sexta-feira, 28 de agosto de 2020

BC estuda impactos e avalia emitir moeda digital, FSP

 


BRASÍLIA

O Banco Central deu, na semana passada, o primeiro passo para viabilizar a emissão de moeda digital brasileira. A autoridade monetária criou um grupo de trabalho para discutir impactos, benefícios e custos do novo modelo monetário e pretende, em seis meses, levantar informações e produzir um relatório detalhado sobre o tema.

O documento será entregue à Diretoria Colegiada, que tomará a decisão de levar ou não adiante o projeto. O dinheiro virtual do governo seria apenas uma nova forma de representação da moeda já emitida pela autoridade monetária, ou seja, faria parte da base monetária do país.

A ideia é amplamente defendida pelo presidente da autarquia, Roberto Campos Neto. Em diversas ocasiões ele afirmou que o objetivo do BC com a implementação do sistema de pagamentos instantâneos, chamado de Pix, e do Open Banking é que ambos culminem na criação de uma moeda digital.

O Open Banking, ou Sistema Financeiro Aberto, é uma plataforma pela qual o consumidor poderá compartilhar seus dados financeiros com outras instituições em busca de condições de crédito melhores. O novo modelo e o Pix começarão a funcionar em novembro.

“Já participamos de diversos fóruns internacionais sobre o tema e iniciamos oficialmente o grupo de trabalho. Montamos um cronograma e a projeção é que essa fase inicial, de levantamento das informações e sugestão de modelo, seja concluída em seis meses”, afirmou o chefe adjunto do departamento de tecnologia da informação e coordenador do grupo de trabalho, Aristides Andrade.

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Entre os objetivos do grupo de trabalho, estão a proposta de modelo de eventual emissão de moeda digital, com identificação de riscos, e a análise de impactos sobre a inclusão e a estabilidade financeiras, além da condução das políticas monetária e econômica.

Segundo o BC, a emissão de moeda digital por bancos centrais pode ser uma possibilidade para aprimorar o modelo vigente das transações comerciais entre as pessoas e entre países. "Essa nova forma de moeda, no entanto, pode provocar mudanças substanciais no sistema financeiro", disse, em nota.

Atualmente, nenhum país do mundo emite moedas digitais oficiais, mas a China e a Suécia têm estudos já avançados sobre o tema. “Conversamos com os bancos centrais dos dois países. Eles pretendem criar uma alternativa oficial arranjos de pagamentos fechados, já bastante difundidos, mas geridos por empresas privadas. Na China, táxis só aceitam moedas digitais, por exemplo”, contou Andrade.

A emissão de moeda digital oficial, chamada de CBDC (Central Bank Digital Currency), já está em fase de implementação na China. Caso o Brasil avance rapidamente no projeto, pode ser um dos pioneiros.

A tecnologia que seria utilizada no novo modelo ainda não foi definida, mas a mais conhecida e utilizada em bitcoins, são os blockchains, uma espécie de criptografia. “A CBDC pode ser um complemento ao Pix. Seria distribuída pelo sistema financeiro, como é feito com o dinheiro físico, só que por meio digital”, adiantou o técnico do BC.

A diferença entre o dinheiro virtual oficial e as criptomoedas que existem hoje no mercado (Bitcoins ou criptomoedas) é que a emitida pelo BC seria semelhante ao papel-moeda, assegurada e gerida pelo estado, enquanto as outras não têm garantias.

Além disso, a moeda digital também não teria efeito especulativo. “Não chamamos mais, dentro do BC, de criptomoedas, mas de ativos virtuais, porque de fato não são moedas”, ponderou Andrade.

O objetivo do BC é diminuir a demanda por papel-moeda. “Há uma tendência de convergência dos meios de pagamento eletrônicos em moedas digitais. Ela seria tipicamente idêntica ao papel-moeda, só que virtual. Em termos econômicos, é mais um instrumento para diminuir custos. Mas seria uma mudança gradual, até porque sabemos que muitos não têm acesso à internet ou são desbancarizados”, pontuou.

Embora a distribuição das cédulas e moedas seja feita por meio da rede bancária, nas transações com papel-moeda, o consumidor não precisa ter conta em banco. Já para utilizar a moeda virtual, ele precisaria ser bancarizado.

O dinheiro vivo, no entanto, ainda é o meio de pagamento mais utilizado pela população brasileira. De acordo com pesquisa da autoridade monetária, 60% das pessoas preferem comprar com papel-moeda. Um estudo do Instituto Locomotiva, divulgado no ano passado, mostrou que cerca de 45 milhões de brasileiros não possuem relacionamento bancário.

Além disso, de acordo com a mais recente pesquisa feita pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 20,9% das residências brasileiras não tinham internet em 2018. “Pode ser que fique mais barato prover internet para a população do que fazer a distribuição do dinheiro”, argumentou Andrade.

Um levantamento feito por servidores do BC mostrou que, em 2019, foram gastos R$ 90 bilhões com transporte, armazenamento e segurança de numerário. “Isso engloba todos os custos, como carro-forte e procedimentos de segurança obrigatórios”, disse.

A agenda de inovações tecnológicas é uma das prioridades da gestão de Campos Neto. Antes, o BC se posicionava apenas por meio de comunicados oficiais sobre o tema, contrário a qualquer modalidade de criptomoeda.

Em novembro de 2017, a autoridade monetária publicou uma nota com esclarecimentos e alertou sobre os riscos de operações com o que, na época, chamou de moeda virtual.

“Estas não são emitidas nem garantidas por qualquer autoridade monetária, por isso não têm garantia de conversão para moedas soberanas, e tampouco são lastreadas em ativo real de qualquer espécie, ficando todo o risco com os detentores. Seu valor decorre exclusivamente da confiança conferida pelos indivíduos ao seu emissor”, trouxe o comunicado, que também alertou sobre o efeito especulativo, em que o ativo fica vulnerável a flutuação de preços.

Para Guilherme Horn, especialista em inovação da comunidade de ensino Singularity University Brazil, a emissão de moedas digitais por bancos centrais é uma tendência mundial. “Acredito que só trará benefícios”, disse.

Segundo ele, apesar de serem diferentes, a tecnologia utilizada nos bitcoins mostrou às autoridades monetárias que era possível criar moedas digitais seguras e estáveis. “Mas vale destacar que são coisas completamente distintas. A criptomoeda tem gestão descentralizada e não tem monitoramento permanente”, reforçou.

BC CRIOU GRUPO DE TRABALHO PARA AVALIAR IMPACTOS E CRIAR MODELO PARA EMISSÃO DE MOEDA DIGITAL

Entenda o que está em jogo

  • Nenhum país no mundo emite moedas digitais oficiais

    Caso seja aprovado e implementado, o Brasil será pioneiro. Países como a China e a Suécia, no entanto, também avaliam a emissão como alternativa a modelos privados avançados.

  • Projeto

    Os estudos no BC ainda são embrionários e, neste primeiro momento, a autoridade monetária avaliará impactos, benefícios e custos. A primeira etapa levará seis meses. Depois de entregue o documento, a diretoria decidirá se é viável a implementação e em quanto tempo seria.

  • Moeda digital x papel-moeda

    O objetivo do BC é diminuir a demanda por papel-moeda. O dinheiro virtual seria emitido pela própria autoridade monetária e substituiria parte das cédulas e moedas hoje em circulação, sem adição na base monetária. Ou seja, uma fração do que é distribuído hoje aos bancos em recursos físicos seria feito por meio da nova moeda

  • Pagamentos instantâneos

    A ideia do BC é fazer com que a moeda digital complemente o sistema de pagamentos instantâneos, chamado de Pix, que será lançado em novembro.

  • Moeda digital x Bitcoin

    A diferença entre o dinheiro virtual oficial e as criptomoedas que existem hoje no mercado (ou bitcoins) é que a do governo seria apenas uma nova forma de representação da moeda já emitida pela autoridade monetária, ou seja, faria parte da política monetária do país, enquanto as outras não têm garantias. A moeda digital também não teria efeito especulativo.

  • Sistema financeiro

    O BC pretende distribuir a nova moeda por meio do sistema financeiro, como é feito com o dinheiro físico. Nas transações com papel-moeda, no entanto, o consumidor não precisa ter conta em banco. Já para utilizar a moeda virtual, precisaria ser bancarizado.

  • Dinheiro físico ainda é preferência nacional

    Um dos desafios do BC é fazer com que a demanda por papel-moeda diminua. De acordo com pesquisa da autoridade monetária, 60% das pessoas ainda usam o dinheiro como principal forma de pagamento. Além disso, a estimativa é de que mais de 40 milhões de brasileiros não possuem relacionamento bancário.

Suspensão de circulação de notas de R$ 200 acarretaria 'sério prejuízo', diz BC ao STF, FSP

 Uma eventual suspensão da circulação das notas R$ 200 acarretaria um "sério prejuízo", disse o Banco Central em manifestação nesta quinta-feira ao Supremo Tribunal Federal em ação movida por partidos políticos que tenta barrar a decisão do CMN (Conselho Monetário Nacional), vinculado à autoridade monetária, que aprovou o lançamento e a circulação da nova cédula.

Ao STF, as legendas contestaram a decisão do governo de lançar a nova nota e argumentaram, entre outros motivos, que a nova cédula pode causar grave ameaça ao combate à criminalidade, pois facilitaria a ocultação e a lavagem de dinheiro.

Em manifestação ao STF, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, informou à ministra Cármen Lúcia, relatora do processo, que a nova cédula vai ser lançada no dia 2 de setembro, na próxima quarta-feira. Defendeu a legalidade das decisões do BC e do CMN e disse ser imprescindível a produção e circulação dessa nova cédula.

Em manifestação ao STF, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, informou à ministra Cármen Lúcia, relatora do processo, que a nova cédula vai ser lançada no dia 2 de setembro - Adriano Machado/Reuters

Em parecer, a área jurídica do BC disse que a concessão de uma liminar pelo Supremo para suspender a circulação da nota de 200 reais "acarretaria um sério prejuízo para a execução dos serviços de meio circulante a cargo do Banco Central e para a própria sociedade em si, que vem apresentando demanda crescente por dinheiro em espécie".

"Com efeito, a (Casa da Moeda do Brasil) CMB já entregou ao Banco Central 7,2 milhões de cédulas de duzentos reais. Até o dia 2 de setembro de 2020, data do lançamento oficial da nova nota, a previsão é de que esse número chegue a 20 milhões de cédulas", disse.

"O custo das cédulas de duzentos reais é de R$325/milheiro. Esse primeiro lote de 20 milhões de cédulas de duzentos reais custou R$6,5 milhões. O Banco Central tem um contrato assinado com a CMB no valor de cerca de R$146 milhões para aquisição de 450 milhões de cédulas de duzentos reais para o exercício de 2020. Além disso, a CMB já adquiriu parcela significativa dos insumos", completou.

A autoridade monetária disse, contudo, que a mais grave consequência da suspensão da nova cédula seria a de colocar "em risco o atendimento das necessidades de numerário para garantir o funcionamento adequado da economia e do sistema financeiro nacional, ante a falta de alternativas viáveis".

"O impacto de eventual inadequação do volume de dinheiro em circulação seria majoritariamente sentido pelas pessoas mais pobres do País, dependentes de programas públicos de transferência de renda para manter a própria subsistência e a de suas famílias", destacou.