domingo, 1 de março de 2026

Muniz Sodré O neoterrorismo dos notáveis fsp

  

Numa mensagem ao potentado árabe Sultan Ahmed bin Salayem, delicia-se Jeffrey Epstein: "Adorei o vídeo de tortura". Apesar da repetição cansativa dos horrores nos arquivos Epstein, a cada página a magnitude da aberração ainda faz refletir. A frase tenebrosa sugere algo além de sexo stricto-sensu no círculo de depravação que, desde uma princesa norueguesa até um príncipe britânico, se fechou em torno de figuras notáveis do poder global.

Jeffrey Epstein em fotografia para o registro de agressores sexuais do Departamento de Polícia da Flórida - HO/Departamento de Polícia da Flórida - 10.jul.19/AFP

Jean Baudrillard insistia na anedota do devasso que pergunta sedutoramente à parceira: "O que você vai fazer depois da bacanal?" A suposição normalizada é a da orgia como clímax dionisíaco de um encontro sexual, mas na pergunta está implícito um "além" não formulado.

É que há muito tempo vivemos no desencantamento do mundo, outro modo de falar do niilismo total, que recobre praticamente a todos. "As pessoas trabalham com mais eficácia, consomem mais, comem com mais abundância e fazem amor com mais liberdade... mas o trabalho perdeu o sentido, o sexo está perdendo o seu, e a alimentação torna-se uma questão de higiene" (Raymond Ledrut, "La révolution cachée").

Na destruição permanente de todos os valores e de negação, por princípio, de qualquer legitimidade, o sexo perde de fato a referência externa (até mesmo o imperativo biológico da reprodução) que o sacraliza como encontro jubiloso de corpos por pressão do desejo. Não mais é "moderno" associá-lo à subversão antivitoriana (Sigmund Freud) ou à liberdade revolucionária (Wilhelm Reich).

Reduzido a relações contingentes, ele é uma função biologicamente racionalizada e instrumentalizada pelo mercado. Jacques Lacan, o psicanalista que fez furor e faz moda, era taxativo: "Não existe a relação sexual".

Mas como é temerário conceitualizar ou generalizar sobre a pulsão alheia, resta a hipótese de que tudo se limite a uma variedade do niilismo intelectual, despercebido pelo senso comum ou pela passividade da experiência cotidiana. Certo mesmo é que esse durável espírito de destruição exprime plenamente a época atual em muitas formas ativas, a exemplo do terrorismo.

Não o terror dos loucos de Deus, que buscam o paraíso no martírio, no massacre de multidões ou na explosão dos símbolos fortes de um poder. Mas o niilismo terrorista dos valores, com alvo fixo nas vísceras da moralidade, o neofascismo dos ricos. De fato, acontece à nata de uma elite bilionária transpirar aspectos insuspeitados da dimensão terrorista do capital, onde neoliberalismo e neofascismo são duas faces de uma mesma moeda.

Uma rede depravada como a de Epstein é reveladora porque ataca fragmentos de sacralidade humana ainda persistentes na totalização niilista. Trata-se do corpo feminino, antes reverenciado da puberdade à maternidade, agora temido pelo niilismo. De um lado, a ameaça do tecnicismo biológico. De outro, pretexto erótico para o terrorismo da diferença sexual (tortura, pornografia, humilhação) pela degradação do sexo e pela corrupção de menores. Versão neoliberal da burca talibã. Nesse ecossistema bestial fazem cadeia bilionários, gurus, TrumpClinton, príncipe, princesa. O ex-príncipe Andrew Mountbatten-Windsor, literalmente: a polícia já bateu na porta e levou.


Ruy Castro Mel Brooks, feroz e letal- FSP

 Mel Brooks, humorista, comediante, cineasta, dramaturgo, compositor e letrista, fez 99 anos. Está em grande forma e, com razão, a Broadway lhe despeja confetes. Exceto por Woody Allen, é o último remanescente da geração que, na Nova York dos anos 1950 e 1960, revolucionou o humor nos EUA –os outros, Carl Reiner, Neil Simon, Joan Rivers, Larry Gelbart, Lenny Bruce, Elaine May. Tudo que se faz hoje de stand-up surgiu deles. Mas Brooks sempre levou uma vantagem: é tão feroz e letal na vida real quanto na página escrita. Eis amostras de suas respostas em entrevistas.

"Adoro espaguete e sexo. Às vezes, ao mesmo tempo". * "Se Deus quisesse que voássemos, teria nos mandado as passagens". * "O que os presidentes não fazem com suas esposas fazem com o país". * "Se Bernard Shaw e Einstein não escaparam da morte, que chance você tem? Praticamente nenhuma". * Vim à luz na mesa da cozinha. Éramos tão pobres que minha mãe não tinha condições de me parir. Tive de nascer de uma senhora vizinha".

"Meus filmes estão um degrau abaixo da vulgaridade". * "Se as pessoas soltam pum na vida real, por que não nos filmes? A boca pode dizer o que quiser, mas o outro lado tem de ficar calado. Quem sabe ele não tem algo a dizer?". * Pessoas que soltam pum são uma minoria reprimida. Precisamos tirá-las do armário e trazê-las para a sala". * "O mau gosto se resume em dizer a verdade antes que ela possa ser dita".

"Não sou um gigante da comédia. Tenho só 1,65m". * "Ser baixinho só me incomodou por três segundos. O resto do tempo levei querendo me matar". * "Não sou um gênio de verdade. Sou um quase gênio". * "O humor é uma defesa contra o Universo". * "Graças a ‘Primavera para Hitler’, sou o único judeu que ganhou dinheiro com Hitler". * "A tragédia é quando eu corto o dedo. Comédia é quando você cai num bueiro e morre".

"Torça pelo melhor, mas espere pelo pior. A vida é uma peça de teatro mal ensaiada". * "É fundamental fracassar. Enxugue as lágrimas e você será melhor como pessoa e como artista".

Hélio Schwartsman - matéria do mal, FSP

 Acho que foi Woody Allen quem criou um personagem que se deprimia com o fato de que, dentro de bilhões de anos, o Universo vai acabar. Para Drew Dalton, a morte térmica do Universo não é motivo para piada, mas para séria reflexão ética.

Em "The Matter of Evil", Dalton sustenta que aquilo que a ciência nos informa sobre o mundo precisa estar no centro de nossa metafísica e que esta deve orientar nossos juízos éticos. O quadro resultante não é bonito. A mensagem da ciência é a de que o Universo não é um lugar aprazível. Uma das poucas certezas que temos é a entropia, que inevitavelmente levará à destruição de tudo, matéria e pensamento. O absoluto é mau.

"The Matter..." é um livro ambicioso. O autor começa renegando Kant. Para Dalton, quando o prussiano decretou a impossibilidade de conhecermos as coisas em si (só o fenômeno nos é acessível), ele baniu o absoluto da filosofia e a condenou ou à irrelevância, ou ao quietismo, ou a alguma das muitas formas de niilismo contemporâneas. Dalton sustenta que precisamos resgatar a possibilidade do absoluto e que uma visão de mundo cientificamente informada é o caminho para isso. Daí o pessimismo metafísico do autor.

Minha impressão é que Dalton se agarra a uma concepção excessivamente realista da filosofia das ciências. Não são poucos os epistemologistas que veem a ciência de modo mais instrumental, incapaz de afirmar certezas sobre o mundo. O autor passa meio batido por esses problemas.

O legal do livro é o passeio pela história da filosofia que ele nos proporciona. Dalton faz ótimas observações não só sobre Kant mas também sobre SpinozaSchopenhauer e Nietzsche, além de pincelar o pensamento de autores contemporâneos como Meillassoux e Badiou.

Ao fim e ao cabo, ele se aproxima de Schopenhauer. A realidade não presta, mas podemos, momentaneamente, nos aproximar do bem, que surge como ideia por contraposição ao mal, que é ubíquo. É um pouco como a vida: não tem sentido e vai acabar, mas podemos tentar aproveitá-la enquanto durar.