domingo, 3 de maio de 2026

Se Lula quiser paz, indicará mulher para a cadeira vazia do STF, ELio Gaspari, FSP

 Pelo andar da carruagem, se Lula quiser paz, indicará uma mulher para a cadeira vazia do STF. A escolha blindaria a candidata. Acima de qualquer preconceito de gênero.

O Supremo Tribunal teve três mulheres: Ellen Gracie, Rosa Weber e Cármen Lúcia.

Ganha um fim de semana no resort Tayayá quem lembrar de uma só encrenca ou farofa em que qualquer uma delas tenha se metido.

Duas mulheres vestindo togas pretas e camisas brancas posam sorrindo lado a lado contra parede clara. Ambas têm cabelos curtos, uma com cabelo grisalho e outra loiro claro.
Rosa Maria Weber (à dir.) recebe cumprimentos da ministra Cármen Lúcia durante cerimônia de posse como ministra do STF em Brasília - Sérgio Lima - 19.dez.11/Folhapress

Ventania

A rejeição de Jorge Messias prenuncia uma tempestade para 2027, quando entra na cena um Senado renovado em dois terços.

Com ministros do Supremo Tribunal Federal dobrando suas apostas contra críticas documentadas, a água vai para o impedimento de pelo menos um de seus ministros, talvez dois.

Duas cadeiras no STF são o sonho do consumo de qualquer presidente em início de mandato.



Por que os populistas odeiam jornalistas?

 

Mafalda Anjos

Entre estas duas carteiras de jornalista vão 28 anos e há um mundo de diferenças. Quando comecei a trabalhar, em 1998, os jornalistas eram vistos como os guardiões da democracia e da verdade e desfrutavam de uma grande credibilidade junto do público.

Hoje, muito mudou. A imprensa está debaixo de fogo de todos os lados, e a sua imagem sofreu uma grande erosão, causada por erros próprios, certamente, mas sobretudo pelo efeito da digitalização e das redes sociais, pela polarização política e pelos ataques dos populistas, que veem os jornalistas como "inimigos do povo".

Há dias, a organização Repórteres Sem Fronteiras anunciou que a liberdade de imprensa global está em deterioração acentuada - no nível mais baixo dos últimos 25 anos. Portugal está em 10º lugar, o Brasil subiu na classificação para 52º, os Estados Unidos estão na posição 64º.

Presidente dos Estados Unidos popularizou a expressão fake news, apelida a imprensa de referência de "desonesta, corrupta ou falida" e faz acusações pessoais permanentes a repórteres.

Homem de perfil com cabelo claro penteado para trás, vestindo terno azul escuro, camisa branca e gravata amarela, com broche da bandeira dos EUA na lapela, em ambiente externo com veículos desfocados ao fundo.
Presidente Donald Trump fala com jornalistas antes de embarcar no Air Force One no Aeroporto Internacional de Palm Beach, em 2 de maio de 2026, em Palm Beach, Flórida. Roberto Schmidt/Getty Images/AFP - ROBERTO SCHMIDT/Getty Images via AFP

Na semana passada, o governo de Javier Milei revogou o acesso de todos os jornalistas credenciados à Casa Rosada, uma medida inédita na democracia argentina, que põe em causa o acesso à informação. No Brasil, o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro também segue o padrão do pai de hostilidade à imprensa, acusando-a de "mentiras" e "viés ideológico". Em Portugal, a ultra-direita difundiu a expressão "jornalixo".

Este ataque concertado e global faz parte, obviamente, de uma estratégia política deliberada. Com a internet, os políticos perceberam que podem atalhar caminho, ultrapassar estes guardiões e falar diretamente com os eleitores, sem ter de passar pelo filtro jornalístico.

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É que o papel dos órgãos de imprensa é, por definição, incômodo para os poderosos, todos eles: são os jornalistas que escrutinam a vida pública, que colocam as perguntas difíceis e que apontam as incongruências e falsidades.

Reparem: é claro que os jornalistas também cometem erros, mas procuram obedecer a um código deontológico que os compromete com princípios éticos e com os fatos. Desacreditar e descredibilizar a imprensa é uma das primeiras formas de minar por dentro as democracias.

Mas, como um familiar de um paciente com Alzheimer continua a cuidar dele mesmo sabendo que este não é reconhecido, cabe aos jornalistas continuar a fazer o seu trabalho, apesar do reconhecimento que recebem por ele ser, nesta altura, desproporcionalmente menor do que a importância que têm para a defesa do bem comum.

Messias, dosimetria e autopreservação, Lara Mesquita, FSP

 A rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para o Supremo e a derrubada, pelo Congresso, do veto presidencial ao PL da Dosimetria, lei que afrouxa punições e beneficia diretamente os condenados pelo 8 de Janeiro, não são episódios isolados. Expressam os limites de um governo de esquerda minoritário diante de um Congresso com maioria de centro-direita e direita.

E revelam mais: em momentos de crise e autoproteção institucional, a distância ideológica entre presidente e maioria legislativa torna-se ainda mais custosa. O caso Banco Master, com suas conexões políticas e judiciais, agrava esse quadro ao aumentar os incentivos para acordos defensivos entre atores que têm pouco interesse em fortalecer o Executivo.

Grande grupo de deputados reunidos no plenário de uma casa legislativa, muitos tirando fotos com celulares e comemorando. Alguns parlamentares estão sentados nas mesas ao fundo, observando a movimentação.
Parlamentares da oposição comemoram a derrubada do veto ao projeto da dosimetria em sessão do Congresso Nacional - Pedro Ladeira - 30.abr.2026/Folhapress

Estudos sobre governos minoritários ajudam a entender esse impasse. O cientista político José Antônio Cheibub mostrou em seus trabalhos que presidentes sem maioria legislativa não estão automaticamente condenados à paralisia. A capacidade de governar depende da posição que ocupam no espectro ideológico e da distribuição de preferências no Congresso.

Quando o chefe do Executivo está próximo ao parlamentar mediano, pode governar por meio de "maiorias móveis": buscar apoio na centro-esquerda para pautas sociais e na centro-direita para reformas econômicas.

Quando o presidente está distante da maioria legislativa, o custo da governabilidade aumenta. O governo de minoria é empurrado a uma escolha amarga: ou capitula ideologicamente, abandonando promessas de campanha para aprovar apenas o que agrada à maioria conservadora, ou tenta montar uma coalizão, entregando ministérios vitais e o controle do orçamento a adversários em troca de sobrevivência.

Parece ser esse o impasse enfrentado por Lula, agravado pelas ameaças decorrentes do escândalo do Banco Master. O caso não explica tudo, mas amplia os incentivos de autoproteção de parcelas do sistema político e reduz a disposição para conciliação com um governo já minoritário. A bancarrota de Daniel Vorcaro incentiva a busca, como na Lava Jato, de um "grande acordo, com Supremo, com tudo".

Nesse contexto, a indicação de Messias não conseguiu produzir a sinalização política que parte do Senado parecia demandar. Sua proximidade com Lula, os sinais de que defenderia a moderação na atuação dos ministros do Supremo e o apoio a André Mendonça no caso do Banco Master não contribuíram para persuadir a maioria dos senadores a apoiar sua indicação.

desempenho de Lula nas pesquisas de intenção de voto mais recentes aumenta a pressão. Quando a reeleição parece ameaçada, aliados se afastam, adversários elevam o preço do apoio, e o Congresso começa a antecipar o poder futuro. Para parte da maioria legislativa, pode parecer mais racional apostar no desafiante, ideologicamente mais próximo e que sinaliza estar disposto a ampliar concessões ao Congresso, incluindo ceder uma cadeira do STF.

Um lembrete para o pleito de outubro: o voto para deputados e senadores não pode ser dissociado do voto para presidente. Presidentes não governam sozinhos. Sem maioria legislativa, o Executivo perde agenda, perde veto e passa a administrar derrotas, por mais churrascos e almoços que o Planalto esteja disposto a oferecer.