sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Teoria da conspiração da direita americana, QAnon chega ao Brasil e empolga bolsonaristas, Fabio Zanini, FSP

 

“Reinício! Este é plano do projeto Qanon. A atual estrutura de controle e poder será destruída”.

Essa mensagem, que parece saída de um jogo de videogame, é na verdade de um e-book que acabou de ser lançado no Brasil, com o objetivo de atrair adeptos ao mais novo movimento da extrema direita a ser importado dos EUA.

O QAnon (pronuncia-se “quíanon”) surgiu em 2017, com todos os elementos de uma típica comunidade de amalucados discutindo teorias da conspiração. Tudo muito folclórico, até essa franja da direita americana começar a ganhar espaço nos debates políticos e a ocupar espaços eleitorais.

No início de agosto, pela primeira vez uma adepta do movimento conquistou o direito de se candidatar a uma cadeira na Câmara dos Deputados dos EUA. Marjorie Greene, do estado da Geórgia, tem grandes chances de ser eleita em novembro, concorrendo pelo Partido Republicano.

O próprio presidente Donald Trump foi perguntado por jornalistas na semana passada sobre o QAnon. Disse que tinha pouca informação sobre o movimento, mas se mostrou satisfeito com o fato de contar com a simpatia de seus membros.

Fica até difícil identificar uma ideologia propriamente dita no QAnon. É uma mistureba de teses bizarras que, grosso modo, denunciam uma certa “elite financeira mundial” por financiar de satanismo a pedofilia.

A salvação só virá após uma intensa mobilização conservadora que varrerá essa casta diabólica do mapa. Esse momento tem vários nomes: “Reset” (reinício), “Grande Tempestade”, ou “Grande Despertar”,

Politicamente, os adeptos desse movimento são fortes apoiadores de Trump e de outros líderes globais da direita populista. No Brasil, isso se traduz na defesa de Jair Bolsonaro. Também há uma forte presença de um discurso cristão ultraconservador, que não poupa nem o papa Francisco.

O QAnon se baseia fortemente em símbolos, a começar pelo nome do movimento. A letra “Q” se refere a uma suposta pessoa (alguns acreditam ser um grupo de pessoas) que teria uma posição importante na estrutura de governo americano e acesso a relatórios secretos do “Deep State”, o “Estado profundo”.

“Anon” é referência ao fato de que muitos dos seus seguidores imediatos são anônimos e decifram as denúncias postadas de forma cifrada por “Q”, que depois alimentam teorias conspiratórias.

A coisa toda surgiu pela primeira vez na plataforma 4Chan, um fórum virtual muito usado pela direita. Hoje, se espalhou por redes como Twitter, Telegram e YouTube.

No Brasil, o QAnon começou a adquirir alguma popularidade a partir do começo deste ano e ainda parece ser algo restrito. Não há parlamentares ou pessoas ligadas ao governo Bolsonaro que explicitamente assumam pertencer a ele, embora compartilhem algumas pautas, métodos e valores.

Tem sido cada vez mais comum, por exemplo, encontrar referências à ameaça representada por pedófilos em tuítes de expoentes do bolsonarismo.

Embora seja basicamente um movimento de redes sociais, referências isoladas à letra “Q” já apareceram em algumas manifestações de apoiadores do presidente em Brasília e São Paulo.

Letra “Q”, símbolo do QAnon, em carro durante ato de apoio a Bolsonaro em Brasília, em maio (Reprodução)

Os manda-chuvas da comunidade usam pseudônimos. O autor do e-book recém-lançado no Brasil, por exemplo, se apresenta como Witcher Frog (sapo feiticeiro).

O livro destinado ao público brasileiro, lançado em 17 de agosto, se chama “O Movimento QAnon – Introdução à História que Mudará o Mundo”. Tem 50 páginas e pode ser comprado na internet por R$ 5,90, no site de outro integrante da comunidade, chamado Paladin Rood.

“Fé, coragem e força movem o movimento Q. A última cruzada diante da perenidade de um mundo perdido e dominado pelas trevas. O movimento Q se tornou a nova religião do cristianismo e do conservadorismo unindo-os pelo sentimento e objetivo de vencer o mal e as injustiças”, diz um trecho do livro.

Na capa, há uma ilustração em que “Pepe The Frog”, personagem símbolo da direita radical americana, monta um cavalo enquanto o prédio do Congresso americano arde em chamas.

A lista de inimigos do movimento é grande. Como relata o livro, são “multibilionários globalistas, ditadores sanguinários, políticos corruptos, a grande mídia, bigtechs do Vale do Silício, os maiores bancos do mundo, a bigpharma [farmacêuticas], organizações criminosas, organizações terroristas, grandes narcotraficantes, organizações de tráfico humano, redes de pedofilia, militares traidores de alta patente, agência de inteligência nacionais e internacionais”.

Também sobra para a maçonaria, para os defensores das estratégias de isolamento social contra a pandemia e para a China. Bill e Hillary Clinton estão entre os alvos prediletos.

Segundo o livro, a Fundação Clinton “é uma das principais responsáveis pelo tráfico de crianças em todo o mundo”. Hillary é descrita como uma satanista cujo objetivo é destruir a família.

Mas há teorias para todos os gostos, desde as recicladas, como a de que o ex-presidente George Bush simulou os ataques de 11 de setembro de 2001, até novidades, como a de que John Kennedy Jr., filho do ex-presidente JFK, não morreu num acidente aéreo em 1999 e vai ressurgir como um apoiador de Trump.

Um dos aspectos mais pitorescos é o uso de símbolos, mapas e números que seriam indicados por “Q” e decodificados por seus seguidores mundo afora. No Brasil, um dos principais “tradutores” é o perfil Dom Esdras (outro pseudônimo), que tem 73 mil seguidores no Twitter.

Um dos raros adeptos do QAnon brasileiro que não usa pseudônimo é o professor aposentado Stuart Linhares, 55, morador de Florianópolis (SC).

Apoiador de Bolsonaro, ele disse, por telefone, que começou a ter contato com o movimento no começo do ano, buscando na internet.

“Fui pesquisando sites e vídeos, vi assuntos de cair o queixo, como uma rede de pedofilia internacional da elite financeira mundial. Comentei com outro amigo meu, que me mandou um link no Twitter, me deu uns negócios para eu seguir, pesquisar. E comecei a acessar um, outro e cheguei no QAnon”, afirmou.

Para Linhares, seria exagero dizer que o QAnon no Brasil é um movimento. “Movimento é uma coisa organizada, que traça estratégias. Por enquanto são pessoas que estão se informando, trocando ideias”, diz ele, que estima ter cerca de 80 pessoas com as quais interage.

O contato com outros membros dessa comunidade, afirma ele, se dá puramente por meio de redes sociais. Ele contribuiu com R$ 40 para uma vaquinha online que viabilizou a publicação do e-book, mas diz desconhecer a identidade real do autor.

De acordo com Linhares, as informações relatadas pelo QAnon são em geral embasadas em fontes confiáveis. “Não tem sensacionalismo. Tem coisa que não é verdade, que é fruto de entusiasmo de alguns. Mas algumas coisas têm fundo de verdade, sim, e merecem ser investigadas, apuradas”, afirma.

“Travamos uma luta contra uma elite que manda e não aparece. Antigamente eles passavam incólumes”, diz Linhares. “Nos EUA, o QAnon são pessoas de alto nível, altamente instruídas, que mostram o que está acontecendo por baixo dos panos. São militares de alta patente, políticos, patriotas, que querem defender o país”.

No repertório do movimento, a pedofilia tem lugar especial. É como se fosse a mãe de todas as teses conspiratórias, diz o professor Odilon Caldeira Neto, da Universidade Federal de Juiz de Fora e coordenador do Observatório da Extrema Direita.

“É um tema que tem grande apelo na sociedade, e não apenas para os setores conservadores. E é também muito forte para deslegitimar inimigos políticos”, afirma Caldeira Neto.

Embora sem usar o rótulo QAnon, traços dessa estratégia de mobilização vêm sendo usadas por diversos bolsonaristas, como se viu recentemente na campanha de difamação contra o youtuber Felipe Neto. Também foram alvos o MBL (Movimento Brasil Livre) e ministros de cortes superioras.

Segundo Caldeira Neto, o QAnon é mais um exemplo da tentativa da direita brasileira de emular novos produtos que surgem nos EUA. Um exemplo anterior foi a estética “vaporwave”, que combina referências estéticas dos anos 80 e 90 a uma linguagem de videogame.

“É novamente o rito de tentar reproduzir as expressões da direita radical americana no Brasil. Não dá para dizer ainda o que essa vai virar, mas mostra uma capacidade de interlocução com setores cristãos, na pauta de costumes”, afirma.

Apoiador de Donald Trump segura letra ‘Q’ com a bandeira americana enquanto aguarda o presidente em um comício na Pennsylvania – Rick Loomis – 1º.ago.2018/AFP

Nos EUA, diz Caldeira Neto, o QAnon já está um passo à frente e diversificou a pauta da pedofilia para outros temas, como a ameaça da China, a “farsa” do coronavírus ou os interesses por trás da implantação da tecnologia 5G.

“Tudo isso entra como uma denúncia do suposto Deep State [Estado profundo], que teria vários braços, seria um polvo com vários tentáculos”, afirma.

A força mobilizadora do QAnon já se manifesta na campanha americana em prol de Trump, com ataques frequentes a supostas relações do Partido Democrata com pedófilos. No Brasil,  é improvável que essa comunidade tenha peso decisivo –ao menos por enquanto.

Reinaldo Azevedo - Guedes e Bolsonaro são reacionários desiguais e combinados, FSP

 

Paulo Guedes salta na frigideira porque seu modo de ser reacionário não combina com o de seu chefe, Jair Bolsonaro. O tal "Big Bang" do ministro da Economia —o dito "plano econômico-social"— promove uma redistribuição da pobreza entre os pobres. Seu chefe achou a coisa explícita demais, com potencial eleitoral danoso.

No universo recriado por Guedes, o Brasil continuará a ser o país em que, segundo o Relatório da Desigualdade Global, da Escola de Economia de Paris, os 10% mais ricos ficam com 55% da renda. O problema não está aí. Ocorre que o 1% dos ricos de verdade —coisa de 1,4 milhão de adultos— ficam com mais da metade: 28,3%.

Não fiz a conta. Talvez seja o caso de saber quanto detêm do tal bolo aqueles que formam o 0,1%, a "crème de la crème" da concentração de renda. Os liberais de fancaria que andam por aí a vomitar obscenidades logo vociferam: "Ninguém é pobre porque o outro é rico. É preciso esforço!".

Fruto da indolência, quem sabe?, os 50% mais pobres têm de se contentar com 13,9% do conjunto de todos os rendimentos. A seu modo, Guedes até quer fazer alguma correção. Pretende acabar com a dedução no Imposto de Renda dos gastos com saúde e educação. Topa mexer naqueles 10% que concentram 55% da renda, mas nunca no 1% que abocanha 28,3%. Quanto ao 0,1%, bem...

O ministro é um reacionário antipopulista. E é aí que seu modo de fazer o Brasil andar para trás se choca com o do chefe. O "Mito" descobriu o potencial eleitoral do assistencialismo agressivo e precisa do voto de milhões. Ao comandante da Economia, basta o apoio da Faria Lima, com a concordância, é certo!, do presidente.

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A questão, por enquanto sem resposta, é como "tirar dos pobres para dar aos paupérrimos" sem que os primeiros reajam nas urnas. Será Bolsonaro, no confronto com Guedes, um pouco mais, digamos, "progressista"? Respondo com um fato. Na terça (25), ao falar na abertura do congresso nacional da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), o presidente lembrou que começou a trabalhar aos dez anos, num boteco, por decisão de seu pai, e fez a defesa aberta do trabalho infantil.

Com gramática sempre peculiar, mandou brasa: "Meu primeiro emprego, sem carteira assinada obviamente, eu tinha dez anos de idade. Foi no bar do seu Ricardo, em Sete Barras, no Vale do Ribeira. (...) E bons tempos, né?, onde (sic) menor podia trabalhar. Hoje ele pode fazer tudo, menos trabalhar, inclusive cheirar um paralelepípedo de crack, sem problema nenhum". Aplausos.

Antes ainda da posse, em dezembro de 2018, Guedes afirmou que os 30 anos de ineficiência da social-democracia seriam interrompidos por ao menos quatro anos de liberalismo associado ao conservadorismo. É mesmo?

Numa democracia, conservadores aceitam o progresso social e buscam conservar o molde institucional. Já os reacionários pretendem fazer o país marchar para trás, conservando não instituições, mas iniquidades —e, se possível, ressuscitando fantasmas. A depender do caso, podem ser disruptivos, golpistas.

No idílio passadista bolsonariano, filho de pobre trabalha e o do rico estuda, reproduzindo, assim, um e outro, o ciclo de desigualdade. Nessa perspectiva, dispensa-se um Estado que possa já nem se diga corrigir as injustiças, mas, ao menos, capacitar um pouco mais a criança pobre para uma disputa de... desiguais.

Ainda que aos trancos e barrancos e, às vezes, recuos, o mundo caminha tendo como norte a justiça social. Logo, toda ação reacionária será sempre contra os desvalidos, os que podem menos, os injustiçados. Existe, sim, o bom conservador. Mas inexiste o reacionário virtuoso.

Bolsonaro cobra de Guedes que coloque uns tostões a mais no bolso dos pobres para que as urnas sustentem seu propósito de resgatar aquele passado idílico, em que filho de pobre trabalha feliz para honrar a sujeição histórica de seu pai. Vivemos o momento glorioso de uma tensão entre reacionarismos distintos e combinados.

Reinaldo Azevedo

Jornalista, autor de “O País dos Petralhas”.