segunda-feira, 30 de março de 2026

Torta certa, história torta, Ruy Castro -FSP

 Em junho de 1954, o país tremeu: Martha Rocha, 21 anos, baiana de olhos azuis e primeira Miss Brasil para valer, ficara em segundo lugar no Concurso Miss Universo, em Miami Beach, ele também uma novidade. Não se sabia ainda se um vice na Copa do Mundo da beleza era para ser considerado uma glória ou uma derrota para nossas cores. Dias depois, o povo se decidiu pela segunda hipótese. Segundo a revista O Cruzeiro, Martha perdera porque os juízes reprovaram suas duas polegadas a mais nos quadris do que a lambisgoia americana. Fosse hoje, diríamos que tinha sido derrotada pelo VAR.

De volta ao país, Martha foi recebida como heroína. Por sua grande classe, além da estampa, tornou-se um must dos salões da sociedade, amiga de Therezas e Didus. Cantou-se a sua história numa marchinha para o Carnaval de 1955 e que ela própria gravou: "Por duas polegadas a mais/ Passaram a baiana pra trás/ Por duas polegadas, e logo nos quadris/ Tem dó, tem dó, seu juiz!". Duas polegadas eram 5,8 cm, o que justificava o nosso protesto contra a descadeirada vencedora. Pena que, no futuro, Martha passaria por um triste perrengue: seu marido fez umas e outras e perdeu todo o dinheiro —que era dela.

Mas a grande homenagem a Martha já acontecera: a torta Martha Rocha, criada em sua homenagem por uma confeiteira de Curitiba. A receita —uma fórmula de pão de ló, creme de gemas, suspiro, baba de moça, frutas e crocante de nozes— atravessou as fronteiras e se tornou um clássico dos aniversários e casamentos.

E, com atraso, descobrira-se a verdade sobre a história das duas polegadas. Ela nunca aconteceu. Foi uma invenção do repórter João Martins, do Cruzeiro, que cobrira o concurso em Miami, para criar uma comoção nacional e vender revista. A confirmação está no livro "O Império de Papel", memórias de Accioly Neto, então diretor do Cruzeiro, editadas por Heloisa Seixas em 1998.

Há dias, a torta Martha Rocha foi declarada patrimônio cultural imaterial do Paraná. Sem limitação de polegadas para ser saboreada.

Miss Brasil Martha Rocha
A Miss Brasil 1954, Martha Rocha (esq.), e a torta criada em sua homenagem - Arquivo Nacional/Sóquindins

A aliança entre setores da esquerda e o islamismo radical, João Pereira Coutinho - FSP

 Cuidado com as companhias, dizem as mães aos filhos. E diz Tony Blair, ex-premiê britânico, a setores da sua esquerda trabalhista que mantêm uma "aliança problemática" (expressão dele) com o islamismo radical.

O artigo, corajoso e lúcido, vem publicado no Sunday Times e começa com um fato elementar: o antissemitismo cresce na Europa com ataques permanentes a judeus, instituições e símbolos judaicos. Como é óbvio, o fenômeno pode ser ampliado a outras geografias.

A reação política tem sido modesta –e, entre a esquerda britânica (e não só), modestíssima. Como se os judeus fossem coletivamente responsáveis pelos atos de Binyamin Netanyahu. Aplicar esse raciocínio a todos os israelenses já seria problemático. Aplicá-lo a todos os judeus é uma aberração.

Israel não está acima da crítica. Nenhum país está. Os atos do seu governo podem e devem ser criticados, desde que não se passe o pano para os crimes do Hamas.

Cubo branco com padrão de labirinto vermelho desenhado em suas três faces visíveis, formando caminhos intrincados e interligados.
Angelo Abu/Folhapress

É isto o que explica, concede Blair, a aproximação entre dois blocos aparentemente tão distintos –a oposição a Israel–, ainda que Blair não estabeleça a diferença entre oposição política (da esquerda) e oposição existencial (do islamismo radical). Nem ele nem a esquerda que critica, claro.

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Mas há um momento em que já não estamos a falar de críticas legítimas a Israel. Quando se atacam judeus, todos os judeus, quaisquer judeus, em qualquer país, apenas por serem judeus, estamos a ressuscitar uma velha besta que é difícil controlar.

Tony Blair tem razão. Os judeus, de fato, são um caso à parte. Seria absurdo perseguir muçulmanos ou hindus espalhados pelo mundo por causa dos comportamentos do Irã ou da Índia em matéria de direitos humanos. Seria até absurdo perseguir iranianos ou indianos pelos atos ou omissões dos aiatolás ou do nacionalismo de Narendra Modi. Razão pela qual não temos notícias de tais absurdos.

Com o antissionismo, as notícias abundam –e revelam o antissemitismo de sempre. É a primeira ironia histórica. A "aliança problemática" entre setores da esquerda e o islamismo radical tem conseguido o que a extrema direita, em larga medida, não conseguiu depois da Segunda Guerra Mundial: voltar a criar um ambiente tóxico de perseguição e medo que se julgava enterrado nas ruínas de Auschwitz.

Mas existe uma segunda ironia que escapou a Tony Blair: os setores da esquerda que ele denuncia, no seu limitado oportunismo, fazem lembrar os setores da direita tradicional que, nos últimos anos da República de Weimar, também viram uma aliança proveitosa com os nazistas. E por que não?

Como lembrava o satirista Karl Kraus, o antissemitismo era tão banal na "Mitteleuropa" que até os judeus o praticavam. Os nazistas só levavam esse ódio um pouco mais longe, mas seria possível controlá-los e, quem sabe, civilizá-los.

Foi isso que Franz von Papen comunicou a Hindenburg quando convenceu o presidente alemão a entregar a chancelaria a Hitler. Os nazistas eram infrequentáveis, sem dúvida, mas pelo menos eram anticomunistas e antissocialistas –e, pormenor fundamental, tinham os votos necessários para que a direita não perdesse poder, influência e negócios. Preciso mesmo contar o resto?

As escalas não são comparáveis, mas o mecanismo é familiar. A esquerda que Tony Blair critica comete o mesmo erro tático. Sim, herdou esquemas mentais que ajudam a compreender certas cegueiras. Por um lado, a velha associação do judeu ao capital, que Karl Marx tornou inesquecível, continua no subconsciente dos camaradas; por outro, a crítica ao "imperialismo israelense" nunca mais os abandonou depois da Guerra dos Seis Dias de 1967 e da aproximação entre Israel e os Estados Unidos.

Mas a aliança também se explica por cálculo eleitoral. Durante décadas, o voto muçulmano foi um dos pilares silenciosos dos trabalhistas. Mas, a partir de 2024, as coisas começaram a mudar com a perda de milhares de votos em áreas com forte presença muçulmana.

Para recuperá-los, uma parte da esquerda acredita que é possível forjar novas maiorias cortejando líderes islamitas radicais com as flores do antissionismo. É uma tentação que não se limita ao Reino Unido: a busca desesperada por um "novo proletariado" que não fuja para a direita populista atravessa meia Europa de esquerda.

Um erro. Para além de isso ser insultuoso para os muçulmanos moderados que não se reveem nos pregadores do ódio, é um negócio que está condenado à partida.

Nunca são os radicais que se moderam –é o preconceito que se normaliza. O antissemitismo não é um efeito colateral. É o preço. E alguém está disposto a pagá-lo.

Com 12 anos de atraso, São Paulo inaugura nova linha de metrô que chega até Congonhas, FSP

 O metrô de São Paulo volta a ganhar uma linha depois de quase 12 anos com a inauguração da linha 17-ouro, nesta terça-feira (31).

O ramal, em via elevada e que inicialmente vai ligar o Morumbi (na zona oeste) ao aeroporto de Congonhas (na sul), é a primeira linha a entrar em funcionamento desde a inauguração da linha 15-prata, também monotrilho, na zona leste, em 10 de agosto de 2014.

A inauguração está prevista para as 10h desta terça, e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) deve comparecer.

Três silhuetas de pessoas estão dentro de uma embarcação, olhando pela janela frontal para a Ponte Estaiada em São Paulo, com o horizonte urbano ao fundo em dia claro.
Operador conduz trem da linha 17-ouro do metrô durante simulado na última sexta-feira (27); monotrilho será inaugurado nesta terça-feira (31) - Zanone Fraissat/Folhapress

A linha 17-ouro foi prometida para a Copa do Mundo de 2014 e seu desenho começou no Morumbi, porque inicialmente a previsão era de que o estádio do São Paulo sediaria jogos do torneio, o que não aconteceu —a bola rolou na arena do Corinthians, recém-construída na época, na zona leste.

Ao menos até setembro, o monotrilho em via elevada de até 15 metros de altura funcionará em horário reduzido, das 10h às 15h, com trens chegando em sete das oito estações do ramal, entre Morumbi e Aeroporto de Congonhas —a Washington Luís só deverá funcionar em 90 dias. Excepcionalmente, nesta terça, por causa da cerimônia de inauguração, a Linha 17 vai abrir ao público das 16h às 20h.

Neste primeiro momento, não haverá cobrança de passagem e o funcionamento será de segunda a sexta-feira. As estações não abrem aos sábados e domingos.

Dois trens irão circular em trajetos de ida e volta pela mesma linha. O tempo estimado de viagem pelas sete estações é de 14 minutos. A espera deverá ser de 7 minutos.

Curiosamente, duas obras de acesso com transporte público aos aeroportos da capital —Congonhas e Guarulhos— foram concluídas quase ao mesmo tempo.

Em 18 de fevereiro o Aeromóvel, que também circula em via elevada, passou a levar passageiros da estação da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) aos três terminais de embarque e desembarque em Guarulhos, igualmente em horário reduzido.

Na última sexta-feira (27), a Folha acompanhou um simulado da linha 17-ouro. O trem partiu de Congonhas, foi até ao Morumbi e voltou ao ponto inicial, com paradas em todas as estações para testes da abertura das portas, inclusive de plataformas.

Não foi possível cronometrar o tempo da viagem, pois como se tratava de um teste, houve diferença de tempo entre uma parada e outra.

A velocidade do trem oscilou entre 20 km/h e 30 km/h. A composição pode chegar a até 80 km/h, mas a velocidade máxima nesta primeira fase deverá ser de 50 km/h.

Apesar do horário reduzido, não haverá limitação de passageiros, afirma Milton da Silva Júnior, gerente de operações do Metrô —a capacidade do trem, que tem cinco carros, é de 616 passageiros (114 em pé).

O monotrilho circulou sem nenhum problema. Houve poucos solavancos —é preciso tomar um pouco de cuidado para quem está em pé nas saídas das estações. Mas é semelhante aos de um metrô convencional.

Todos os avisos luminosos e de som funcionaram —na plataforma da estação Morumbi havia, inclusive, uma mulher com um megafone que avisava, em mensagem gravada, que aquele trem iria para Congonhas.

Não havia passageiros comuns, apenas funcionários do Metrô, inclusive de outras linhas, que foram conhecer a novidade. A estação Congonhas, de onde a viagem começou, passava por limpeza. A parada estava toda sinalizada, inclusive as luzes das catracas, que vão ficar sempre abertas neste início.

"A linha vai ser um marco no transporte público, fazendo a integração do sistema metroferroviário da cidade de São Paulo ao aeroporto", afirma Silva —também haverá conexão com a linha 9-esmeralda do trem metropolitano.

A estação Congonhas fica do lado oposto ao aeroporto na avenida Washington Luís. A ligação é feita por um túnel de aproximadamente 60 metros.

Essa foi a segunda vez que a reportagem andou no monotrilho. A primeira foi em agosto do ano passado, quando apenas dois dos 14 trens estavam em testes.

Orçada atualmente em quase R$ 6 bilhões, a linha colecionou uma série de atrasos e contratos rompidos até as composições começarem a rodar em testes no meio do ano passado.

A linha 17-ouro será entregue menor do que o previsto. Inicialmente, ela iria ligar o Morumbi ao Jabaquara, com 18 estações.

Com apenas as oito estações atuais, é a menor linha do metrô de São Paulo —há planos para construir mais quatro paradas, nos dois sentidos, mas ainda sem data.

"A linha 17 vai cumprir parcialmente o papel original, mas tinha um potencial enorme de demanda", diz Sérgio Avelleda, consultor em mobilidade urbana e professor do Insper.

Presidente do Metrô até 2012, quando se dava os primeiros passos para construção do monotrilho, ele lembra que a linha atenderia a comunidade de Paraisópolis, na zona sul, e iria conectar a linha-4 amarela à linha 1-azul sem passar pelo centro.

"Esse trecho pequeno, claro, é importante, pois vai conectar o aeroporto de Congonhas a uma estrutura como essa [de metrô e trens], mas agora a demanda não será elevada", afirma.

Nesta terça, durante a inauguração, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) vai anunciar a publicação do edital de contratação do projeto executivo para a extensão da linha.

Serão mais 4,6 km, com três estações que chegarão até Paraisópolis e uma no sentido Washington Luís.

A empresa contratada terá 22 meses para fazer o projeto e só a partir daí começam as obras, ou seja, ao menos em 2028.

Previsão de 93 mil passageiros por dia

Segundo o gerente operacional do Metrô, espera-se que cerca de 93 mil pessoas usem o monotrilho diariamente, quando ele estiver em operação comercial nessa primeira fase, ainda sem a extensão.

Uma série de dificuldades contribuiu para que o atraso na construção da linha fosse tão grande, como o rompimento de contrato por fornecedores, o envolvimento de construtoras no escândalo da Lava Jato e a pandemia de Covid-19.

A desistência da fornecedora de trens, a empresa malasiana Scomi, em 2019, ajudou a atrasar ainda mais. O trilho havia sido projetado especificamente para a composição da empresa —o formato é diferente da linha 15, por exemplo— e não havia uma alternativa à disposição.

A gestão João Doria (à época no PSDB, hoje sem partido) assinou um contrato com a fabricante chinesa BYD para que ela desenvolvesse um modelo de trem.

O trem da linha 17-ouro é o único no mundo com baterias recarregáveis e tem autonomia para até 8 km, ou seja, o suficiente para percorrer todo o ramal, caso ocorra um apagão, por exemplo.

Segundo a BYD, é a mesma base de baterias que a empresa já aplica em ônibus e carros elétricos.

Os trens são totalmente automatizados, ou seja, sem operador, assim como ocorre na linha 15-prata. Mas segundo o gerente Milton da Silva Júnior, pelo menos até o fim de setembro sempre haverá um condutor nas viagens.

Ainda sem data para transferência, a linha será operada pela concessionária Motiva.