa.

Menezes aponta que esse tipo de demissão vem sendo mais usado pelas empresas para punir casos de empregados que praticam assédio sexual e moral. "Antes as vítimas não se enxergavam como vítimas, e isso mudou. São elementos que podem levar à justa causa."

Há ainda outra razão para a disparada da punição, que é a chegada ao mercado de trabalho da geração Z, mais propensa a valorizar outros aspectos da vida que não apenas o profissional. "A nova geração estabelece limites entre vida pessoal e profissional, prioriza a saúde mental e não quer sobrecarga ou tarefas extras não remuneradas", afirma Imaizumi.

Dados do Caged mostram que a taxa de justa causa entre trabalhadores de 18 a 24 anos e de 25 a 29 anos foi de 2,8% e 3% dos desligamentos, respectivamente, em dezembro de 2025. Esse peso cai para 2,45% na faixa etária entre 40 e 49 anos.

"Quando entra uma geração mais nova, mais consciente e combativa, no sentido de questionar práticas de forma incisiva, pode haver a interpretação das organizações de que esse questionamento é uma insubordinação", diz Pellaes.

Especialistas lembram que é comum que a justa causa seja judicializada pelos trabalhadores e que, em muitos casos, seja revertida.

"Como a regra processual é a de que é a empresa que deve provar que houve justa causa, e não o empregado provar que não houve, a empresa que se vê nestas condições tem maiores chances de perder a justa causa", diz o advogado trabalhista Horácio Conde. "O que vemos é que quando a empresa não recebe a orientação adequada, não estrutura corretamente o processo disciplinar ou simplesmente não produz prova suficiente da falta grave."

Para ele, os empregadores passaram a profissionalizar mais os códigos de conduta e regulamentos internos nos últimos anos. "As empresas passaram a estruturar canais de denúncia, auditorias internas e políticas formais de conduta, o que também naturalmente aumenta a possibilidade da identificação de infrações."

Eremildo, o idiota- Elio Gaspari, FSP

 

Eremildo é um idiota e não acompanha o caso do banqueiro Daniel Vorcaro pelo que as pessoas dizem, mas pelas datas em que as coisas aconteceram.

No dia 13 de agosto de 2024 o senador Ciro Nogueira apresentou uma proposta de emenda constitucional alterando a autonomia do Banco Central e elevando de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a conta a ser coberta pelo Fundo Garantidor de Créditos. Ou seja, a conta de uma eventual quebra do Master iria para o sistema bancário. Uma "bomba atômica no mercado financeiro", segundo Vorcaro.

A PEC não andou.

Homem de cabelos grisalhos veste terno azul e camisa branca, sentado em ambiente com painéis verticais escuros ao fundo. Há copo de vidro e microfone próximos a ele
Ciro Nogueira (PP-PI) durante sessão solene do Congresso Nacional - Geraldo Magela - 12.nov.25/Agência Senado

No dia 4 de dezembro, levado pelo ex-ministro Guido Mantega, Vorcaro foi recebido por Lula num encontro fora da agenda pública. Acautelando-se, Lula chamou três testemunhas: Gabriel Galípolo (então diretor do Banco Central), Rui Costa (Casa Civil) e Alexandre Silveira (Minas e Energia). Lula disse-lhe que seus pleitos seriam discutidos tecnicamente pelo Banco Central.

O diretor de Fiscalização (Paulo Sérgio Neves de Souza) e o chefe do Departamento de Supervisão bancária (Belline Santana) estavam no bolso de Vorcaro.

No dia 28 de março de 2025, o Banco de Brasília, o BRB, anunciou a compra de 58% das ações do Master.

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A 4 de abril Galípolo discutiu com os quatro grandes bancos do país uma solução para os ativos do Master que não seriam adquiridos pelo BRB por serem considerados de maior risco. A expectativa, na ocasião, era de um acordo envolvendo o uso do FGC (Fundo Garantidor de Créditos).

Em abril de 2025, cinco meses depois da ida de Vorcaro a Lula, o Banco Central pediu ao Fundo Garantidor de Créditos um empréstimo de R$ 11 bilhões para salvar o Master. O FGC liberou R$ 5,7 bilhões.

Como se viu, não adiantou.

O futuro de Vorcaro

Pelo andar da carruagem, Daniel Vorcaro tomará uma cana pesada. Disso resultará a possibilidade de ele vir a colaborar com a Justiça.

Vorcaro tem mais a contar, além do que seus celulares revelaram.

Quem conhece o mecanismo das delações premiadas acredita que as conversas começarão pelo pagamento de uma multa bilionária. Provavelmente a maior já vista.

Fanfarrão

De um banqueiro conservador:

"O que mais surpreende na novela do Banco Master é o poder de infiltração de um fanfarrão. Vorcaro é um rebento de um tempo de tolerância.

A velha banca não lidava com gente que patrocina eventos na Europa, mantém mansões para festas e tem uma academia perto de seu gabinete para marombar."

O Master acabou no STF - Elio Gaspari - FSP

 O código de ética proposto pelo ministro Edson Fachin estava nas cordas quando os celulares de Daniel Vorcaro começaram a falar. Entre os ministros que se opunham à proposta estavam Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Por caminhos diferentes, os dois levaram o escândalo do banco para dentro do Supremo. Toffoli teve um resort, do qual era sócio, vendido ao cunhado de Vorcaro. Moraes enviava mensagens ao banqueiro, e a banca de advocacia de sua mulher e de seus filhos havia sido contratada pelo banco, com honorários milionários de R$ 3,6 milhões mensais.

Ao longo de todas as encrencas, os dois ministros conseguiram se proteger, vendo nas notícias uma tentativa de atacar o Supremo. O Supremo tem tanto a ver com as conexões dos ministros quanto com a morte do aiatolá Ali Khamenei.

Ministros sentados em semicírculo no plenário do Supremo Tribunal Federal, com público e advogados na plateia. Parede de pedra com cruz e brasão ao fundo
Sessão plenária do STF (Supremo Tribunal Federal) com integrantes da corte - Pedro Ladeira - 12.fev.26/Folhapress

Se existisse um código de conduta, Toffoli poderia dizer aos sócios do resort que a negociação era tóxica e Moraes afastaria a banca da família do banco de Vorcaro. No mínimo diriam que o tribunal tem um código de conduta.

Vorcaro tinha amigos no Legislativo e, no bolso, altos funcionários do Banco Central. Seria o jogo jogado: um banqueiro corrupto compra parlamentares e burocratas. A entrada de magistrados na sua rede de influência é uma novidade. (Talvez isso tenha acontecido porque em casos anteriores a ação da Polícia Federal tenha sido anestesiada).

A bola do código de conduta dos magistrados está com o ministro Edson Fachin e a relatora Cármen Lúcia. Eles deverão decidir a melhor oportunidade para anunciar o texto do projeto.

Nem tão rápido que pareça prejulgamento, nem tão lento que vire pizza fria.

A rede de Vorcaro

A operação abafa destinada a livrar a cara do banqueiro Daniel Vorcaro teve a virtude de colocar mais holofotes sobre suas conexões.

O ministro André Mendonça substituiu seu colega Dias Toffoli e puxou o tapete da turma do abafa. Ele mandou Vorcaro para a cadeia com uma decisão de 48 páginas que expôs a milícia e as altas conexões de Vorcaro. Com habilidade, evitou citar vários hierarcas que têm foro privilegiado.

Com base nas investigações da Polícia Federal e no conteúdo dos celulares de Vorcaro, Mendonça sabe muito mais.