sábado, 29 de agosto de 2020

'Dar fim à bandidagem', Oscar Vilhena Vieira, FSP

 O afastamento de Wilson Witzel do governo do Rio de Janeiro não chega a surpreender, uma vez que conspirou, desde o primeiro dia de seu mandato, contra os princípios mais elementares do Estado de direito. Lamento, no entanto, que a intervenção judicial não tenha sido decorrência da postura miliciana assumida pelo ex-juiz e agora governador. Difícil esquecer a imagem do helicóptero do governador metralhando uma tenda de orações, nos arredores de Angra dos Reis, sob o pretexto de “dar fim à bandidagem”. Seria pedagógico que além da corrupção, a violação sistemática de direitos humanos também passasse a ser vista como um obstáculo ao exercício do poder no Brasil.

Witzel é apenas mais um oportunista numa cepa de políticos que fizeram da miséria da segurança pública uma fonte inesgotável de votos, do qual Bolsonaro é o prócer. Desinteressados na reforma das políticas criminais, modernização do sistema de Justiça e na profissionalização das forças policiais, exploram o medo da população, vendendo a ilusão de que com o aumento do arbítrio do Estado e impunidade de seus agentes, além do encarceramento em massa, a questão da segurança estará resolvida.

Os mais de 1 milhão de mortos por homicídio nos últimos 30 anos são a expressão mais cabal de que a prevalência de uma política repressiva e arbitrária de segurança é absolutamente ineficaz para assegurar o direito à vida e à paz da população.

Na contramão dessa espiral autoritária, que vem agravando a violência e a violação de direitos das populações vulneráveis no Brasil, o Supremo Tribunal Federal proferiu duas relevantes decisões.

Na ADPF 635, a maioria dos ministros do STF, sob a liderança do ministro Edson Fachin, não apenas proibiu a realização de operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro durante a epidemia de Covid-19, salvo em situações excepcionais e devidamente justificadas, como reconheceu que o Estado brasileiro tem empregado a violência letal de forma sistêmica e desproporcional, citando inclusive a condenação do Brasil no sistema Interamericano de Direitos Humanos, além do desrespeito aos Princípios Básicos das Nações Unidas para o Uso da Força.

Como salienta o advogado Gabriel Sampaio, da Conectas Direitos Humanos, desde a concessão da cautelar houve uma redução de 72% no número de mortos pôr intervenção de agentes do Estado e uma queda de 19% nos homicídios, no Rio de Janeiro. Isso demonstra a insensatez e ineficácia dessas operações.

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O ministro Edson Fachin também foi relator de um habeas corpus coletivo interposto pela Defensoria Pública do Espírito Santo, em que por unanimidade os ministros da Segunda Turma do STF determinaram que as “unidades de execução de medidas sócio educativas de adolescentes não ultrapassem a capacidade projetada”, impedindo assim a superlotação dos estabelecimentos, que não apenas viola direitos dos internos, como contribui para o aumento do potencial criminoso dos egressos e o fortalecimento do crime organizado. O próximo passo deverá ser ampliação dessa decisão para o sistema prisional de adultos, também declarado inconstitucional.

Essas decisões do STF estabelecem o imperativo de compatibilizar políticas de segurança com pleno respeito a direitos. Caso os setores liberais e progressistas de nosso espectro político não sejam capazes de formular políticas responsáveis e consequentes de justiça e segurança, a indústria da violência continuará beneficiando políticos populistas e oportunistas, para a alegria da bandidagem.

Oscar Vilhena Vieira

Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP.

Nelson de Sá 'Revolução' de Limbaugh, Drudge e Hannity acabou com a 'verdade', FSP

 

Em 5 de agosto de 1987, sob pressão do presidente republicano Ronald Reagan, a agência de comunicação dos EUA (FCC) derrubou a Fairness Doctrine, doutrina de equidade, que determinava que as concessionárias de rádio e TV abrissem espaço para diferentes visões sobre temas de interesse público.

“Com as ondas do rádio desacorrentadas, o palco estava pronto para uma nova e explosiva voz: Rush Limbaugh”, escreve Matthew Lysiak no recém-lançado “The Drudge Revolution” (BenBella Books, capa abaixo).

O subtítulo toma quase toda a capa do livro: “A história não contada de como o Talk Radio, a Fox News e um balconista de loja de presentes com uma conexão de internet derrubaram a mídia mainstream” ou tradicional nos EUA.

A expressão Talk Radio é usada para radialistas de opinião como Limbaugh, populistas em geral de direita, e o balconista é Matt Drudge, que criaria em 1994 o Drudge Report, desde então o agregador de referência da direita.

Em 1988, Limbaugh deu o pontapé na “revolução” quando iniciou transmissão em rede nacional, a partir da WABC —a Jovem Pan de Nova York. Foi a WABC que revelou também Sean Hannity, hoje o âncora de maior audiência do canal Fox News e o mais próximo de Donald Trump.

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A Fox News foi lançada em 1996 pelo magnata conservador Rupert Murdoch e pelo marqueteiro republicano Roger Ailes, que havia trabalhado nas campanhas presidenciais de Richard Nixon, Reagan e George Bush, pai —e que, pouco antes de morrer, atuou na campanha de Trump.

A exemplo do ex-chefe Nixon, Ailes se via “lutando contra todo o establishment da mídia, em guerra contra uma cabala liberal de redes de TV, uma elite não eleita e pequena”, como descreve Brian Stelter no também recém-lançado “Hoax” (Atria/One Signal, capa acima).

No subtítulo, “Trump, Fox News e a distorção perigosa da verdade”. Como afirmam os dois livros, mais que um ideário conservador organizado, foi esse combate à verdade estabelecida pela mídia “mainstream” que uniu Limbaugh, Drudge e Ailes.

Também aqueles que os seguiram. Lysiak relata a primeira conversa entre Drudge e Andrew Breitbart, que trabalharia por quase uma década no Drudge Report e criaria em 2005 o seu próprio e bem-sucedido Breitbart News.

Em 1995, aos 26 anos, ele ouviu do editor já influente que os EUA “anseiam por pontos de vista alternativos à mídia controlada pelo pequeno grupo de elites dispostas a moldar notícias, não reportá-las”. Drudge citou Limbaugh e as “message boards”, os fóruns que prosperavam então.

Breitbart morreu em 2012 e foi substituído no comando de seu site por Steve Bannon, que quatro anos depois chefiaria a campanha e se tornaria em seguida o principal estrategista do governo Trump, em seu primeiro ano.

Limbaugh e Drudge também se engajaram na eleição do republicano em 2016, através de suas plataformas, mas o segundo vem se afastando ao longo do último ano e meio e principalmente após o avanço da Covid-19 nos EUA.

O papel da Fox News ao minimizar a pandemia é o maior alvo de Stelter. “Hoax” ou embuste, seu título, foi a palavra usada em fevereiro por Trump e ecoada 900 vezes pelo canal, para questionar como invenções democratas os fatos sobre a doença.

“A era Trump foi a era do embuste”, escreve o jornalista, ex-New York Times, hoje na concorrente CNN. “Os espectadores da Fox saem com a impressão de que não se pode saber verdadeiramente nada.”

Nelson de Sá

Jornalista, publica a coluna Toda Mídia e cobre imprensa e tecnologia